terça-feira, 21 de julho de 2026

O mundo é bem maior e mais vasto do que o umbigo de Trump

Durante décadas, parte da elite brasileira acostumou-se a olhar o mundo por uma única janela: Washington. Quase tudo era medido pela régua dos Estados Unidos. Se a economia americana espirrava, imaginava-se que o Brasil inevitavelmente pegaria uma pneumonia. Essa visão nunca correspondeu inteiramente à realidade, mas hoje ela se tornou definitivamente anacrônica. O mundo mudou. E Donald Trump parece incapaz de compreender essa mudança.

A diplomacia Sul-Sul, na qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Celso Amorim investem desde o primeiro mandato, está produzindo resultados que talvez nem seus maiores defensores imaginassem. O crescimento das exportações brasileiras para China e Índia, mas também para mercados maduros, como a Europa, que já supera em mais de seis vezes as perdas provocadas pelas tarifas americanas, é apenas um dos indicadores de uma transformação muito mais profunda. O Brasil deixou de depender de um único mercado e passou a dialogar com um planeta muito mais amplo.

Esse movimento não nasceu por acaso. Ele é fruto de uma estratégia consistente de política externa. Lula compreendeu, ainda nos anos 2000, que o século XXI seria marcado pela ascensão dos países em desenvolvimento. Foi por isso que fortaleceu o Mercosul, aproximou-se da África, ajudou a consolidar os BRICS e fez da cooperação entre os países do Sul Global um dos pilares da diplomacia brasileira.

Na época, muitos ironizaram essa opção. Hoje, os números respondem melhor do que qualquer discurso.

A China tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil e, mais importante, um mercado praticamente insubstituível para produtos brasileiros. A expansão das vendas para aquele país compensou sucessivas crises internacionais e abriu espaço para novos investimentos. O mesmo fenômeno começa a ocorrer com a Índia, cuja economia figura entre as que mais crescem no planeta. Em poucos anos, o mercado indiano deverá desempenhar um papel semelhante ao que a China desempenhou na década passada.

Ao mesmo tempo, o Sudeste Asiático desponta como uma das regiões mais promissoras do mundo. Indonésia, Vietnã, Malásia, Tailândia e outros países da Asean ampliam rapidamente sua renda e seu consumo. A Ásia Central também surge como uma nova fronteira comercial. Cazaquistão e Uzbequistão já aparecem entre os destinos estratégicos para as exportações brasileiras. São mercados que simplesmente não existiam no radar da diplomacia tradicional.

Enquanto isso, Trump continua acreditando que os Estados Unidos podem impor sua vontade ao restante do planeta por meio de tarifas.

Nem mesmo essa estratégia funciona plenamente.

As próprias tarifas impostas pelo governo americano vieram acompanhadas de milhares de exceções. A razão é simples: uma aplicação indiscriminada elevaria o custo de inúmeros produtos consumidos pelos próprios norte-americanos. Em outras palavras, a Casa Branca precisou preservar cadeias produtivas e proteger seus consumidores dos efeitos de sua própria política comercial.

Isso desmonta parte da narrativa alarmista construída em torno das medidas adotadas por Washington.

Os prejuízos econômicos para o Brasil existem, mas são relativamente pequenos diante da capacidade de reação construída ao longo dos últimos anos. Os dados falam por si. Enquanto as exportações para os Estados Unidos recuaram, novos mercados absorveram volumes muito maiores de produtos brasileiros.

O verdadeiro objetivo da ofensiva tarifária parece ser outro.

Mais do que atingir a economia brasileira, trata-se de uma tentativa de produzir efeitos políticos internos, pressionando o governo Lula e buscando influenciar as eleições brasileiras. É uma estratégia que parte da velha premissa de que qualquer dificuldade econômica seria suficiente para alterar o cenário político nacional.

Há um problema para quem aposta nessa tese.

O Brasil de hoje é muito diferente daquele de décadas atrás. A economia está mais diversificada. Os parceiros comerciais são muito mais numerosos. O comércio internacional deixou de girar exclusivamente em torno do Atlântico Norte. E o próprio eleitor brasileiro demonstra crescente rejeição a qualquer tentativa de interferência estrangeira na soberania nacional.

Quem resumiu esse processo histórico de maneira brilhante foi o presidente do IBGE, Marcio Pochmann.

