Lula
3 – complexidade em lugar de reducionismo binário
Reduzir
o governo eleito em 2022 à justaposição entre uma política econômica neoliberal
e uma política social-desenvolvimentista é uma interpretação binária
insuficiente. Ela identifica uma tensão política, mas transforma essa tensão
ideológica em duas políticas independentes, quando, em termos pragmáticos,
qualquer governo opera dentro de uma configuração sistêmica, composta por
restrições institucionais, financeiras, produtivas, sociais, políticas e
geopolíticas.
Não se
trata apenas de um governo “neoliberal na economia e social-desenvolvimentista
na distribuição”. A Frente Ampla Antifascista, formada em 2022, não constituiu
uma coalizão programaticamente homogênea. Seu denominador comum imediato foi a
defesa do regime democrático diante da ameaça autoritária e/ou golpista.
Depois
da eleição, porém, reapareceram no debate público midiático as divergências
entre forças defensoras da austeridade fiscal e da estabilidade monetária,
defensores de políticas social-desenvolvimentistas, interesses empresariais
nacionais e transnacionais, pressão de operadores do mercado financeiro para a
manutenção da taxa de inflação disparatada, a contraposição de movimentos
sociais em defesa de interesses corporativos etc.
Isto
sem esquecer da necessidade política de uma base governista majoritária ao
custo de aliança com partidos do centrão, no Congresso Nacional, e nomeação
para cargos tais como o Conselho Diretor da Caixa Econômica Federal. Permanecem
ainda burocracias econômicas dotadas de certa autonomia institucional como a
diretoria do Banco Central do Brasil, Banco do Brasil, BNDES, Petrobras etc.
Portanto,
a política governamental não resulta de uma doutrina única ou mesmo de um
reducionismo binário. Ela é uma resultante emergente da interação entre forças
heterogêneas, nenhuma delas capaz de impor integralmente seu programa.
Sob
pressão midiática, o governo preservou elementos do regime macroeconômico
(“tripé”), estabelecido desde 1999 – metas de inflação, câmbio flutuante e
busca de sustentabilidade fiscal –, embora tenha substituído o teto rígido de
gastos por um arcabouço fiscal mais flexível. Simultaneamente, recompôs
políticas de renda, valorização do salário mínimo, transferências sociais,
investimentos públicos e crédito direcionado.
A meta
irrealista de inflação permanece em 3%, com intervalo de tolerância de 1,5
ponto percentual. Desde janeiro de 2025, considera-se descumprida quando a
inflação permanece fora da faixa por seis meses consecutivos. Não são,
entretanto, duas metades perfeitamente separadas: política monetária restritiva
de um lado; política social compensatória de outro. As duas interferem uma na
outra.
O juro
elevado aumenta as despesas financeiras e reduz a alavancagem financeira de
investimentos privados, além de encarecer a dívida pública, apesar da expansão
da renda popular ter sustentado consumo, emprego e arrecadação no período
2023-2026. O resultado agregado depende das retroalimentações entre essas
variáveis.
De
acordo com o novo paradigma da ciência econômica, deve-se superar qualquer
reducionismo binário com pelo menos mais um “terceiro incluído”, para refletir
a complexidade emergente de interações de inúmeros outros elementos, além dos
dois: neoliberalismo versus social-desenvolvimentismo. Por exemplo, o “terceiro
incluído” pode ser a inserção estrutural brasileira na economia mundial.
A
globalização produtiva, a desnacionalização das empresas industriais e de
infraestrutura, todas incluídas em cadeias globais de valor, são componentes
decisivos desse terceiro incluído. Ele pode ser formulado de maneira ainda mais
abrangente como a posição estrutural ocupada pelo Brasil na divisão
internacional do trabalho, sob dominância financeira, tecnológica e empresarial
transnacional.
Essa
posição condiciona tanto a macroeconomia estrutural quanto a política social.
Afinal, o país – um dos cinco (EUA + BRIC) incluídos nos rankings de maiores
territórios, populações e renda – possui uma estrutura exportadora muito
competitiva em petróleo, mineração, agroindústria, alimentos, celulose e
algumas atividades industriais. Essa dimensão estrutural não é resultante de “a
força política e econômica do agronegócio pressiona o governo a favorecer
exportações de produtos primários em detrimento da reindustrialização”.
Na
realidade, é praticamente irreversível uma indústria de transformação integrada
a redes transnacionais. Isto porque, com seu baixo nível de desenvolvimento
educacional, científico e tecnológico, dependente de gastos públicos, o país
possui elevada dependência de componentes, máquinas, equipamentos, insumos
químicos, fármacos, semicondutores e tecnologias importadas.
Por
serem as maiores empresas industriais controladas no exterior, suas decisões
estratégicas são tomadas segundo a rentabilidade global do grupo. O sistema
financeiro nacional é capaz de carregar os títulos de dívida pública, financiar
a política habitacional e o consumo. Entretanto, não capta funding orientado ao
investimento industrial de longo prazo, exceto o BNDES via debêntures
incentivadas. Com a troca de TJLP por TLP emergiu o mercado de títulos de
dívida direta das empresas não-financeiras como debêntures.
Como o
mercado interno, seja o popular, seja o da elite, é grande em termos
internacionais absolutos, embora marcado por forte desigualdade, é atraente
para as empresas transnacionais. Logo, a apreciação cambial não age apenas como
instrumento anti-inflacionário.
Ela
também barateia componentes e equipamentos importados; favorece empresas
montadoras dependentes de insumos externos; reduz custos de bens finais
importados; pressiona produtores domésticos a serem competitivos em preços e
qualidade; diminui a rentabilidade da produção local de bens comercializáveis;
e estimula a substituição da produção nacional por importações – ao contrário
do anacrônico modelo de substituição de importações.
Forma-se
uma circularidade: juros elevados → entrada de capitais ou valorização
cambial → importações
mais baratas → inflação
menor no curto prazo → perda de
competitividade industrial →
maior dependência de importações → maior
vulnerabilidade futura ao câmbio → dependência
de um superávit comercial estrutural, baseado na disponibilidade de
recursos naturais exportáveis.
Portanto,
a política anti-inflacionária pode reduzir a inflação corrente ao preço de
enfraquecer a capacidade produtiva doméstica, sob o risco de aumentar,
posteriormente, a própria exposição à inflação importada. Uma baixa inflação,
de imediato, não é uma demanda popular no Brasil?
A
observação sobre a vantagem comparativa interna da empresa transnacional é
central. Na economia contemporânea, boa parte do comércio internacional não
ocorre entre empresas nacionais independentes. Ocorre entre matriz e filial,
entre diferentes subsidiárias do mesmo grupo, entre fornecedores subordinados a
uma empresa líder e entre plataformas coordenadoras de cadeias dispersas.
A
empresa transnacional escolhe onde localizar cada etapa, conforme uma
combinação de custos, escala, logística, impostos, subsídios, acesso a
mercados, domínio tecnológico, proteção jurídica, disponibilidade de
fornecedores e estratégia geopolítica. Essa decisão não corresponde
necessariamente à “vantagem comparativa do Brasil”. Corresponde à vantagem
privada da cadeia corporativa global. A empresa transnacional não organiza sua
cadeia segundo o interesse nacional ou de acordo com a política econômica hegemônica.
Uma
subsidiária brasileira pode ser lucrativa importando peças asiáticas e apenas
montando o produto no Brasil. Do ponto de vista da corporação, isso é
eficiente. Do ponto de vista nacional, implica em baixo conteúdo tecnológico
local, reduzida formação de fornecedores, remessas de lucros e royalties,
déficit em bens industriais sofisticados, pouca difusão de conhecimento e
vulnerabilidade externa.
Há,
portanto, uma diferença essencial entre eficiência microeconômica da empresa
transnacional e eficiência sistêmica do desenvolvimento nacional. Basta esse
“terceiro incluído” – a globalização e/ou a desnacionalização da economia
brasileira – para verificar a complexidade enfrentada por qualquer governo,
independentemente do seu credo ideológico dominante.
No
atual contexto internacional, com tentativa de retomada da política imperial
por parte dos Estados Unidos, a defesa da soberania nacional é crucial no
debate eleitoral. Entretanto, não se deve confundi-la com o antigo nacionalismo
sonhador de ser possível o alcance de plena autonomia com reindustrialização.
• Desafios nos tristes trópicos. Por Luiz
Marques
Claude
Lévi-Strauss integra o grupo de professores franceses convidados para a
formatação da primeira universidade brasileira, a USP, na década de trinta.
Relata a experiência em um livro famoso, Tristes trópicos, publicado na França
em 1955 e traduzido para o português em 1996. No capítulo 11, a obra compara a
arquitetura urbana nas Américas com cidades da Europa, objetos para uma
contemplação e não simples instrumentos de decoração.
As
cidades tropicais mudam de fisionomia sem deixar vestígios da passagem do
tempo. Logo suas fachadas descascam, a chuva e a fuligem desenham sulcos, as
rachaduras estruturais irrompem, estilos saem de moda. O ordenamento primitivo
desaparece sob demolições movidas pela impaciência. A evolução obedece a um
curtíssimo período de festas e sonhos.
Ao
visitar Nova York ou Chicago em 1941 e ao chegar em São Paulo em 1935 não é o
aspecto novo, mas a precocidade dos estragos que instiga a futura celebridade.
Afinal, as cidades além-mar adormecem suavemente na morte; as urbes do Novo
Mundo sofrem febrilmente da doença crônica típica dos jovens no território.
“Não me
surpreendeu que a essas cidades (selvagens) faltassem uns dez séculos,
impressionou-me que tantos bairros já tivessem cinquenta anos; e que, sem pejo,
alardeassem tais estigmas visto que o encanto a que poderiam aspirar seria
apenas o de uma juventude fugaz”, arremata o perspicaz antropólogo.
