quarta-feira, 22 de julho de 2026

Como a cultura evangélica tem contribuído para a destruição do futebol brasileiro

Vem gerando muita polêmica uma matéria publicada no jornal britânico The Times que associa a grande presença de jogadores evangélicos na seleção brasileira ao declínio técnico do futebol apresentado pelo time na Copa do Mundo. A abordagem feita pela reportagem se dá a partir do ponto de vista cultural, algo sobre o qual já escrevi aqui na coluna, no sentido de provocar reflexão sobre a nova moda religiosa vigente no país. Em um dos trechos da matéria, a “protestantização” do vestiário e a nova mentalidade religiosa dos atletas — tendo Neymar como símbolo de conversão — são apontadas como a principal influência na mudança do estilo de jogo brasileiro, que teria, segundo a matéria, ficado “mais disciplinado e rígido”, distanciando-se do tradicional futebol brasileiro pentacampeão do mundo.

A complexidade do tema alarga as possibilidades argumentativas em torno dele, tanto para aqueles que concordam quanto para aqueles que discordam. Na minha visão, o que a matéria do The Times chama de estilo de jogo mais disciplinado e rígido, eu chamo de covardia e falta de criatividade. Mas em que momento isso pode ser associado à fé evangélica declarada pela maioria dos atletas da seleção? Religiosidade também é cultura. Ou é apenas cultura. Se tivéssemos nascido no Nepal, estaríamos majoritariamente adorando a “deusa viva” Kumari e teríamos Shiva como o senhor da nação. Como fomos colonizados pelos portugueses, o catolicismo é a principal cultura religiosa do nosso país e está longe de ser superado pelo protestantismo evangélico. Ainda que o lobby em torno do projeto de poder neopentecostal seja forte e encontre entusiastas até mesmo dentro do campo progressista.

Quando falamos da essência do futebol brasileiro, estamos nos referindo a um conjunto de características que historicamente nos identificou como o futebol mais bonito e criativo praticado em todo o mundo. E isso tem a ver com a nossa cultura geral. Entre essas características, podemos citar a inventividade e a habilidade dos nossos jogadores que, aliadas a uma disposição tática ofensiva, sempre produziram um espetáculo vistoso e admirável dentro de campo. Não à toa, seleções como as de 1970 e 1982 — esta última derrotada pela Itália nas quartas de final da Copa da Espanha — serviram de referência para técnicos europeus como Pep Guardiola, que sempre referenciou o futebol clássico brasileiro como a sua grande inspiração.

Essa arte brasileira de jogar futebol era adquirida nas ruas, nos campinhos de terra (os chamados “terrões”), no asfalto e na praia, lugares de convívio social diverso que passaram a ser demonizados pelo neopentecostalismo, sob a égide da libertação das pessoas da influência maligna das coisas do mundo. Uma verdadeira bazófia gospel para tentar se impor com superioridade moral, religiosa e cultural sobre os demais. A cada criança convertida ao neopentecostalismo, perdemos um gênio em potencial no campo das artes ou em outras áreas da sociedade onde a liberdade de criação faz a diferença. Para quem acha que estou exagerando, cite um gênio evangélico no campo das artes na história recente da humanidade. Alguém que tenha se destacado por seu talento diferenciado, pela capacidade criativa, pela inventividade ou por um dom inato potencializado por sua liberdade existencial. Lembraram de alguém?

Ah, Tom! Jimi Hendrix, um dos maiores guitarristas da história da música, cresceu em berço protestante. Sim. Mas apenas se tornou um gênio na música quando saiu da igreja que frequentava e pôde desenvolver todo o seu talento e criatividade sem as amarras e a opressão impostas pela doutrina religiosa na qual foi criado. Alguém acha que ele teria se tornado um deus da guitarra se continuasse tocando nos cultos da sinagoga Temple De Hirsch Sinai, em Seattle, de onde foi expulso por ser considerado selvagem e exibido demais no palco? É nesse ponto que chegamos ao declínio técnico levantado na matéria do The Times. Uma doutrina religiosa que considera o talento de seus fiéis exibido ou selvagem demais vai fazer com que esse talento se desenvolva ou se perca?