Segundo ele, o Brasil vive a terceira grande transformação de seu comércio exterior.

A primeira ocorreu em 1808, quando a chegada da família real portuguesa rompeu o antigo sistema colonial e deslocou o eixo das relações comerciais da metrópole portuguesa para a Inglaterra.

A segunda aconteceu entre as duas guerras mundiais, quando a decadência britânica abriu espaço para a ascensão dos Estados Unidos como principal parceiro comercial brasileiro.

Agora, estamos diante da terceira grande virada.

Ela começou com o ciclo das commodities, ganhou impulso com a diversificação dos parceiros comerciais e consolidou-se após a crise financeira de 2007, quando a ascensão da China redefiniu a inserção internacional do Brasil.

Nesse contexto, a recente escalada tarifária promovida pelos Estados Unidos poderá entrar para a história como a pá de cal sobre um longo ciclo de predominância americana no comércio exterior brasileiro.

A geopolítica mudou.

O mapa do comércio mundial mudou.

Os polos de crescimento econômico mudaram.

E o Brasil está mudando junto com eles.

Isso não significa romper relações com os Estados Unidos. Seria um erro substituir uma dependência por outra ou transformar a política externa em um jogo de soma zero. Significa, isto sim, compreender que a prosperidade brasileira depende de dialogar com todos, vender para todos e construir relações equilibradas com todos.

O século XXI pertence cada vez mais ao Sul Global.

É ali que estão algumas das economias mais dinâmicas do planeta, as populações que mais crescem, os maiores investimentos em infraestrutura, as novas cadeias industriais e uma parcela crescente da inovação tecnológica.

Lula percebeu essa realidade antes de muitos líderes mundiais.

Trump, ao contrário, continua olhando para um mundo que já não existe.

A história ensina que impérios costumam confundir seu próprio horizonte com o horizonte da humanidade. É exatamente esse equívoco que parece orientar a atual política externa americana.

Mas o mundo não cabe em Washington. O comércio mundial não gira apenas em torno dos Estados Unidos. E o futuro do Brasil certamente não depende do humor de Donald Trump.

O mundo é muito maior. Muito mais vasto. E, felizmente para o Brasil, Lula e Celso Amorim enxergaram antes esta grande transformação.

Viva o Sul Global.

¨      Trump poderia "fazer algo positivo" em vez de se fixar na derrota de 2020, diz Fetterman

Em vez de continuar obcecado com a derrota nas eleições de 2020 que encerrou seu primeiro mandato, Donald Trump poderia, em vez disso, "fazer algo positivo", incluindo resolver a guerra dos EUA no Irã , disse o senador da Pensilvânia, John Fetterman, em entrevista no domingo.

“Não sei por que o presidente está trazendo à tona todas essas coisas”, comentou Fetterman no programa State of the Union da CNN, três dias depois de Trump ter dedicado um discurso televisionado em horário nobre a alegações de interferência chinesa na eleição presidencial de 2020, na qual perdeu para Joe Biden. “Você é o presidente. Faça algo positivo – e você está falando de 2020; isso já foi resolvido há mais de seis anos.”

“Isso é extremamente prejudicial e desvia a atenção de coisas importantes, especialmente da guerra com o Irã neste momento.”

Seus comentários à CNN surgiram em meio a um período que pode se revelar um ponto de inflexão em sua carreira política. Na quarta-feira, ele afirmou que consideraria deixar o Partido Democrata caso este se tornasse "o partido anti-Israel", um comentário feito após mais de 100 deputados americanos votarem a favor da suspensão da ajuda militar israelense devido às incursões em Gaza e no Líbano.

Desde que ingressou no Senado em 2023, Fetterman se destacou como um importante defensor de Israel entre os democratas. Ele reconheceu algumas tentativas de republicanos de convencê-lo a se juntar ao partido, visto que alguns de seus colegas democratas se afastaram do apoio tradicional a Israel em meio às acusações de que o governo do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu cometeu genocídio em Gaza.

Mas ele afirmou não ter interesse em tal mudança, pois discorda da maioria das políticas defendidas pelos republicanos, que foram liderados por Trump durante dois mandatos na Casa Branca, interrompidos pela presidência de Biden.

Durante anos, Trump mentiu sobre sua derrota para Biden nas urnas em 2020, alegando que fraudadores eleitorais manipularam a eleição contra ele.

