terça-feira, 21 de julho de 2026

Brasil entre soberania, democracia e seus problemas sociais

Quem quiser que se iluda, estamos diante de um novo ciclo político de longa duração, no qual os velhos problemas do país já não podem ser enfrentados da mesma forma, num contexto de crise da democracia ocidental, revolução tecnológica e desestruturação dos pactos diplomáticos pós Segunda Guerra Mundial. É nesse contexto que o Brasil chega às eleições de 2026, com uma combinação complexa de problemas sociais e econômicos, de radicalização política e de mudança da ordem internacional.

Ninguém pode desconsiderar que o nosso subdesenvolvimento, para usar uma expressão clássica, decorre da baixa produtividade, da desigualdade de oportunidades, da precariedade da educação básica, da expansão do crime organizado, dos deficits de saneamento e de habitação, do alto custo do capital e da fragilidade fiscal. Esse é o diagnóstico que alimenta o debate e divide opiniões por parte de quem busca soluções para o país em bases democráticas.

Ocorre que, agora, o Brasil enfrenta uma ameaça externa inédita desde a redemocratização, na medida em que o governo norte-americano de Donald Trump transformou tarifas comerciais e pressões diplomáticas em instrumentos de interferência política, numa tentativa de favorecer seus aliados ideológicos e influenciar as escolhas dos brasileiros. Não se trata, portanto, apenas de decidir quem governará o país, mas de definir como o Brasil defenderá sua democracia, sua economia e ocupará seu lugar numa ordem mundial em transformação.

Os Estados Unidos continuam sendo um parceiro histórico fundamental, mas sua política externa passa por uma mudança de paradigma. O movimento Maga (Make America Great Again) rompeu com aspectos importantes da tradição liberal que orientou Washington no pós-guerra. Em lugar da defesa das instituições multilaterais, da previsibilidade das alianças e da abertura comercial, a Casa Branca opera uma diplomacia transacional, nacionalista e protecionista na qual pontificam o histrionismo de Trump e os interesses da plutocracia que hoje domina a política norte-americana.

Tarifas, sanções e ameaças são utilizadas como instrumentos de pressão até mesmo contra países aliados estratégicos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Agora, a aproximação entre o movimento Maga e o clã Bolsonaro trouxe um elemento perigoso à disputa brasileira: a tentativa de vincular interesses econômicos e estratégicos dos Estados Unidos no Brasil ao resultado de nossa eleição. A resposta não pode ser o velho antiamericanismo, mas exige a firme defesa da soberania.

Uma boa relação com os Estados Unidos não significa obediência, sobretudo quando interesses eleitorais e comerciais de uma corrente estrangeira se confundem com os de um grupo político brasileiro. Sem embargo das críticas, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva não tem outra opção a não ser negociar com firmeza, recorrer às instituições multilaterais, proteger os setores atingidos e, simultaneamente, preservar os canais de cooperação. Nossa política externa é de Estado, baseada nos interesses permanentes do Brasil.

<><> Direitos e deveres

Ao contrário de outros momentos de tensão com os Estados Unidos, como aquele que resultou no golpe militar de 1964, o Brasil tem relações comerciais muito mais diversificadas. Nosso comércio com os Estados Unidos representa apenas 2% do Produto Interno Bruto (PIB), porém, é o principal destino de nossos produtos industrializados. E também não podemos cair na dependência de nosso maior parceiro comercial, a China, cuja capacidade industrial excedente pressiona os produtores de outros países. O Brasil deve ampliar acordos com União Europeia, Índia, Japão, Canadá, México, África, Sudeste Asiático e Oriente Médio, sem abandonar Washington nem Pequim. Ou seja, trata-se de construir novas alternativas e buscar ainda maior integração com a economia mundial.