Um país culturalmente criativo como o Brasil — até por conta das necessidades sociais e econômicas da maioria de sua população, que precisa se virar para sobreviver — sendo submetido a uma cultura religiosa que, por essência e fé (ou má-fé, na maioria dos casos), alija o ser humano daquilo que ele pode ser e fazer de melhor em sua existência, não estaria contribuindo para o baixo nível do futebol apresentado por jogadores associados a essa cultura? O samba e o pagode, que sempre animaram as concentrações antes dos jogos, agora são vistos como algo pecaminoso e mundano. A irreverência do drible virou pecado da soberba. A raça pode ser vista como um comportamento selvagem e anticristão. Como se os cristãos que colonizaram este país não o tivessem feito por meio da escravização e do assassinato de milhões de seres humanos. Tem algo mais selvagem do que isso?

A complexidade do tema se apresenta novamente quando observamos que tais jogadores, mesmo se declarando de Jesus (alguns deles 100%), não abrem mão de alguns comportamentos que não se alinham com a teoria cristã. Uma hipocrisia institucionalizada desde que o cristianismo se tornou sistêmico. O que eles deixam de exibir de talento dentro de campo, passam a ostentar em riqueza fora dele como “bênção” de Jesus em suas vidas. É o sucesso financeiro no futebol sendo instrumentalizado pela igreja neopentecostal para fortalecer o discurso da teologia da prosperidade. É o jogador “100% Jesus” levando para a Copa do Mundo a sua coleção de relógios avaliada em R$ 24,5 milhões, sugerindo que a sua fé o fez alcançar tal conquista. E quantos evangélicos têm tanta ou mais fé do que Neymar e nunca conseguirão comprar sequer um relógio de R$ 500 durante toda a sua vida?

Por que Jesus não os abençoa da mesma forma, se eles o adoram do mesmo jeito? Talvez seja porque eles não tenham o mesmo talento de Neymar para o futebol. Talento este que, em qualquer área de atuação, pode fazer a diferença na vida de qualquer pessoa. É claro que não basta apenas ter talento sem ter oportunidades para demonstrá-lo. E boa parte da nossa população é talentosa, mas ninguém sabe disso porque ela não tem visibilidade. E terá ainda menos se for reduzida a um padrão de comportamento religioso que anula sua existência, confisca as liberdades individuais e a faz ser submissa a líderes cujo único talento é o de enganar pessoas utilizando-se do nome de Deus. Porque, se tentassem convencer as pessoas usando o próprio nome e a própria capacidade argumentativa, seriam ridicularizados. Da mesma forma que o nosso futebol tem sido ridicularizado ao abandonar a sua essência cultural e adotar uma postura que o torna irreconhecível.

Nem todos nasceram para jogar futebol com talento e maestria. Nem todos nasceram para ser religiosamente padronizados. Todos nós nascemos para ser quem somos. Cada um com sua característica pessoal e com a sua cultura social. Não queiram fazer um gado cantar feito um passarinho, porque o máximo que ele consegue fazer é mugir. Não queiram que o nosso futebol se torne “europeizado”, porque o máximo que conseguiremos é nos nivelar tecnicamente por baixo com eles. É como os colegas de igreja tentaram fazer com Jimi Hendrix. Como ele se destacava no cenário por seu enorme talento, a única alternativa para que eles estivessem no seu nível era impedi-lo de expressar a totalidade da sua arte sob o argumento de que ela era excessiva e reprovável aos olhos de Deus.

A estratégia utilizada pelos europeus para colonizar outros povos — inclusive no futebol — é a mesma: fazê-los se enxergar como excessivos, inadequados, errados, selvagens e deseducados. E o cristianismo sempre foi o instrumento de conversão apresentado para “civilizar” povos originariamente livres, culturalmente ricos e potencialmente fortes economicamente, se soubessem reconhecer e desenvolver todas as suas potencialidades. O projeto de poder neopentecostal chega ao futebol para roubar a nossa arte, matar o nosso talento e destruir a nossa cultura futebolística. Alguém ganha muito com isso, e sabemos que não é o povo brasileiro. Até porque campo de futebol não é igreja, Jesus não entra em campo e fé não ganha jogo. É só mais um 7 x 1 que estamos levando na bagagem. Gol da Alemanha…

•        Igreja Presbiteriana debate veto ao Legendários e aponta risco de ‘desvio do Evangelho’. Por Anna Virginia Balloussier

 O Legendários é apropriado para um homem de Deus?

É o que a IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil) vai decidir no fim deste mês: se declara oficialmente incompatível com sua doutrina esse programa de imersão cristã para homens que, por meio de desafios de sobrevivência na selva e pregações, busca resgatar a masculinidade e o papel de provedor pautados na Bíblia.