Evidentemente
catástrofes naturais fazem o ruim, pior. A tragédia na Venezuela, com
terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 na escala Richter, em 24 de junho corrente,
tem o epicentro nos estados de Yaracuy, afetando Caracas, e no estado de La
Guaira onde 80% dos prédios colapsam. Quatro mil pessoas são mortas, milhares
permanecem desaparecidas sob os escombros, dezessete mil amargam o desabrigo. O
prejuízo de U$ 37 bilhões equivale a 6% do PIB do país sequelado.
Em meio
a tristeza e o desespero humano, a lição adveio do bairro Fuerte Tiuna, em
Caracas, onde as casas e os conjuntos habitacionais de um projeto arquitetônico
em cooperação com a Belarus, a Rússia e a China sobreviveram aos abalos na
fronteira das placas tectônicas do Caribe e da Sul América. A iniciativa
intitulada Missão Habitacional Venezuela remonta à época do previdente chefe de
governo Hugo Chaves. A boa notícia, segundo os peritos, é de que 100% dessas
edificações passaram incólumes pela terrível provação. Sem avarias estruturais,
seguem habitáveis.
O
método adotado na construção evita novos lutos. A tecnologia antissísmica
comprovada em climas extremos da Ásia e do Leste Europeu se mostra resistente.
A combinação de investimentos sociais, conhecimento estrangeiro especializado
em engenharia e qualidade dos insumos funciona a contento, garantindo às
moradias o direito a uma velhice lenta. O costume que leva ao emprego de
materiais precários para maximizar os lucros não é um destino incontornável.
Quando os governantes têm amor à pátria e os empresários agem com
responsabilidade, outra cultura se estabelece na sociedade.
Também
o capital especulativo provoca mudanças paisagísticas. A dita destruição
criativa não nutre respeito pelo passado. Alavancada pelo mercado imobiliário,
a financeirização multiplica as ruínas em nome do etarismo que considera démodé
o que cruza a fatídica linha da juventude. O preconceito se estende,
facilmente, das molduras de concreto aos idosos.
No
Brasil, a direita e a ultradireita privatizam o que é comum a todos: o gás, a
água, a energia elétrica, e desguarnecem a proteção ambiental. No ápice da
viralatice, o governador Tarcísio de Freitas põe à venda o Palácio
Bandeirantes, o Instituto Butantan e o Hospital de Clínicas; dado o escândalo,
recua. O esforço diuturno para apagar os rastros das instituições na esfera
pública é a marca de um servilismo corrupto dos rastaqueras às “elites”
entreguistas.
A
novidade serve de justificação à ação devastadora das retroescavadeiras. O
antigo Largo da Forca, em que escravizados eram executados e libertos habitam
no pós-Abolição, recebe os imigrantes japoneses a partir de 1912. Hoje parece
que o Bairro Liberdade, em São Paulo, sempre teve aqueles inconfundíveis traços
nipônicos.
Os
paulistas que se vangloriavam de construir uma casa, por hora, mantêm o ritmo
na era dos edifícios, o que torna inviável editar um mapa da metrópole a menos
que se lance edições semanais. Em paralelo, o comércio assume a tarefa de
limpar social e racialmente as vias públicas pela exposição de mercadorias nas
calçadas e sob os viadutos. O padre Júlio Lancelotti conhece de cor as
artimanhas eugênicas do poder para implementar uma gentrificação livre de
pedras hostis.
A
propósito, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul (CAU/RS)
denuncia a demolição irregular de um imóvel no Centro de Pelotas, incluído no
inventário do Patrimônio Histórico do município. O Ministério Público pede a
condenação dos responsáveis e uma indenização condizente por danos difusos para
o Fundo Municipal de Reconstituição de Bens Lesados. A transferência de terreno
depende agora da reparação pecuniária depositada antes. Better late than never.
Por
igual, conquanto no caso sem razão, os Estados Unidos enfrentam o contexto de
crise cobrando indenizações por supostos danos na balança de pagamentos, com a
imposição de tarifas escorchantes sobre as importações. Em simultâneo, escondem
e idealizam o passado com uma mitomania condensada na sigla MAGA (“Make America
Great Again”), incapazes de frear a marcha da multipolaridade no mundo. O
presidente Donald Trump manipula o ressentimento frente as promessas de paz e
prosperidade não cumpridas pela democracia liberal.
Ao
contrário, em defesa da soberania nacional, o estadista Lula da Silva confronta
a arrogância estadunidense e rechaça as ameaças imperialistas da fera ferida em
sua vaidade desproporcional à realidade dos fatos. Cada um tire as conclusões
objetivas da situação e faça uso dos direitos políticos para reinventar a
esperança individual e coletivamente. Tal é o desafio nos tristes trópicos. A
luta continua nas urnas.
Fonte:
Por Fernando Nogueira da Costa, em A Terra é Redonda

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