Crise
em série pressiona campanha de Flávio Bolsonaro
A
campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) enfrenta seu período mais
delicado desde o início da corrida ao Palácio do Planalto. Em poucas semanas,
uma sucessão de episódios colocou o senador no centro de controvérsias
políticas, judiciais e eleitorais, obrigando aliados a atuarem em diversas
frentes para conter danos e preservar o apoio do eleitorado conservador.
O
acúmulo de desgastes inclui a divulgação de áudios relacionados ao banqueiro
Daniel Vorcaro, os embates públicos com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro,
a repercussão da carta de apoio escrita por Jair Bolsonaro — que acabou
motivando uma reação do Supremo Tribunal Federal (STF) —, as críticas de
setores da direita à estratégia de aproximação com o eleitorado feminino e, a
divulgação de uma fotografia ao lado de Luiz Phillipi da Costa de Oliveira,
conhecido como “Sicário”, investigado pela Polícia Federal.
A crise
mais prolongada teve origem na disputa interna entre Flávio e Michelle
Bolsonaro. O conflito, inicialmente relacionado às articulações eleitorais no
Ceará, extrapolou os bastidores do Partido Liberal e ganhou as redes sociais
após a ex-primeira-dama afirmar publicamente que se sentiu “humilhada” durante
as discussões sobre a formação de palanques estaduais. A crise provocou
desgaste na imagem de unidade do bolsonarismo e levou Michelle a se afastar da
presidência do PL Mulher, movimento interpretado por aliados como uma perda
relevante para a campanha.
Na
tentativa de reduzir os efeitos da disputa e melhorar seu desempenho entre as
mulheres, Flávio passou a adotar um discurso mais direcionado a esse público,
lançando propostas específicas e defendendo que pautas ligadas à proteção
feminina também sejam abraçadas pela direita. A mudança, contudo, provocou
resistência em parte da base conservadora, que passou a acusá-lo de aderir a
bandeiras tradicionalmente associadas à esquerda. Em resposta, o senador
afirmou que não havia “virado feministo”, mas apenas buscava ampliar o diálogo
com um segmento considerado estratégico para a eleição.
Outro
foco de desgaste surgiu após Flávio divulgar nas redes sociais uma carta
escrita por Jair Bolsonaro. O documento, lido pelo senador, continha uma
manifestação de apoio do ex-presidente à sua candidatura e defendia a união do
grupo político. A repercussão levou o ministro Alexandre de Moraes a solicitar
esclarecimentos sobre a divulgação e a determinar a suspensão, por 90 dias, das
visitas de Flávio ao pai, sob o entendimento de que a publicação poderia
contrariar as restrições impostas ao ex-presidente. O caso também passou a ser
analisado sob a ótica da legislação eleitoral.
Apesar
da sequência de episódios, a direção nacional do PL procura demonstrar
tranquilidade. O presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, minimizou a
repercussão da fotografia divulgada na última quarta-feira.
“Fotos,
nós tiramos com todos que pedem para tirar.”, disse ao Correio.
No
Senado, o líder da oposição, Izalci Lucas (PL-DF), também saiu em defesa do
presidenciável após a divulgação da carta de Jair Bolsonaro. Para ele, a
atitude do senador foi correta.
“(Flávio)
acertou, até porque essa carta não foi a primeira. Foi a quinta. O Lula fez
isso quando estava preso. O Zanin fez a leitura da Carta aos Brasileiros.”,
disse em entrevista à reportagem.
O
parlamentar também criticou a decisão do ministro Alexandre de Moraes que
suspendeu por 90 dias as visitas do senador ao ex-presidente.
“Infelizmente
o ministro Alexandre de Moraes primeiro condenou a 90 dias sem visita e deu 48
horas para apurar. Ou seja, primeiro condena para depois investigar. A
Constituição garante essa relação. Não existe preso incomunicável pela
Constituição e, mais, ele é advogado no processo e tem direito a tudo isso.”
Questionado
sobre a possibilidade de novos fatos surgirem ao longo da campanha, Izalci
afirmou não ver motivo para preocupação.
“O PL
não tem essa preocupação, pois o próprio Flávio disse que não tem nada que
possa comprometer nosso projeto.”
Na
Câmara, o líder da oposição, Cabo Gilberto Silva (PL-PB), adotou o mesmo tom.
“(Flávo)
não errou nada, acertou. O erro é o Brasil tá vendo a ditadura da toga, isso aí
que tá o erro.”, disse ao Correio.
As
declarações reforçam a estratégia adotada pelo partido de atribuir os desgastes
a uma suposta perseguição política e judicial, discurso que busca manter
mobilizada a base bolsonarista em meio às turbulências da campanha.
Nos
bastidores, entretanto, o cenário é mais cauteloso. Fontes ouvidas pelo
Correio, sob reserva, relatam preocupação com a possibilidade de surgirem novos
vídeos, fotografias ou documentos capazes de gerar desgastes adicionais durante
a corrida presidencial. O receio é que eventuais revelações ocorram após as
convenções partidárias, quando alterações na chapa se tornam politicamente mais
complexas.
