Derrotas,
controle institucional e repressão: como Keiko levou o fujimorismo de volta ao
poder
Esopo,
o escritor grego do século VI da Era Cristã, narrou com engenho a fábula da
Cigarra e a comparou com a formiga. A Cigarra não gostava de trabalhar.
Preferia viver tocando música e cantando, ao mesmo tempo em que era sustentada
por aqueles que trabalhavam para ela. Somente na idade adulta alçava voo e
mostrava uma imagem diferente da anterior, prazerosa e confortável. Não é
necessário dizer que se parecia com certas personalidades do cenário político
peruano que padecem das mesmas limitações e que hoje aspiram a alçar voo à
sombra do drama nacional. Vejamos:
Houve
um tempo em que os panegiristas do fujimorismo procuraram relegar o sobrenome
Fujimori e se referir a Keiko invocando apenas seu primeiro nome. Foram esses
os anos iniciais do século XXI, depois que, em novembro de 2000, o mandatário
da “Década Dantesca” fugiu do país e encontrou refúgio no Japão de seus
antepassados. Esse legado ainda ressoa hoje. Muito mais gente fala apenas de
“Keiko” e esquece, consciente ou inconscientemente, que seu sobrenome é
Fujimori.
Na
etapa mais recente, quando o ditador já havia falecido e foi sepultado quase
com honras de chefe de Estado, Keiko decidiu, timidamente, retomar sua
identidade original recorrendo ao sobrenome de seu pai e chegou inclusive a
reivindicar “as partes boas” de sua gestão governamental. Já recuperado seu
acesso ao poder, a ex-primeira-dama retomou com força sua antiga identidade e
passou a se apresentar como “a senhora Fujimori”, sem qualquer hesitação. Daqui
em diante, será conhecida como “a presidente Fujimori”. Com o tempo, “Keiko”
será apenas para seus íntimos.
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Os inícios de uma longa carreira
Não se
deve esquecer, entretanto, que a senhora em questão possui uma longa carreira
política. Além disso, nascida em 1975, viveu, desde o fim da adolescência,
entre os faustos do poder, foi seduzida por eles e sempre lutou para respirar
os ares palacianos dos quais, finalmente, poderá desfrutar no próximo período
político peruano. O início de tudo ocorreu em 1990, quando seu pai, um obscuro
engenheiro e professor universitário, derrotou nas eleições presidenciais o
escritor Mario Vargas Llosa, que prometia aplicar um choque neoliberal para
“recuperar” a economia dos peruanos, afetada por uma administração populista da
etapa anterior.
Como se
recorda, o “chinês da mandioca”, como também era conhecido o engenheiro eleito
naquele ano, conduziu durante a campanha eleitoral uma estratégia de forte
apelo popular contra esse golpe econômico, que ele próprio aplicaria com
entusiasmo uma vez empossado como presidente. Keiko, que já não era uma criança
— estava então com cerca de 17 anos — pôde perceber a mudança camaleônica de
seu pai, que justificou a reviravolta afirmando que a política de “choque” era
mais eficaz do que aquela que originalmente havia proposto. Esse gesto, que não
foi uma retificação generosa, mas uma mudança radical de opção política, levou
o presidente Alberto Fujimori a se reconciliar com o Fundo Monetário
Internacional, os investidores estrangeiros e a classe dominante de um país já
severamente afetado pela corrupção e pelo engano. Certamente, Keiko pôde
conhecer e apreciar essa “mudança de rumo”, que lhe mostrou como mudanças desse
tipo poderiam lhe ser úteis nos anos seguintes.
