Entregar
anéis não preservará dedos
A
reação dos candidatos de Trump à Presidência do Brasil ante as últimas
agressões geopolíticas e geoeconômicas ao nosso país, por parte do governo de
extrema-direita dos EUA, além de abjeta e vergonhosa, é também ridícula.
Flávio
Bolsonaro e sua turma de parvos acreditam que a submissão a Trump e a aceitação
de imposições, que quebrariam a economia brasileira e destruiriam o futuro do
país (como abrir setores industriais inteiros, sem nenhuma reciprocidade),
fariam o governo estadunidense “aliviar” suas agressões.
Ora, a
estupidez dessa, por assim dizer, “tese”, é abissal. Revela total
desconhecimento da natureza do governo Trump.
Trump,
uma clara dissidência do Homo sapiens, tem crenças obsoletas e
arcaicas sobre a economia e sobre as relações internacionais, que ele “herdou”
do pitoresco presidente McKinley, o qual era tachado ironicamente, pelos seus
próprios colegas do Partido Republicano, de “Tariff Man”.
Trump
realmente acredita que grandes e irracionais tarifaços, aplicados
universalmente, inclusive a aliados, somados à total destruição das regras
multilaterais de comércio, poderão:
a)
Reerguer as velhas indústrias dos EUA e estimular o reshoring geral
da indústria de transformação estadunidense.
b)
Criar uma fonte de renda importante para o Estado norte-americano, de
modo a poder reduzir impostos para as grandes companhias dos EUA. Esse segundo
ponto é uma promessa eleitoral importante.
Trump e
seus “assessores” econômicos, como Kevin Hassett, Peter Navarro, Howard Lutnick
etc., realmente acreditam nisso. Acreditam que o planeta pode ser colocado numa
máquina do tempo para fazê-lo regressar aos tempos de McKinley ou aos idos do
pós-guerra.
Durante
a campanha, falando sobre os tempos de “grandiosidade” dos EUA, Trump mencionou
que esses “tempos áureos” teriam ficado comprometidos, a partir de 1916.
Por
qual razão 1916?
Porque
foi em 1916 que os EUA promulgaram a 16ª Emenda Constitucional, a qual
introduziu o imposto de renda federal na economia estadunidense.
McKinley
e muitos membros do Partido Republicano sempre tinham sido a favor de
altíssimas tarifas de importação e contra o imposto de renda. E sempre
acreditaram que tais tarifas, que McKinley pretendeu fixar em 50%, seriam
essenciais para desenvolver e manter a indústria dos EUA.
As
tarifas grandiosas, dessa forma, apresentavam uma dupla solução: financiar os
gastos do Estado e, ao mesmo tempo, promover a industrialização e o
desenvolvimento dos EUA, sem prejudicar os interesses dos ricos e das grandes
empresas.
Fortemente
regressivas, as tarifas de importação extremamente elevadas colocariam os
custos do desenvolvimento sobre a população em geral.
É o que
Trump está emulando, mais de um século depois.
Hoje,
Trump pretende impor tais custos não apenas à população dos EUA, mas também à
população mundial. A população dos EUA pagaria com o aumento dos preços
internos, já a população estrangeira pagaria com a perda de empregos e
rendimentos.
Por
isso, posições humilhantes e “genuflexórias”, como a de Flávio Bolsonaro, de
oferecer participação aos EUA na própria equipe de transição (algo claramente
ilegal e inconstitucional), não farão diferença alguma para Trump.
Ao
contrário, o alinhamento vergonhoso à geopolítica trumpista só acelerará a
ruína do Brasil, pois a intenção de Trump e, principalmente, de Marco Rubio, é
a de transformar o Brasil em um quintal, um protetorado.
Esse é
o “futuro” do Brasil com Flávio Bolsonaro e com os demais candidatos da
direita.
Mas
esse nem é o ponto principal. O ponto principal, que ninguém parece
enxergar, é que a associação a Trump é uma associação com o fracasso.
Trump
está destinado ao fracasso, tanto no campo interno quanto no campo externo.
No
campo interno, a industrialização forçada por tarifaços não está funcionando.
O reshoring não está ocorrendo e o custo de vida está sendo
muito impactado pelas tarifas bizarras, feitas sem uma política industrial
bem-desenhada. Trump está despencando nas pesquisas e deverá perder a
maioria no Congresso, nas próximas eleições.
