quarta-feira, 22 de julho de 2026

‘Uma página que o Brasil não virou’: romarias na Amazônia lembram mártires da luta camponesa

Diversas romarias têm mobilizado regiões da Amazônia entre junho e julho deste ano para lembrar e refazer o caminho de mártires das lutas no campo, além de denunciar o avanço do agronegócio. Organizadas por movimentos e comunidades, as marchas, cheias de místicas e fé, são realizadas ao longo do ano por todo o país, com o objetivo de defender a vida no planeta.

Neste ano, as marchas na Amazônia também marcam os 50 anos da morte do padre João Bosco Penido Burnier, assassinado durante a ditadura militar ao interceder pela libertação de duas mulheres camponesas torturadas em uma delegacia. Apenas em 2010, 33 anos depois do assassinato, o Estado brasileiro reconheceu o caso como um crime político.

A homenagem ocorre durante a 8ª Romaria dos Mártires da Caminhada Latino-Americana, realizada neste sábado (18) e domingo (19), em Ribeirão Cascalheira (MT), cidade onde o religioso foi morto.

O coordenador nacional da Comissão Pastoral da Terra José Carlos Lima aponta a importância de manter viva a memória dos mártires. “Tem uma causa que é uma causa maior do que a minha existência, do que a sua existência, que é a causa da própria vida, a causa da ‘casa comum’, esse termo que foi incorporado nas últimas décadas, entendendo a Terra como a morada de todos e a necessidade de protegê-la”, explica.

Lembrar dos mártires é também falar da violência atual, cujo cenário, para Lima, se transformou, mas a realidade da opressão do capital não mudou nessas cinco décadas.

“A brutalidade, o uso da violência e a certeza da impunidade perpassam esse tempo histórico de 50 anos. Pouco ou quase nada houve de punição, especialmente para quem manda matar, para quem paga, para quem contrata. Ainda é uma realidade muito dura. Uma página que o Brasil não virou da sua história”, diz.

O Brasil registrou 374 assassinatos e 14 massacres no campo entre 2016 e 2025, segundo o relatório “Conflitos no Campo Brasil 2025”, da CPT. No total, foram computados 18.832 conflitos no campo no período, com 9,49 milhões de pessoas envolvidas. Para a entidade, a última década reúne alguns dos episódios mais graves de violência no campo desde a redemocratização.

<><> ‘Uma terra sem males’

As romarias acontecem com místicas, celebrações, marchas em locais simbólicos da história dos homenageados, muitas vezes os locais das mortes, mas também é um momento de enfrentamento e da busca pela terra.

“Ela [romaria] tem um lastro bíblico, teológico, na saída do povo de Deus do Egito para a terra prometida, a terra que corre leite e mel. Hoje nós usamos muito o termo de ‘uma terra sem males’. Uma terra livre do agronegócio, livre dos venenos, livre das motosserras, livre daquilo que impede que as comunidades continuem vivas”, explica Lima.

“É um momento de renovação na fé e resistência, de celebração e partilha da vida e fé. Um ato de defesa da ‘casa comum'”, afirma irmã Kátia Webster, que organiza a 19ª edição da Romaria da Floresta, em Anapu (PA), que relembra a luta da irmã Dorothy Stang, assassinada a tiros em 2005.

“Foi um jeitinho do povo dizer que estamos aqui e de pé. Não fugimos e nem vamos embora. Dorothy não foi internada, mas plantada. Somos os brotos. Dorothy Vive.”

A romaria, que começou na quarta-feira (16) e segue até domingo (19), tem entre suas atividades uma caminhada do Centro São Rafael, às margens do Rio Anapu, até o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Esperança, local da morte da missionária. E, como parte da programação, haverá rodas de conversa que vão falar das ameaças ao PDS, que já perdeu mais de 20% de sua floresta, mas também de sonhos compartilhados.

A simbologia da transformação também está presente nessas romarias. Entre os dias 05 a 07 de junho, foi realizada a 11ª Romaria dos Mártires da Floresta, entre Nova Ipixuna e Marabá, no sul do Pará. Foram relembrados José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, assassinados em 2011. Na ocasião, a família de Zé Cláudio e Maria acolheu os romeiros e, juntos, plantaram onze mudas. Cada muda representou uma edição da romaria, “transformando a memória em um gesto concreto de cuidado com o futuro”.

As romarias ocorrem ao longo de todo o ano. No Rio Grande do Sul, por exemplo, uma das quase 50 romarias é marcada tradicionalmente para a terça-feira de Carnaval. Para este ano, ainda estão programadas romarias pelo país.

