Esquerda
precisa disputar hegemonia, não só eleição, afirma historiador e cientista
político
O livro
“Ideias para Renovar as Esquerdas” (Contracorrente, 2026), do historiador e
cientista político Juliano Medeiros, traz uma provocação urgente à militância
de esquerda: como se consolidar como pensamento dominante e referência de visão
de mundo, indo além das disputas eleitorais?
Ao BdF
Entrevista, o autor defende que o desafio é formar uma maioria social em torno
de valores. “O que está me angustiando, e acho que angustia boa parte da
militância de esquerda nesse momento, é justamente o fato de a gente saber que
as nossas ideias são as mais bonitas, mais justas, mais corretas que a
humanidade produziu ao longo de séculos de luta contra a opressão, contra a
injustiça, contra a fome, a pobreza. E, ainda assim, essas ideias não são
majoritárias na sociedade”, afirma.
Medeiros
comenta o ponto de convergência entre esse questionamento e a tese central
apresentada por Ailton Krenak em “Ideias para adiar o fim do mundo” (Companhia
das Letras, 2019). “Está na cara que a crise climática, que as mudanças que o
capitalismo está produzindo, são uma ameaça existencial à vida no planeta. Não
só à vida humana, mas a outras formas de vida também. E será que nem isso é
suficiente para a gente adiar o fim do mundo?”, provoca.
Para o
historiador, o grande equívoco dos progressistas no Brasil foi ter deixado de
lado a teoria gramsciana da hegemonia, que classifica como “talvez a maior
contribuição teórica do marxismo ocidental”.
“Antes
da ruptura revolucionária, antes da superação violenta da forma política
capitalista, antes disso tudo, é preciso formar maioria na sociedade. E eu acho
que a gente, deixando isso de lado, transferiu um pouco o olhar do que era
hegemonia, do que era construir maioria na sociedade em torno de alguns
valores, para construir maioria eleitoral. E isso está nos colocando no
seguinte impasse. A gente ganha e perde eleições. Ganha por 1%, perde por 2%. E
esse impasse não se resolve”, pondera.
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Para onde vamos?
Juliano
Medeiros defende a necessidade de renovação de quadros no campo progressista,
já que o ciclo do presidente Lula, principal liderança popular brasileira nas
últimas quatro décadas, pode estar próximo de se encerrar.
Ainda
assim, o historiador argumenta que reduzir o futuro da esquerda a quem será o
sucessor de Lula seria um “erro brutal”, pois o foco deve estar em um programa
que dialogue com os anseios reais do povo. O autor fala das diversas formas
clássicas de organização de classes, como sindicatos, grêmios estudantis,
grupos políticos, e avalia que essas expressões já não são mais suficientes
para vocalizar um mundo em transformação.
“O
mundo mudou. E se a gente não conseguir ter uma esquerda conectada com o mundo
real, se a gente continuar sendo uma esquerda que olha para o futuro através do
retrovisor, para as grandes greves dos anos 1970, olhando para o processo de
resistência à ditadura militar, que foi heroico, bonito e deve nos inspirar,
mas olhando para o futuro como quem governou em 2002, por exemplo, ignorando
que nós estamos em 2026, nós vamos ter muita dificuldade de interpretar quais
são os desejos da classe trabalhadora”, sentencia.
• “4º mandato de Lula vai resgatar a união
nacional. Bolsonarismo será varrido em definitivo”. Por Marco Damiani
O
advogado Marco Aurélio de Carvalho, 49, ocupa neste momento os dois postos mais
estratégicos nas disputas eleitorais do PT em 2026. Ele faz parte do comando
nacional e responde pela campanha do presidente Lula em São Paulo. No estado,
coordena a estratégia eleitoral do ex-ministro Fernando Haddad na disputa ao
Palácio dos Bandeirantes.
“O
presidente está encaminhado para a reeleição e temos em São Paulo uma chapa dos
sonhos para ganhar o governo estadual e ocupar as duas cadeiras no Senado”,
crava o fundador do grupo Prerrô, de advogados e juristas defensores da
democracia. “Precisamos ter a consciência de que essas eleições contêm o maior
risco democrático desde o advento do bolsonarismo. A extrema-direita está aí
para o tudo ou nada.”