Em
abril de 1992, Alberto Fujimori assumiu o controle absoluto do poder graças a
um golpe de Estado que conseguiu realizar associando-se aos setores mais
conservadores da sociedade e à cúpula militar, que se fortaleceu à sua sombra
em busca de benefícios e privilégios. Poucas semanas depois, entre o fim de
abril e o começo de maio, ocorreu a primeira crise do casal, e Susana Higuchi —
esposa de Fujimori — foi sequestrada, detida, levada às celas do Serviço de
Inteligência e brutalmente torturada. Keiko acompanhou atentamente os
acontecimentos e, no ano seguinte, em 1993, aceitou substituir sua mãe no cargo
de primeira-dama da Nação, do qual Susana havia sido destituída. Durante sete
anos exerceu essa função à sombra de seu pai. Nesse período, ocorreram muitos
fatos: a perseguição aos opositores, a prisão de jornalistas, o atropelo das
principais liberdades, a destruição do aparato produtivo do país, a liquidação
das empresas públicas, a corrupção generalizada, as operações do Grupo Colina e
numerosos massacres no interior do país. Foi à sombra desses acontecimentos que
ela adquiriu sua “maturidade política”. Nesses anos, ela e seus irmãos também
estudaram no exterior, e o país gastou com sua educação cerca de 1 milhão e 350
mil dólares, pagos a universidades de Nova York e Boston, nos Estados Unidos.
Ela
administrou esses recursos, que lhe foram entregues diretamente em moeda
estrangeira pelo verdadeiro chefe do Serviço de Inteligência e assessor de seu
pai. Mais tarde, Keiko afirmaria que havia “aconselhado” seu pai a afastar esse
assessor de seu entorno e a renunciar, no ano 2000, à candidatura para um
terceiro mandato presidencial. Não existe qualquer prova de que isso tenha
ocorrido. Há prova, no entanto, da recusa de Keiko em aceitar a realidade
quando seu pai fugiu do país e enviou de Tóquio, por fax, sua carta de renúncia
à Presidência da República. Forçada pelas circunstâncias, acabou sendo obrigada
a deixar as instalações do Palácio do Governo em novembro de 2000, o que fez
com grande pesar. Depois desse episódio e de um “descanso reparador” nos
Estados Unidos, voltaria ao Peru para iniciar ali sua própria “carreira
política”.
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A construção de seu próprio projeto
Foi
mais precisamente em 2006 que Keiko iniciou a tarefa de construir sua própria
alternativa política. Naquele momento, seu pai estava no Japão, onde havia
recuperado a nacionalidade japonesa para concorrer ao Senado daquele país e
contraído matrimônio com uma japonesa milionária, a senhora Naomi Kataoka, que
o abandonaria pouco tempo depois. Keiko encarou sua tarefa com desânimo. Já
havia se acostumado ao papel de protagonista, ou seja, de principal
protagonista de uma disputa singular. Não lhe agradava ser apenas mais uma
entre 130 parlamentares, com pouca voz e nenhuma iniciativa. Por isso, não há
registro de um único projeto de lei apresentado por ela. Tampouco de qualquer
proposta legislativa. Permaneceu calada e sem maiores preocupações durante boa
parte do período que compreendeu seu mandato parlamentar. Mas esse mandato não
foi cumprido integralmente. Ela se deu ao luxo de solicitar 500 dias de
“licença”. Nesse intervalo, foi para os Estados Unidos, onde concluiu seus
estudos e conheceu Mark Vito Villanella, que viria a ser seu marido, um cidadão
norte-americano de quem se divorciaria em 2024.
Foi
nesse período que o Ministério Público iniciou uma séria investigação contra
Keiko Fujimori. Ela foi acusada da prática de diversos crimes: corrupção,
lavagem de dinheiro, falsidade genérica e outros. Como consequência, foi presa
em três ocasiões, totalizando 500 dias de encarceramento. Finalmente, já na
etapa final desse processo político, em 2025, o Tribunal Constitucional a seu
serviço a livrou de todos os processos. Atenção: não a declarou inocente de
nada, nem a absolveu de qualquer acusação. Simplesmente decidiu que nenhum
processo deveria ser instaurado contra ela, nem que ela deveria ser
investigada. E isso foi decidido por maioria de votos no Tribunal
Constitucional. Tratava-se, portanto, de habilitá-la a qualquer custo para que
pudesse ser candidata em 2026. Quando isso foi concretizado, veio a vingança:
os promotores que haviam conduzido a acusação foram expulsos do serviço público
e submetidos a uma dura campanha de difamação.
