Intervalos
bíblicos, militares e conselhos tutelares: o avanço da teologia do domínio no
Brasil
Toda
sexta-feira, numa sala da minha escola, aqui na Paraíba, um grupo de alunos se
reúne para o que chamam de célula. Não é barulhenta. Durante a semana, os
próprios alunos distribuem convites, avisam de sala em sala nos horários de
aula e colam cartazes pelas salas. No Instagram do grupo, os encontros viram
vídeos em cortes curtos, áudio original substituído por trilha: mãos erguidas,
olhos fechados, estudantes com expressão de constrição. Não levei tempo para
entender que aquilo não era um fenômeno isolado de devoção juvenil, e sim o
efeito de um fenômeno nacional, com nome, estratégia jurídica e capilaridade
crescente dentro do próprio aparelho de Estado.
O nome
público é intervalo bíblico. A cobertura jornalística em diferentes portais
situa sua origem em escolas estaduais de Pernambuco, no início de 2024, e dali
o formato se espalhou por escolas de outros estados, em alguns lugares já com
atividades amplificadas e presença de pregadores externos. O ciclo legislativo
seguiu o ciclo da prática: câmaras municipais de diferentes regiões passaram a
discutir e, em alguns casos, aprovar projetos que regulamentam o intervalo
bíblico como direito assegurado por lei, e uma proposta de alcance nacional
tramita na Câmara dos Deputados. O mesmo movimento chegou ao ensino superior,
público e particular, com células espalhadas por diversas universidades.
Falta
nomear o que amarra essas peças. O nome é teologia do domínio, ou dominionismo:
corrente de origem norte-americana, associada a C. Peter Wagner e à teologia
das Sete Montanhas, segundo a qual cabe aos cristãos ocupar os principais
setores de influência de uma sociedade (governo, educação, família, mídia,
segurança) até a nação inteira estar sob autoridade cristã. Antes, o
pentecostalismo pregava aceitar o sofrimento terreno em troca da salvação
individual. Essa vertente muda a lógica: quer poder concreto, agora.
O
conselho tutelar é um outro campo em que essa teologia aparece de forma nua.
Desde 2019, igrejas neopentecostais organizam campanhas de voto orientado para
essas eleições, historicamente esvaziadas de participação popular, e
levantamentos de conselhos municipais de direitos da criança já registraram
maioria de conselheiros vinculados a denominações neopentecostais em grandes
cidades. Quem ocupa o conselho tutelar constrói base para depois disputar
vereança. E quem trata da infância e da família controla um dos pontos de maior
densidade simbólica da vida social.
Na
segurança pública a lógica se repete. Desde 2018 a Igreja Universal do Reino de
Deus mantém um programa de assistência espiritual a policiais e bombeiros em
boa parte dos estados, levando capelães não credenciados a quartéis para
orações e revistas gerais de efetivo em horário de serviço. Reportagens
investigativas do The Intercept já registraram batalhões inteiros, fardados,
reunidos por horas dentro de templos da Universal, com casos de policiais
punidos por se recusarem a comparecer. A igreja tem ligação direta com um
partido cujo presidente nacional é bispo dela mesma.
Escola,
universidade, conselho tutelar e quartel formam um mapa razoavelmente completo
dos montes que a teologia do domínio historicamente elege como prioritários.
Cada intervalo bíblico isolado pode ser, e muitas vezes é, iniciativa genuína
de adolescente buscando pertencimento num contexto de precariedade que a escola
pública sozinha não supre. Isso é real. Reconhecer esse vazio institucional,
porém, não obriga ninguém a tratar quem o ocupa como neutro. Regulamentação
legislativa coordenada entre estados, capelania paralela dentro de corporações
militares, mobilização eleitoral orquestrada para conselhos tutelares,
acionamento imediato de mecanismos disciplinares contra quem resiste: isso é
projeto de poder articulado, não fé popular se organizando por conta própria. O
que me preocupa não são os alunos reunidos toda sexta-feira. É ver escola,
conselho tutelar e batalhão perdendo a pluralidade, um a um, como montes já
conquistados.
Fonte:
Por Lucas Vinicius Oliveira dos Santos, para IHU

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