terça-feira, 21 de julho de 2026

Esquerda precisa disputar hegemonia, não só eleição, afirma historiador e cientista político

O livro “Ideias para Renovar as Esquerdas” (Contracorrente, 2026), do historiador e cientista político Juliano Medeiros, traz uma provocação urgente à militância de esquerda: como se consolidar como pensamento dominante e referência de visão de mundo, indo além das disputas eleitorais?

Ao BdF Entrevista, o autor defende que o desafio é formar uma maioria social em torno de valores. “O que está me angustiando, e acho que angustia boa parte da militância de esquerda nesse momento, é justamente o fato de a gente saber que as nossas ideias são as mais bonitas, mais justas, mais corretas que a humanidade produziu ao longo de séculos de luta contra a opressão, contra a injustiça, contra a fome, a pobreza. E, ainda assim, essas ideias não são majoritárias na sociedade”, afirma.

Medeiros comenta o ponto de convergência entre esse questionamento e a tese central apresentada por Ailton Krenak em “Ideias para adiar o fim do mundo” (Companhia das Letras, 2019). “Está na cara que a crise climática, que as mudanças que o capitalismo está produzindo, são uma ameaça existencial à vida no planeta. Não só à vida humana, mas a outras formas de vida também. E será que nem isso é suficiente para a gente adiar o fim do mundo?”, provoca.

Para o historiador, o grande equívoco dos progressistas no Brasil foi ter deixado de lado a teoria gramsciana da hegemonia, que classifica como “talvez a maior contribuição teórica do marxismo ocidental”.

“Antes da ruptura revolucionária, antes da superação violenta da forma política capitalista, antes disso tudo, é preciso formar maioria na sociedade. E eu acho que a gente, deixando isso de lado, transferiu um pouco o olhar do que era hegemonia, do que era construir maioria na sociedade em torno de alguns valores, para construir maioria eleitoral. E isso está nos colocando no seguinte impasse. A gente ganha e perde eleições. Ganha por 1%, perde por 2%. E esse impasse não se resolve”, pondera.

<><> Para onde vamos?

Juliano Medeiros defende a necessidade de renovação de quadros no campo progressista, já que o ciclo do presidente Lula, principal liderança popular brasileira nas últimas quatro décadas, pode estar próximo de se encerrar.

Ainda assim, o historiador argumenta que reduzir o futuro da esquerda a quem será o sucessor de Lula seria um “erro brutal”, pois o foco deve estar em um programa que dialogue com os anseios reais do povo. O autor fala das diversas formas clássicas de organização de classes, como sindicatos, grêmios estudantis, grupos políticos, e avalia que essas expressões já não são mais suficientes para vocalizar um mundo em transformação.

“O mundo mudou. E se a gente não conseguir ter uma esquerda conectada com o mundo real, se a gente continuar sendo uma esquerda que olha para o futuro através do retrovisor, para as grandes greves dos anos 1970, olhando para o processo de resistência à ditadura militar, que foi heroico, bonito e deve nos inspirar, mas olhando para o futuro como quem governou em 2002, por exemplo, ignorando que nós estamos em 2026, nós vamos ter muita dificuldade de interpretar quais são os desejos da classe trabalhadora”, sentencia.

•        “4º mandato de Lula vai resgatar a união nacional. Bolsonarismo será varrido em definitivo”. Por Marco Damiani

O advogado Marco Aurélio de Carvalho, 49, ocupa neste momento os dois postos mais estratégicos nas disputas eleitorais do PT em 2026. Ele faz parte do comando nacional e responde pela campanha do presidente Lula em São Paulo. No estado, coordena a estratégia eleitoral do ex-ministro Fernando Haddad na disputa ao Palácio dos Bandeirantes.

“O presidente está encaminhado para a reeleição e temos em São Paulo uma chapa dos sonhos para ganhar o governo estadual e ocupar as duas cadeiras no Senado”, crava o fundador do grupo Prerrô, de advogados e juristas defensores da democracia. “Precisamos ter a consciência de que essas eleições contêm o maior risco democrático desde o advento do bolsonarismo. A extrema-direita está aí para o tudo ou nada.”

