Michelle
Bolsonaro sofre na pele a ideologia que representa, diz Simone Tebet
Centro-direita
na economia e centro-esquerda na pauta de costumes é como Simone Tebet, 56, se
define dentro do espectro político. Para ela, a defesa das minorias –e a maior
participação das mulheres na política– define a democracia e não pode ser
seletiva, como faz, em sua opinião, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL).
“Acho
que ela sofreu na própria pele o que pensa a ideologia que ela representa, que
é a da extrema direita, que não poupa nenhuma mulher”, disse Tebet à Folha,
referindo-se a brigas recentes de Michelle com os enteados, em especial o
presidenciável Flávio Bolsonaro (PL).
Pré-candidata
ao Senado pelo PSB em São Paulo, Tebet disputará, pela primeira vez, eleições
fora do MDB e de Mato Grosso do Sul, onde nasceu. De oposição ao PT do
presidente Lula, virou uma de suas principais aliadas após não se eleger
presidente em 2022 e se unir à chapa petista para derrotar Jair Bolsonaro (PL)
no segundo turno.
Foi
ministra do Planejamento de Lula até abril deste ano, quando deixou o cargo
para concorrer ao Senado paulista a pedido do próprio presidente. A troca de
domicílio eleitoral foi justificada porque, há quatro anos, ela recebeu em São
Paulo mais de um terço de todos os seus votos à Presidência.
No
Datafolha mais recente, Tebet aparece tecnicamente empatada com Marina Silva –a
pessebista com 16%, diante de 18% da companheira de chapa. Ela também empata,
dentro da margem de erro de dois pontos, com Ricardo Salles (13%), do Novo,
seguido por André do Prado (11%), do PL, e Guilherme Derrite (10%), do PP.
LEIA A
ENTREVISTA:
• Como se sente em relação aos ataques que
tem recebido por não ser de São Paulo, como o do governador Tarcísio de
Freitas?
Entre
as autoridades, talvez [Tarcísio] seja o único que não tenha legitimidade para
tratar do tema. Qualquer eleitor tem o direito de questionar, mas ele caiu de
paraquedas, porque nem residência tinha e teve que pedir emprestado um endereço
para ser candidato. Sempre me senti muito abraçada por São Paulo, porque nasci
na divisa, meu marido é de Birigui [cidade do interior, a 510 km da capital],
fiz mestrado aqui, minhas filhas fizeram faculdade e estão aqui há dez anos.
• Como tem sido a adaptação à política de
São Paulo?
A sede
da minha campanha presidencial foi aqui, fiquei muito tempo em São Paulo. São
645 municípios, muitas regiões metropolitanas, mas eu sou do interior, então
sei como funciona [o interior paulista], principalmente no noroeste paulista,
que é muito semelhante ao interior de Mato Grosso do Sul.
• Por quê?
Porque
vive do agronegócio, e os problemas locais têm muito mais peso, relevância e
importância do que questões nacionais. O noroeste de São Paulo é muito parecido
no plantio, da soja e na pecuária. Há também a questão da imigração de
japoneses e árabes, que é muito forte. O jeito de fazer política é diferente,
mas para mim não é novidade porque em 2022 eu já experimentei essa realidade
eleitoral.
• A sra. se vê disputando votos com
Ricardo Salles?
Defendo
a sustentabilidade dentro do agronegócio, a reforma agrária em terras
devolutas, em terras improdutivas, e consequentemente a agricultura familiar.
Nós, do médio ou do grande agro, alimentamos muito pouco a população
brasileira. Não é demérito, porque contribuímos com a balança comercial, mais
voltados para a exportação, com exceção da carne. Mas, quando falamos de
hortifrúti, arroz e feijão, itens da cesta básica, a maioria vem da agricultura
familiar. Não são excludentes. A gente fica achando que o Brasil está dividido,
mas essa divisão é eleitoral. No dia a dia, essa polarização está diminuindo.
• Se a polarização está diminuindo, por
que o agro não gosta da esquerda?
O
problema do agro não é a falta de crédito ou financiamento. É uma lembrança do
passado, que é legítima, das invasões do MST [Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra] em áreas produtivas, das destruições de cafezais e de
laranjais aqui no interior de São Paulo. Mas isso ficou no passado, porque o
movimento de luta por terra evoluiu com o diálogo, muito por insistência do
próprio presidente. A extrema direita utiliza isso sempre para reavivar a
memória do agro. A sensação que eu tenho é que interessa para alguns setores
esse conflito, tanto da esquerda quanto da direita. Por isso que sempre me
considerei de centro.
• O presidente Lula disse não ser
esquerdista e que sempre teve maior tendência ao centro. Concorda?
O Lula
sindicalista era um homem de esquerda. Quando assumiu o poder, o Congresso era
de centro e depois pendeu para a direita. Com o pragmatismo dele, entendeu que
numa democracia ele governa para maioria e a maioria brasileira não é de
esquerda.
• A sra. se sente prejudicada quando
tentam colocá-la em alguma caixinha, seja de esquerda ou de direita?
Não me
incomoda mais, porque a vida inteira tentaram me colocar numa caixinha como
mulher. Eu, uma menina do interior, de um estado que não tem tradição política,
viro a primeira prefeita da minha cidade [Três Lagoas], fui a primeira
vice-governadora e depois no Senado tive várias primeiras vezes: primeira líder
da bancada feminina, primeira presidente da comissão mais importante, a CCJ
[Comissão de Constituição e Justiça], primeira a disputar a presidência do
Senado. A minha vida política, como a vida de qualquer mulher profissional, é
sempre enquadrada em caixinhas. Mas não sou obrigada a escolher. Sou
centro-direita na economia e centro-esquerda na pauta de costumes.
• É cansativo ser tantas vezes a primeira?