Na Paraíba, em outubro, a marcha seguirá do sítio onde morou o padre José Comblin, ideólogo da “Teologia da Enxada”, até o assentamento Elizabeth Teixeira, palco da morte de João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas, assassinado no final dos anos 60. A área em Sapé se tornou assentamento este ano, após mais de 60 anos de espera.

Em Alagoas, a 37ª Romaria da Terra e das Águas terá como tema “Terra para plantar, casa para morar” e acontecerá na área onde 5 mil famílias sem terra estão há 14 anos esperando o assentamento nas antigas fazendas do Grupo João Lyra, onde funcionavam as Usinas Laginha e Guaxuma.

Assim, unindo memória e luta, as romarias, segundo Lima, trazem “uma energia que brota como semente”. “Cada passo da romaria é expressão de fé que caminha, memória que resiste e luta que floresce nos territórios. É essa energia que brota como semente dessa luta que não morreu, se multiplica e segue gerando frutos. Entre cruzes e caminhos, entre dores e esperanças, um povo segue firme pela vida, pela casa comum e pela justiça climática.”

•        Por que os desmatadores investem em destruir a floresta amazônica

Na década de 1990, o desmatamento foi impulsionado por questões políticas e econômicas nacionais, como a hiperinflação que fez da compra de terras um meio de proteger o valor do dinheiro, alimentando a especulação imobiliária. Com o Plano Real de junho de 1994, o “overnight” (um certificado de depósito de 24 horas que servia para minimizar o efeito da inflação) terminou, liberando volumosos recursos que foram então investidos no desmatamento, contribuindo para o pico de desmatamento em 1995. Com a inflação controlada, os preços da terra caíram significativamente, inclusive nas áreas de fronteira do desmatamento, tornando a especulação imobiliária menos atrativa e reduzindo as taxas de desmatamento na Amazônia em 1996 e 1997. A subsequente recuperação econômica do país com o Plano Real aumentou as taxas de desmatamento na Amazônia de 1998 a 2004.

Entre 2004 e 2012, o Brasil testemunhou o esforço mais significativo de sua história para combater o desmatamento. Durante esse período, houve uma redução de 80% na taxa anual de desmatamento na área da floresta amazônica brasileira (de 27.700 km² para 4.500 km²). Após 2012, mudanças em políticas nacionais importantes e no cenário político do país levaram a um aumento consistente nas taxas anuais de desmatamento na Amazônia, atingindo um pico de 13.000 km² em2021. O desmatamento diminuiu 11,1% em 2022, 22,4% em 2023, de 30,6% em 2024, e de 11,1% em 2025 segundo estimativas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Os anos para essas estimativas de desmatamento vão de agosto de um ano a julho do ano seguinte; por exemplo, a estimativa de 2024 representa o desmatamento ocorrido entre 1º de agosto de 2023 e 31 de julho de 2024.

Mas quais foram as causas dessas flutuações na dinâmica do desmatamento na Amazônia brasileira? Nossa revisão bibliográfica indicou que, de 2004 a 2008, as quedas significativas nas taxas de desmatamento foram explicadas principalmente pela queda nos preços das commodities no Brasil, incluindo um forte efeito da desvalorização do real brasileiro em relação ao dólar americano, que caiu aproximadamente pela metade nesse período, tornando as exportações muito menos lucrativas. A queda nas taxas de desmatamento de 2008 a 2012 decorreu de medidas como a resolução do Banco Central do Brasil que limitou o acesso ao crédito rural subsidiado a imóveis rurais sem pendências de multas ambientais e que não estavam localizadas em municípios com alta incidência de desmatamento ilegal (Resolução BCB 3.545/2008) e o fortalecimento do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm). Usamos o termo “posses fundiárias” em vez de “propriedades” para não dar a entender que o detentor possui o título legal da terra, o que muitas vezes não é o caso.

Após 2012, houve um novo aumento no desmatamento na Amazônia que foi estimulado por mudanças como o desmantelamento do Código Florestal Brasileiro apoiado pelo forte lobby “ruralista” no Congresso Nacional, e pela recuperação dos preços das commodities após a crise econômica global de 2008. “Ruralistas” são grandes atores com posses fundiários e seus representantes. Após 2018, com a eleição do presidente Jair Bolsonaro e outro processo significativo de desvalorização do Real brasileiro frente ao dólar americano (que se desvalorizou em 40% entre 2018 e 2022) [8], o desmatamentoaumentou para taxas alarmantes. Em 2022, a taxa de perda florestal na Amazônia brasileira foi 150% maior do que em 2012. Sob o governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (conhecido como “Lula”), que começou em 1º de janeiro de 2023, o Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (MMA) intensificou consideravelmente as operações de comando e controle, o que se acredita ser responsável pela queda na taxa de desmatamento na Amazônia Legal em 2023.

 

Fonte: Brasil de Fato/Amazônia Real

 

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