Bolsonaro,
do ultranacionalismo ao entreguismo
Há
ideias que nos causam inquietação e nos obrigam à reflexão.
O
cientista político Anthony W. Pereira falou à Folha de S.Paulo sobre os riscos
que enxerga para a democracia brasileira caso Flávio Bolsonaro seja eleito
presidente em 2026 e sobre a possibilidade de influência do governo Donald
Trump nesse processo.
Os
principais pontos de sua análise são os seguintes:
(a)
risco de retrocesso democrático – Pereira acredita que uma eventual vitória de
Flávio Bolsonaro poderia significar a retomada do projeto político do
bolsonarismo, com enfraquecimento das instituições democráticas;
(b)
anistia aos envolvidos no 8 de janeiro – segundo o pesquisador, um governo
Flávio Bolsonaro tenderia a apoiar uma anistia aos condenados pelos ataques de
8 de janeiro de 2023, o que, em sua avaliação, reduziria a responsabilização
por atos praticados contra o Estado Democrático de Direito;
(c)
motivação de “vingança” – o cientista político considera que um eventual
governo do filho “01” de Jair Bolsonaro poderia ser marcado por um espírito de
revanche contra adversários políticos e contra instituições que
responsabilizaram integrantes do antigo governo;
(d)
possível influência dos Estados Unidos – Pereira sustenta que Donald Trump
poderá procurar favorecer politicamente aliados internacionais, entre eles
Flávio Bolsonaro. Essa influência ocorreria mais por meio de declarações
públicas, pressão diplomática e questionamentos sobre o processo eleitoral do
que por uma intervenção direta;
(e)
risco de crise institucional – se Flávio Bolsonaro não aceitasse um eventual
resultado eleitoral desfavorável e recebesse apoio externo, isso poderia
estimular uma crise política, aumentar a pressão sobre as instituições e até
incentivar setores militares, embora o pesquisador não afirme que tal cenário
seja provável.
Em
outras palavras, a relação da família Bolsonaro com a extrema-direita
estadunidense é apresentada como um fator potencialmente tóxico para a
democracia brasileira.
Pereira
observa que Flávio Bolsonaro possui um estilo menos combativo do que o pai, mas
considera que representa a continuidade do mesmo projeto político. Avalia
também que Trump tem prioridades internas nos Estados Unidos e que sua
capacidade de alterar os rumos da política brasileira é limitada; ainda assim,
manifestações públicas de apoio poderiam alimentar narrativas de contestação
eleitoral.
Em
síntese, a entrevista traz uma avaliação crítica: Anthony W. Pereira sustenta
que uma vitória de Flávio Bolsonaro representaria riscos à democracia
brasileira, especialmente pela possibilidade de anistia aos envolvidos no 8 de
janeiro, por um eventual uso político das instituições e pelo apoio que poderia
receber de Donald Trump em uma contestação do processo eleitoral. São, contudo,
análises prospectivas do entrevistado, e não fatos estabelecidos sobre eventos
futuros.
Outra
reportagem da mesma edição da Folha dialoga com a entrevista de Anthony W.
Pereira e revela uma mudança ideológica e estratégica importante do
bolsonarismo.
Nos
anos 1990 e 2000, Jair Bolsonaro e seus filhos cultivavam um discurso típico do
nacionalismo militar: denunciavam os Estados Unidos como ameaça à soberania
brasileira, acusavam os americanos de cobiçar a Amazônia, criticavam a
influência de Washington e defendiam uma postura patriótica de resistência.
A
partir da década de 2010, porém, esse discurso foi substituído por outro,
baseado na ideia de que Brasil e Estados Unidos fariam parte de uma mesma
“civilização ocidental cristã”, tendo os EUA como principal liderança.
Pesquisadores ouvidos pela Folha atribuem essa mudança à aproximação do
bolsonarismo com a nova direita internacional, influenciada por Olavo de
Carvalho, pelo movimento MAGA de Donald Trump e por uma visão de política
internacional centrada no combate à esquerda global.