Eu
sempre tive voz, mas não era ouvida. Só comecei a ser ouvida quando, na segunda
metade do meu mandato no Senado, fui a primeira mulher presidente da CCJ, então
eu pautava os projetos nacionais. Se estou com 20 e poucos anos de política,
levei mais de 15 anos para ser ouvida.
• Acha contraditória a atuação da Michelle
Bolsonaro, que defende mais mulheres na política, mas com marido e filhos como
prioridade?
Eu acho
que ela sofreu na própria pele o que pensa a ideologia que ela representa, que
é a da extrema direita, que não poupa nenhuma mulher. A mulher, para eles, tem
que ficar em casa, submissa, sem liberdade de escolha. Sou favorável a uma
mulher ser dona de casa se for uma opção dela. Eu me solidarizo com a Michelle,
que deve ter sofrido muita misoginia, um termo que ela nem gosta de usar, muita
violência política, para ela se rebelar. Mas não pode ser seletiva na sua fala:
se é vítima, tem que falar e proteger todas as vítimas.
• Como enxerga declarações machistas dadas
pelo presidente Lula?
Eu acho
que é geracional. A Janja já o cobra muito e ele precisa ser cobrado pela
imprensa, mas não diminui em nada toda a dedicação que ele tem com as mulheres
brasileiras e com a família de modo geral. Ele entrega 95% das chaves da casa
própria para uma mulher. O Bolsa Família, em 90% dos casos, vai para a mão de
uma mulher. Quando ele faz um PAC para construção de escolas e de creches, ele
está pensando na mãe.
• Há espaço para a renovação na política?
A gente
tem muitos talentos e me impressiona positivamente a capacidade dessa nova
geração de políticos conseguir se comunicar com a sociedade. Cabe a nós fazer o
que a geração anterior não fez, que é preparar, e o presidente Lula tem que
fazer isso. Sou suspeita para mencionar, mas vejo o João Campos e a Tabata
Amaral, que são do meu partido como exemplos. A gente até tem jovens [na
política], mas não no quantitativo.
Também
acho que falta para essa geração uma bandeira. Cada geração tem uma causa: eu,
por exemplo, fui da geração das Diretas Já. Essa rebeldia da juventude nasce na
dor, na indignação, e essa indignação está demorando para surgir. Eu me
ressinto da falta de renovação, do quão distante a nossa juventude está da
política, dos movimentos sociais e partidários.
• A sra. pensa em concorrer a outro cargo
em 2030, incluindo a Presidência?
O que
não me vejo é fora da política. Sou hoje uma das mulheres do nosso campo que
mais chegou longe. Isso me traz responsabilidade num momento perigoso, em que
temos o risco de a extrema direita voltar [a comandar o país]. Tenho que ser
uma voz, agregar valores, tentar ajudar a unir esse país no caminho do centro.
Não tenho o direito de parar na política, independentemente de concorrer ou não
a um cargo. Em 2030, estarei na política.
Lula
escala Tebet para apresentar reação do governo ao tarifaço dos EUA ao setor de
etanol
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva designou a ex-ministra do Planejamento e
Orçamento, Simone Tebet (PSB), para apresentar ao setor sucroenergético as
medidas adotadas pelo governo federal em resposta ao aumento das tarifas
impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, incluindo o etanol. A
informação foi publicada pela coluna Painel, da Folha de São Paulo.
A
estratégia busca dialogar diretamente com empresários de um dos segmentos mais
afetados pelo tarifaço anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump. Segundo a publicação, Tebet também tem desempenhado um papel político na
aproximação com o eleitorado do interior paulista, especialmente em regiões
ligadas à produção de etanol.
Simone
Tebet percorreu municípios da região de São José do Rio Preto ao lado de
integrantes da chapa de esquerda e participou de um almoço com representantes
do setor sucroenergético. Durante os encontros, a pré-candidata ao Senado
apresentou os cálculos do governo para demonstrar que o impacto da nova
política de combustíveis pode compensar as perdas provocadas pelas tarifas
norte-americanas.
O
principal argumento da equipe econômica é que a decisão de elevar de 30% para
32% a mistura de etanol anidro na gasolina deverá ampliar significativamente o
consumo do biocombustível no mercado interno. A medida foi adotada para evitar
aumentos no preço da gasolina em meio às pressões internacionais decorrentes da
guerra entre Irã e Israel.
De
acordo com os números apresentados por Tebet, a sobretaxa imposta pelos Estados
Unidos pode reduzir em cerca de 250 milhões de litros por ano as exportações
brasileiras de etanol para o mercado norte-americano. Em contrapartida, a
elevação da participação do biocombustível na gasolina poderá gerar uma demanda
adicional de aproximadamente 1 bilhão de litros por ano no mercado doméstico —
volume quatro vezes superior à perda estimada nas vendas externas.
Além da
defesa técnica das medidas, a presença de Simone Tebet integra a estratégia
política da campanha à reeleição de Lula. A avaliação de aliados é que a
ministra possui maior capacidade de diálogo com setores do agronegócio e do
empresariado paulista.
O
coordenador da campanha de Lula, o advogado Marco Aurélio de Carvalho, destacou
esse papel ao afirmar: “A campanha petista considera Simone um trunfo com esse
eleitorado. Ela consegue quebrar resistência, recuperar um voto que o partido
tinha e eventualmente perdeu e conseguir voto que não teria.”
A
iniciativa ocorre em um momento de intensificação das ações do governo para
reduzir os impactos econômicos do tarifaço anunciado pelos Estados Unidos,
buscando fortalecer o mercado interno e minimizar os efeitos sobre cadeias
produtivas estratégicas, como a do setor sucroenergético.
Fonte:
ICL Notícias/Brasil 247

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