Nada disso, porém, no plano interno, eliminará a insatisfação social e resolverá os problemas objetivos da população. A retaliação de Trump pode fortalecer momentaneamente uma narrativa nacionalista, mas o custo de vida, a insegurança, os juros, a qualidade dos serviços públicos e a esperança continuarão orientando o voto. A eleição não será decidida apenas com denúncias do autoritarismo adversário. É preciso demonstrar capacidade de entrega: segurança, educação, saúde, habitação, mobilidade urbana, crescimento, inclusão social e instituições que funcionem.

Com a Constituição de 1988, o Sistema Único de Saúde (SUS), a universalização da educação fundamental, o salário mínimo valorizado, a transferência de renda, as ações afirmativas e a ampliação do acesso à universidade transformaram a sociedade brasileira. Não podemos brigar com os fatos. Os resultados insuficientes dessas políticas não são a prova de que a inclusão social fracassou. Nem devemos tratar quatro décadas de redemocratização como tempo perdido, apesar da descontinuidade administrativa e da recidiva oligárquica e do patrimonialista. O desafio não é abandonar os fundamentos da Constituição de 1988, mas atualizar os meios pelos quais se pretende alcançar igualdade, liberdade e dignidade.

O Brasil realmente precisa reconciliar direitos coletivos com responsabilidade individual. A emancipação e a inclusão social devem oferecer condições para que cada cidadão desenvolva suas potencialidades e, ao mesmo tempo, responda por suas escolhas. O problema é que o mau exemplo vem de cima, devido à captura de instituições e políticas públicas por interesses privados, empresariais ou mesmo individuais. Vem daí, na verdade, a maior ameaça às nossas democracia e soberania. Basta ver as pesquisas sobre aprovação das principais instituições do país.

¨      Mauro Vieira: EUA queriam ‘capitulação’ e interferir no processo de Bolsonaro

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou nesta quinta-feira (16) que os Estados Unidos exigiram uma “capitulação” do Brasil durante as negociações para evitar o tarifaço sobre produtos brasileiros e tentaram interferir no processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo o chanceler, a ameaça de elevar as tarifas para 50% teve motivação política e foi usada como forma de pressionar o governo brasileiro, embora a medida anunciada pelos Estados Unidos tenha fixado uma sobretaxa de 25% para parte dos produtos brasileiros.

A declaração foi dada um dia após o governo norte-americano anunciar a aplicação da tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, resultado da investigação conduzida com base na Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos.

Em declaração à imprensa, Vieira afirmou que o governo brasileiro manteve mais de 30 reuniões presenciais, virtuais ou por telefone com autoridades norte-americanas desde março de 2025, em níveis presidencial, ministerial e técnico. Segundo ele, foram 11 contatos com o secretário de Estado, Marco Rubio, e com o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, além de reuniões entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.

“O Brasil está, portanto, negociando com os Estados Unidos desde antes do tarifaço original, anunciado em 2 abril de 2025.”

Segundo o ministro, a carta enviada por Donald Trump ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 9 de julho de 2025, que ameaçava impor tarifas de 50% aos produtos brasileiros, evidenciou a motivação política da medida.

“E foi justamente nessa carta – em que o Presidente Trump ameaçou o Brasil com tarifas de 50%, caso o processo contra o ex-Presidente da República não fosse imediatamente interrompido – que foi dada a instrução ao Representante de Comércio dos Estados Unidos para que iniciasse a investigação sob a Seção 301 contra o Brasil.”

Vieira afirmou que, desde o início das negociações, o governo brasileiro buscou dialogar sobre todos os temas apresentados pelos Estados Unidos. Segundo ele, porém, Washington fez exigências consideradas inaceitáveis.

“Claramente, o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas durante o curso das negociações.”

O chanceler afirmou que uma das exigências era a abertura “total, irrestrita e exclusiva” de setores da economia brasileira aos Estados Unidos, sem qualquer contrapartida para os produtos nacionais.

“Cito, como exemplo, demandas de abertura total, irrestrita e exclusiva aos Estados Unidos de setores inteiros da economia brasileira, sem qualquer contrapartida para os produtos brasileiros. Em outras palavras, exigiam uma capitulação.”

