terça-feira, 21 de julho de 2026

Crise em série pressiona campanha de Flávio Bolsonaro

A campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) enfrenta seu período mais delicado desde o início da corrida ao Palácio do Planalto. Em poucas semanas, uma sucessão de episódios colocou o senador no centro de controvérsias políticas, judiciais e eleitorais, obrigando aliados a atuarem em diversas frentes para conter danos e preservar o apoio do eleitorado conservador.

O acúmulo de desgastes inclui a divulgação de áudios relacionados ao banqueiro Daniel Vorcaro, os embates públicos com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, a repercussão da carta de apoio escrita por Jair Bolsonaro — que acabou motivando uma reação do Supremo Tribunal Federal (STF) —, as críticas de setores da direita à estratégia de aproximação com o eleitorado feminino e, a divulgação de uma fotografia ao lado de Luiz Phillipi da Costa de Oliveira, conhecido como “Sicário”, investigado pela Polícia Federal.

A crise mais prolongada teve origem na disputa interna entre Flávio e Michelle Bolsonaro. O conflito, inicialmente relacionado às articulações eleitorais no Ceará, extrapolou os bastidores do Partido Liberal e ganhou as redes sociais após a ex-primeira-dama afirmar publicamente que se sentiu “humilhada” durante as discussões sobre a formação de palanques estaduais. A crise provocou desgaste na imagem de unidade do bolsonarismo e levou Michelle a se afastar da presidência do PL Mulher, movimento interpretado por aliados como uma perda relevante para a campanha.

Na tentativa de reduzir os efeitos da disputa e melhorar seu desempenho entre as mulheres, Flávio passou a adotar um discurso mais direcionado a esse público, lançando propostas específicas e defendendo que pautas ligadas à proteção feminina também sejam abraçadas pela direita. A mudança, contudo, provocou resistência em parte da base conservadora, que passou a acusá-lo de aderir a bandeiras tradicionalmente associadas à esquerda. Em resposta, o senador afirmou que não havia “virado feministo”, mas apenas buscava ampliar o diálogo com um segmento considerado estratégico para a eleição.

Outro foco de desgaste surgiu após Flávio divulgar nas redes sociais uma carta escrita por Jair Bolsonaro. O documento, lido pelo senador, continha uma manifestação de apoio do ex-presidente à sua candidatura e defendia a união do grupo político. A repercussão levou o ministro Alexandre de Moraes a solicitar esclarecimentos sobre a divulgação e a determinar a suspensão, por 90 dias, das visitas de Flávio ao pai, sob o entendimento de que a publicação poderia contrariar as restrições impostas ao ex-presidente. O caso também passou a ser analisado sob a ótica da legislação eleitoral.

Apesar da sequência de episódios, a direção nacional do PL procura demonstrar tranquilidade. O presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, minimizou a repercussão da fotografia divulgada na última quarta-feira.

“Fotos, nós tiramos com todos que pedem para tirar.”, disse ao Correio.

No Senado, o líder da oposição, Izalci Lucas (PL-DF), também saiu em defesa do presidenciável após a divulgação da carta de Jair Bolsonaro. Para ele, a atitude do senador foi correta.

“(Flávio) acertou, até porque essa carta não foi a primeira. Foi a quinta. O Lula fez isso quando estava preso. O Zanin fez a leitura da Carta aos Brasileiros.”, disse em entrevista à reportagem.

O parlamentar também criticou a decisão do ministro Alexandre de Moraes que suspendeu por 90 dias as visitas do senador ao ex-presidente.

“Infelizmente o ministro Alexandre de Moraes primeiro condenou a 90 dias sem visita e deu 48 horas para apurar. Ou seja, primeiro condena para depois investigar. A Constituição garante essa relação. Não existe preso incomunicável pela Constituição e, mais, ele é advogado no processo e tem direito a tudo isso.”

Questionado sobre a possibilidade de novos fatos surgirem ao longo da campanha, Izalci afirmou não ver motivo para preocupação.

“O PL não tem essa preocupação, pois o próprio Flávio disse que não tem nada que possa comprometer nosso projeto.”

Na Câmara, o líder da oposição, Cabo Gilberto Silva (PL-PB), adotou o mesmo tom.

“(Flávo) não errou nada, acertou. O erro é o Brasil tá vendo a ditadura da toga, isso aí que tá o erro.”, disse ao Correio.

As declarações reforçam a estratégia adotada pelo partido de atribuir os desgastes a uma suposta perseguição política e judicial, discurso que busca manter mobilizada a base bolsonarista em meio às turbulências da campanha.

Nos bastidores, entretanto, o cenário é mais cauteloso. Fontes ouvidas pelo Correio, sob reserva, relatam preocupação com a possibilidade de surgirem novos vídeos, fotografias ou documentos capazes de gerar desgastes adicionais durante a corrida presidencial. O receio é que eventuais revelações ocorram após as convenções partidárias, quando alterações na chapa se tornam politicamente mais complexas.