• Qual é a prioridade: Lula ou Haddad?
Marco
Aurélio Carvalho_ Naturalmente, os dois. O presidente caminha para uma merecida
e necessária reeleição e deve cumprir o seu quarto mandato. Lula lidera o
desenvolvimento econômico do Brasil e a defesa da nossa soberania. A sociedade
reconhece isso.
É uma
das maiores lideranças políticas do mundo. De todos os tempos. Em São Paulo,
temos uma chapa dos sonhos, com Fernando Haddad governador, Márcio França vice
e as senadoras Simone Tebet e Marina Silva. Estamos oferecendo ao eleitorado
paulista os mais preparados, experientes e competitivos quadros políticos do
Brasil. Haddad foi o melhor ministro da história da Educação, e foi também o
melhor Ministro da Fazenda. Ele vai fazer história no governo de São Paulo.
• E isso de Tarcísio gostar de ser visto
como ‘imbatível’, mesmo só tendo
disputado uma eleição?
MAC_
Como diz sabiamente o nosso querido presidente Lula, “eleição não se ganha e
nem se perde na véspera”. Deixa falar. Tarcísio passou quatro anos no governo
sem fazer nada ou fazendo tudo errado, como a privatização da Sabesp. Liderando
a economia brasileira, como ministro da Fazenda, Haddad entrega o menor
desemprego de sua história. Todas as principais obras de São Paulo estão sendo
feitas com investimentos do governo federal. Com a assinatura de Haddad, a
gestão Lula destinou bilhões em verbas para o estado de São Paulo. Tarcísio
terá muita dificuldade para nos enfrentar. A verdade aparece e as pessoas
entendem. Vamos oferecer muita luta, resistência e informação verdadeira.
• As pesquisas de opinião em São Paulo
ainda mostram a vantagem do candidato bolsonarista.
MAC_
Entendo que as pesquisas confirmam um possível e aguardado cenário de segundo
turno. Vai ser no mano a mano. Ganhará o melhor. Estamos empatados com Tarcísio
no limite da margem de erro. É um excelente resultado.
• Quais são os seus números hoje?
MAC_
Temos 43 % dos votos para Haddad e os demais candidatos da oposição. O outro
lado tem ao redor de 47 %. Mesmo com a máquina na mão, a serviço de um projeto
de poder, está patinando nas pesquisas. E a cada dia que passa, perde mais
votos. Temos condições reais de vencer em São Paulo. Construímos, por aqui, o
palanque mais forte, mais simbólico e mais competitivo da história das últimas
eleições.
• Ao programa Boa Noite 247, o sr. disse
que as eleições de outubro são as de maior risco desde o surgimento do
movimento bolsonarista. Por que?
MAC_
Temos um conjunto muito perigoso de fatores associados. Um deles é a
Inteligência Artificial, que pode e, muito claramente, deve confundir parte do
eleitorado brasileiro. Pode, também, potencializar e multiplicar velozmente as
calúnias, injúrias e difamações que costumam ser lançadas contra os candidatos
do campo democrático. Em 2014, quando vencemos com a presidenta Dilma Rousseff,
nem mesmo as fake news eram tão ferozmente utilizadas. Em 2018, com o
impeachment no meio, o ambiente ficou ainda mais tenso, e a disputa se deu em
um ambiente de muita animosidade. Já em 2022, assistimos a uma enxurrada de
fake news durante todo o processo eleitoral, e elas não foram devidamente
coibidas pela Justiça Eleitoral. Fomos muito prejudicados. Mas vencemos. E, sob
a firme e lúcida condução de Lula, estamos reconstruindo e reconciliando um
país fortemente dividido pelo ódio e pela intolerância. O quarto mandato de
Lula será uma consagração, no resgate da união nacional por meio de um projeto
desenvolvimento econômico forte e soberano.
• E agora, em 2026, como está a cena do
ponto de vista do comando das campanhas do PT?
MAC_
Muito pior e muito mais acirrado, sem dúvida. O pleito atual é o primeiro em
que a inteligência artificial estará disponível aos que pretendem tumultuar o
processo eleitoral. O TSE precisa ser rigoroso no acompanhamento e no combate à
má utilização destas novas tecnologias. Instrumentos para isso a Corte tem. Da
nossa parte, estaremos vigilantes e alertas para fazer o enfrentamento da
mentira com a verdade.
• O TSE tem hoje como presidente e vice
Kássio Nunes Marques e André Mendonça, dois ministros indicados por Jair
Bolsonaro. Isso preocupa?
MAC_
Esse fato não gera nenhuma suspeita da nossa parte. São juristas respeitados. E
sabem, como todos nós, que eleição se ganha ou se perde no voto. Simples assim.
Mas
estaremos vigilantes. Considero, por fim, que o TSE tem todos os instrumentos
necessários e adequados para impedir a propagação das fake news e para garantir
a lisura do pleito. Como friso, estaremos fortemente mobilizados e atentos. Eu
acredito que haverá um recorde em judicializações. A extrema-direita vai usar a
IA para espalhar fake news e nós iremos combater cada uma das mentiras que eles
usarem contra nós. A Justiça eleitoral terá, sim, muito trabalho. E acredito,
realmente, que o TSE está à altura das responsabilidades constitucionais que
lhe foram atribuídas .
• O que mais soma para o alto risco sobre
as eleições?
MAC_ A
interferência direta que os Estados Unidos já estão tentando exercer sobre as
nossas eleições vai muito além das bravatas. É uma atitude vergonhosa e muito
preocupante. Desde a redemocratização do país, não tivemos nenhuma outra
eleição com interferência estrangeira tão nítida e evidente. A família
Bolsonaro tem atuado, com o apoio do governo americano, para boicotar o Brasil.
Isso também já está claro para a sociedade, que reconhece o governo Lula como o
real defensor da nossa soberania e dos legítimos interesses da nossa economia.
Triste e estarrecedora a posição de de vassalagem aos americanos e aos seus
interesses que Bolsonaro e sua família vem demonstrando todos os dias e em
todos os momentos.
• A que o sr. atribuiu o conflito
comercial iniciado pelos Estados Unidos contra o Brasil, agravado agora pelo
tarifaço do presidente Trump?
MAC_ É
uma ação nitidamente política, sem justificativa alguma. Uma verdadeira
tentativa de interferência que ataca a
nossa economia na perspectiva de produzir algum ganho eleitoral a um grupo
político de extrema-direita. Repito, é uma vergonha esse conluio
anti-patriótico. Felizmente, nosso time avançado de defensores do interesse
nacional tem a liderança do vice-presidente Geraldo Alckmin, a
representatividade do chanceler Mauro Vieira, o competente aguerrimento do
ministro Mário Elias Rosa, do Desenvolvimento. Acredito que a partir do próximo
ano, na condição da vitória do PT e de seus partidos aliados, o relacionamento
entre os Estados Unidos volte à
normalidade, prestigiando os mais de 200 anos de relação de amizade. A
alternativa quer que a gente se renda. Jamais.
• Para além dos desafios que o sr.
mencionou, o que as eleições de 2026 representam para o Brasil?
MAC_
Enganam-se os que acham que a batalha é da esquerda contra a direita…
Precisamos sim dar nome aos bois, mas por detrás dessas denominações há muito
mais. Nestas eleições, dois campos estarão claramente delimitados. De um lado,
a civilização. De outro, a barbárie. De um lado, a ciência. De outro, o
obscurantismo. De um lado, a extrema direita.]De outro, a aliança de todo o
campo democrático.
Em
2018, perdemos para o Bolsonaro. Em 2022, vencemos o Jair Bolsonaro. Agora, em
2026, temos a oportunidade histórica de derrotar o bolsonarismo e de varrer, de
uma vez por todas, as ameaças de retrocesso e os arroubos autoritários do
fascismo. Sorte dos que podemos contar com a disposição e a generosa
disponibilidade do presidente Lula de nos liderar em tempos tão difíceis e tão
desafiadores. A quarta vitória de Lula será consagradora e irá construir a
união nacional. O bolsonarismo será varrido em definitivo. A história ainda há
de reconhecer a grandiosidade desta luminosa liderança.
Fonte:
Brasil de Fato/Brasil 247

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