América
do Sul: a Doutrina Donroe nas urnas
A
eleição de Keiko Fujimori no Peru, em 29 de junho de 2026, e a vitória de
Abelardo de la Espriella na Colômbia uma semana antes confirmam uma alteração
no equilíbrio político sul-americano. Com esses resultados, a direita passa a
governar sete dos doze países da região.
O
presidente dos EUA, Donald Trump, abertamente explicitou seu envolvimento
nessas eleições, em particular a colombiana, chamando de la Espriella de líder
“inteligente, forte e determinado” e a seu oponente Iván Cepeda de um “marxista
de esquerda radical”. Ademais, afirmou que a manutenção entre ambos os países
dependia do candidato que endossava. Mais que isso, o subsecretário de Estado
Christopher Landau coordenou uma campanha de desinformação contra o candidato
governista colombiano, que o secretário de Estado Marco Rubio justificou
necessária como proteção aos interesses do seu país nos processos democráticos
da Colômbia.
Longe
de ocultar esta intromissão, Trump faz questão de expressar que assim serão as
relações com os países latino-americanos, tendo seu ápice na detenção de
Nicolás Maduro, mas também com sua aberta intromissão nos processos eleitorais
na Argentina, no Equador, no Chile e, agora, no Brasil. Lentes estreitas
enfocam esses fatos na personalidade do Trump, mas na verdade é que constitui
uma visão arraigada dos Estados Unidos: “América” vai do polo norte ao sul, sem
consideração pelas “soberanias” existentes.
Isso
ficou claro quando Monroe anunciou sua doutrina em 1823, quando nenhum Estado
do continente foi sequer consultado nem informado da mesma — e foi, na
realidade, uma expressão estadunidense feita a quem considerava seus
interlocutores, os europeus. A expectativa americana, como tinha expressado
Thomas Jefferson, era criar um ‘Império da Liberdade’, deixando claro que seus
amplos limites geográficos eram indefinidos e se estendiam ao longo do
continente americano — o que ficaria claro no Destino Manifesto.
A
vitória sobre o México deteve as pretensões territoriais diretas pela
indisposição de incorporar populações latinas e católicas. A metade mexicana
que não foi incorporada aos EUA passaria a ser tutelada indiretamente pelos
mecanismos de intromissão, pressão econômica, diplomática e política, e
intervenção militar, no estilo da união aduaneira sob sua arbitragem política
que propuseram na Conferência Pan-Americana de 1889. Theodore Roosevelt
atualizaria a visão de tutelagem continental afirmando que os EUA interveriam
em qualquer país que “não se comportasse corretamente” no que ficou conhecido
como seu Corolário à Doutrina Monroe.
Consolidou-se,
assim, a percepção de que a projeção de poder sobre o continente constituía
elemento central da estratégia norte-americana de afirmação internacional. Ao
todo, se calculam mais de 40 intervenções diretas e cobertas. O ex-presidente
Woodrow Wilson, grande promotor de muitas delas, declarou em 1913 sua
insatisfação com resultados eleitorais na região e que ia ensinar aos latino-
americanos a “escolher bons homens”. Quando a resistência latino-americana e a
Grande Depressão tornaram o intervencionismo mais custoso, os EUA adotaram a
Política da Boa Vizinhança, optando por métodos mais suaves de ação — mas sem
abandonar os preceitos básicos: América Latina deve estar alinhada às
determinações dos EUA.
A
Guerra Fria reativou a intervenção direta. Embora os EUA também agissem sobre
países de outros continentes, na América Latina a percepção era de que se
tratava de uma região não disputável, mas da sua exclusividade de ingerência —
noção acendida pela Revolução Cubana. Enquanto na América Central e no Caribe
os EUA fizeram intervenções militares diretas ou por meio da CIA, na América do
Sul isso somente se observou na Venezuela e no Chile. No resto dos países,
fundamentalmente através da Operação Condor, promoveram golpes militares, salvo
Colômbia e Peru, mas se somariam à lista posteriormente — o primeiro fortemente
por meio da “guerra às drogas”. Após a queda da União Soviética, a globalização
projetou os instrumentos econômicos de intervenção, através do Consenso de
Washington, do FMI, do Banco Mundial e, posteriormente, de mecanismos de
cooperação em segurança, como o Plano Colômbia.
