Como
a cultura evangélica tem contribuído para a destruição do futebol brasileiro
Vem
gerando muita polêmica uma matéria publicada no jornal britânico The Times que
associa a grande presença de jogadores evangélicos na seleção brasileira ao
declínio técnico do futebol apresentado pelo time na Copa do Mundo. A abordagem
feita pela reportagem se dá a partir do ponto de vista cultural, algo sobre o
qual já escrevi aqui na coluna, no sentido de provocar reflexão sobre a nova
moda religiosa vigente no país. Em um dos trechos da matéria, a
“protestantização” do vestiário e a nova mentalidade religiosa dos atletas —
tendo Neymar como símbolo de conversão — são apontadas como a principal
influência na mudança do estilo de jogo brasileiro, que teria, segundo a
matéria, ficado “mais disciplinado e rígido”, distanciando-se do tradicional
futebol brasileiro pentacampeão do mundo.
A
complexidade do tema alarga as possibilidades argumentativas em torno dele,
tanto para aqueles que concordam quanto para aqueles que discordam. Na minha
visão, o que a matéria do The Times chama de estilo de jogo mais disciplinado e
rígido, eu chamo de covardia e falta de criatividade. Mas em que momento isso
pode ser associado à fé evangélica declarada pela maioria dos atletas da
seleção? Religiosidade também é cultura. Ou é apenas cultura. Se tivéssemos
nascido no Nepal, estaríamos majoritariamente adorando a “deusa viva” Kumari e
teríamos Shiva como o senhor da nação. Como fomos colonizados pelos
portugueses, o catolicismo é a principal cultura religiosa do nosso país e está
longe de ser superado pelo protestantismo evangélico. Ainda que o lobby em torno
do projeto de poder neopentecostal seja forte e encontre entusiastas até mesmo
dentro do campo progressista.
Quando
falamos da essência do futebol brasileiro, estamos nos referindo a um conjunto
de características que historicamente nos identificou como o futebol mais
bonito e criativo praticado em todo o mundo. E isso tem a ver com a nossa
cultura geral. Entre essas características, podemos citar a inventividade e a
habilidade dos nossos jogadores que, aliadas a uma disposição tática ofensiva,
sempre produziram um espetáculo vistoso e admirável dentro de campo. Não à toa,
seleções como as de 1970 e 1982 — esta última derrotada pela Itália nas quartas
de final da Copa da Espanha — serviram de referência para técnicos europeus
como Pep Guardiola, que sempre referenciou o futebol clássico brasileiro como a
sua grande inspiração.
Essa
arte brasileira de jogar futebol era adquirida nas ruas, nos campinhos de terra
(os chamados “terrões”), no asfalto e na praia, lugares de convívio social
diverso que passaram a ser demonizados pelo neopentecostalismo, sob a égide da
libertação das pessoas da influência maligna das coisas do mundo. Uma
verdadeira bazófia gospel para tentar se impor com superioridade moral,
religiosa e cultural sobre os demais. A cada criança convertida ao
neopentecostalismo, perdemos um gênio em potencial no campo das artes ou em
outras áreas da sociedade onde a liberdade de criação faz a diferença. Para
quem acha que estou exagerando, cite um gênio evangélico no campo das artes na
história recente da humanidade. Alguém que tenha se destacado por seu talento
diferenciado, pela capacidade criativa, pela inventividade ou por um dom inato
potencializado por sua liberdade existencial. Lembraram de alguém?
Ah,
Tom! Jimi Hendrix, um dos maiores guitarristas da história da música, cresceu
em berço protestante. Sim. Mas apenas se tornou um gênio na música quando saiu
da igreja que frequentava e pôde desenvolver todo o seu talento e criatividade
sem as amarras e a opressão impostas pela doutrina religiosa na qual foi
criado. Alguém acha que ele teria se tornado um deus da guitarra se continuasse
tocando nos cultos da sinagoga Temple De Hirsch Sinai, em Seattle, de onde foi
expulso por ser considerado selvagem e exibido demais no palco? É nesse ponto
que chegamos ao declínio técnico levantado na matéria do The Times. Uma
doutrina religiosa que considera o talento de seus fiéis exibido ou selvagem
demais vai fazer com que esse talento se desenvolva ou se perca?