•        Qual é a prioridade: Lula ou Haddad?

Marco Aurélio Carvalho_ Naturalmente, os dois. O presidente caminha para uma merecida e necessária reeleição e deve cumprir o seu quarto mandato. Lula lidera o desenvolvimento econômico do Brasil e a defesa da nossa soberania. A sociedade reconhece isso.

É uma das maiores lideranças políticas do mundo. De todos os tempos. Em São Paulo, temos uma chapa dos sonhos, com Fernando Haddad governador, Márcio França vice e as senadoras Simone Tebet e Marina Silva. Estamos oferecendo ao eleitorado paulista os mais preparados, experientes e competitivos quadros políticos do Brasil. Haddad foi o melhor ministro da história da Educação, e foi também o melhor Ministro da Fazenda. Ele vai fazer história no governo de São Paulo.

•        E isso de Tarcísio gostar de ser visto como  ‘imbatível’, mesmo só tendo disputado uma eleição?

MAC_ Como diz sabiamente o nosso querido presidente Lula, “eleição não se ganha e nem se perde na véspera”. Deixa falar. Tarcísio passou quatro anos no governo sem fazer nada ou fazendo tudo errado, como a privatização da Sabesp. Liderando a economia brasileira, como ministro da Fazenda, Haddad entrega o menor desemprego de sua história. Todas as principais obras de São Paulo estão sendo feitas com investimentos do governo federal. Com a assinatura de Haddad, a gestão Lula destinou bilhões em verbas para o estado de São Paulo. Tarcísio terá muita dificuldade para nos enfrentar. A verdade aparece e as pessoas entendem. Vamos oferecer muita luta, resistência e informação verdadeira.

•        As pesquisas de opinião em São Paulo ainda mostram a vantagem do candidato bolsonarista.

MAC_ Entendo que as pesquisas confirmam um possível e aguardado cenário de segundo turno. Vai ser no mano a mano. Ganhará o melhor. Estamos empatados com Tarcísio no limite da margem de erro. É um excelente resultado.

•        Quais são os seus números hoje?

MAC_ Temos 43 % dos votos para Haddad e os demais candidatos da oposição. O outro lado tem ao redor de 47 %. Mesmo com a máquina na mão, a serviço de um projeto de poder, está patinando nas pesquisas. E a cada dia que passa, perde mais votos. Temos condições reais de vencer em São Paulo. Construímos, por aqui, o palanque mais forte, mais simbólico e mais competitivo da história das últimas eleições.

•        Ao programa Boa Noite 247, o sr. disse que as eleições de outubro são as de maior risco desde o surgimento do movimento bolsonarista. Por que?

MAC_ Temos um conjunto muito perigoso de fatores associados. Um deles é a Inteligência Artificial, que pode e, muito claramente, deve confundir parte do eleitorado brasileiro. Pode, também, potencializar e multiplicar velozmente as calúnias, injúrias e difamações que costumam ser lançadas contra os candidatos do campo democrático. Em 2014, quando vencemos com a presidenta Dilma Rousseff, nem mesmo as fake news eram tão ferozmente utilizadas. Em 2018, com o impeachment no meio, o ambiente ficou ainda mais tenso, e a disputa se deu em um ambiente de muita animosidade. Já em 2022, assistimos a uma enxurrada de fake news durante todo o processo eleitoral, e elas não foram devidamente coibidas pela Justiça Eleitoral. Fomos muito prejudicados. Mas vencemos. E, sob a firme e lúcida condução de Lula, estamos reconstruindo e reconciliando um país fortemente dividido pelo ódio e pela intolerância. O quarto mandato de Lula será uma consagração, no resgate da união nacional por meio de um projeto desenvolvimento econômico forte e soberano.

•        E agora, em 2026, como está a cena do ponto de vista do comando das campanhas do PT?

