quarta-feira, 22 de julho de 2026

Bolsonaro, do ultranacionalismo ao entreguismo

Há ideias que nos causam inquietação e nos obrigam à reflexão.

O cientista político Anthony W. Pereira falou à Folha de S.Paulo sobre os riscos que enxerga para a democracia brasileira caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidente em 2026 e sobre a possibilidade de influência do governo Donald Trump nesse processo.

Os principais pontos de sua análise são os seguintes:

(a) risco de retrocesso democrático – Pereira acredita que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia significar a retomada do projeto político do bolsonarismo, com enfraquecimento das instituições democráticas;

(b) anistia aos envolvidos no 8 de janeiro – segundo o pesquisador, um governo Flávio Bolsonaro tenderia a apoiar uma anistia aos condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023, o que, em sua avaliação, reduziria a responsabilização por atos praticados contra o Estado Democrático de Direito;

(c) motivação de “vingança” – o cientista político considera que um eventual governo do filho “01” de Jair Bolsonaro poderia ser marcado por um espírito de revanche contra adversários políticos e contra instituições que responsabilizaram integrantes do antigo governo;

(d) possível influência dos Estados Unidos – Pereira sustenta que Donald Trump poderá procurar favorecer politicamente aliados internacionais, entre eles Flávio Bolsonaro. Essa influência ocorreria mais por meio de declarações públicas, pressão diplomática e questionamentos sobre o processo eleitoral do que por uma intervenção direta;

(e) risco de crise institucional – se Flávio Bolsonaro não aceitasse um eventual resultado eleitoral desfavorável e recebesse apoio externo, isso poderia estimular uma crise política, aumentar a pressão sobre as instituições e até incentivar setores militares, embora o pesquisador não afirme que tal cenário seja provável.

Em outras palavras, a relação da família Bolsonaro com a extrema-direita estadunidense é apresentada como um fator potencialmente tóxico para a democracia brasileira.

Pereira observa que Flávio Bolsonaro possui um estilo menos combativo do que o pai, mas considera que representa a continuidade do mesmo projeto político. Avalia também que Trump tem prioridades internas nos Estados Unidos e que sua capacidade de alterar os rumos da política brasileira é limitada; ainda assim, manifestações públicas de apoio poderiam alimentar narrativas de contestação eleitoral.

Em síntese, a entrevista traz uma avaliação crítica: Anthony W. Pereira sustenta que uma vitória de Flávio Bolsonaro representaria riscos à democracia brasileira, especialmente pela possibilidade de anistia aos envolvidos no 8 de janeiro, por um eventual uso político das instituições e pelo apoio que poderia receber de Donald Trump em uma contestação do processo eleitoral. São, contudo, análises prospectivas do entrevistado, e não fatos estabelecidos sobre eventos futuros.

Outra reportagem da mesma edição da Folha dialoga com a entrevista de Anthony W. Pereira e revela uma mudança ideológica e estratégica importante do bolsonarismo.

Nos anos 1990 e 2000, Jair Bolsonaro e seus filhos cultivavam um discurso típico do nacionalismo militar: denunciavam os Estados Unidos como ameaça à soberania brasileira, acusavam os americanos de cobiçar a Amazônia, criticavam a influência de Washington e defendiam uma postura patriótica de resistência.

A partir da década de 2010, porém, esse discurso foi substituído por outro, baseado na ideia de que Brasil e Estados Unidos fariam parte de uma mesma “civilização ocidental cristã”, tendo os EUA como principal liderança. Pesquisadores ouvidos pela Folha atribuem essa mudança à aproximação do bolsonarismo com a nova direita internacional, influenciada por Olavo de Carvalho, pelo movimento MAGA de Donald Trump e por uma visão de política internacional centrada no combate à esquerda global.

A análise de Anthony W. Pereira parte exatamente desse novo contexto. Sua hipótese é que a estreita relação construída entre Trump e a família Bolsonaro poderia extrapolar a afinidade ideológica e produzir efeitos concretos na política brasileira. Pereira sustenta que um eventual apoio de Trump a Flávio Bolsonaro poderia reforçar discursos de desconfiança sobre o sistema eleitoral brasileiro, aumentando a tensão institucional caso o resultado da eleição fosse contestado. Ele também avalia que um governo Flávio tenderia a preservar aspectos centrais do projeto político do pai, incluindo a defesa da anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro.

Do ponto de vista analítico, as duas matérias se complementam. A primeira explica como ocorreu a mudança de orientação internacional do bolsonarismo; a segunda discute quais poderiam ser as consequências dessa aproximação.

Há, contudo, uma distinção importante entre fatos e projeções. A mudança de postura da família Bolsonaro em relação aos Estados Unidos é amplamente documentada por declarações públicas feitas ao longo de três décadas e pode ser observada empiricamente. Já as conclusões de Anthony W. Pereira sobre uma eventual interferência de Trump ou sobre o comportamento de um futuro governo Flávio Bolsonaro pertencem ao campo da análise política prospectiva. São hipóteses formuladas por um pesquisador experiente, mas dizem respeito a cenários possíveis, não a acontecimentos já verificados.

Talvez o aspecto mais interessante das duas reportagens seja a aparente inversão do conceito de soberania. O bolsonarismo nasceu denunciando qualquer influência norte-americana sobre o Brasil; hoje, parte de sua estratégia política busca legitimidade justamente na proximidade com lideranças dos Estados Unidos. Essa mudança sugere que o eixo organizador do discurso deixou de ser o nacionalismo tradicional e passou a ser a identificação ideológica com uma rede internacional da direita conservadora. É essa transformação que permite compreender tanto a reportagem histórica quanto as preocupações levantadas por Anthony W. Pereira.

Ficam os comentários para críticas e reflexões.

