quarta-feira, 22 de julho de 2026

Cuba: um povo que não se rende

No último dia 14, Cuba voltou a enfrentar um apagão nacional. Foi o quinto colapso do sistema elétrico registrado no país em 2026. Rapidamente, as imagens de Cuba mergulhada na escuridão correram o mundo. Atendendo aos interesses do imperialismo estadunidense, os grandes meios de comunicação voltaram a apresentar o apagão como mais uma prova do que eles chamam de “fracasso do socialismo”. Como de costume, não faltaram analistas burgueses vociferando aos quatro ventos que a Revolução Cubana chegou ao seu limite.

No caso de Cuba, quem cria a doença oferece, em seguida, a falsa cura. Há mais de seis décadas, os Estados Unidos submetem a ilha a um bloqueio econômico brutal e, ao mesmo tempo, apresentam a restauração do capitalismo como a única saída. Uma grande mentira, já que em Nova York, cartão-postal dos Estados Unidos e sede do capital financeiro mundial, mais de 100 mil pessoas vivem em situação de rua.

De fato, o sistema elétrico cubano depende da importação de combustíveis fósseis para manter em funcionamento suas usinas termelétricas. Sem petróleo suficiente, ocorrem apagões nacionais como o registrado nesta semana. Essa escassez decorre do endurecimento das sanções promovidas por Washington contra qualquer país, empresa ou instituição financeira que mantenha relações comerciais com Cuba. Até mesmo o setor do turismo sofre os efeitos dessas medidas. O objetivo permanece o mesmo: impedir que Cuba tenha acesso aos recursos indispensáveis para manter sua economia, buscando asfixiar seu povo.

Esse cerco não começou agora. O bloqueio criminoso imposto pelos EUA em 1962 representa a mais longa política de sanções unilaterais da história contemporânea.

Em 6 de abril de 1960, antes mesmo da oficialização do embargo, Lester D. Mallory, então subsecretário assistente para Assuntos Interamericanos do Departamento de Estado dos Estados Unidos, redigiu um memorando reconhecendo que a maioria da população apoiava o governo revolucionário e que não existia oposição política suficientemente forte para derrubá-lo. Diante disso, propunha utilizar todos os meios possíveis para enfraquecer a economia cubana, reduzir salários, provocar fome, privações e desespero, criando as condições para a queda da Revolução. 

Em outras palavras, a escassez é o projeto político do imperialismo com o bloqueio.

Mas a história demonstra que essa estratégia fracassou. Mesmo durante o chamado Período Especial, momento mais difícil desde o triunfo da Revolução, no início da década de 1990, Cuba manteve-se de cabeça erguida: preservou seu sistema público de saúde, sua educação gratuita, seus centros de pesquisa e sua soberania nacional.

Há mais de três décadas, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprova, por ampla maioria, resoluções exigindo o fim do bloqueio. Em 2024, apenas Estados Unidos e Israel votaram contra a resolução, acompanhados por um número ínfimo de aliados. Mas o bloqueio permanece, escancarando que quem toma as decisões são os senhores da guerra.

<><> Solidariedade é a maior lição de Cuba

Esse ano celebramos o centenário de nascimento de Fidel Castro, em meio às novas ofensivas do imperialismo norte-americano. Em seus ensinamentos, Fidel defendia a solidariedade, o profundo senso de humanidade e, sobretudo, a defesa intransigente dos princípios revolucionários. Mesmo preso, no assalto ao Quartel Moncada, Fidel estava submetido a todo tipo de violações, mas seguiu defendendo que era justo o levante em armas do seu povo contra um governo tirano, como relatou em “A História me absolverá”. Mais de seis décadas depois, essa continua sendo a principal característica da Revolução Cubana: não se render. Resistiu às invasões, aos atentados terroristas, às centenas de tentativas de assassinato de seus dirigentes, às crises econômicas e ao bloqueio mais prolongado da história moderna.