Vieira também criticou declarações publicadas pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, sobre as tarifas impostas ao Brasil.

“Nesse sentido, as declarações do Secretário de Estado Marco Rubio veiculadas na madrugada de hoje nas redes sociais a respeito das tarifas adotadas contra o Brasil são inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiros.”

Na sequência, acrescentou:

“Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o Chefe de Estado de um país amigo.”

O ministro também rebateu os argumentos apresentados pelos Estados Unidos para justificar a investigação comercial contra o Brasil. Segundo ele, as críticas ao Pix e à política ambiental brasileira não têm fundamento.

“As alegações e declarações de autoridades americanas sobre o PIX são descabidas. O PIX é uma infraestrutura pública de pagamentos criada pelo Banco Central e está disponível a todas as instituições financeiras que atuam no Brasil. Não é sério falar em competição desleal gerada pelo PIX.”

Em relação ao desmatamento, afirmou:

“As acusações sobre desmatamento também são absurdas. Desde 2022, reduzimos significativamente o desmatamento na Amazônia e no cerrado.”

Vieira também voltou a defender o histórico da relação comercial entre os dois países. Segundo ele, os Estados Unidos acumularam superávit de US$ 424 bilhões em bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos e, em 2025, 76% das importações americanas entraram no Brasil sem pagamento de imposto de importação, incluindo oito dos dez principais produtos exportados pelos Estados Unidos ao mercado brasileiro.

O chanceler afirmou ainda que o governo brasileiro participou de todas as etapas da investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), apresentou duas defesas formais e participou de consultas governamentais em Washington. Apesar disso, disse que a decisão americana ignorou os argumentos apresentados por Brasília.

“Todas as alegações dos norte-americanos para justificar a aplicação de tarifas não têm lastro na realidade.”

¨      ‘Trump quer isolar América Latina de influências de um mundo multipolar’, diz analista internacional

O governo de Donald Trump exigiu que o Brasil barrasse os investimentos chineses nos setores de mineração e terras raras, além de abrir totalmente o mercado nacional para produtos estadunidenses, segundo documento divulgado pelo ICL Notícias. A divulgação da informação acontece dois dias após Trump anunciar a taxação de 25% sobre produtos brasileiros.

Para a analista internacional Amanda Harumy, a decisão expõe a política externa do governo Trump, que coloca a América Latina como um campo de disputa. “Trump tenta isolar a América Latina de influências de um mundo multipolar, principalmente da China. Lembrando que a China é o maior parceiro comercial do Brasil”, destaca em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato. “É um campo de batalha onde duas potências comerciais se encontram: de um lado os EUA e, de outro, a China.”

Harumy reforça que o Brasil tem capacidade de manter relações comerciais com diversos países e, portanto, essa “chantagem da Casa Branca” mostra mais uma vez o caráter político. “Estão tentando desestabilizar politicamente o Brasil para influenciar a disputa doméstica que teremos em outubro”, afirma.

A analista reconhece que alguns setores serão impactados, mas, no final do dia, a tentativa é de ingerência política. “É um discurso ideológico-político. Lembrando que a família Bolsonaro em diversos momentos construiu esse diálogo com Trump e defende a tarifa na economia brasileira”, argumenta.

Amanda Harumy avalia que o governo Lula precisa ser pragmático diante dos últimos acontecimentos e, na análise dela, isso já vem ocorrendo. “Os canais diplomáticos se transformaram em instrumentos para se construir um diálogo. Mas não é através do convencimento diplomático que a gente vai conseguir solucionar esse grande interesse de ingerência política que os EUA vêm promovendo no Brasil. E destaco: essa vai ser a primeira ingerência de muitas”, destaca.

 

Fonte: Por Luiz Carlos Azedo, no Correio Braziliense/CL Notícias/Brasil de Fato

 

Nenhum comentário: