O
mundo é bem maior e mais vasto do que o umbigo de Trump
Durante
décadas, parte da elite brasileira acostumou-se a olhar o mundo por uma única
janela: Washington. Quase tudo era medido pela régua dos Estados Unidos. Se a
economia americana espirrava, imaginava-se que o Brasil inevitavelmente pegaria
uma pneumonia. Essa visão nunca correspondeu inteiramente à realidade, mas hoje
ela se tornou definitivamente anacrônica. O mundo mudou. E Donald Trump parece
incapaz de compreender essa mudança.
A
diplomacia Sul-Sul, na qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Celso
Amorim investem desde o primeiro mandato, está produzindo resultados que talvez
nem seus maiores defensores imaginassem. O crescimento das exportações
brasileiras para China e Índia, mas também para mercados maduros, como a
Europa, que já supera em mais de seis vezes as
perdas provocadas pelas tarifas americanas, é apenas um dos indicadores de uma
transformação muito mais profunda. O Brasil deixou de depender de um único
mercado e passou a dialogar com um planeta muito mais amplo.
Esse
movimento não nasceu por acaso. Ele é fruto de uma estratégia consistente de
política externa. Lula compreendeu, ainda nos anos 2000, que o século XXI seria
marcado pela ascensão dos países em desenvolvimento. Foi por isso que
fortaleceu o Mercosul, aproximou-se da África, ajudou a consolidar os BRICS e
fez da cooperação entre os países do Sul Global um dos pilares da diplomacia
brasileira.
Na
época, muitos ironizaram essa opção. Hoje, os números respondem melhor do que
qualquer discurso.
A China
tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil e, mais importante, um
mercado praticamente insubstituível para produtos brasileiros. A expansão das
vendas para aquele país compensou sucessivas crises internacionais e abriu
espaço para novos investimentos. O mesmo fenômeno começa a ocorrer com a Índia,
cuja economia figura entre as que mais crescem no planeta. Em poucos anos, o
mercado indiano deverá desempenhar um papel semelhante ao que a China
desempenhou na década passada.
Ao
mesmo tempo, o Sudeste Asiático desponta como uma das regiões mais promissoras
do mundo. Indonésia, Vietnã, Malásia, Tailândia e outros países da Asean
ampliam rapidamente sua renda e seu consumo. A Ásia Central também surge como
uma nova fronteira comercial. Cazaquistão e Uzbequistão já aparecem entre os
destinos estratégicos para as exportações brasileiras. São mercados que
simplesmente não existiam no radar da diplomacia tradicional.
Enquanto
isso, Trump continua acreditando que os Estados Unidos podem impor sua vontade
ao restante do planeta por meio de tarifas.
Nem
mesmo essa estratégia funciona plenamente.
As
próprias tarifas impostas pelo governo americano vieram acompanhadas de
milhares de exceções. A razão é simples: uma aplicação indiscriminada elevaria
o custo de inúmeros produtos consumidos pelos próprios norte-americanos. Em
outras palavras, a Casa Branca precisou preservar cadeias produtivas e proteger
seus consumidores dos efeitos de sua própria política comercial.
Isso
desmonta parte da narrativa alarmista construída em torno das medidas adotadas
por Washington.
Os
prejuízos econômicos para o Brasil existem, mas são relativamente pequenos
diante da capacidade de reação construída ao longo dos últimos anos. Os dados
falam por si. Enquanto as exportações para os Estados Unidos recuaram, novos
mercados absorveram volumes muito maiores de produtos brasileiros.
O
verdadeiro objetivo da ofensiva tarifária parece ser outro.
Mais do
que atingir a economia brasileira, trata-se de uma tentativa de produzir
efeitos políticos internos, pressionando o governo Lula e buscando influenciar
as eleições brasileiras. É uma estratégia que parte da velha premissa de que
qualquer dificuldade econômica seria suficiente para alterar o cenário político
nacional.
Há um
problema para quem aposta nessa tese.
O
Brasil de hoje é muito diferente daquele de décadas atrás. A economia está mais
diversificada. Os parceiros comerciais são muito mais numerosos. O comércio
internacional deixou de girar exclusivamente em torno do Atlântico Norte. E o
próprio eleitor brasileiro demonstra crescente rejeição a qualquer tentativa de
interferência estrangeira na soberania nacional.
Quem
resumiu esse processo histórico de maneira brilhante foi o presidente do IBGE,
Marcio Pochmann.
Segundo
ele, o Brasil vive a terceira grande transformação de seu comércio exterior.
A
primeira ocorreu em 1808, quando a chegada da família real portuguesa rompeu o
antigo sistema colonial e deslocou o eixo das relações comerciais da metrópole
portuguesa para a Inglaterra.
A
segunda aconteceu entre as duas guerras mundiais, quando a decadência britânica
abriu espaço para a ascensão dos Estados Unidos como principal parceiro
comercial brasileiro.
Agora,
estamos diante da terceira grande virada.
Ela
começou com o ciclo das commodities, ganhou impulso com a diversificação dos
parceiros comerciais e consolidou-se após a crise financeira de 2007, quando a
ascensão da China redefiniu a inserção internacional do Brasil.
Nesse
contexto, a recente escalada tarifária promovida pelos Estados Unidos poderá
entrar para a história como a pá de cal sobre um longo ciclo de predominância
americana no comércio exterior brasileiro.
A
geopolítica mudou.
O mapa
do comércio mundial mudou.
Os
polos de crescimento econômico mudaram.
E o
Brasil está mudando junto com eles.
Isso
não significa romper relações com os Estados Unidos. Seria um erro substituir
uma dependência por outra ou transformar a política externa em um jogo de soma
zero. Significa, isto sim, compreender que a prosperidade brasileira depende de
dialogar com todos, vender para todos e construir relações equilibradas com
todos.
O
século XXI pertence cada vez mais ao Sul Global.
É ali
que estão algumas das economias mais dinâmicas do planeta, as populações que
mais crescem, os maiores investimentos em infraestrutura, as novas cadeias
industriais e uma parcela crescente da inovação tecnológica.
Lula
percebeu essa realidade antes de muitos líderes mundiais.
Trump,
ao contrário, continua olhando para um mundo que já não existe.
A
história ensina que impérios costumam confundir seu próprio horizonte com o
horizonte da humanidade. É exatamente esse equívoco que parece orientar a atual
política externa americana.
Mas o
mundo não cabe em Washington. O comércio mundial não gira apenas em torno dos
Estados Unidos. E o futuro do Brasil certamente não depende do humor de Donald
Trump.
O mundo
é muito maior. Muito mais vasto. E, felizmente para o Brasil, Lula e Celso
Amorim enxergaram antes esta grande transformação.
Viva o
Sul Global.
¨
Trump poderia "fazer algo positivo" em vez de
se fixar na derrota de 2020, diz Fetterman
Em vez
de continuar obcecado com a derrota nas eleições de 2020 que encerrou seu
primeiro mandato, Donald Trump poderia, em vez disso, "fazer algo
positivo", incluindo resolver a guerra dos EUA no Irã , disse o
senador da Pensilvânia, John Fetterman, em entrevista no domingo.
“Não
sei por que o presidente está trazendo à tona todas essas coisas”, comentou
Fetterman no programa State of the Union da CNN, três dias depois de
Trump ter dedicado um discurso
televisionado em horário nobre a alegações de interferência chinesa na eleição
presidencial de 2020, na qual perdeu para Joe Biden. “Você é o presidente. Faça
algo positivo – e você está falando de 2020; isso já foi resolvido há mais de
seis anos.”
“Isso é
extremamente prejudicial e desvia a atenção de coisas importantes,
especialmente da guerra com o Irã neste momento.”
Seus comentários à CNN surgiram em
meio a um período que pode se revelar um ponto de inflexão em sua carreira
política. Na quarta-feira, ele afirmou que
consideraria deixar o Partido Democrata caso este se tornasse "o partido
anti-Israel", um comentário feito após mais de 100 deputados americanos
votarem a favor da suspensão da ajuda militar israelense devido às incursões em
Gaza e no Líbano.
Desde
que ingressou no Senado em 2023, Fetterman se destacou como um importante
defensor de Israel entre os democratas. Ele reconheceu algumas tentativas de
republicanos de convencê-lo a se juntar ao partido, visto que alguns de seus
colegas democratas se afastaram do apoio tradicional a Israel em meio às
acusações de que o governo do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu
cometeu genocídio em Gaza.
Mas ele
afirmou não ter interesse em tal mudança, pois discorda da maioria das
políticas defendidas pelos republicanos, que foram liderados por Trump durante
dois mandatos na Casa Branca, interrompidos pela presidência de Biden.
Durante
anos, Trump mentiu sobre sua derrota para Biden nas urnas em 2020, alegando que
fraudadores eleitorais manipularam a eleição contra ele.
Especialistas
independentes em votação determinaram que a eleição foi segura. E, ao concorrer
com sucesso a um segundo mandato presidencial em 2024, Trump admitiu em um
podcast que perdeu para Biden, argumentando que foi "por uma margem
mínima".
No entanto, Trump afirmou posteriormente que
a declaração era sarcástica. E na quinta-feira, Trump revisitou sua candidatura
fracassada contra Biden, alegando que a China interferiu na eleição, o que
levou a alertas de oponentes de que o presidente – que tem enfrentado baixos
índices de aprovação – estava prestes a interferir nas próximas eleições de
meio de mandato.
Uma
avaliação da comunidade de inteligência dos EUA, realizada em 2021, concluiu
que nenhum ator estrangeiro, incluindo a China, tentou alterar qualquer aspecto
técnico do processo de votação de 2020. A avaliação constatou que, embora a
Rússia tenha conduzido operações de influência com o objetivo de denegrir a
campanha de Biden, a China não realizou quaisquer esforços de interferência
destinados a alterar o resultado da eleição.
A
inteligência americana avaliou que a China não considerava nem Trump nem Biden
vantajosos para suas ambições – e, portanto, não valia a pena correr o risco de
prejudicar a relação sino-americana por meio de interferências.
Em
entrevista ao apresentador da CNN, Jake Tapper, no domingo, sobre Trump e as
eleições de 2020, Fetterman disse que os resultados
daquela disputa – na qual Biden conquistou os votos do colégio eleitoral da
Pensilvânia – foram “absolutamente seguros, justos e precisos”.
“A
Pensilvânia… escolheu Joe Biden em 2020”, acrescentou Fetterman, que era o
vice-governador do estado na época. “Isso é um fato.”
¨
Não são só militantes: sob rótulo de “terrorismo
político”, Trump quer investigar quem doa, dirige e financia esquerda
O
secretário de Estado de Trump, Marco Rubio, e outros altos
funcionários dos Estados Unidos instaram representantes de cerca de 60 governos
a adotar medidas de segurança pública contra o que classificaram como
“terrorismo político de extrema esquerda”. O governo do México foi convidado,
mas um porta-voz do Departamento de Estado informou ao La Jornada que
o país não participou.
“Por
tempo demais, nossa doutrina antiterrorista teve um ponto cego… a violência
extremista proveniente da esquerda política”, declarou Rubio em um discurso de
boas-vindas aos governos convidados, entre os quais estavam representantes da
Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Panamá, Paraguai, Peru e Uruguai, no
hemisfério americano, além de vários governos europeus e asiáticos. Além do
México, Brasil e Colômbia foram as outras ausências notáveis.
Rubio
lamentou que “ainda hoje, a simples ideia de que o terrorismo de extrema
esquerda possa constituir uma ameaça grave seja tratada como um delírio da
direita ou, pior ainda, como uma perigosa conspiração fascista”, e afirmou que
essa é a forma como o tema é abordado pela imprensa, pelo meio acadêmico e por
outros setores.
Rubio
insistiu que o terrorismo de extrema esquerda foi “a forma dominante da
violência política” durante grande parte da era moderna.
“Todos
e cada um dos nossos amigos aqui presentes, vindos das nações do Hemisfério
Ocidental, lembram… lembram-se das décadas de sequestros, atentados a bomba,
assassinatos e execuções, do terror violento dos Tupamaros, dos Montoneros, das
Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e do Exército de
Libertação Nacional (ELN).
Lembram
da barbárie desumana do Sendero Luminoso, no Peru… Lembram das dezenas de
milhares de guerrilheiros marxistas treinados para matar nos campos terroristas
de Castro.” Também fez referência às Brigadas Vermelhas, na Itália, ao grupo
Baader-Meinhof, na Alemanha, e ao 17N, da Grécia, entre outros exemplos.
“Trata-se
de um mal distintivo e único. Sempre foi impulsionado por um ódio acima de
qualquer outra coisa, um ódio contra a própria civilização… Isso é o que é a
esquerda radical. Ela pode adotar diferentes lemas e ideologias conforme o
lugar e a época. Podem se autodenominar anticapitalistas, anti-imperialistas,
comunistas, anarquistas ou marxistas.
Mas seu
caráter fundamental é sempre o mesmo. É sempre o mesmo.” Acusou que, por trás
de um discurso de igualdade e libertação, existe apenas ressentimento e que seu
objetivo “é destruir o que é belo e o que é justo em nome de pessoas que estão
apenas cheias de feiura e nada mais têm a oferecer ao mundo”.
O
secretário de Estado apresentou aos participantes exemplos da violência da
“extrema esquerda” nos anos 1970 e afirmou que “entre 1970 e 1980, 93% dos
atentados terroristas no Ocidente foram cometidos pela extrema esquerda”,
embora não tenha citado a fonte desses dados.
Por
outro lado, um relatório oficial do Departamento de Justiça dos Estados Unidos
concluiu que “desde 1990, extremistas de direita cometeram muito mais
homicídios motivados por ideologia do que a extrema esquerda ou extremistas
islâmicos radicais”. Esse relatório foi retirado do site do Departamento de
Justiça em setembro do ano passado.
Na
quarta-feira, o deputado democrata de maior posição no Comitê de Relações
Exteriores enviou uma carta, assinada por outros dez deputados federais, a
Rubio para expressar preocupação com o que consideram uma tentativa de
politizar os esforços antiterroristas dos Estados Unidos.
“O
enfoque relatado do Departamento sobre o extremismo de esquerda em detrimento
de outros tipos de extremismo violento é preocupante”, escreveram,
acrescentando que “a ausência de dados básicos ou provas nessa estratégia para
justificar” as prioridades em torno desse tema “é profundamente preocupante”.
Stephen Miller, vice-chefe de
gabinete da Casa Branca, discursou na reunião ministerial depois de Rubio e
deixou claro que, embora o encontro tenha contado com outros países, seu
governo busca apoio internacional para perseguir dissidentes de esquerda dentro
dos Estados Unidos.
“Pela
primeira vez na história dos Estados Unidos, todas as nossas agências de
segurança pública e de inteligência trabalham juntas para invadir, identificar,
cortar o financiamento… prender e processar esses terroristas políticos que
estão operando em nosso país. É muito importante entender que o terrorismo de
esquerda tem como objetivo final derrubar nosso sistema e nossa forma de
governo”, declarou Miller aos participantes.
Miller
identificou, em particular, grupos que, segundo ele, se identificam como
“antifa”. Como o La Jornada informou, em setembro do ano
passado a Casa Branca emitiu uma ordem executiva identificando grupos
dissidentes ou ativistas de esquerda como parte da “antifa”, organização
oficialmente designada como “uma organização terrorista doméstica”. O problema
é que tal entidade não existe, embora haja redes informais e descentralizadas
de grupos que se identificam como “antifascistas” ou “antifa”.
O
vice-chefe de gabinete e influente assessor do presidente, além de arquiteto
das políticas antimigração deste governo, acusou especialmente “organizações de
esquerda” de organizar ataques contra agentes da agência de controle migratório
conhecida como ICE, alegando que esses agentes sofreram um aumento superior a
8.000% nos ataques violentos contra eles.
Afirmou
que não se trata de incidentes isolados, mas de “uma insurreição repetida,
sistêmica, organizada e financiada, além de uma resistência armada contra o
governo federal”. Miller alertou que a esquerda é “um câncer letal para a
civilização” e que o maior risco é que “nossas instituições” sejam fracas
demais e “covardes para conseguir se defender dessa ameaça mortal”.
Somente
quando o secretário do Tesouro, Scott Bessent, subiu ao púlpito é que o público
foi lembrado de que o povo estadunidense possui direitos constitucionais.
“Devemos respeitar os direitos constitucionais, a liberdade de expressão, de
associação e de reunião de todos os norte-americanos. Portanto, é importante
enfatizar que o Tesouro atuará com base na conduta ilegal suspeita dessas
organizações terroristas, e não em suas crenças ou ideologia.”
Mas
esse foi um ponto secundário em um evento convocado para marcar uma mudança de
foco: do combate ao “terrorismo islâmico” no período pós-11 de Setembro para o
combate ao que foi declarado como uma ameaça maior: a esquerda, dentro e fora
dos Estados Unidos. Foi anunciado que, sob o governo de Donald Trump, pela
primeira vez, “os Estados Unidos estão construindo a infraestrutura, as
parcerias e a estratégia para derrotar o flagelo do terrorismo de extrema
esquerda”.
Uma das
medidas anunciadas ao término do evento foi uma nova restrição de vistos para
estrangeiros classificados como “terroristas de extrema esquerda
e [de] outros grupos alinhados”.
Fonte:
Por Leonardo Attuch, em Brasil 247/Diálogos do Sul Global

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