A
epidemia de violência contra professores no Brasil
A
professora Marta não consegue esquecer o que ela descreve como a situação mais
agressiva pela qual passou em seus 50 anos de vida e 26 de magistério. Em março
de 2023, ela foi ameaçada de morte pelo pai de um aluno do 1º ano do ensino
fundamental.
"Ele
ligou na escola e
falou que 'ia matar aquela vagabunda'", lembra a professora de uma escola
municipal da Zona Oeste de São Paulo, que preferiu ter seu nome verdadeiro
preservado nesta reportagem.
"Como
onde trabalhamos é uma comunidade, essas coisas
não podem ser negligenciadas, porque a lei ali é diferente."
Ela
conta que o pai do aluno era conhecido por "ter um certo cartaz na
comunidade" (ou seja, ter envolvimento com o crime, ela explica) e estava
insatisfeito com a performance escolar do filho, que, com 6 anos, tinha
dificuldade para entender a lição de casa e não
estava se adaptando bem à transição do ensino infantil para o fundamental.
A família culpava
a professora pelos problemas.
Marta
soube da ameaça de morte pela coordenadora da escola, quando estava já em seu
segundo emprego, em outra escola da região. Naquela noite, ela conta que fez um
boletim de ocorrência na polícia, acompanhada apenas pelo marido.
"Passei
a noite na delegacia e me senti muito sozinha, não teve ninguém da gestão junto
comigo", relata a professora.
"No
dia seguinte, eu não podia voltar à escola, então fui ao médico. Contei todo o
ocorrido à psiquiatra, e ela me afastou imediatamente."
Com
medo, Marta optou por não representar criminalmente contra o agressor. A
Prefeitura a afastou da escola onde ocorreu o fato, e ela completou o ano
letivo em outra unidade.
"Então,
minhas perdas não foram tantas, mas meu problema psicológico foi horroroso,
porque eu não sabia com quem eu estava lidando", diz a professora, que
mora próximo à comunidade onde fica a escola.
"O
meu quarto tem uma vidraça na frente, e eu cheguei a pedir para meu marido para
trocar de quarto, porque achava que poderia sofrer alguma agressão. Fiquei com
pânico de dormir."
O caso
da professora paulistana não é um fato isolado. Uma pesquisa do Centro do
Professorado Paulista (CPP) com 1.144 professores revela que 65% dos
entrevistados afirmam já ter sofrido algum tipo de agressão em sala de aula ou
no ambiente escolar.
A violência verbal
é a mais comum, representando 71% das agressões, seguida pela psicológica e
moral (58%), a institucional (27%) e a física (19%).
O
Brasil também lidera o ranking de violência contra professores em levantamento
feito em 2024 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE),
que ouviu 280 mil professores e diretores de escola de 55 países.
No
país, 47% dos professores relatam ser intimidados ou abusados verbalmente por
alunos como uma fonte de estresse, ante uma média global de cerca
de 18%.
O tema
da violência contra educadores voltou ao debate público após o caso da
professora Michele Ramos, de São José dos Campos, que registrou um boletim de
ocorrência depois de alunos colocarem uma lâmina de vidro em seu copo de água
durante a aula em uma escola municipal.
A BBC
News Brasil procurou a Secretaria de Educação e Cidadania de São José dos
Campos para saber as providências tomadas em relação ao caso, mas não obteve
resposta até a publicação desta reportagem.
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Múltiplas formas de violência
A
psicóloga Renata Paparelli, professora da Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo (PUC-SP), trabalha com o atendimento clínico de professores vítimas
da violência da rede municipal de São Paulo.
Ela
afirma, a partir de sua experiência, que os professores estão sujeitos a
múltiplas formas de violência em seu cotidiano. "Costumamos dizer que tem
a violência da escola, a violência na escola,
e a violência contra a escola", diz Paparelli.
A
violência da escola, explica a psicóloga, é a que resulta de
políticas públicas pouco afeitas às características da população a ser
atendida.
"Elas
vêm de cima para baixo, incorporando projetos sem oferecer as mínimas condições
para a realização deles", diz a psicóloga.
"Um
dos exemplos, na maior parte das escolas ou em muitas escolas, são os projetos
de inclusão dos PCDs [pessoas com
deficiência] nas salas de aula regular. Longe de ser contra essa
ideia, mas sabemos todos que é preciso que haja condições para essa
implantação."
A
violência na escola é a mais conhecida e que, com alguma
frequência, chega ao noticiário, diz Paparelli. "São os alunos contra os
educadores, e também a gestão pouco aberta ou impotente diante das demandas dos
educadores", exemplifica.
Por
fim, a violência contra a escola abrange as depredações do
patrimônio escolar e a desvalorização da escola como instituição importante
para a educação de crianças e adolescentes. "A escola e seus educadores
vêm ganhando cada vez menos espaço prestigiado [na sociedade]", observa.
O
Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es da Universidade Federal
Fluminense (Onve-UFF) tem ainda acompanhado nos últimos anos o avanço da
perseguição contra professores, uma forma de violência que se expressa em
práticas como censura, tentativas de intimidação, exposição nas redes sociais e
assédio jurídico.