Especialistas independentes em votação determinaram que a eleição foi segura. E, ao concorrer com sucesso a um segundo mandato presidencial em 2024, Trump admitiu em um podcast que perdeu para Biden, argumentando que foi "por uma margem mínima".

No entanto, Trump afirmou posteriormente que a declaração era sarcástica. E na quinta-feira, Trump revisitou sua candidatura fracassada contra Biden, alegando que a China interferiu na eleição, o que levou a alertas de oponentes de que o presidente – que tem enfrentado baixos índices de aprovação – estava prestes a interferir nas próximas eleições de meio de mandato.

Uma avaliação da comunidade de inteligência dos EUA, realizada em 2021, concluiu que nenhum ator estrangeiro, incluindo a China, tentou alterar qualquer aspecto técnico do processo de votação de 2020. A avaliação constatou que, embora a Rússia tenha conduzido operações de influência com o objetivo de denegrir a campanha de Biden, a China não realizou quaisquer esforços de interferência destinados a alterar o resultado da eleição.

A inteligência americana avaliou que a China não considerava nem Trump nem Biden vantajosos para suas ambições – e, portanto, não valia a pena correr o risco de prejudicar a relação sino-americana por meio de interferências.

Em entrevista ao apresentador da CNN, Jake Tapper, no domingo, sobre Trump e as eleições de 2020, Fetterman disse que os resultados daquela disputa – na qual Biden conquistou os votos do colégio eleitoral da Pensilvânia – foram “absolutamente seguros, justos e precisos”.

“A Pensilvânia… escolheu Joe Biden em 2020”, acrescentou Fetterman, que era o vice-governador do estado na época. “Isso é um fato.”

¨      Não são só militantes: sob rótulo de “terrorismo político”, Trump quer investigar quem doa, dirige e financia esquerda

O secretário de Estado de Trump, Marco Rubio, e outros altos funcionários dos Estados Unidos instaram representantes de cerca de 60 governos a adotar medidas de segurança pública contra o que classificaram como “terrorismo político de extrema esquerda”. O governo do México foi convidado, mas um porta-voz do Departamento de Estado informou ao La Jornada que o país não participou.

“Por tempo demais, nossa doutrina antiterrorista teve um ponto cego… a violência extremista proveniente da esquerda política”, declarou Rubio em um discurso de boas-vindas aos governos convidados, entre os quais estavam representantes da Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Panamá, Paraguai, Peru e Uruguai, no hemisfério americano, além de vários governos europeus e asiáticos. Além do México, Brasil e Colômbia foram as outras ausências notáveis.

Rubio lamentou que “ainda hoje, a simples ideia de que o terrorismo de extrema esquerda possa constituir uma ameaça grave seja tratada como um delírio da direita ou, pior ainda, como uma perigosa conspiração fascista”, e afirmou que essa é a forma como o tema é abordado pela imprensa, pelo meio acadêmico e por outros setores.

Rubio insistiu que o terrorismo de extrema esquerda foi “a forma dominante da violência política” durante grande parte da era moderna.

“Todos e cada um dos nossos amigos aqui presentes, vindos das nações do Hemisfério Ocidental, lembram… lembram-se das décadas de sequestros, atentados a bomba, assassinatos e execuções, do terror violento dos Tupamaros, dos Montoneros, das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e do Exército de Libertação Nacional (ELN).

Lembram da barbárie desumana do Sendero Luminoso, no Peru… Lembram das dezenas de milhares de guerrilheiros marxistas treinados para matar nos campos terroristas de Castro.” Também fez referência às Brigadas Vermelhas, na Itália, ao grupo Baader-Meinhof, na Alemanha, e ao 17N, da Grécia, entre outros exemplos.

“Trata-se de um mal distintivo e único. Sempre foi impulsionado por um ódio acima de qualquer outra coisa, um ódio contra a própria civilização… Isso é o que é a esquerda radical. Ela pode adotar diferentes lemas e ideologias conforme o lugar e a época. Podem se autodenominar anticapitalistas, anti-imperialistas, comunistas, anarquistas ou marxistas.

Mas seu caráter fundamental é sempre o mesmo. É sempre o mesmo.” Acusou que, por trás de um discurso de igualdade e libertação, existe apenas ressentimento e que seu objetivo “é destruir o que é belo e o que é justo em nome de pessoas que estão apenas cheias de feiura e nada mais têm a oferecer ao mundo”.