Ao mesmo tempo, Cuba jamais deixou de praticar o internacionalismo e a solidariedade: enviou médicos, alfabetizadores e brigadas de emergência após terremotos, furacões e epidemias. Durante a pandemia de Covid-19, enquanto os países capitalistas corriam para lucrar com as vacinas, Cuba desenvolveu seus próprios imunizantes e enviou profissionais de saúde para dezenas de nações.

<><> Por que o Brasil não envia petróleo a Cuba?

Há quem afirme que o governo brasileiro simplesmente não pode enviar petróleo a Cuba. O argumento é conhecido: como a Petrobras possui ações negociadas na Bolsa de Valores de Nova York, estaria submetida à legislação estadunidense e impossibilitada de realizar esse tipo de operação. Em outras palavras, estaríamos de mãos atadas.

Ora, o Brasil mantém relações comerciais com Cuba, exportando principalmente produtos agrícolas e alimentícios, além de alguns bens industriais. Mais do que isso, acaba de enviar 48 toneladas de leite em pó como ajuda humanitária ao povo cubano, transportadas em aeronaves da Força Aérea Brasileira. Os alimentos foram disponibilizados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Ou seja, quando existe vontade política, o Estado brasileiro encontra mecanismos para exercer solidariedade internacional.

Trata-se, antes de tudo, de uma decisão política. Mais do que isso: trata-se de defender verdadeiramente a soberania nacional, sem subordinar completamente a política externa brasileira a Washington.

De fato, como a relação entre um país imperialista e um país dependente não se define pela “química” entre seus líderes, o fascista Donald Trump não pensou duas vezes antes de promover um novo tarifaço contra o Brasil. Afinal, de que valeu toda essa submissão?

<><> Render-se ou lutar?

Nossa história tem muitos exemplos de coragem e heroísmo, povos que não se ajoelharam e venceram exércitos inteiros, porque o que determina a vitória não é a potência das armas e o número de soldados, mas a confiança do povo na justeza de sua luta. Foi assim no Vietnã. É assim, ainda hoje, na resistência do povo palestino.

Por isso, a maior derrota do imperialismo norte-americano é a determinação do povo cubano. Depois de mais de seis décadas de bloqueio, a Revolução Cubana continua inspirando milhões de pessoas que acreditam na soberania dos povos, na solidariedade internacional e no direito das nações de escolherem seu próprio destino. O povo cubano conhece o preço da liberdade e, ainda assim, não renuncia à sua independência.

Há também os exemplos de capitulação. O agravamento da crise energética cubana demonstra como as concessões ao imperialismo fortalecem a capacidade de chantagem econômica exercida pelos Estados Unidos sobre todo o continente. Não podemos esquecer jamais que a situação do povo cubano se agravou após a traição do atual governo venezuelano que,  envergonhando a pátria de Chávez e Bolívar, se rendeu a Trump e entregou o controle do petróleo aos monopólios estadunidenses. 

É por isso que a solidariedade com Cuba continua sendo a principal tarefa dos povos latino-americanos. No ano em que os povos do mundo celebram o centenário de Fidel Castro, Cuba continua sendo o farol da esperança para aqueles que acreditam na liberdade.

¨      As alegações dos EUA sobre a "ameaça única" de Cuba contrastam com a realidade da fome e dos apagões. Por Ruaridh Nicoll

As últimas alegações do governo dos EUA de que Cuba está por trás de "muitas das convulsões mais significativas da história política americana recente" e que seus líderes representam "uma ameaça singular à segurança nacional americana" foram revelações surpreendentes para aqueles que vivem sob o bloqueio petrolífero americano de seis meses em Havana, onde pessoas desesperadas vasculham pilhas de lixo não recolhido em busca de comida ou sofrem com o calor em suas casas em apagões de mais de 24 horas.