Esse é um dos temas em pauta na reunião quadrienal do Supremo Concílio, instância máxima da denominação. O encontro começa no próximo domingo (26), com a expectativa de atrair a Manaus mais de 1.600 representantes de 404 presbitérios espalhados pelo país.

A Folha teve acesso a um documento formulado no sínodo (espécie de assembleia da igreja) de Tocantins. Ele recomenda que pastores, presbíteros, diáconos e demais membros não participem nem promovam o Legendários.

O movimento, segundo esse grupo, está em desacordo com a tradição reformada, ligada às igrejas protestantes históricas, como a presbiteriana e a metodista. O problema seria recorrer a metodologias típicas de coaching, como técnicas de alto impacto emocional que, na avaliação da comissão responsável pelo parecer, acabam relativizando a suficiência das Escrituras e da obra de Jesus Cristo.

Caso seja aprovado, o texto servirá como orientação oficial para toda a IPB. Também abrirá caminho para que conselhos regionais analisem, caso a caso, a situação daqueles que insistirem em acompanhar o Legendários. A ideia é exercer “vigilância pastoral” e, se necessário, “orientar, em amor, os irmãos que tenham aderido a tais movimentos”.

O Legendários é um projeto cristão voltado exclusivamente para homens, idealizado na Guatemala e trazido ao Brasil em 2018 pelo pastor Ricardo Bernardes. A proposta é resgatar o que define como a “configuração bíblica original” e o “instinto caçador” masculino diante de uma suposta omissão dos homens na sociedade atual.

Críticos veem na atividade uma autoafirmação viril baseada em discursos machistas e na teologia do coaching. O movimento defende que essas provações são necessárias para forjar homens provedores e protetores para suas famílias e igrejas. Os empresários e influenciadores Pablo Marçal, Thiago Nigro (o Primo Rico) e o evangelista Deive Leonardo são alguns dos participantes de edições passadas.

O parecer presbiteriano contrário ao Legendários questiona o uso de ferramentas associadas ao universo corporativo, como técnicas motivacionais e estratégias de marketing. Entre os exemplos de inadequação estão gritos de guerra, camisetas padronizadas e numeração de membros, “referindo-se, em alguns casos, ao Senhor Jesus de forma inadequada como o ‘Legendário 001’”. Isso configuraria “nítido desvio” do Evangelho, “transformando a piedade em um produto de consumo grupal e performático”.

O documento também afirma que práticas como privação de alimento, desgaste físico intenso e pressão psicológica podem induzir estados emocionais interpretados como experiências espirituais. Outra preocupação: o programa favorecer a divisão entre “legendários” e aqueles que não participaram dos retiros, enfraquecendo a unidade da igreja local e a autoridade de seus pastores e conselhos.

O Legendários, de acordo com esse escrutínio, possui traços associados ao neopentecostalismo, sendo inconciliável a tradição histórica do presbiterianismo.

A Folha procurou lideranças da IPB, que preferiram não comentar antes da deliberação do Supremo Concílio.

Em nota enviada ao jornal, Joshua Catalan, vice-presidente de Essência e Projetos Especiais do Legendários, diz respeitar “as diferentes denominações cristãs e suas respectivas decisões”, ressaltando que “a fome, a sede, a angústia e a depressão não têm religião”.

Ele dimensiona o alcance da organização, presente em 24 países, com mais de 220 mil participantes. “Seguimos focados em ações que contribuem para comunidades mais fortes, solidárias e com o bem comum”, afirma Catalan, que se apresenta como “Legendário nº 8”.

Nem todos os líderes ligados ao universo reformado fazem uma leitura tão crítica do movimento. O pastor Hernandes Dias Lopes, referência presbiteriana, disse num canal digital que não vê problema nos desafios físicos promovidos pelo Legendários, desde que não sejam revestidos de misticismo nem substituam a centralidade da igreja.

Dias contou que um de seus filhos inclusive foi a uma edição do retiro. “O que ele me compartilhou foi exatamente isso: a experiência em si não tem nada de místico, é apenas para você conhecer os seus limites, e conhecendo os seus limites a pergunta é: até que ponto você tá pronto a se sacrificar, a se esforçar, a ir um pouco mais além, andar uma segunda milha em favor do seu cônjuge e filhos?”

 

Fonte: Por Ricardo Nêggo Tom, em Brasil 247/ICL Notícias

 

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