Os
reflexos já são perceptíveis nas redes sociais. Levantamento da Nexus mostrou
que as publicações relacionadas à foto de Flávio com “Sicário” registraram
1.247.615 interações em apenas 24 horas, volume 22% superior ao observado em
conteúdos sobre o tarifaço anunciado pelos Estados Unidos. O dado evidencia a
capacidade desses episódios de dominar o debate público e deslocar a discussão
sobre propostas e programas de governo.
Para o
cientista político Rudá Ricci, presidente do Instituto Cultiva, a sucessão de
acontecimentos criou um ambiente desfavorável para a candidatura. “É evidente.
Esta série de acontecimentos não ajuda nenhuma candidatura.” Ainda assim, ele
pondera que não há elementos suficientes para caracterizar uma crise eleitoral
irreversível.
“Só
será uma crise estrondosa se a intenção de voto dele ficar abaixo de 29%,
porque aí seria perda de capital eleitoral bolsonarista.” Segundo Ricci, a
carta divulgada por Flávio teve impacto restrito ao eleitorado mais fiel. “O
que parece é que ele engajou a base dele mesmo, a bolha.”
Na
avaliação do cientista político, a repercussão da fotografia com “Sicário”
acabou neutralizando o efeito positivo que a campanha buscava obter com a
mensagem de Jair Bolsonaro. “A foto dele com o Sicário derrubou essa história
da carta do Jair na própria base dele. Ficaram perplexos com essa foto.”
Para
ele, o principal problema está no acúmulo dos episódios. “A fase dele é
péssima. Não dá para analisar separado. Tem que ser no conjunto. Como a própria
coordenação da campanha fala, ele está tendo uma crise a cada dois dias.”
O
professor de Direito Eleitoral da PUC-SP Roberto Beijato Júnior avalia que
ainda é cedo para medir os efeitos eleitorais da sequência de desgastes. “Dizer
se a campanha do Flávio ficou enfraquecida ainda é prematuro, porque a gente
precisa ver como a equipe dele vai reagir a esses acontecimentos e como o
eleitorado vai repercutir isso.”
Segundo
ele, o impacto mais evidente até agora é a mudança de postura da campanha. “Ela
fica numa posição defensiva porque ele fica justificando uma série de coisas.”
Beijato
observa que os conflitos internos da direita contribuíram para ampliar a
percepção de fragilidade.
“Enquanto
vemos no campo da esquerda os problemas sendo resolvidos nos bastidores, na
direita eles são trazidos a público. Fica-se lavando roupa suja em público.”
Na
avaliação do especialista, a carta de Jair Bolsonaro fortalece a candidatura
dentro do núcleo bolsonarista, mas possui alcance limitado entre eleitores fora
desse grupo.
“Ela
beneficia a campanha dele para aquele eleitorado estritamente bolsonarista.”
“O
Flávio tem um voto muito bem desenhado, que é o voto bolsonarista. O Lula tem
um voto muito bem desenhado, que é o voto da esquerda. No meio disso há uma
margem de eleitores indefinidos que precisam ser conquistados.”
• Lindbergh: “o bolsonarismo está na
defensiva”
O
deputado federal Lindbergh Faria (PT-RJ) avalia que a disputa presidencial
entrou em uma nova fase, marcada pelo enfraquecimento da ofensiva política do
bolsonarismo e pela recuperação da imagem do governo do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva. Em entrevista ao Bom Dia 247, o parlamentar afirmou que as
pesquisas recentes refletem uma mudança no ambiente político e indicam
dificuldades crescentes para a candidatura de Flávio Bolsonaro.
Segundo
Lindbergh, os levantamentos mais recentes apontam aumento da vantagem de Lula
sobre o adversário em cenários de segundo turno. Para ele, a mudança decorre
tanto da melhora dos indicadores do governo quanto do desgaste enfrentado pelo
campo bolsonarista após uma sequência de denúncias e investigações.
“Hoje o
bolsonarismo está na defensiva. Eles perderam qualquer capacidade de sustentar
aquele discurso que usavam durante anos contra o Lula e o PT.”
Na
avaliação do deputado, a principal transformação ocorreu na narrativa política
da oposição. Ele argumenta que o discurso centrado no combate à corrupção
perdeu força diante das investigações que passaram a atingir integrantes do
próprio grupo político liderado pela família Bolsonaro.
Lindbergh
citou como exemplo a repercussão dos áudios envolvendo o empresário Daniel
Vorcaro e Flávio Bolsonaro. Segundo ele, as contradições apresentadas pelo
senador contribuíram para enfraquecer a imagem construída pelo bolsonarismo ao
longo dos últimos anos.
O
parlamentar relembrou um episódio ocorrido no plenário da Câmara dos Deputados,
quando confrontou Flávio Bolsonaro dias após a divulgação das gravações.
“Eu
cobrei explicações sobre as contradições dele. O silêncio do lado deles era
constrangedor. Eles ficaram completamente desarmados.”
Apesar
das dificuldades enfrentadas pela oposição, Lindbergh afirma que a disputa
permanece aberta. Segundo ele, o eleitorado bolsonarista mantém um nível de
fidelidade que impede qualquer acomodação por parte da campanha governista.
