Cuba:
um povo que não se rende
No
último dia 14, Cuba voltou a enfrentar um apagão nacional. Foi o quinto colapso
do sistema elétrico registrado no país em 2026. Rapidamente, as imagens de Cuba
mergulhada na escuridão correram o mundo. Atendendo aos interesses do
imperialismo estadunidense, os grandes meios de comunicação voltaram a
apresentar o apagão como mais uma prova do que eles chamam de “fracasso do
socialismo”. Como de costume, não faltaram analistas burgueses vociferando aos
quatro ventos que a Revolução Cubana chegou ao seu limite.
No caso
de Cuba, quem cria a doença oferece, em seguida, a falsa cura. Há mais de seis
décadas, os Estados Unidos submetem a ilha a um bloqueio econômico brutal e, ao
mesmo tempo, apresentam a restauração do capitalismo como a única saída. Uma
grande mentira, já que em Nova York, cartão-postal dos Estados Unidos e sede do
capital financeiro mundial, mais de 100 mil pessoas vivem em situação de rua.
De
fato, o sistema elétrico cubano depende da importação de combustíveis fósseis
para manter em funcionamento suas usinas termelétricas. Sem petróleo
suficiente, ocorrem apagões nacionais como o registrado nesta semana. Essa
escassez decorre do endurecimento das sanções promovidas por Washington contra
qualquer país, empresa ou instituição financeira que mantenha relações
comerciais com Cuba. Até mesmo o setor do turismo sofre os efeitos dessas
medidas. O objetivo permanece o mesmo: impedir que Cuba tenha acesso aos
recursos indispensáveis para manter sua economia, buscando asfixiar seu povo.
Esse
cerco não começou agora. O bloqueio criminoso imposto pelos EUA em 1962
representa a mais longa política de sanções unilaterais da história
contemporânea.
Em 6 de
abril de 1960, antes mesmo da oficialização do embargo, Lester D. Mallory,
então subsecretário assistente para Assuntos Interamericanos do Departamento de
Estado dos Estados Unidos, redigiu um memorando reconhecendo que a maioria da
população apoiava o governo revolucionário e que não existia oposição política
suficientemente forte para derrubá-lo. Diante disso, propunha utilizar todos os
meios possíveis para enfraquecer a economia cubana, reduzir salários, provocar
fome, privações e desespero, criando as condições para a queda da
Revolução.
Em
outras palavras, a escassez é o projeto político do imperialismo com o
bloqueio.
Mas a
história demonstra que essa estratégia fracassou. Mesmo durante o chamado
Período Especial, momento mais difícil desde o triunfo da Revolução, no início
da década de 1990, Cuba manteve-se de cabeça erguida: preservou seu sistema
público de saúde, sua educação gratuita, seus centros de pesquisa e sua
soberania nacional.
Há mais
de três décadas, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprova, por ampla
maioria, resoluções exigindo o fim do bloqueio. Em 2024, apenas Estados Unidos
e Israel votaram contra a resolução, acompanhados por um número ínfimo de
aliados. Mas o bloqueio permanece, escancarando que quem toma as decisões são
os senhores da guerra.
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Solidariedade é a maior lição de Cuba
Esse
ano celebramos o centenário de nascimento de Fidel Castro, em meio às novas
ofensivas do imperialismo norte-americano. Em seus ensinamentos, Fidel defendia
a solidariedade, o profundo senso de humanidade e, sobretudo, a defesa
intransigente dos princípios revolucionários. Mesmo preso, no assalto ao
Quartel Moncada, Fidel estava submetido a todo tipo de violações, mas seguiu
defendendo que era justo o levante em armas do seu povo contra um governo
tirano, como relatou em “A História me absolverá”. Mais de seis décadas depois,
essa continua sendo a principal característica da Revolução Cubana: não se
render. Resistiu às invasões, aos atentados terroristas, às centenas de
tentativas de assassinato de seus dirigentes, às crises econômicas e ao
bloqueio mais prolongado da história moderna.