Segundo
estudo realizado pelo grupo com mais de 3 mil educadores, 61% dos professores
da educação básica e 55% do ensino superior dizem já ter passado por esse tipo
de violência.
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Soco no peito e dedo decepado
Citada
pela professora da PUC-SP como uma das formas de violência no ambiente escolar,
a falta de estrutura e pessoal suficiente para atender aos alunos com
deficiência na educação regular pública está no centro de alguns dos episódios
de violência física vivenciados por professores.
Pedro,
de 40 anos e professor em uma escola municipal no bairro de Santana, na Zona
Norte de São Paulo, foi agredido com um soco por um aluno com autismo.
O caso
ocorreu em 2024, em um dia em que o grêmio da escola realizava uma atividade
sobre o Dia do Orgulho LGBTQIAP+.
"Era
um aluno com deficiência, mas que tinha esses acessos de agressão, e não
sabemos exatamente, mas parece que ele frequentava esses fóruns de extrema
direita, e tinha muito ódio quando se falava sobre questões como feminismo,
orgulho LGBT, etc", conta Pedro, que teve sua identidade preservada nesta
reportagem.
"Ele
foi para cima das alunas que estavam realizando a atividade, eu intervi para
evitar que elas fossem agredidas, e acabei tomando um soco", lembra o
professor. "Os alunos e inspetores depois ajudaram a contê-lo."
"Quando
cheguei em casa e fui tomar banho, vi a marca da mão dele no meu peito. Eu
fiquei bem, bem triste."
Pedro
fez um relato do episódio à escola e recebeu a opção de se afastar com uma
Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), documento enviado ao INSS para
informar sobre doenças ocupacionais e acidentes de trabalho.
"Mas
eu pensei 'não, vou encarar e voltar'. Porque, muitas vezes, quando acontecem
esses casos de colegas que são afastados por essas situações, fica difícil
voltar depois."
A
professora Michelle Bernardes está nesse momento afastada há quase três meses,
após um episódio ainda mais grave do que o de Pedro, e também envolvendo um
aluno com deficiência.
Educadora
em uma escola municipal na Zona Leste de São Paulo, ela teve o dedo médio da
mão direita parcialmente decepado em sala de aula, enquanto tentava organizar a
turma em que um aluno com deficiência intelectual passava por uma crise de
desregulação emocional, atirando carteiras e cadeiras ao chão.
"Para
protegê-lo e proteger os estudantes que estavam na sala, e os estudantes que
estavam fora, no corredor, eu fui para a porta da sala de aula segurar, ficar
ali, e orientar os estudantes", contou Michelle, em vídeo publicado no
Instagram.
Em meio
à confusão, o estudante chutou a porta da sala de aula, que bateu na mão da
professora, resultando na amputação de um de seus dedos.
"Eu
pensei, 'caramba, quebrei meu dedo'. Mas não foi só uma quebra, ele foi de fato
decepado. Não sei como não desmaiei, mas estava preocupada com o estudante que
precisava de regulação e com os demais, que estavam apavorados", relatou a
professora.
"Uma
estudante conseguiu pegar o resto do dedo no chão e me deu, fomos para a UBS do
lado da escola, que me atendeu com todo cuidado", completou.
Agora,
Michelle se recupera após passar por duas cirurgias e aguarda que o dedo ferido
cicatrize para poder começar a fisioterapia e devolver alguma funcionalidade ao
que restou do membro parcialmente amputado.
"Então,
passo por uma dor individual, que estou tendo que trabalhar comigo, e uma dor
coletiva, pois não desejo que nenhum estudante e nenhum educador passe pelo o
que eu estou passando", diz a professora, à BBC News Brasil.
"O
estudante não tem culpa por ter se desregulado, é um estudante com
deficiência", afirma.
"Mas
precisamos urgentemente de políticas públicas que incentivem e auxiliem com
qualidade a presença de todos os estudantes nas escolas, inclusive os
estudantes com deficiência, os estudantes autistas, os estudantes
neurodivergentes."
Questionada
sobre como responde aos casos de violência contra professores, a Secretaria
Municipal de Educação de São Paulo afirmou que "promove a cultura de paz e
a prevenção das violências nas unidades educacionais por meio de iniciativas
como o Programa Entre Nós, as Comissões de Mediação de Conflitos (CMCs) e ações
formativas em parceria com o Instituto Vladimir Herzog".
Quanto
às críticas à falta de estrutura nas escolas para atendimento aos alunos com
deficiência, a pasta disse em nota que "fortalece a educação inclusiva com
a ampliação de professores especializados e de apoio à inclusão nas 13
Diretorias Regionais de Educação (DREs)". E que o número de Auxiliares de
Vida Escolar (AVEs, profissionais que prestam apoio a alunos com deficiência)
aumentou 144% na rede a partir de abril deste ano, somando atualmente 2.937
profissionais.