O relatório não assinado de 100 páginas intitulado Cuba: Capital do Comunismo do Século XXI, publicado pelo Departamento de Estado dos EUA na segunda-feira, culpa Havana por tudo, desde "os tumultos após a morte de George Floyd até a ascensão do movimento antifascista e a explosão do ativismo pró-terrorista nos campi universitários americanos".

Este é o mais recente esforço em uma campanha de pressão máxima para derrubar o governo da ilha, que começou com o sequestro de Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, aliada de Cuba, em 3 de janeiro. Desde então, Cuba está paralisada pelo bloqueio do petróleo, pelas sanções a empresas estrangeiras e pelas ameaças de uma intervenção militar.

Parece também ser uma tentativa de "excluir" aqueles que se encontram na esquerda estadunidense antes das eleições de meio de mandato de novembro.

“O ataque de Cuba aos Estados Unidos nunca foi, em essência, uma disputa sobre política econômica, soberania ou mesmo posse de um determinado território”, diz o relatório. “Foi uma revolução contra a própria civilização ocidental – travada, em parte, por meio do método inédito e insidioso de persuadir os filhos do Ocidente a se voltarem contra sua própria herança.”

"Fidel teria ficado muito orgulhoso disto", disse um cubano divertido ao ler o texto.

O Departamento de Estado dos EUA, chefiado pelo cubano-americano Marco Rubio , recusou-se a divulgar o nome do autor, mas é evidente que se trata de alguém que conhece bem a história. "Quase imediatamente após a tomada de Havana, em janeiro de 1959, Castro começou a planejar ataques armados contra governos vizinhos – lançando expedições contra o Haiti, a República Dominicana, a Nicarágua e o Panamá somente naquele ano", diz o texto.

O que o texto omite é que o Haiti era governado na época por François “Papa Doc” Duvalier, que matou cerca de 60.000 pessoas do seu próprio povo; a República Dominicana por Rafael Trujillo, que lançou o “massacre da salsa”, matando entre 20.000 e 35.000 haitianos; e a Nicarágua pela família Somoza, a quem se atribui o assassinato de até 50.000 nicaraguenses.

Embora o relatório não apresente novas evidências, há uma ênfase suspeita na questão racial. O suposto sucesso notável da inteligência cubana em infiltrar instituições americanas deveu-se a uma predileção por "latinos glamorosos", cita um oficial de inteligência em entrevista ao Miami Herald em 2002: "Somos muito mais receptivos a latinos do que a pessoas com dentes de aço e sotaque eslavo."

O texto também lamenta o comprometimento ideológico dos espiões recrutados por Cuba, sem mencionar que vários deles foram inspirados pelas tentativas da CIA de assassinar Castro, ou o abrigo oferecido pelos EUA aos exilados Luis Posada Carriles e Orlando Bosch, que organizaram o atentado ao voo 455 da Cubana de Aviación em 1976, matando 73 pessoas.

O aspecto mais chocante é que o relatório agrupa a longa luta interna dos EUA em torno dos direitos civis e da reforma social e a reformula como uma batalha entre as forças de atores estrangeiros e a “civilização ocidental”, detendo-se em grupos como os Panteras Negras, cuja origem é atribuída a Cuba.

Embora vários revolucionários negros tenham encontrado refúgio na ilha, sendo a mais famosa Assata Shakur, que tinha uma recompensa de 2 milhões de dólares pela sua cabeça pelo assassinato de um policial do estado de Nova Jersey, a experiência talvez não tenha sido tão conspiratória quanto sugere o autor. Em entrevistas, Nehanda Abiodun, uma das fugitivas mencionadas, afirmou que sua visão política e sua fúria revolucionária derivavam de sua experiência crescendo na Nova York dos anos 1970, e não de qualquer amor por Cuba, cujo governo ela passou a nutrir ressentimento por silenciá-la em troca de refúgio. Ela costumava dizer que a primeira coisa que lhe aconteceu ao desembarcar foi ser alvo de discriminação racial por parte da polícia cubana. Se ela fazia parte de uma conspiração internacional bem orquestrada, isso não transpareceu.