Os reflexos já são perceptíveis nas redes sociais. Levantamento da Nexus mostrou que as publicações relacionadas à foto de Flávio com “Sicário” registraram 1.247.615 interações em apenas 24 horas, volume 22% superior ao observado em conteúdos sobre o tarifaço anunciado pelos Estados Unidos. O dado evidencia a capacidade desses episódios de dominar o debate público e deslocar a discussão sobre propostas e programas de governo.

Para o cientista político Rudá Ricci, presidente do Instituto Cultiva, a sucessão de acontecimentos criou um ambiente desfavorável para a candidatura. “É evidente. Esta série de acontecimentos não ajuda nenhuma candidatura.” Ainda assim, ele pondera que não há elementos suficientes para caracterizar uma crise eleitoral irreversível.

“Só será uma crise estrondosa se a intenção de voto dele ficar abaixo de 29%, porque aí seria perda de capital eleitoral bolsonarista.” Segundo Ricci, a carta divulgada por Flávio teve impacto restrito ao eleitorado mais fiel. “O que parece é que ele engajou a base dele mesmo, a bolha.”

Na avaliação do cientista político, a repercussão da fotografia com “Sicário” acabou neutralizando o efeito positivo que a campanha buscava obter com a mensagem de Jair Bolsonaro. “A foto dele com o Sicário derrubou essa história da carta do Jair na própria base dele. Ficaram perplexos com essa foto.”

Para ele, o principal problema está no acúmulo dos episódios. “A fase dele é péssima. Não dá para analisar separado. Tem que ser no conjunto. Como a própria coordenação da campanha fala, ele está tendo uma crise a cada dois dias.”

O professor de Direito Eleitoral da PUC-SP Roberto Beijato Júnior avalia que ainda é cedo para medir os efeitos eleitorais da sequência de desgastes. “Dizer se a campanha do Flávio ficou enfraquecida ainda é prematuro, porque a gente precisa ver como a equipe dele vai reagir a esses acontecimentos e como o eleitorado vai repercutir isso.”

Segundo ele, o impacto mais evidente até agora é a mudança de postura da campanha. “Ela fica numa posição defensiva porque ele fica justificando uma série de coisas.”

Beijato observa que os conflitos internos da direita contribuíram para ampliar a percepção de fragilidade.

“Enquanto vemos no campo da esquerda os problemas sendo resolvidos nos bastidores, na direita eles são trazidos a público. Fica-se lavando roupa suja em público.”

Na avaliação do especialista, a carta de Jair Bolsonaro fortalece a candidatura dentro do núcleo bolsonarista, mas possui alcance limitado entre eleitores fora desse grupo.

“Ela beneficia a campanha dele para aquele eleitorado estritamente bolsonarista.”

“O Flávio tem um voto muito bem desenhado, que é o voto bolsonarista. O Lula tem um voto muito bem desenhado, que é o voto da esquerda. No meio disso há uma margem de eleitores indefinidos que precisam ser conquistados.”

•        Lindbergh: “o bolsonarismo está na defensiva”

O deputado federal Lindbergh Faria (PT-RJ) avalia que a disputa presidencial entrou em uma nova fase, marcada pelo enfraquecimento da ofensiva política do bolsonarismo e pela recuperação da imagem do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista ao Bom Dia 247, o parlamentar afirmou que as pesquisas recentes refletem uma mudança no ambiente político e indicam dificuldades crescentes para a candidatura de Flávio Bolsonaro.

Segundo Lindbergh, os levantamentos mais recentes apontam aumento da vantagem de Lula sobre o adversário em cenários de segundo turno. Para ele, a mudança decorre tanto da melhora dos indicadores do governo quanto do desgaste enfrentado pelo campo bolsonarista após uma sequência de denúncias e investigações.

“Hoje o bolsonarismo está na defensiva. Eles perderam qualquer capacidade de sustentar aquele discurso que usavam durante anos contra o Lula e o PT.”

Na avaliação do deputado, a principal transformação ocorreu na narrativa política da oposição. Ele argumenta que o discurso centrado no combate à corrupção perdeu força diante das investigações que passaram a atingir integrantes do próprio grupo político liderado pela família Bolsonaro.

Lindbergh citou como exemplo a repercussão dos áudios envolvendo o empresário Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro. Segundo ele, as contradições apresentadas pelo senador contribuíram para enfraquecer a imagem construída pelo bolsonarismo ao longo dos últimos anos.

O parlamentar relembrou um episódio ocorrido no plenário da Câmara dos Deputados, quando confrontou Flávio Bolsonaro dias após a divulgação das gravações.

“Eu cobrei explicações sobre as contradições dele. O silêncio do lado deles era constrangedor. Eles ficaram completamente desarmados.”

Apesar das dificuldades enfrentadas pela oposição, Lindbergh afirma que a disputa permanece aberta. Segundo ele, o eleitorado bolsonarista mantém um nível de fidelidade que impede qualquer acomodação por parte da campanha governista.