Um país
culturalmente criativo como o Brasil — até por conta das necessidades sociais e
econômicas da maioria de sua população, que precisa se virar para sobreviver —
sendo submetido a uma cultura religiosa que, por essência e fé (ou má-fé, na
maioria dos casos), alija o ser humano daquilo que ele pode ser e fazer de
melhor em sua existência, não estaria contribuindo para o baixo nível do
futebol apresentado por jogadores associados a essa cultura? O samba e o
pagode, que sempre animaram as concentrações antes dos jogos, agora são vistos
como algo pecaminoso e mundano. A irreverência do drible virou pecado da
soberba. A raça pode ser vista como um comportamento selvagem e anticristão.
Como se os cristãos que colonizaram este país não o tivessem feito por meio da
escravização e do assassinato de milhões de seres humanos. Tem algo mais
selvagem do que isso?
A
complexidade do tema se apresenta novamente quando observamos que tais
jogadores, mesmo se declarando de Jesus (alguns deles 100%), não abrem mão de
alguns comportamentos que não se alinham com a teoria cristã. Uma hipocrisia
institucionalizada desde que o cristianismo se tornou sistêmico. O que eles
deixam de exibir de talento dentro de campo, passam a ostentar em riqueza fora
dele como “bênção” de Jesus em suas vidas. É o sucesso financeiro no futebol
sendo instrumentalizado pela igreja neopentecostal para fortalecer o discurso
da teologia da prosperidade. É o jogador “100% Jesus” levando para a Copa do
Mundo a sua coleção de relógios avaliada em R$ 24,5 milhões, sugerindo que a
sua fé o fez alcançar tal conquista. E quantos evangélicos têm tanta ou mais fé
do que Neymar e nunca conseguirão comprar sequer um relógio de R$ 500 durante
toda a sua vida?
Por que
Jesus não os abençoa da mesma forma, se eles o adoram do mesmo jeito? Talvez
seja porque eles não tenham o mesmo talento de Neymar para o futebol. Talento
este que, em qualquer área de atuação, pode fazer a diferença na vida de
qualquer pessoa. É claro que não basta apenas ter talento sem ter oportunidades
para demonstrá-lo. E boa parte da nossa população é talentosa, mas ninguém sabe
disso porque ela não tem visibilidade. E terá ainda menos se for reduzida a um
padrão de comportamento religioso que anula sua existência, confisca as
liberdades individuais e a faz ser submissa a líderes cujo único talento é o de
enganar pessoas utilizando-se do nome de Deus. Porque, se tentassem convencer
as pessoas usando o próprio nome e a própria capacidade argumentativa, seriam
ridicularizados. Da mesma forma que o nosso futebol tem sido ridicularizado ao
abandonar a sua essência cultural e adotar uma postura que o torna
irreconhecível.
Nem
todos nasceram para jogar futebol com talento e maestria. Nem todos nasceram
para ser religiosamente padronizados. Todos nós nascemos para ser quem somos.
Cada um com sua característica pessoal e com a sua cultura social. Não queiram
fazer um gado cantar feito um passarinho, porque o máximo que ele consegue
fazer é mugir. Não queiram que o nosso futebol se torne “europeizado”, porque o
máximo que conseguiremos é nos nivelar tecnicamente por baixo com eles. É como
os colegas de igreja tentaram fazer com Jimi Hendrix. Como ele se destacava no
cenário por seu enorme talento, a única alternativa para que eles estivessem no
seu nível era impedi-lo de expressar a totalidade da sua arte sob o argumento
de que ela era excessiva e reprovável aos olhos de Deus.
A
estratégia utilizada pelos europeus para colonizar outros povos — inclusive no
futebol — é a mesma: fazê-los se enxergar como excessivos, inadequados,
errados, selvagens e deseducados. E o cristianismo sempre foi o instrumento de
conversão apresentado para “civilizar” povos originariamente livres,
culturalmente ricos e potencialmente fortes economicamente, se soubessem
reconhecer e desenvolver todas as suas potencialidades. O projeto de poder
neopentecostal chega ao futebol para roubar a nossa arte, matar o nosso talento
e destruir a nossa cultura futebolística. Alguém ganha muito com isso, e
sabemos que não é o povo brasileiro. Até porque campo de futebol não é igreja,
Jesus não entra em campo e fé não ganha jogo. É só mais um 7 x 1 que estamos
levando na bagagem. Gol da Alemanha…
• Igreja Presbiteriana debate veto ao
Legendários e aponta risco de ‘desvio do Evangelho’. Por Anna Virginia
Balloussier
O Legendários é apropriado para um homem de
Deus?
É o que
a IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil) vai decidir no fim deste mês: se declara
oficialmente incompatível com sua doutrina esse programa de imersão cristã para
homens que, por meio de desafios de sobrevivência na selva e pregações, busca
resgatar a masculinidade e o papel de provedor pautados na Bíblia.