No
campo externo, a geopolítica predatória e isolacionista de Trump, centrada no
autismo do “American Only” (unicamente a América) e na crença obtusa de que as
relações internacionais são um “jogo de soma zero” (para que os EUA ganhem, os
“outros”, aliados ou não, têm de perder), também não está produzindo os
resultados esperados.
O
evidente fracasso de Trump no Irã é uma clara demonstração dos limites dessa
geopolítica totalmente deslocada no tempo.
Alguns
analistas mais lúcidos do próprio Partido Republicano, como A. WESS MITCHELL,
consideram que os EUA serão forçados a fazer o que se chama de “consolidação”,
um movimento estratégico que os britânicos realizaram em 1904.
Na
época, o principal almirante da armada britânica, John “Jacky” Fisher,
preocupado com a ascensão econômica, tecnológica e militar da Alemanha (como
hoje os estadunidenses se preocupam com a ascensão da China), delineou uma
estratégia para fortalecer a posição britânica, que foi caracterizada como de
“consolidação”.
Consolidação
é quando um Estado se concentra em seus principais interesses, reduzindo sua
presença em áreas de menor significado estratégico, ao mesmo tempo em que
aumenta os recursos nacionais para ampliar o poder à sua disposição ao longo do
tempo. Não obstante, isso não era visto como recuo, e, muito menos,
aquiescência a um declínio nacional.
Fisher
decidiu que, em vez de tentar manter todas as bases navais dispersas do Império
Britânico, priorizaria as águas adjacentes às Ilhas Britânicas para deter a
Alemanha, a principal ameaça ao Reino Unido.
Porém,
para suprir as lacunas criadas em outras áreas, ele pretendia contar com
aliados regionais, como o Japão e a França, que os diplomatas britânicos
estavam cortejando. Ao fazer isso, ele esperava ganhar tempo para que o Reino
Unido mobilizasse suas poderosas indústrias e se mantivesse à frente de seus
rivais em tecnologias de ponta.
Em
outras palavras, a consolidação implicava não apenas a concentração de recursos
em áreas prioritárias para conter o principal rival e o aumento dos
investimentos em recursos nacionais (algo que Trump já vem tentando fazer), mas
também fortes alianças para manter a hegemonia em outras áreas geográficas.
Trump,
obviamente, está fazendo uma consolidação equivocada, pois despreza a
necessidade de estabelecer alianças fortes para exercer hegemonia em áreas
geopolíticas não prioritárias.
O Rei
Charles III, diga-se de passagem, chamou a atenção para este ponto, em seu
discurso no Congresso dos EUA.
Portanto,
muito provavelmente, os EUA serão forçados a refazer, com muito esforço, sua
antiga política de alianças (principalmente a aliança transatlântica), bem como
a rever sua política tarifária irracional, feita fora do contexto de uma
política industrial sólida e das normas constitucionais dos EUA.
Trump é
um fracasso monumental e quem a ele se associar fracassará também.
Entregar
anéis não preservará dedos.
¨ The Economist: Ataque
dos EUA amplia apoio ao Pix no Brasil
A
decisão do governo dos EUA de incluir o Pix entre os argumentos usados para
justificar a ofensiva tarifária contra o Brasil ampliou o apoio interno ao
sistema de pagamentos. A avaliação é da revista britânica The Economist,
que destacou o uso da plataforma por cerca de 170 milhões de pessoas e
contestou as acusações apresentadas por Washington.
O Pix
foi mencionado em uma investigação comercial conduzida durante um ano pelas
autoridades norte-americanas. O processo classificou como “injustas”
determinadas práticas brasileiras e embasou a aplicação de uma tarifa adicional
de 25% sobre uma série de produtos importados do Brasil.
O
governo do presidente Donald Trump sustenta que a plataforma representa uma
ameaça competitiva às empresas norte-americanas de pagamentos. Também afirma
que o sistema, operado pelo Banco Central, teria caráter protecionista.
Segundo
a The Economist, os dois argumentos não encontram respaldo no
funcionamento do Pix. A infraestrutura não diferencia instituições brasileiras
e estrangeiras, enquanto companhias internacionais podem participar nas mesmas
condições oferecidas às empresas nacionais. Visa e Mastercard, por exemplo,
aderiram voluntariamente ao sistema.
A
publicação pondera que a atuação do Banco Central como operador e regulador
pode gerar discussões sobre concentração de atribuições. Essa questão,
entretanto, não comprova a existência de discriminação contra empresas dos
Estados Unidos.