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Os efeitos da violência na saúde mental dos professores
Renata
Paparelli, da PUC-SP, observa que os professores sujeitos à violência sofrem de
problemas de saúde mental diversos, como burnout (esgotamento
em resposta ao estresse crônico no ambiente de trabalho), depressão e
transtorno do estresse pós-traumático.
"O
transtorno do estresse pós-traumático está relacionado com a violência e com a
ameaça continuada de violência, ou com a violência explícita nessa violência
física", afirma.
"São
muitos casos que recebemos de educadoras que sofreram violência de alunos, quer
seja mordida, arremesso de materiais, ameaças explícitas, ameaças veladas, bem
como ameaças de familiares ou da gestão da escola", relata.
"A
violência psicossocial continuada — a bronca, o grito — também pode desencadear
quadros de estresse pós-traumático e está relacionada com casos de burnout,
na medida em que o professor é colocado numa situação muitas vezes na rede
pública, em que ele tem que dar conta de tudo, em instituições em que tudo
falta. É a violência da falta de condições de trabalho."
A
psicóloga observa que, não à toa, os professores estão entre as categorias
profissionais que mais se afastam do trabalho por problemas de saúde mental.
Números
obtidos pelo Centro do Professorado Paulista referentes apenas aos professores
estatutários (aqueles aprovados em concurso público para a carreira do
magistério) da rede estadual de São Paulo revelam que, em 2024, foram
concedidas mais de 42 mil licenças por transtornos mentais e comportamentais
para professores, ou mais de 115 por dia.
Em
2025, até o mês de setembro, foram mais de 25 mil licenças por problemas de
saúde mental, segundo os dados da Secretaria de Gestão e Governo Digital do
Governo do Estado de São Paulo.
Paparelli
diz que a trajetória dos professores vítimas de violência em geral começa com
afastamentos por períodos curtos.
"Mas,
depois, esses afastamentos já não dão mais conta. Aí começam os afastamentos
mais prolongados, até o quadro de readaptação funcional", observa.
A
readaptação funcional é um direito do professor que, por algum problema de
saúde, não pode mais trabalhar em sala de aula, passando a exercer outras
funções dentro da escola.
"Mas
é muito comum que essas pessoas não tenham nada para fazer. A pessoa está mal
de saúde mental e é condenada ao isolamento e à humilhação cotidiana de não
fazer nada", diz a psicóloga.
Em
relação à saúde mental dos professores, a Secretaria Municipal de Gestão de São
Paulo afirma que realizou 55 grupos de avaliação entre 2025 e 2026, com a
participação de 1.043 servidores.
Ainda
segundo a pasta, "no mesmo período, o Programa de Orientação e Proteção em
Saúde Mental dos Servidores (Rede Somos) acolheu 720 servidores e promoveu
2.228 ações de saúde."
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'É preciso estreitar laços entre escola e comunidade'
Diante
desse quadro, as soluções para o problema da violência contra professores
dividem representantes da categoria.
O
Centro do Professorado Paulista, por exemplo, defende uma atualização do
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para que alunos possam ser
responsabilizados em casos de violência.
"Temos
que entender que o ECA é de 1990, e a criança e o adolescente de 1990 são
diferentes da criança de hoje", argumenta Ana Carolina Soares, advogada do
CPP.
"Tem
que existir algum tipo de limite para o aluno dentro da unidade escolar, em
proteção do professor", diz Soares, que defende ainda a
corresponsabilização dos pais.
Roberto
Guido, presidente interino da Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do
Estado de São Paulo (Apeoesp), vê a proposta de mudança do ECA com descrença e
avalia que, para reduzir a violência, é preciso melhorar as condições de
trabalho dos educadores e estreitar laços entre escola e comunidade.
"A
escola não é uma ilha, portanto, a violência que assistimos no conjunto da
sociedade também está presente na escola", diz Guido.
"A
ausência de diálogo com as comunidades contribui muito para o aumento da
violência nas escolas. Quando você tem uma escola integrada na comunidade,
esses problemas de violência e indisciplina são minimizados."
Renata
Paparelli, da PUC-SP, tem avaliação similar. "Uma escola precisa de equipe
e de condições de trabalho, precisa de uma quantidade razoável de alunos por
sala, com professores que possam também ter uma jornada de trabalho razoável e
não indecente, para que consigam estabelecer relações com a comunidade, e
possam pactuar não violência com a comunidade", afirma.
"O
que a gente vê, dadas as condições extremamente precarizadas de trabalho
docente, é uma estrutura escolar que alimenta esse abismo entre os educadores e
a comunidade — tanto as famílias, quanto os estudantes. Uma escola que vai
perdendo sentido para os estudantes."
Ela
alerta ainda que a violência contra professores não é uma exclusividade da
escola pública.
"Na
escola particular não temos muitos dados, porque você não entra nas escolas
particulares para fazer pesquisa. Mas precisamos evitar a impressão de que a
rede pública é complicada e a rede privada é uma maravilha — só não temos
muitos dados da rede privada por conta dessa característica."
Fonte:
BBC News Brasil

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