“É uma
eleição dura. A gente não pode cair no clima de já ganhou.”
Ao
mesmo tempo, o deputado avalia que os resultados do governo federal começam a
produzir efeitos na percepção da população. Para ele, políticas econômicas e
sociais implementadas nos últimos meses passaram a ser sentidas diretamente
pelos trabalhadores.
Entre
as medidas destacadas estão a queda do desemprego, a renegociação de dívidas
por meio do programa Desenrola, os reajustes reais do salário mínimo e a
ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5
mil.
Segundo
Lindbergh, esses fatores ajudam a explicar a melhora registrada nos índices de
aprovação do governo, especialmente no Sudeste, onde, de acordo com ele, a
diferença entre aprovação e desaprovação caiu de forma significativa desde
março.
“Finalmente
parece que as pessoas começam a sentir tudo aquilo que o Lula está fazendo.”
O
deputado também afirmou que o debate sobre o fim da escala 6×1 vem ampliando o
diálogo entre o governo e a população. Mesmo com a proposta travada no Senado,
ele considera que o tema passou a integrar as conversas nas ruas e contribui
para aproximar o governo das demandas dos trabalhadores.
Para
Lindbergh, a combinação entre a recuperação dos indicadores econômicos e o
desgaste político do bolsonarismo alterou o ambiente eleitoral, mas não elimina
a necessidade de manter uma campanha intensa.
Embora
veja um cenário favorável ao presidente Lula, ele sustenta que o resultado
dependerá da capacidade de transformar a vantagem registrada nas pesquisas em
apoio consolidado até o dia da votação.
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PF “vai desmontar” possível elo entre Dark Horse e PCC, diz Lindbergh
O
deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) afirmou que a Polícia Federal “vai
desmontar tudo isso” ao comentar a abertura do inquérito que apura possíveis
relações entre a Entre Investimentos e uma estrutura investigada por suspeita
de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Em vídeo divulgado nas
redes sociais, o parlamentar sustentou que a investigação pode esclarecer
movimentações financeiras envolvendo o empresário Daniel Vorcaro, o
financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, e repasses que,
segundo ele, alcançam Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro.
Segundo
Lindbergh, a Polícia Federal já solicitou o compartilhamento de informações
produzidas pela Polícia Civil de São Paulo para aprofundar a apuração. O
deputado relacionou a investigação a reportagens já publicadas sobre a Entre
Investimentos e afirmou que as diligências devem esclarecer a origem e o
destino de recursos movimentados pela empresa.
“Agora
o bicho vai pegar. Olha, eu entrei com a petição na Polícia Federal e a Polícia
Federal abriu um inquérito para investigar a relação entre a Entre
Investimentos e o PCC. Quero explicar vocês”, declarou.
Ao
abordar o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro, Lindbergh afirmou que a
Entre Investimentos foi utilizada por Vorcaro para realizar as transferências
destinadas ao fundo responsável pela produção.
“A
Entre Investimentos foi a empresa que o Vorcaro usou para passar o dinheiro
para Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro, os 61 milhões que foram para o
Texas, para o fundo Ravengate”, disse.
Na
sequência, o parlamentar mencionou um contrato firmado pelo Instituto Conhecer
Brasil com a Prefeitura de São Paulo e afirmou que parte da execução do projeto
foi subcontratada.
“Quero
lembrar você, a Carina Gama, a produtora do filme, tem o Instituto Conhecer
Brasil, que fez um contrato com a Prefeitura de São Paulo para instalar pontos
de Wi-Fi. 108 milhões, depois fizeram aditivo. Pois bem, ela subcontratou por
12 milhões Alex Leandro Bispo para implantar esses pontos de Wi-Fi, só que essa
figura aqui já foi identificada pela Polícia Civil de São Paulo. É um dos
quadros mais relevantes do PCC”, afirmou.
Lindbergh
também citou uma segunda linha de investigação envolvendo movimentações
financeiras atribuídas à Entre Investimentos.
“Esse é
o primeiro ponto, mas tem um segundo. Essa Entre Investimentos passou mais de
20 milhões através de um fundo chamado Golden Style para o BK Bank, que é o
banco do PCC. Isso foi descoberto na Operação Carbono Oculto”, declarou.
Para o
deputado, as investigações podem estabelecer conexões entre diferentes fatos
que vêm sendo apurados pelas autoridades.
“Olha
como a coisa está ficando grave. Nós estamos ligando o Vorcaro, a família
Bolsonaro e ao PCC. Então, é dinheiro de corrupção do Banco Master. Mas tem
mais coisa, gente. Ligação com organização criminosa com o Primeiro Comando da
Capital”, afirmou.
Ao
concluir o vídeo, Lindbergh disse esperar que a Polícia Federal avance nas
investigações e responsabilize os envolvidos caso sejam comprovadas
irregularidades.
“A PF
vai desmontar tudo isso. É por isso que eu digo. O destino do Flávio Bolsonaro
vai ser igual ao do Eduardo e do Jair Bolsonaro. Ele vai ser julgado pela
Justiça Brasileira”, declarou.
Fonte:
Correio Braziliense/Brasil 247

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