Trump
está acelerando a velocidade dessa tutelagem, ademais de explicitar a mesma à
transparência aberta. Na sua compreensão, o crescimento da presença econômica
chinesa nas últimas décadas na região deve ser revertido rapidamente — em
especial, dados os vários reveses que os EUA vêm sofrendo em outras partes do
mundo.
Para
isso, é preciso desarticular as aspirações recentes de maior autonomia na
América do Sul neste século. Assim, aponta a candidatos que continuem
desacreditando e enfraquecendo institucionalidades como a UNASUL e o MERCOSUL,
para promover que essa cooperação multilateral se converta em uma soma de
vínculos bilaterais com Washington. Não por acaso, a rede de lideranças
alinhadas ao trumpismo com Bukele, Milei, Kast, Noboa, de la Espriella,
Fujimori e potencialmente ao próximo presidente brasileiro ataca qualquer forma
de integração regional latino-americana. Ao mesmo tempo, essas figuras
políticas valorizam a relação estreita com os Estados Unidos — e até com a
própria pessoa do Trump — como única solução para superar os problemas
domésticos, como desempenho econômico, desgaste governamental e fragmentação
partidária.
Paradoxalmente,
essa dinâmica revela que, sem a ação de agentes domésticos, pouca ou nenhuma
mudança ocorreria. Daí que Trump faz questão de expressar como deve ser
especificamente a dinâmica eleitoral de cada país. Mas isso se sustenta com
base em uma percepção negativa das capacidades e possibilidades desses
processos políticos internos.
Uma
visão global desses processos em seu conjunto revela os efeitos do
neoliberalismo e seus impactos deletérios para o funcionamento democrático, não
só na América Latina, mas em grande parte do mundo governado sob essa visão. Em
2024, o maior ciclo eleitoral da história em termos populacionais, dezenas de
governos incumbentes foram derrotados, consequência dos efeitos políticos da
pandemia e das instabilidades econômicas anteriores a ela, como a inflação, a
desaceleração econômica e o aumento da desigualdade. A pesquisa do Pew Research
Center em 34 países indicou que 54% se declararam insatisfeitos com o
funcionamento da democracia. Na América Latina, a situação é mais agravante. O
Informe Latinobarómetro de 2023 registrou queda de 15 pontos no apoio à democracia
entre os latino-americanos desde 2010, caindo a 48%.
Assim,
é nesse contexto que parte da nova direita sul-americana, influenciada pela
ascensão do trumpismo, resolveu adotar métodos, como os discursos maniqueístas,
antissistema e forte presença nas plataformas digitais estrangeiras. Sob
expectativas impossíveis de não serem frustradas, impulsionam políticas
domésticas alinhadas aos desejos abertamente explicitados por Trump. Mas a
realidade de fundo revela sua força quando se observa que também essas novas
direitas enfrentam dificuldades para responder às condições estruturais que
favoreceram sua ascensão. Como não é uma visão ideológica ou verdadeira visão
de mundo que está detrás de sua vitória nas urnas, sua base de sustentabilidade
é fraca e dificilmente perduram mais de um mandato.
O
cenário que surge, então, é de contínua alternância recorrente, e vitórias nas
urnas milimétricas, que, ademais, favorecem as denúncias de fraudes. A recente
vitória de Fujimori demonstra um caso extremo dessa dinâmica: em um país com
oito presidentes desde 2016, ela venceu por conta do acúmulo de insatisfação
causado por uma instabilidade que o fujimorismo contribuiu para criar. A
eleição brasileira é a próxima a enfrentar esse desafio, seguida pela Argentina
em 2027 e pelo Paraguai em 2028. Os demais tiveram, em geral, eleições
fortemente divididas e circunstâncias disputadas até sobre o resultado final —
enquanto a Venezuela se encontra num impasse formalmente indefinido.
Enquanto
se foca na figura do Trump e nas vicissitudes internas de cada país para
explicar seus resultados políticos, persiste a influência e intervenção — agora
mais explícita, agora menos — dos EUA promovendo visões e estruturas
econômico-sociais acordes aos seus interesses. Ao fim, que a América Latina
consiste numa região para seu benefício, poucos o expressaram tão abertamente
como em 2013 o tido liberal, progressista, defensor ambiental, promotor de
direitos civis e humanos, e ex-secretário de Estado de Barack Obama, John
Kerry: “O Hemisfério Ocidental é o nosso quintal. É fundamental para nós.”
Fonte: Por
Andres Ferrari e João Pedro Castro Correia, em Outras Palavras

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