Durante cinco anos, o governo cubano não conseguiu sequer alimentar seus 9,5 milhões de habitantes, que em sua maioria o culpam pela crise. Mas o relatório já prevê o seguinte: “Confundir a pobreza de Cuba com inofensividade é não compreender a ameaça por completo. Sua fragilidade material nunca foi a medida do seu perigo.”

O relatório conclui: “Hoje, agentes e operativos cubanos mantêm uma posição consolidada em centenas de grupos de fachada, organizações ativistas, centros de solidariedade e redes ideológicas de ONGs e organizações sem fins lucrativos. Esses grupos, coletivamente, representam um dos maiores, mais sofisticados e perigosos vetores de influência estrangeira hostil na história moderna dos Estados Unidos.”

Na véspera da divulgação do relatório, Miguel Díaz-Canel, presidente de Cuba, afirmou que os EUA haviam caído vítimas de uma “nova e mais perigosa versão do macartismo”.

Mas talvez a crítica mais contundente tenha vindo de um acadêmico cubano que preferiu permanecer anônimo: "Parece exatamente uma reportagem que a mídia estatal cubana poderia escrever sobre os Estados Unidos."

¨      Cuba chama de ‘falácia’ relatório sobre suposta espionagem e infiltração em Washington

Em um relatório elaborado pelo Departamento de Estado, divulgado nesta segunda-feira (20/07), o governo dos Estados Unidos acusa Cuba de manter um grande aparato de espionagem, que foi capaz de se infiltrar até mesmo no Departamento de Defesa norte-americano.

Segundo o documento, a inteligência cubana manteve agentes dentro do corpo diplomático norte-americano e no Departamento da Defesa “durante décadas (…) nos mais altos escalões”.

O governo cubano reagiu à divulgação do documento por parte do governo dos Estados Unidos com um comunicado assinado por seu ministro das Relações Exteriores, Bruno Rodríguez Parrilla, no qual acusa o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, de ser o autor intelectual do informe.

“A mais recente falácia do Departamento de Estado norte-americano contra Cuba forma parte da construção, pelo seu chefe (Rubio), de um pretexto para sustentar sua guerra econômica cruel e criminosa, que castiga cada família cubana, e sua aspiração de atacar militarmente a Cuba, para que busque desesperadamente o apoio dos cidadãos estadunidenses”, argumentou Rodríguez Parriilla.

O chanceler cubano também disse que “esta é outra evidência do plano macabro arquitetado por este político do sul da Flórida, que só serve aos interesses daqueles que sempre o pagaram”.

Desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, o governo dos Estados Unidos tem mantido o discurso de que poderiam agir a qualquer momento para promover uma “mudança de regime” em Cuba. Tais ameaças se intensificaram após o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em janeiro passado.

<><>‘Guerra de desgaste’

Um dos exemplos mencionados no informe é o de Ana Montes, uma analista dos serviços de informações militares dos Estados Unidos que foi condenada em 2002 por ter espionado a favor de Cuba entre os Anos 80 e 90 – foi libertada em 2023 após cumprir 20 anos de prisão.

Em outro trecho, o relatório indica que Cuba teria promovido “atividades subversivas contra o governo dos Estados Unidos” através de um suposto “suporte a redes revolucionárias”.

No entanto, o governo dos Estados Unidos também alega que “Havana nunca teve capacidade para derrotar os Estados Unidos em um conflito armado convencional”.

“Havana vem travando uma longa guerra de desgaste organizada em torno da espionagem, infiltração, sabotagem, redes paralelas e uma infraestrutura revolucionária destinada a colocar a população dos Estados Unidos contra o próprio país”, diz uma passagem do relatório.

 

Fonte: Opera Mundi/The Guardian

 

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