Esse é
um dos temas em pauta na reunião quadrienal do Supremo Concílio, instância
máxima da denominação. O encontro começa no próximo domingo (26), com a
expectativa de atrair a Manaus mais de 1.600 representantes de 404 presbitérios
espalhados pelo país.
A Folha
teve acesso a um documento formulado no sínodo (espécie de assembleia da
igreja) de Tocantins. Ele recomenda que pastores, presbíteros, diáconos e
demais membros não participem nem promovam o Legendários.
O
movimento, segundo esse grupo, está em desacordo com a tradição reformada,
ligada às igrejas protestantes históricas, como a presbiteriana e a metodista.
O problema seria recorrer a metodologias típicas de coaching, como técnicas de
alto impacto emocional que, na avaliação da comissão responsável pelo parecer,
acabam relativizando a suficiência das Escrituras e da obra de Jesus Cristo.
Caso
seja aprovado, o texto servirá como orientação oficial para toda a IPB. Também
abrirá caminho para que conselhos regionais analisem, caso a caso, a situação
daqueles que insistirem em acompanhar o Legendários. A ideia é exercer
“vigilância pastoral” e, se necessário, “orientar, em amor, os irmãos que
tenham aderido a tais movimentos”.
O
Legendários é um projeto cristão voltado exclusivamente para homens, idealizado
na Guatemala e trazido ao Brasil em 2018 pelo pastor Ricardo Bernardes. A
proposta é resgatar o que define como a “configuração bíblica original” e o
“instinto caçador” masculino diante de uma suposta omissão dos homens na
sociedade atual.
Críticos
veem na atividade uma autoafirmação viril baseada em discursos machistas e na
teologia do coaching. O movimento defende que essas provações são necessárias
para forjar homens provedores e protetores para suas famílias e igrejas. Os
empresários e influenciadores Pablo Marçal, Thiago Nigro (o Primo Rico) e o
evangelista Deive Leonardo são alguns dos participantes de edições passadas.
O
parecer presbiteriano contrário ao Legendários questiona o uso de ferramentas
associadas ao universo corporativo, como técnicas motivacionais e estratégias
de marketing. Entre os exemplos de inadequação estão gritos de guerra,
camisetas padronizadas e numeração de membros, “referindo-se, em alguns casos,
ao Senhor Jesus de forma inadequada como o ‘Legendário 001’”. Isso configuraria
“nítido desvio” do Evangelho, “transformando a piedade em um produto de consumo
grupal e performático”.
O
documento também afirma que práticas como privação de alimento, desgaste físico
intenso e pressão psicológica podem induzir estados emocionais interpretados
como experiências espirituais. Outra preocupação: o programa favorecer a
divisão entre “legendários” e aqueles que não participaram dos retiros,
enfraquecendo a unidade da igreja local e a autoridade de seus pastores e
conselhos.
O
Legendários, de acordo com esse escrutínio, possui traços associados ao
neopentecostalismo, sendo inconciliável a tradição histórica do
presbiterianismo.
A Folha
procurou lideranças da IPB, que preferiram não comentar antes da deliberação do
Supremo Concílio.
Em nota
enviada ao jornal, Joshua Catalan, vice-presidente de Essência e Projetos
Especiais do Legendários, diz respeitar “as diferentes denominações cristãs e
suas respectivas decisões”, ressaltando que “a fome, a sede, a angústia e a
depressão não têm religião”.
Ele
dimensiona o alcance da organização, presente em 24 países, com mais de 220 mil
participantes. “Seguimos focados em ações que contribuem para comunidades mais
fortes, solidárias e com o bem comum”, afirma Catalan, que se apresenta como
“Legendário nº 8”.
Nem
todos os líderes ligados ao universo reformado fazem uma leitura tão crítica do
movimento. O pastor Hernandes Dias Lopes, referência presbiteriana, disse num
canal digital que não vê problema nos desafios físicos promovidos pelo
Legendários, desde que não sejam revestidos de misticismo nem substituam a
centralidade da igreja.
Dias
contou que um de seus filhos inclusive foi a uma edição do retiro. “O que ele
me compartilhou foi exatamente isso: a experiência em si não tem nada de
místico, é apenas para você conhecer os seus limites, e conhecendo os seus
limites a pergunta é: até que ponto você tá pronto a se sacrificar, a se
esforçar, a ir um pouco mais além, andar uma segunda milha em favor do seu
cônjuge e filhos?”
Fonte:
Por Ricardo Nêggo Tom, em Brasil 247/ICL Notícias

Nenhum comentário:
Postar um comentário