Movida
por seu desejo de projeção pública e por uma crescente ambição de poder, Keiko
candidatou-se à Presidência da República em 2011, explorando duas narrativas: a
“recuperação econômica” e “a derrota do terrorismo”, ambas atribuídas a seu pai
pela propaganda da classe dominante. Com base nelas e em uma feroz campanha
anticomunista, conseguiu obter a maior votação no primeiro turno das eleições,
mas foi derrotada no segundo turno por um militar, o coronel Ollanta Humala,
que levantou algumas bandeiras progressistas, mas depois continuou aplicando o
“modelo” neoliberal herdado de Alberto Fujimori e também seguido obedientemente
pelos presidentes seguintes, Alejandro Toledo e Alan García. Keiko não estava
acostumada com a derrota. Mesmo assim, recusou-se a reconhecer os resultados,
gritou “fraude” o mais alto que pôde e acusou todos os seus adversários de
terem conspirado para prejudicá-la, embora, ao final, tenha sido obrigada a se
render aos fatos e aceitar que havia perdido. Retirou-se para seus “quartéis de
descanso”, não sem antes assegurar sua liderança no Fuerza Popular e garantir
uma “contribuição parlamentar” proveniente de seus congressistas, que lhe
permitiria continuar vivendo sem trabalhar, como vinha fazendo até então.
O
período de 2016 a 2021 foi particularmente complexo e difícil para o país.
Graças à maioria parlamentar reforçada pelos cinco congressistas da APRA, o
Fuerza Popular conquistou maioria absoluta e, portanto, pôde fazer e desfazer o
que bem entendesse. E o que fez foi destruir. Censurou ministros, ameaçou a
estabilidade política do país, elaborou modelos de gestão autoritários e, por
fim, empenhou-se em declarar a vacância da Presidência da República para
expulsar PPK do governo. No limite, o presidente renunciou em março de 2018, em
meio a um cenário extremamente conturbado. O curioso é que um dos motivos do
confronto entre o presidente e Keiko foi justamente a questão da liberdade de
Alberto Fujimori, que, em 2008, havia sido processado e condenado a 20 anos de
prisão. O antigo mandatário, que permaneceu em Tóquio até 2007, optou por
retornar ao Peru, mas acabou no Chile, onde foi detido a pedido das autoridades
peruanas e, posteriormente, enviado ao país para ser julgado. Durante todo esse
período, Keiko permaneceu em silêncio, mas, quando, em 2017, PPK falou da
possibilidade de conceder-lhe um indulto, Keiko se opôs. Algo semelhante já
havia acontecido em 2011. Na condição de presidente, Alan García quis conceder
indulto a Fujimori ao final de seu mandato e, por isso, convocou Keiko e
Ollanta Humala — os dois candidatos mais votados nas eleições daquele ano —
para ouvir suas opiniões. Ollanta aceitou a ideia, mas Keiko a rejeitou.
Recusava-se a aceitar a liberdade de seu pai porque queria ser ela própria quem
a concedesse. E, para isso, precisava ser presidente. Em 2017, foi seu irmão
Kenji quem negociou e acertou a liberdade de Alberto Fujimori em troca de apoio
político ao governo. Keiko o expulsou do partido e fez com que fosse punido
pelo Congresso. Por muito pouco ele não acabou preso.
O então
vice-presidente, Martín Vizcarra, assumiu o governo após a renúncia de PPK.
Inicialmente contou com a aprovação de Keiko, mas ela depois quis impor-lhe
ministros, o que ele não aceitou. Diante disso, ela lhe declarou guerra. O
primeiro passo foi o fechamento do Congresso por Vizcarra. O segundo foi a
declaração de vacância de Vizcarra. O terceiro foi sua inabilitação política,
seguida de seu processo judicial e de sua condenação a 15 anos de prisão. É
onde se encontra atualmente.
Esse é
um procedimento utilizado pelo fujimorismo: aqueles que se opuseram a ele foram
acusados de qualquer coisa e condenados. Hoje todos estão presos: Toledo,
Humala, Vizcarra e Castillo. No íntimo de Keiko amadureceu uma ideia: vocês me
prenderam; agora eu prendo todos vocês. E é assim que segue.