A
análise de Anthony W. Pereira parte exatamente desse novo contexto. Sua
hipótese é que a estreita relação construída entre Trump e a família Bolsonaro
poderia extrapolar a afinidade ideológica e produzir efeitos concretos na
política brasileira. Pereira sustenta que um eventual apoio de Trump a Flávio
Bolsonaro poderia reforçar discursos de desconfiança sobre o sistema eleitoral
brasileiro, aumentando a tensão institucional caso o resultado da eleição fosse
contestado. Ele também avalia que um governo Flávio tenderia a preservar
aspectos centrais do projeto político do pai, incluindo a defesa da anistia aos
envolvidos nos ataques de 8 de janeiro.
Do
ponto de vista analítico, as duas matérias se complementam. A primeira explica
como ocorreu a mudança de orientação internacional do bolsonarismo; a segunda
discute quais poderiam ser as consequências dessa aproximação.
Há,
contudo, uma distinção importante entre fatos e projeções. A mudança de postura
da família Bolsonaro em relação aos Estados Unidos é amplamente documentada por
declarações públicas feitas ao longo de três décadas e pode ser observada
empiricamente. Já as conclusões de Anthony W. Pereira sobre uma eventual
interferência de Trump ou sobre o comportamento de um futuro governo Flávio
Bolsonaro pertencem ao campo da análise política prospectiva. São hipóteses
formuladas por um pesquisador experiente, mas dizem respeito a cenários
possíveis, não a acontecimentos já verificados.
Talvez
o aspecto mais interessante das duas reportagens seja a aparente inversão do
conceito de soberania. O bolsonarismo nasceu denunciando qualquer influência
norte-americana sobre o Brasil; hoje, parte de sua estratégia política busca
legitimidade justamente na proximidade com lideranças dos Estados Unidos. Essa
mudança sugere que o eixo organizador do discurso deixou de ser o nacionalismo
tradicional e passou a ser a identificação ideológica com uma rede
internacional da direita conservadora. É essa transformação que permite
compreender tanto a reportagem histórica quanto as preocupações levantadas por
Anthony W. Pereira.
Ficam
os comentários para críticas e reflexões.
• ‘Eduardo Bolsonaro lustra, com a própria
língua, os sapatos de Trump’, dispara Erika Hilton
A
deputada federal Erika Hilton (Psol-SP) fez uma dura crítica ao deputado
cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nesta segunda-feira (20) após o político da
extrema direita receber o green card do governo Donald Trump. Com o documento,
o ex-parlamentar poderá trabalhar ou estudar nos Estados Unidos.
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“Lógico,
ele faz jus ao green card, tem emprego regular nos EUA. Atacar o país que o
sustentou desde que ele nasceu, agir contra o bem-estar do povo brasileiro e
lustrar, com a própria língua, os sapatos de Donald Trump”, escreveu a deputada
na rede social X.
O Green
Card é o documento que comprova a condição de residente permanente legal nos
Estados Unidos. Quem possui esse status está autorizado a morar e exercer
atividade profissional no país por tempo indeterminado.
O
deputado cassado ganhou o benefício em um contexto de tensão comercial entre
Brasil e EUA. No último dia 15, a gestão trumpista anunciou o tarifaço de 25%
sobre exportações brasileiras para o território estadunidense.
Numa
outra investida dos EUA contra o Brasil, entrou em vigor em 5 de junho a
classificação das facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando
Vermelho (CV) como organizações terroristas.
O
motivo para as duas medidas foi a condenação de Jair Bolsonaro (PL) na
investigação sobre o plano golpista. Ministros da Primeira Turma do STF
condenaram o ex-mandatário a 27 anos de cadeia. O político da extrema direita
está em prisão domiciliar no Distrito Federal atualmente.
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Situação de Eduardo
A Mesa
Diretora da Câmara dos Deputados formalizou, em 18 de dezembro de 2025, a perda
dos mandatos de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Alexandre Ramagem (PL-RJ). No caso
de Eduardo, a medida foi motivada pelo número de ausências em sessões
deliberativas.
Já
Ramagem teve o mandato cassado em cumprimento a uma determinação do Supremo
Tribunal Federal (STF), após ser condenado por participação na tentativa de
golpe de Estado. Os atos foram publicados naquela tarde no Diário da Câmara dos
Deputados.