MAC_ Muito pior e muito mais acirrado, sem dúvida. O pleito atual é o primeiro em que a inteligência artificial estará disponível aos que pretendem tumultuar o processo eleitoral. O TSE precisa ser rigoroso no acompanhamento e no combate à má utilização destas novas tecnologias. Instrumentos para isso a Corte tem. Da nossa parte, estaremos vigilantes e alertas para fazer o enfrentamento da mentira com a verdade.

•        O TSE tem hoje como presidente e vice Kássio Nunes Marques e André Mendonça, dois ministros indicados por Jair Bolsonaro. Isso preocupa?

MAC_ Esse fato não gera nenhuma suspeita da nossa parte. São juristas respeitados. E sabem, como todos nós, que eleição se ganha ou se perde no voto. Simples assim.

Mas estaremos vigilantes. Considero, por fim, que o TSE tem todos os instrumentos necessários e adequados para impedir a propagação das fake news e para garantir a lisura do pleito. Como friso, estaremos fortemente mobilizados e atentos. Eu acredito que haverá um recorde em judicializações. A extrema-direita vai usar a IA para espalhar fake news e nós iremos combater cada uma das mentiras que eles usarem contra nós. A Justiça eleitoral terá, sim, muito trabalho. E acredito, realmente, que o TSE está à altura das responsabilidades constitucionais que lhe foram atribuídas .

•        O que mais soma para o alto risco sobre as eleições?

MAC_ A interferência direta que os Estados Unidos já estão tentando exercer sobre as nossas eleições vai muito além das bravatas. É uma atitude vergonhosa e muito preocupante. Desde a redemocratização do país, não tivemos nenhuma outra eleição com interferência estrangeira tão nítida e evidente. A família Bolsonaro tem atuado, com o apoio do governo americano, para boicotar o Brasil. Isso também já está claro para a sociedade, que reconhece o governo Lula como o real defensor da nossa soberania e dos legítimos interesses da nossa economia. Triste e estarrecedora a posição de de vassalagem aos americanos e aos seus interesses que Bolsonaro e sua família vem demonstrando todos os dias e em todos os momentos.

•        A que o sr. atribuiu o conflito comercial iniciado pelos Estados Unidos contra o Brasil, agravado agora pelo tarifaço do presidente Trump?

MAC_ É uma ação nitidamente política, sem justificativa alguma. Uma verdadeira tentativa de  interferência que ataca a nossa economia na perspectiva de produzir algum ganho eleitoral a um grupo político de extrema-direita. Repito, é uma vergonha esse conluio anti-patriótico. Felizmente, nosso time avançado de defensores do interesse nacional tem a liderança do vice-presidente Geraldo Alckmin, a representatividade do chanceler Mauro Vieira, o competente aguerrimento do ministro Mário Elias Rosa, do Desenvolvimento. Acredito que a partir do próximo ano, na condição da vitória do PT e de seus partidos aliados, o relacionamento entre os Estados Unidos  volte à normalidade, prestigiando os mais de 200 anos de relação de amizade. A alternativa quer que a gente se renda. Jamais.

•        Para além dos desafios que o sr. mencionou, o que as eleições de 2026 representam para o Brasil?

MAC_ Enganam-se os que acham que a batalha é da esquerda contra a direita… Precisamos sim dar nome aos bois, mas por detrás dessas denominações há muito mais. Nestas eleições, dois campos estarão claramente delimitados. De um lado, a civilização. De outro, a barbárie. De um lado, a ciência. De outro, o obscurantismo. De um lado, a extrema direita.]De outro, a aliança de todo o campo democrático.

Em 2018, perdemos para o Bolsonaro. Em 2022, vencemos o Jair Bolsonaro. Agora, em 2026, temos a oportunidade histórica de derrotar o bolsonarismo e de varrer, de uma vez por todas, as ameaças de retrocesso e os arroubos autoritários do fascismo. Sorte dos que podemos contar com a disposição e a generosa disponibilidade do presidente Lula de nos liderar em tempos tão difíceis e tão desafiadores. A quarta vitória de Lula será consagradora e irá construir a união nacional. O bolsonarismo será varrido em definitivo. A história ainda há de reconhecer a grandiosidade desta luminosa liderança.

 

Fonte: Brasil de Fato/Brasil 247

 

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