•        ‘Eduardo Bolsonaro lustra, com a própria língua, os sapatos de Trump’, dispara Erika Hilton

A deputada federal Erika Hilton (Psol-SP) fez uma dura crítica ao deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nesta segunda-feira (20) após o político da extrema direita receber o green card do governo Donald Trump. Com o documento, o ex-parlamentar poderá trabalhar ou estudar nos Estados Unidos.

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“Lógico, ele faz jus ao green card, tem emprego regular nos EUA. Atacar o país que o sustentou desde que ele nasceu, agir contra o bem-estar do povo brasileiro e lustrar, com a própria língua, os sapatos de Donald Trump”, escreveu a deputada na rede social X.

O Green Card é o documento que comprova a condição de residente permanente legal nos Estados Unidos. Quem possui esse status está autorizado a morar e exercer atividade profissional no país por tempo indeterminado.

O deputado cassado ganhou o benefício em um contexto de tensão comercial entre Brasil e EUA. No último dia 15, a gestão trumpista anunciou o tarifaço de 25% sobre exportações brasileiras para o território estadunidense.

Numa outra investida dos EUA contra o Brasil, entrou em vigor em 5 de junho a classificação das facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.

O motivo para as duas medidas foi a condenação de Jair Bolsonaro (PL) na investigação sobre o plano golpista. Ministros da Primeira Turma do STF condenaram o ex-mandatário a 27 anos de cadeia. O político da extrema direita está em prisão domiciliar no Distrito Federal atualmente.

<><> Situação de Eduardo

A Mesa Diretora da Câmara dos Deputados formalizou, em 18 de dezembro de 2025, a perda dos mandatos de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Alexandre Ramagem (PL-RJ). No caso de Eduardo, a medida foi motivada pelo número de ausências em sessões deliberativas.

Já Ramagem teve o mandato cassado em cumprimento a uma determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), após ser condenado por participação na tentativa de golpe de Estado. Os atos foram publicados naquela tarde no Diário da Câmara dos Deputados.

A cassação de Eduardo Bolsonaro teve como fundamento o dispositivo constitucional que determina a perda do mandato de parlamentares que deixam de comparecer a mais de um terço das sessões deliberativas realizadas ao longo do ano. Das 78 sessões contabilizadas pela Câmara em 2025, o deputado esteve ausente em 63, o equivalente a aproximadamente 81% do total.

<><> Condenação no STF

Ministros da Primeira Turma do STF decidiram, por unanimidade, condenar Eduardo Bolsonaro a quatro anos e dois meses de prisão, com início do cumprimento da pena em regime semiaberto,. quando a pessoa trabalha ou estuda de dia e retorna à unidade penitenciária à noite.

O ex-parlamentar foi acusado do crime de coação no curso do processo. Segundo ministros da Corte, Eduardo Bolsonaro agiu com o objetivo de influenciar o julgamento da ação penal que resultou na condenação de seu pai, Jair Bolsonaro, por tentativa de golpe de Estado.

<><> Afinidade golpista

O trumpismo e o bolsonarismo têm afinidades golpistas. Em novembro de 2022, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) multou o PL, partido de Bolsonaro, em R$ 22,9 milhões após a sigla questionar a confiança das urnas eletrônicas. 

Em 8 de Janeiro de 2023, bolsonaristas invadiram a Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF), em manifestações golpistas. O STF emitiu mais de 1,4 mil condenações.

Nos EUA, trumpistas também fizeram atos pró-golpe. Em janeiro de 2021, quando Trump perdeu a eleição, vários apoiadores invadiram o Legislativo e acusaram o sistema eleitoral de ser fraudulento.

Críticas ao Judiciário são uma tática do estrategista estadunidense Steve Bannon para fazer partidos de direita chegarem ao poder nos EUA e em outros países.

•        Boulos: sob a liderança de Lula, Brasil resiste ao “projeto colonial” de Donald Trump

O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), afirmou que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) representa a principal resistência na América Latina ao que definiu como um “projeto colonial” do mandatário dos Estados Unidos, Donald Trump. Em entrevista ao SBT News, Boulos apontou que a eleição de 2026 ultrapassa os limites da política interna e terá impacto sobre a soberania brasileira.

Para o ministro, o cenário coloca o Brasil em posição estratégica diante dos interesses internacionais. “O Brasil se tornou, sob a liderança de Lula, talvez a única resistência significativa no nosso continente em relação ao projeto colonial de Donald Trump”, disse.

Boulos avaliou que a disputa presidencial deste ano será a “mais importante do planeta”. Na visão do ministro, um dos temas centrais da campanha será a proteção de recursos estratégicos do país, entre eles as terras raras.

De acordo com o ministro, o interesse dos Estados Unidos pelo Brasil está relacionado às reservas desses minerais, consideradas estratégicas. O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, atrás apenas da China.

<><> Boulos compara Lula e Flávio Bolsonaro

Ao comentar um eventual confronto eleitoral entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Boulos afirmou que a trajetória política do presidente é superior à do parlamentar. “A comparação beneficia o presidente Lula. Se você comparar a trajetória, a biografia, de Lula com Flávio Bolsonaro, não tem nem o que falar”, declarou.

O ministro classificou Lula como um “estadista”, citou o combate à fome e à pobreza durante os governos petistas e afirmou que “mesmo quem não gosta de Lula reconhece” sua trajetória. Em seguida, fez críticas ao senador.

“A biografia de Flávio é uma verdadeira ficha corrida. A única coisa que traz é o sobrenome do pai.” Ao estabelecer uma comparação entre as gestões de Lula e do ex-mandatário Jair Bolsonaro (PL), Boulos resumiu: “É 7 a 1”.

 

Fonte: Por Pedro Benedito Maciel Neto, em Brasil 247 

 

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