Ao
mesmo tempo, Cuba jamais deixou de praticar o internacionalismo e a
solidariedade: enviou médicos, alfabetizadores e brigadas de emergência após
terremotos, furacões e epidemias. Durante a pandemia de Covid-19, enquanto os
países capitalistas corriam para lucrar com as vacinas, Cuba desenvolveu seus
próprios imunizantes e enviou profissionais de saúde para dezenas de nações.
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Por que o Brasil não envia petróleo a Cuba?
Há quem
afirme que o governo brasileiro simplesmente não pode enviar petróleo a Cuba. O
argumento é conhecido: como a Petrobras possui ações negociadas na Bolsa de
Valores de Nova York, estaria submetida à legislação estadunidense e
impossibilitada de realizar esse tipo de operação. Em outras palavras,
estaríamos de mãos atadas.
Ora, o
Brasil mantém relações comerciais com Cuba, exportando principalmente produtos
agrícolas e alimentícios, além de alguns bens industriais. Mais do que isso,
acaba de enviar 48 toneladas de leite em pó como ajuda humanitária ao povo
cubano, transportadas em aeronaves da Força Aérea Brasileira. Os alimentos
foram disponibilizados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Ou
seja, quando existe vontade política, o Estado brasileiro encontra mecanismos
para exercer solidariedade internacional.
Trata-se,
antes de tudo, de uma decisão política. Mais do que isso: trata-se de defender
verdadeiramente a soberania nacional, sem subordinar completamente a política
externa brasileira a Washington.
De
fato, como a relação entre um país imperialista e um país dependente não se
define pela “química” entre seus líderes, o fascista Donald Trump não pensou
duas vezes antes de promover um novo tarifaço contra o Brasil. Afinal, de que
valeu toda essa submissão?
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Render-se ou lutar?
Nossa
história tem muitos exemplos de coragem e heroísmo, povos que não se ajoelharam
e venceram exércitos inteiros, porque o que determina a vitória não é a
potência das armas e o número de soldados, mas a confiança do povo na justeza
de sua luta. Foi assim no Vietnã. É assim, ainda hoje, na resistência do povo
palestino.
Por
isso, a maior derrota do imperialismo norte-americano é a determinação do povo
cubano. Depois de mais de seis décadas de bloqueio, a Revolução Cubana continua
inspirando milhões de pessoas que acreditam na soberania dos povos, na
solidariedade internacional e no direito das nações de escolherem seu próprio
destino. O povo cubano conhece o preço da liberdade e, ainda assim, não
renuncia à sua independência.
Há
também os exemplos de capitulação. O agravamento da crise energética cubana
demonstra como as concessões ao imperialismo fortalecem a capacidade de
chantagem econômica exercida pelos Estados Unidos sobre todo o continente. Não
podemos esquecer jamais que a situação do povo cubano se agravou após a traição
do atual governo venezuelano que, envergonhando a pátria de Chávez e
Bolívar, se rendeu a Trump e entregou o controle do petróleo aos monopólios
estadunidenses.
É por
isso que a solidariedade com Cuba continua sendo a principal tarefa dos povos
latino-americanos. No ano em que os povos do mundo celebram o centenário de
Fidel Castro, Cuba continua sendo o farol da esperança para aqueles que
acreditam na liberdade.
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As alegações dos EUA sobre a "ameaça única" de
Cuba contrastam com a realidade da fome e dos apagões. Por Ruaridh Nicoll
As
últimas alegações do governo dos EUA de que Cuba está por trás de "muitas das convulsões mais
significativas da história política americana recente" e que seus líderes
representam "uma ameaça singular à segurança nacional americana"
foram revelações surpreendentes para aqueles que vivem sob o bloqueio
petrolífero americano de seis meses em Havana, onde pessoas desesperadas
vasculham pilhas de lixo não recolhido em busca de comida ou sofrem com o calor
em suas casas em apagões de mais de 24 horas.