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Pix alcança quase 80% da população
Criado
em 2020, o Pix passou a ser utilizado por quase 80% dos brasileiros. A
plataforma permite transferências e pagamentos instantâneos durante 24 horas,
inclusive em fins de semana e feriados.
A
gratuidade das operações para pessoas físicas foi um dos fatores responsáveis
pela rápida expansão. Antes do lançamento do sistema, parte dos serviços
eletrônicos disponíveis cobrava tarifas que dificultavam o acesso dos
consumidores de menor renda.
Estimativas
do Banco Central apontam que pelo menos 70 milhões de pessoas ingressaram no
sistema financeiro formal desde a implantação da ferramenta. A facilidade para
movimentar recursos também estimulou trabalhadores a manter salários e
economias em contas bancárias, em vez de sacar imediatamente os valores
recebidos.
A
revista avalia que o Pix não apenas transferiu operações realizadas
anteriormente por cartões ou outros meios. A plataforma ampliou o mercado ao
incorporar consumidores que dependiam do dinheiro em espécie ou utilizavam
pouco os serviços bancários.
<><>
Uso do sistema impulsiona depósitos
Estudo
da Fundação Getulio Vargas (FGV) citado pela publicação identificou crescimento
mais acelerado dos depósitos bancários em municípios onde a utilização do Pix
avançou com maior intensidade.
O
efeito foi mais expressivo nas regiões com forte presença da economia informal.
Nessas localidades, a gratuidade e a facilidade das transferências reduziram
barreiras enfrentadas por trabalhadores autônomos e pequenos comerciantes.
Outro
levantamento apontou que estabelecimentos localizados em áreas com maior adesão
ao Pix também apresentavam maior probabilidade de aceitar cartões de débito. O
resultado indica que a expansão da plataforma pública não eliminou os
instrumentos privados.
Desde
2020, o número de transações com cartão de crédito no Brasil aumentou 127%. O
dado contraria a interpretação de que o crescimento do Pix teria provocado uma
queda generalizada nas operações das empresas de cartões.
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Concorrência pressiona tarifas dos cartões
O
principal impacto sobre as operadoras está relacionado às taxas cobradas dos
comerciantes. No Brasil, os estabelecimentos geralmente pagam ao processador
aproximadamente 2% do valor das vendas realizadas com cartão de crédito.
A
disponibilidade de uma alternativa instantânea e de menor custo obriga essas
empresas a justificar as tarifas. A pressão competitiva recai, portanto, sobre
as receitas obtidas com o processamento, e não necessariamente sobre o volume
das transações.
Pequenos
empreendedores também passaram a receber pagamentos sem depender de máquinas de
cartão ou de contratos com empresas adquirentes. Para efetuar uma cobrança,
basta ter uma conta habilitada e disponibilizar uma chave Pix ou um código QR.
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Plataforma reduz barreiras entre bancos
A
criação do Pix facilitou a movimentação de recursos entre instituições
financeiras. Antes de 2020, transferências lentas e tarifadas contribuíam para
manter clientes nos grandes bancos tradicionais.
Com
operações gratuitas e instantâneas, os consumidores ganharam maior liberdade
para distribuir seus recursos entre diferentes contas. Bancos digitais e
instituições menores passaram a competir em condições mais favoráveis em um
mercado historicamente concentrado.
O
aumento da concorrência bancária ocorreu simultaneamente à inclusão de milhões
de novos usuários. Para a The Economist, o sistema foi criado
justamente para enfrentar limitações dos serviços anteriores, que não atendiam
adequadamente uma parcela significativa da população brasileira.
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Modelo brasileiro pode alcançar outros países
A
revista avalia que a preocupação do governo Trump também pode estar relacionada
à possibilidade de o Pix servir de referência para outros países da América
Latina. A disseminação de plataformas semelhantes teria potencial para reduzir
as receitas das redes norte-americanas de cartões e sua influência sobre a
infraestrutura regional de pagamentos.
O
México lançou em 2019 o CoDi, seu próprio sistema de transferências
instantâneas. A adesão, no entanto, permaneceu limitada: em 2024, somente 1,6%
dos mexicanos havia utilizado a plataforma.
No
Brasil, a integração entre bancos, fintechs e outras instituições, somada à
gratuidade e à facilidade de uso, levou o Pix a alcançar uma escala
significativamente maior. O desempenho tornou o sistema uma referência
internacional e o colocou no centro da disputa comercial entre Brasília e
Washington.
Fonte:
Por Marcelo Zero, em Brasil 247

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