O secretário de Estado apresentou aos participantes exemplos da violência da “extrema esquerda” nos anos 1970 e afirmou que “entre 1970 e 1980, 93% dos atentados terroristas no Ocidente foram cometidos pela extrema esquerda”, embora não tenha citado a fonte desses dados.

Por outro lado, um relatório oficial do Departamento de Justiça dos Estados Unidos concluiu que “desde 1990, extremistas de direita cometeram muito mais homicídios motivados por ideologia do que a extrema esquerda ou extremistas islâmicos radicais”. Esse relatório foi retirado do site do Departamento de Justiça em setembro do ano passado.

Na quarta-feira, o deputado democrata de maior posição no Comitê de Relações Exteriores enviou uma carta, assinada por outros dez deputados federais, a Rubio para expressar preocupação com o que consideram uma tentativa de politizar os esforços antiterroristas dos Estados Unidos.

“O enfoque relatado do Departamento sobre o extremismo de esquerda em detrimento de outros tipos de extremismo violento é preocupante”, escreveram, acrescentando que “a ausência de dados básicos ou provas nessa estratégia para justificar” as prioridades em torno desse tema “é profundamente preocupante”.

Stephen Miller, vice-chefe de gabinete da Casa Branca, discursou na reunião ministerial depois de Rubio e deixou claro que, embora o encontro tenha contado com outros países, seu governo busca apoio internacional para perseguir dissidentes de esquerda dentro dos Estados Unidos.

“Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, todas as nossas agências de segurança pública e de inteligência trabalham juntas para invadir, identificar, cortar o financiamento… prender e processar esses terroristas políticos que estão operando em nosso país. É muito importante entender que o terrorismo de esquerda tem como objetivo final derrubar nosso sistema e nossa forma de governo”, declarou Miller aos participantes.

Miller identificou, em particular, grupos que, segundo ele, se identificam como “antifa”. Como o La Jornada informou, em setembro do ano passado a Casa Branca emitiu uma ordem executiva identificando grupos dissidentes ou ativistas de esquerda como parte da “antifa”, organização oficialmente designada como “uma organização terrorista doméstica”. O problema é que tal entidade não existe, embora haja redes informais e descentralizadas de grupos que se identificam como “antifascistas” ou “antifa”.

O vice-chefe de gabinete e influente assessor do presidente, além de arquiteto das políticas antimigração deste governo, acusou especialmente “organizações de esquerda” de organizar ataques contra agentes da agência de controle migratório conhecida como ICE, alegando que esses agentes sofreram um aumento superior a 8.000% nos ataques violentos contra eles.

Afirmou que não se trata de incidentes isolados, mas de “uma insurreição repetida, sistêmica, organizada e financiada, além de uma resistência armada contra o governo federal”. Miller alertou que a esquerda é “um câncer letal para a civilização” e que o maior risco é que “nossas instituições” sejam fracas demais e “covardes para conseguir se defender dessa ameaça mortal”.

Somente quando o secretário do Tesouro, Scott Bessent, subiu ao púlpito é que o público foi lembrado de que o povo estadunidense possui direitos constitucionais. “Devemos respeitar os direitos constitucionais, a liberdade de expressão, de associação e de reunião de todos os norte-americanos. Portanto, é importante enfatizar que o Tesouro atuará com base na conduta ilegal suspeita dessas organizações terroristas, e não em suas crenças ou ideologia.”

Mas esse foi um ponto secundário em um evento convocado para marcar uma mudança de foco: do combate ao “terrorismo islâmico” no período pós-11 de Setembro para o combate ao que foi declarado como uma ameaça maior: a esquerda, dentro e fora dos Estados Unidos. Foi anunciado que, sob o governo de Donald Trump, pela primeira vez, “os Estados Unidos estão construindo a infraestrutura, as parcerias e a estratégia para derrotar o flagelo do terrorismo de extrema esquerda”.

Uma das medidas anunciadas ao término do evento foi uma nova restrição de vistos para estrangeiros classificados como “terroristas de extrema esquerda e [de] outros grupos alinhados”.

 

Fonte: Por Leonardo Attuch, em Brasil 247/Diálogos do Sul Global

 

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