O
relatório não assinado de 100 páginas intitulado Cuba: Capital do
Comunismo do Século XXI, publicado pelo Departamento de Estado dos EUA na
segunda-feira, culpa Havana por tudo, desde "os tumultos após a morte de
George Floyd até a ascensão do movimento antifascista e a explosão do ativismo
pró-terrorista nos campi universitários americanos".
Este é
o mais recente esforço em uma campanha de pressão máxima para derrubar o
governo da ilha, que começou com o sequestro de Nicolás Maduro, presidente da
Venezuela, aliada de Cuba, em 3 de janeiro. Desde então, Cuba está paralisada
pelo bloqueio do petróleo, pelas sanções a empresas estrangeiras e pelas
ameaças de uma intervenção militar.
Parece
também ser uma tentativa de "excluir" aqueles que se encontram na
esquerda estadunidense antes das eleições de meio de mandato de novembro.
“O
ataque de Cuba aos Estados Unidos nunca foi, em essência, uma disputa sobre
política econômica, soberania ou mesmo posse de um determinado território”, diz
o relatório. “Foi uma revolução contra a própria civilização ocidental –
travada, em parte, por meio do método inédito e insidioso de persuadir os
filhos do Ocidente a se voltarem contra sua própria herança.”
"Fidel
teria ficado muito orgulhoso disto", disse um cubano divertido ao ler o
texto.
O
Departamento de Estado dos EUA, chefiado pelo cubano-americano Marco Rubio , recusou-se a divulgar o nome do
autor, mas é evidente que se trata de alguém que conhece bem a história.
"Quase imediatamente após a tomada de Havana, em janeiro de 1959, Castro
começou a planejar ataques armados contra governos vizinhos – lançando
expedições contra o Haiti, a República Dominicana, a Nicarágua e o Panamá
somente naquele ano", diz o texto.
O que o
texto omite é que o Haiti era governado na época por François “Papa Doc”
Duvalier, que matou cerca de 60.000 pessoas do seu próprio povo; a República
Dominicana por Rafael Trujillo, que lançou o “massacre da salsa”, matando entre
20.000 e 35.000 haitianos; e a Nicarágua pela família Somoza, a quem se atribui
o assassinato de até 50.000 nicaraguenses.
Embora
o relatório não apresente novas evidências, há uma ênfase suspeita na questão
racial. O suposto sucesso notável da inteligência cubana em infiltrar
instituições americanas deveu-se a uma predileção por "latinos
glamorosos", cita um oficial de inteligência em entrevista ao Miami Herald
em 2002: "Somos muito mais receptivos a latinos do que a pessoas com
dentes de aço e sotaque eslavo."
O texto
também lamenta o comprometimento ideológico dos espiões recrutados por Cuba,
sem mencionar que vários deles foram inspirados pelas tentativas da CIA de
assassinar Castro, ou o abrigo oferecido pelos EUA aos exilados Luis Posada
Carriles e Orlando Bosch, que organizaram o atentado ao voo 455 da Cubana de
Aviación em 1976, matando 73 pessoas.
O
aspecto mais chocante é que o relatório agrupa a longa luta interna dos EUA em
torno dos direitos civis e da reforma social e a reformula como uma batalha
entre as forças de atores estrangeiros e a “civilização ocidental”, detendo-se
em grupos como os Panteras Negras, cuja origem é atribuída a Cuba.
Embora
vários revolucionários negros tenham encontrado refúgio na ilha, sendo a mais
famosa Assata Shakur, que tinha uma recompensa de 2 milhões de dólares pela sua
cabeça pelo assassinato de um policial do estado de Nova Jersey, a experiência
talvez não tenha sido tão conspiratória quanto sugere o autor. Em entrevistas,
Nehanda Abiodun, uma das fugitivas mencionadas, afirmou que sua visão política
e sua fúria revolucionária derivavam de sua experiência crescendo na Nova York
dos anos 1970, e não de qualquer amor por Cuba, cujo governo ela passou a
nutrir ressentimento por silenciá-la em troca de refúgio. Ela costumava dizer
que a primeira coisa que lhe aconteceu ao desembarcar foi ser alvo de
discriminação racial por parte da polícia cubana. Se ela fazia parte de uma
conspiração internacional bem orquestrada, isso não transpareceu.