“É uma eleição dura. A gente não pode cair no clima de já ganhou.”

Ao mesmo tempo, o deputado avalia que os resultados do governo federal começam a produzir efeitos na percepção da população. Para ele, políticas econômicas e sociais implementadas nos últimos meses passaram a ser sentidas diretamente pelos trabalhadores.

Entre as medidas destacadas estão a queda do desemprego, a renegociação de dívidas por meio do programa Desenrola, os reajustes reais do salário mínimo e a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil.

Segundo Lindbergh, esses fatores ajudam a explicar a melhora registrada nos índices de aprovação do governo, especialmente no Sudeste, onde, de acordo com ele, a diferença entre aprovação e desaprovação caiu de forma significativa desde março.

“Finalmente parece que as pessoas começam a sentir tudo aquilo que o Lula está fazendo.”

O deputado também afirmou que o debate sobre o fim da escala 6×1 vem ampliando o diálogo entre o governo e a população. Mesmo com a proposta travada no Senado, ele considera que o tema passou a integrar as conversas nas ruas e contribui para aproximar o governo das demandas dos trabalhadores.

Para Lindbergh, a combinação entre a recuperação dos indicadores econômicos e o desgaste político do bolsonarismo alterou o ambiente eleitoral, mas não elimina a necessidade de manter uma campanha intensa.

Embora veja um cenário favorável ao presidente Lula, ele sustenta que o resultado dependerá da capacidade de transformar a vantagem registrada nas pesquisas em apoio consolidado até o dia da votação.

<><> PF “vai desmontar” possível elo entre Dark Horse e PCC, diz Lindbergh

O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) afirmou que a Polícia Federal “vai desmontar tudo isso” ao comentar a abertura do inquérito que apura possíveis relações entre a Entre Investimentos e uma estrutura investigada por suspeita de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Em vídeo divulgado nas redes sociais, o parlamentar sustentou que a investigação pode esclarecer movimentações financeiras envolvendo o empresário Daniel Vorcaro, o financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, e repasses que, segundo ele, alcançam Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro.

Segundo Lindbergh, a Polícia Federal já solicitou o compartilhamento de informações produzidas pela Polícia Civil de São Paulo para aprofundar a apuração. O deputado relacionou a investigação a reportagens já publicadas sobre a Entre Investimentos e afirmou que as diligências devem esclarecer a origem e o destino de recursos movimentados pela empresa.

“Agora o bicho vai pegar. Olha, eu entrei com a petição na Polícia Federal e a Polícia Federal abriu um inquérito para investigar a relação entre a Entre Investimentos e o PCC. Quero explicar vocês”, declarou.

Ao abordar o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro, Lindbergh afirmou que a Entre Investimentos foi utilizada por Vorcaro para realizar as transferências destinadas ao fundo responsável pela produção.

“A Entre Investimentos foi a empresa que o Vorcaro usou para passar o dinheiro para Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro, os 61 milhões que foram para o Texas, para o fundo Ravengate”, disse.

Na sequência, o parlamentar mencionou um contrato firmado pelo Instituto Conhecer Brasil com a Prefeitura de São Paulo e afirmou que parte da execução do projeto foi subcontratada.

“Quero lembrar você, a Carina Gama, a produtora do filme, tem o Instituto Conhecer Brasil, que fez um contrato com a Prefeitura de São Paulo para instalar pontos de Wi-Fi. 108 milhões, depois fizeram aditivo. Pois bem, ela subcontratou por 12 milhões Alex Leandro Bispo para implantar esses pontos de Wi-Fi, só que essa figura aqui já foi identificada pela Polícia Civil de São Paulo. É um dos quadros mais relevantes do PCC”, afirmou.

Lindbergh também citou uma segunda linha de investigação envolvendo movimentações financeiras atribuídas à Entre Investimentos.

“Esse é o primeiro ponto, mas tem um segundo. Essa Entre Investimentos passou mais de 20 milhões através de um fundo chamado Golden Style para o BK Bank, que é o banco do PCC. Isso foi descoberto na Operação Carbono Oculto”, declarou.

Para o deputado, as investigações podem estabelecer conexões entre diferentes fatos que vêm sendo apurados pelas autoridades.

“Olha como a coisa está ficando grave. Nós estamos ligando o Vorcaro, a família Bolsonaro e ao PCC. Então, é dinheiro de corrupção do Banco Master. Mas tem mais coisa, gente. Ligação com organização criminosa com o Primeiro Comando da Capital”, afirmou.

Ao concluir o vídeo, Lindbergh disse esperar que a Polícia Federal avance nas investigações e responsabilize os envolvidos caso sejam comprovadas irregularidades.

“A PF vai desmontar tudo isso. É por isso que eu digo. O destino do Flávio Bolsonaro vai ser igual ao do Eduardo e do Jair Bolsonaro. Ele vai ser julgado pela Justiça Brasileira”, declarou.

 

Fonte: Correio Braziliense/Brasil 247

 

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