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2021, a última derrota
O ano
de 2021 foi a última derrota de Keiko. E, para ela, foi a última derrota que
poderia sofrer. Daí em diante, nunca mais. Ela mesma disse isso em um ato
partidário: “nunca mais voltarão a fazer isso conosco”. Em 2021, também se
recusou a aceitar os resultados. Não apenas alegou fraude. Também recorreu aos
organismos internacionais, à OEA. No extremo, enviou emissários aos Estados
Unidos para “explicar ao seu governo a gravidade da situação peruana caso fosse
permitido que um comunista como Pedro Castillo assumisse a Presidência”. Rafael
López Aliaga, colaborador de Keiko, pediu expressamente o envio de fuzileiros
navais dos Estados Unidos para impedir que isso se concretizasse. Por fim, teve
de aceitar a posse de Castillo, conforme determinou o processo eleitoral
daquele ano. Mas, desde o primeiro dia, conspirou para derrubar seu governo.
A
primeira medida foi constituir um bloco de oposição reunindo todas as forças da
direita peruana. Assim, conseguiu maioria parlamentar. Depois, graças a essa
maioria, foi tomando uma a uma as instituições públicas. Dessa forma,
apoderou-se da Procuradoria-Geral da Nação, da Controladoria-Geral da
República, da Suprema Corte, do Júri Nacional de Eleições, do Escritório
Nacional de Processos Eleitorais, da Junta Nacional de Justiça, do Banco
Central de Reserva, da Superintendência de Bancos e Seguros, do Tribunal
Constitucional e até mesmo da Defensoria do Povo. Para esse “assalto” às
instituições do Estado, foi possível “atrair” para sua causa o Perú Libre,
partido de Vladimir Cerrón, que se proclama de esquerda, socialista e até
marxista-leninista. Para “conquistar” esse partido, concedeu uma
vice-presidência do Congresso a Waldemar Cerrón, irmão de Vladimir, que exerceu
essa função durante três anos consecutivos, além da Defensoria do Povo,
instituição que tem voz, mas carece de poder real. Surgiu assim o que o cidadão
comum chama de “a Máfia governante”.
A ela
se deve tudo: as conhecidas leis “pró-crime”, que beneficiam os criminosos e
favorecem suas ações; a nomeação e a destituição de ministros; a indicação de
funcionários para os órgãos do Estado; as concessões, os contratos e as
“boas-propostas” concedidos em benefício dos seus aliados; as dotações
orçamentárias, os orçamentos, as iniciativas legislativas e todas as medidas
emanadas de um poder absoluto que, no entanto, acumulou o desprezo massivo da
população. Esse Congresso contou, nos dois últimos anos, com apenas 5% de
aprovação pública. Mas a etapa decisiva de sua atuação limitou-se ao período
inicial, compreendido entre julho de 2021 e dezembro de 2022, quando Pedro
Castillo foi finalmente derrubado.
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A queda de Castillo e a consolidação de Keiko
Finalmente,
em 7 de dezembro de 2022, a Máfia conseguiu derrubar Pedro Castillo e tomar
plenamente o controle de todos os mecanismos do poder. Utilizou como argumento
um pronunciamento do presidente, no qual, por meio de uma mensagem
televisionada, determinava o fechamento do Congresso, para detê-lo, destituí-lo
e declarar a vacância de seu cargo em apenas duas horas. Tudo aconteceu de
forma tão precipitada que nenhum procedimento foi respeitado. Como dissemos na
época, Pedro Castillo não poderia ser preso porque, naquele momento, gozava da
imunidade presidencial. Ainda assim, foi interceptado em via pública por
patrulhas armadas e conduzido a uma instalação restrita, onde foi detido. Pouco
depois, foi transferido para uma prisão.