Durante
cinco anos, o governo cubano não conseguiu sequer alimentar seus 9,5 milhões de
habitantes, que em sua maioria o culpam pela crise. Mas o relatório já prevê o
seguinte: “Confundir a pobreza de Cuba com inofensividade é não compreender a
ameaça por completo. Sua fragilidade material nunca foi a medida do seu
perigo.”
O
relatório conclui: “Hoje, agentes e operativos cubanos mantêm uma posição
consolidada em centenas de grupos de fachada, organizações ativistas, centros
de solidariedade e redes ideológicas de ONGs e organizações sem fins
lucrativos. Esses grupos, coletivamente, representam um dos maiores, mais
sofisticados e perigosos vetores de influência estrangeira hostil na história
moderna dos Estados Unidos.”
Na
véspera da divulgação do relatório, Miguel Díaz-Canel, presidente de Cuba,
afirmou que os EUA haviam caído vítimas de uma “nova e mais perigosa versão do
macartismo”.
Mas
talvez a crítica mais contundente tenha vindo de um acadêmico cubano que
preferiu permanecer anônimo: "Parece exatamente uma reportagem que a mídia
estatal cubana poderia escrever sobre os Estados Unidos."
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Cuba chama de ‘falácia’ relatório sobre suposta
espionagem e infiltração em Washington
Em um
relatório elaborado pelo Departamento de Estado, divulgado nesta segunda-feira
(20/07), o governo dos Estados Unidos acusa Cuba de manter um grande aparato de
espionagem, que foi capaz de se infiltrar até mesmo no Departamento de Defesa
norte-americano.
Segundo
o documento, a inteligência cubana manteve agentes dentro do corpo diplomático
norte-americano e no Departamento da Defesa “durante décadas (…) nos mais altos
escalões”.
O governo cubano reagiu à
divulgação do documento por parte do governo dos Estados Unidos com um
comunicado assinado por seu ministro das Relações Exteriores, Bruno Rodríguez
Parrilla, no qual acusa o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, de ser o autor
intelectual do informe.
“A mais
recente falácia do Departamento de Estado norte-americano contra Cuba forma
parte da construção, pelo seu chefe (Rubio), de um pretexto para sustentar sua
guerra econômica cruel e criminosa, que castiga cada família cubana, e sua
aspiração de atacar militarmente a Cuba, para que busque desesperadamente o
apoio dos cidadãos estadunidenses”, argumentou Rodríguez Parriilla.
O
chanceler cubano também disse que “esta é outra evidência do plano macabro
arquitetado por este político do sul da Flórida, que só serve aos interesses
daqueles que sempre o pagaram”.
Desde o
retorno de Donald Trump à Casa Branca, o governo dos Estados Unidos tem mantido
o discurso de que poderiam agir a qualquer momento para promover uma “mudança
de regime” em Cuba. Tais ameaças se intensificaram após o sequestro do
presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em janeiro passado.
<><>‘Guerra
de desgaste’
Um dos
exemplos mencionados no informe é o de Ana Montes, uma analista dos serviços de
informações militares dos Estados Unidos que foi condenada em 2002 por ter
espionado a favor de Cuba entre os Anos 80 e 90 – foi libertada em 2023 após
cumprir 20 anos de prisão.
Em
outro trecho, o relatório indica que Cuba teria promovido “atividades
subversivas contra o governo dos Estados Unidos” através de um suposto “suporte
a redes revolucionárias”.
No
entanto, o governo dos Estados Unidos também alega que “Havana nunca teve
capacidade para derrotar os Estados Unidos em um conflito armado convencional”.
“Havana
vem travando uma longa guerra de desgaste organizada em torno da espionagem,
infiltração, sabotagem, redes paralelas e uma infraestrutura revolucionária
destinada a colocar a população dos Estados Unidos contra o próprio país”, diz
uma passagem do relatório.
Fonte:
Opera Mundi/The Guardian

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