A
cassação de Eduardo Bolsonaro teve como fundamento o dispositivo constitucional
que determina a perda do mandato de parlamentares que deixam de comparecer a
mais de um terço das sessões deliberativas realizadas ao longo do ano. Das 78
sessões contabilizadas pela Câmara em 2025, o deputado esteve ausente em 63, o
equivalente a aproximadamente 81% do total.
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Condenação no STF
Ministros
da Primeira Turma do STF decidiram, por unanimidade, condenar Eduardo Bolsonaro
a quatro anos e dois meses de prisão, com início do cumprimento da pena em
regime semiaberto,. quando a pessoa trabalha ou estuda de dia e retorna à
unidade penitenciária à noite.
O
ex-parlamentar foi acusado do crime de coação no curso do processo. Segundo
ministros da Corte, Eduardo Bolsonaro agiu com o objetivo de influenciar o
julgamento da ação penal que resultou na condenação de seu pai, Jair Bolsonaro,
por tentativa de golpe de Estado.
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Afinidade golpista
O
trumpismo e o bolsonarismo têm afinidades golpistas. Em novembro de 2022, o
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) multou o PL, partido de Bolsonaro, em R$ 22,9
milhões após a sigla questionar a confiança das urnas eletrônicas.
Em 8 de
Janeiro de 2023, bolsonaristas invadiram a Praça dos Três Poderes, em Brasília
(DF), em manifestações golpistas. O STF emitiu mais de 1,4 mil condenações.
Nos
EUA, trumpistas também fizeram atos pró-golpe. Em janeiro de 2021, quando Trump
perdeu a eleição, vários apoiadores invadiram o Legislativo e acusaram o
sistema eleitoral de ser fraudulento.
Críticas
ao Judiciário são uma tática do estrategista estadunidense Steve Bannon para
fazer partidos de direita chegarem ao poder nos EUA e em outros países.
• Boulos: sob a liderança de Lula, Brasil
resiste ao “projeto colonial” de Donald Trump
O
ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL),
afirmou que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) representa a
principal resistência na América Latina ao que definiu como um “projeto
colonial” do mandatário dos Estados Unidos, Donald Trump. Em entrevista ao SBT
News, Boulos apontou que a eleição de 2026 ultrapassa os limites da política
interna e terá impacto sobre a soberania brasileira.
Para o
ministro, o cenário coloca o Brasil em posição estratégica diante dos
interesses internacionais. “O Brasil se tornou, sob a liderança de Lula, talvez
a única resistência significativa no nosso continente em relação ao projeto
colonial de Donald Trump”, disse.
Boulos
avaliou que a disputa presidencial deste ano será a “mais importante do
planeta”. Na visão do ministro, um dos temas centrais da campanha será a
proteção de recursos estratégicos do país, entre eles as terras raras.
De
acordo com o ministro, o interesse dos Estados Unidos pelo Brasil está
relacionado às reservas desses minerais, consideradas estratégicas. O Brasil
possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, atrás apenas da China.
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Boulos compara Lula e Flávio Bolsonaro
Ao
comentar um eventual confronto eleitoral entre Lula e o senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), Boulos afirmou que a trajetória política do presidente é
superior à do parlamentar. “A comparação beneficia o presidente Lula. Se você
comparar a trajetória, a biografia, de Lula com Flávio Bolsonaro, não tem nem o
que falar”, declarou.
O
ministro classificou Lula como um “estadista”, citou o combate à fome e à
pobreza durante os governos petistas e afirmou que “mesmo quem não gosta de
Lula reconhece” sua trajetória. Em seguida, fez críticas ao senador.
“A
biografia de Flávio é uma verdadeira ficha corrida. A única coisa que traz é o
sobrenome do pai.” Ao estabelecer uma comparação entre as gestões de Lula e do
ex-mandatário Jair Bolsonaro (PL), Boulos resumiu: “É 7 a 1”.
Fonte:
Por Pedro Benedito Maciel Neto, em Brasil 247

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