No
Congresso, nenhuma moção de vacância foi debatida e nenhum procedimento
parlamentar foi observado. Nem sequer foi admitida uma moção de ordem do dia
para tratar do assunto. Simplesmente colocou-se em votação um pedido de dois
parlamentares para destituí-lo do cargo, quando ele já estava preso. Um
procedimento dessa natureza era completamente ilegal. Ainda assim, em um caso
extremo, isso só poderia ocorrer com o respaldo de quatro quintos do
Legislativo, ou seja, 104 votos, número que jamais foi alcançado. Além disso,
não foi concedido a Castillo o mais mínimo direito de defesa. Todo o
procedimento foi irregular. No mesmo dia, em seu lugar foi empossada a
vice-presidente, Dina Boluarte, que já estava, segundo o texto, articulada com
a Máfia para a execução da operação. Dina Boluarte governou até outubro de 2025
em estreito contato com Keiko Fujimori e completamente submetida aos desígnios
da maioria parlamentar, que deu continuidade à sua atuação “legislativa”,
destituindo juízes e promotores críticos ao fujimorismo. Enquanto isso, com
todos os mecanismos do poder em suas mãos, Keiko candidatou-se mais uma vez à
Presidência da República nas eleições de 2026.
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Na certeza da vitória
Com
todos os órgãos do Estado sob seu controle, contando com aportes milionários de
recursos fornecidos pelas grandes empresas, com a adesão da cúpula militar e o
apoio da Polícia Nacional, Keiko Fujimori candidatou-se pela quarta vez em
2026. Desta vez, venceu. Sua “vitória“, no entanto, é
considerada altamente questionável pelo autor do texto. Ela perdeu na votação
realizada no Peru. Perdeu também em 15 das 24 regiões do país e em pelo menos
75% do território nacional. Ela só “venceu” na votação realizada no exterior,
mais precisamente nos Estados Unidos. Mas ali não foram cumpridos os requisitos
estabelecidos pelas normas em vigor quando da convocação das eleições: a
votação nas seções eleitorais não foi digitalizada, como estava previsto. Esse
procedimento foi simplesmente omitido, de modo que, quando as atas chegaram com
dois dias de atraso, ninguém soube qual havia sido o resultado registrado em
cada mesa de votação. Também é considerado suspeito o fato de isso ter ocorrido
justamente nas seções localizadas nos Estados Unidos; de as atas terem chegado
com tanto atraso pela via consular; de funcionários do Júri Nacional de
Eleições não terem participado do transporte da documentação, ficando essa
tarefa a cargo dos cônsules, responsáveis por transportar os resultados sem digitalização.
Nada disso, porém, foi admitido pelo Júri Nacional de Eleições, que
simplesmente declarou “improcedentes” os recursos apresentados sobre o tema. Também
é considerado suspeito o intenso envolvimento do embaixador dos Estados Unidos
no Peru, Bernie Navarro, que se credenciou como “observador internacional” das
eleições e manteve diversas reuniões com altos funcionários do sistema
eleitoral peruano, chegando inclusive a receber, como “convidado de honra”, o
presidente do Júri Nacional de Eleições na recepção oferecida em 1º de julho
para celebrar os 250 anos da independência dos Estados Unidos. Segundo o texto,
a ingerência norte-americana foi evidente.
Todo o
mecanismo eleitoral teria sido “arranjado” para garantir uma vitória
incontestável de Keiko Fujimori. Ela obteve apenas 10% dos votos no
primeiro turno, mas lhe foram atribuídos 17% mediante a incorporação dos votos
nulos e brancos, sendo assim considerada “vencedora do primeiro turno” e
classificada para o segundo turno nessa condição. No segundo turno, não teria
alcançado os 50% mais um dos votos, como proclamou o Júri Nacional de Eleições,
mas apenas 33%; contudo, segundo o texto, mediante o mesmo expediente de
incorporar votos nulos e brancos, sua vitória final teria sido “regularizada”. Esse
fato se torna ainda mais chamativo quando se observa a votação parlamentar. Com
10% dos votos para uma lista destinada a um Senado composto por 60 membros,
deveria ter conquistado apenas seis senadores, mas lhe foram atribuídos 22. E,
em uma Câmara dos Deputados composta por 130 membros, corresponder-lhe-ia, no
máximo, a eleição de 13 deputados. No entanto, foram-lhe atribuídos 41.
Essa
proporção teria sido aceita para garantir-lhe não apenas a vitória, mas também
uma representação parlamentar suficiente para governar ou até cogovernar, caso
não conseguisse vencer as eleições presidenciais. Em outras palavras, segundo o
autor do texto, aqueles que arquitetaram o processo eleitoral prepararam ambas
as possibilidades para assegurar que ela não fosse derrotada.
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No cenário continental
A
eleição peruana faz parte dos processos eleitorais realizados na América Latina
nos últimos 18 meses, mais precisamente desde a vitória de Donald Trump nos
Estados Unidos. O presidente norte-americano “meteu o nariz” em Honduras para
assegurar a vitória do presidente Nasry Asfura; na Argentina, para ajudar
Javier Milei; no Chile, para apoiar José Antonio Kast; no Equador, para
consolidar o poder de Daniel Noboa; na Bolívia, para respaldar o
democrata-cristão Paz; no Peru; e na Colômbia. Em outras palavras, para assegurar uma “virada” continental em apoio à sua
política de dominação e à sua estratégia belicista no cenário mundial. Subjugando
a Venezuela Bolivariana, intensificando o bloqueio criminoso contra Cuba,
isolando a Nicarágua e esperando derrotar Lula no Brasil, a administração
norte-americana busca “fechar” o continente para enfrentar a presença econômica e
política da China na América Latina.
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A perspectiva peruana
Nesse
quadro geral, a perspectiva peruana se apresenta, sem dúvida, preocupante.
Embora, em tese, seja possível que “setores moderados” da direita tradicional
possam influenciar para “convencer” Keiko Fujimori a conduzir um governo
formalmente democrático e respeitoso das liberdades formais, justamente para
afastar a imagem de uma ditadura sinistra, é pouco provável que esse seja o
caminho escolhido por Keiko Fujimori. Ela não está acostumada a um cenário
democrático. Nem sequer a admitir debates internos ou dissidências políticas.
Nesse aspecto, segue claramente o perfil de seu pai e opta por uma postura
radical que ponha fim à tolerância. Dirá, então, que o necessário é “avançar” e
que, se para isso for preciso reprimir, isso deverá ser feito. Ela já tem todo
o aparato preparado para isso. Além disso, está cercada, em seu círculo mais
próximo, pelos setores mais autoritários. De um lado, Williams Zapata, o
general que comandou a Operação Chavín de Huántar e, anteriormente, as
patrulhas “Lince” na serra central; de outro, Rafael López Aliaga, que propõe
criar campos de concentração na selva peruana para encarcerar ali os
“terroristas”. É dessas correntes que provêm seus principais assessores, os
mesmos que assessoraram Dina Boluarte quando ela ordenou a repressão que
resultou na morte de 80 peruanos no sul andino entre 2022 e 2023, e os que
desempenharam a mesma função junto a Jerí há pouco tempo.
Racionalmente,
portanto, não é previsível esperar, daqui para frente, um governo de caráter
democrático. Pelo contrário, o mais provável é que uma ditadura opressiva vá se
consolidando desde o início. Por enquanto, Keiko já defendeu a necessidade de
solicitar ao Congresso a concessão de “faculdades legislativas delegadas” para
adotar as medidas “urgentes” que considerar indispensáveis. Mas, considerando
que nem isso seria suficiente, já anunciou que governaria por meio de “decretos
de urgência”, mecanismo constitucional previsto para situações de emergência. A
situação, portanto, torna-se particularmente delicada. Para enfrentá-la, será
indispensável promover a mais ampla unidade popular, organizar ativamente os
trabalhadores e as massas populares, politizar as grandes maiorias nacionais e
promover e incentivar as lutas.
A
fábula de Esopo continua atual. A Cigarra adora viver tranquilamente, mas agora
terá de voar. E esse será o seu ocaso.
Fonte:
Por Gustavo Espinoza M., em Diálogos do Sul Global

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