O
cinema total estadunidense
No
volume V do livro A interpretação dos sonhos, Sigmund Freud apresentou um sonho
que lhe fora contado por uma paciente. O cenário onírico é o que segue: um pai
realizara uma vigília de seu filho enfermo por dois dias. Após a morte da
criança, mudara de quarto para descansar, deixando um senhor mais velho
velá-la. Mantivera, entretanto, a porta entreaberta, com objetivo de poder
enxergar o quarto contíguo, com o filho morto circundado por velas. Dorme por
um momento e sonha dentro do pesadelo que o filho lhe diz em tom de censura:
“Pai, não vês que estou queimando? (Freud, 1972, p. 543).
O
psicanalista francês, Jacques Lacan, em O Seminário, livro 18, de um discurso
que não fosse o semblante (1970-71), retomou a passagem citada do sonho
relatado por Sigmund Freud, para, ao fim e ao cabo, desenvolver o conceito de
semblante da estrutura do inconsciente ou do inconsciente como uma espécie de
efeito de estrutura do semblante ao mesmo tempo da subjetividade pessoal, da
história e da natureza. ricocheteando, sempre, no desejo, a ser interpretado
neste ensaio como a realização, não dos sonhos, mas dos pesadelos, nos
seguintes termos: “Pai, não vês que estou queimando? (Freud, 1972, p. 543)”.
Considerando
que o subtítulo do Seminário, livro 18, é “por um discurso que não fosse o
semblante, há fundamentalmente este último, o semblante; e há a possibilidade
que seja, “de um discurso que não fosse o semblante”. Haveria, puxando os fios
do Seminário, Livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964),
o ser, que “se decompõe, de maneira sensacional, entre o seu ser e o seu
semblante, entre si mesmo e esse tigre de papel que ele dá a ver (Lacan, 1985,
p. 106)”, a partir “de quatro lugares privilegiados (Livro 18), sendo que um
ficou sem ser nomeado – justamente aquele que, pela função de seu ocupante,
fornece o título de cada um desses discursos” (Lacan, 2009, p. 24).
São
eles: (i) o discurso do significante-mestre, que é, por sua vez, encarnado;
(ii) por certo saber, intitulado como discurso da universidade; (iii) fissurado
pela emergência do sujeito, com sua divisão fundadora, configurando o discurso
da histérica; (iv) o discurso do analista, que pressupõe, no horizonte
indefinido, a ciência sem ideologias ou sem semblante (Lacan, 2009, p.24).
O
semblante se produz a partir do vazio na estrutura, ocupado, em primeira
instância, pelo discurso do significante-mestre, razão pela qual este detém a
potência do vazio, que é a potência do artifício, do jogo, da dissimulação, da
guarda da relação entre a violência e a lei. O discurso da universidade ou do
saber é um efeito inconsciente do discurso do mestre, configurando a relação
entre poder e saber de tal modo que este se inscreva como a instância do saber
refém do poder, isto é, do significante-mestre, sempre como o filho perante o
pai, a exclamar: “não vês que estou queimando?”
O
problema edípico desse saber se queimando ( e já morto) pelo pai, em diálogo
com o Livro 17: O avesso da psicanálise (1969-70), está relacionado ao fato de
se constituir como “saber desnaturado de sua localização primitiva no nível do
escravo por ter-se tornado puro saber do senhor, regido por seu mandamento
(Lacan, 1992, p.97), que se marca, alienando-se de si mesmo, “como o gozo do
Outro (Lacan, 1992, p.12)”.
Gozo do
idiota por se achar pleno, resolvido; por se conceber fora do vazio; fora do
movimento, do futuro, da vida, por ser um apêndice fálico insciente do mandato
do pai, isto é, do soberano, isto é, da posição de opressor vivenciada, como
função, pelo discurso do mestre, sempre considerando que o semblante se realiza
como uma deriva fatal das relações sociais de produção entre opressores e
oprimidos historicamente situadas, razão pela qual: (a) existe uma interface
imanente entre psicanálise e materialismo histórico; (b) o inconsciente
individual é uma variável do inconsciente social e este é um efeito das
relações sociais de produção; (c) há o inconsciente do capitalismo realmente
existente, sobretudo considerando a sua fase imperialista contemporânea em que
o discurso do mestre se faz semblante com o dólar como parasita-mor dos povos,
endividando-os e escravizando-os ao semblante, no contemporâneo, da
algoritmização dos seres, transformados cada vez mais em “tigres de papel”; (d)
há um inconsciente-histérico que se incursiona, sempre pelo conflito, para um
mundo que não fosse o semblante do capitalismo monopólico, dolarizado e em
processo adiantado de algoritmização do ultraimperialismo estadunidense.
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E o “discurso que não fosse o semblante”, como se cifra?
Há
quatro formas de interagir com o vazio, na estrutura; e a primeira, a do
discurso do mestre, ironicamente é assim apresentado por Jacques Lacan no Livro
17: “desde que ele entra no campo do discurso do mestre, em que estamos
tentando nos orientar, o pai, desde a origem, é castrado (Lacan, 1992, p. 94)”.
O discurso do mestre se expressa necessariamente como o vazio cifrado pelo pai
castrado, na origem, porque é o antípoda do discurso do analista; e o é por ser
o esteio do semblante, compreendido, o semblante, como a contenção
cultural-ideológica e psíquica; a prisão, a limitação dos seres. O discurso da
universidade, por sua vez, constitui-se como o gozo plenamente morto, porque
funciona como uma deriva sem vazio, sem futuro, sem alteridade, castração de um
saber sem lastro na vida real e, assim, saber de sua submissão, ainda que
presunçoso, ao pai castrado, invocando-o sempre na própria existência
subordinada, humilhada, avassalada: “Não vês que estou queimando!?”
Para o
psicanalista francês, retomando o caso Dora, apresentado por Freud em
“Fragmento da análise de um caso de histeria” (1905), o discurso que não fosse
o semblante cifra-se com a histérica, a que se marca positivamente como aquela
que diz não à relação entre poder (discurso do mestre) e saber ( discurso da
universidade); a que, como histérica, evidencia que o pai ( o discurso do
mestre) é castrado; a que aciona o movimento propiciado pelo vazio que existe
em tudo que há; a que demarca o gozo do idiota saber da universidade como o
gozo que se concebe como, na prática, realização de um vazio castrado, cifra em
gozo fálico e edípico de todas as formas de poder-repressão, poder sobre, poder
soberano, unipolar, genocida, escravista, feudal, colonizador, capitalista,
imperialista; tigres de papel, que, não obstante, no interior do semblante
psíquico e social, queimam-se como zumbis pelo pai
Este,
no contemporâneo, tem cada vez mais assumido o perfil de oligarcas do Vale do
Silício, serial killers armados até os dentes com semblantes algorítmicos
perante bilhões de usuários dotados cada vez mais de um saber algoritmizado.
Louis
Althusser, em Marx e Freud (1976, p. 33-34), ao analisar a relação possível
entre a psicanálise e o marxismo, argumentou: (i) que ambos são incompatíveis
com certo modelo de razão; (ii) que ambos são uma forma de ciência sui generis
por se inscreverem na dimensão irracional e conflitiva da vida individual e
social; (iii) e irracional porque a base psíquica e social de todas as formas
de irracionalidade, sob o prisma do inconsciente, é a existência do semblante,
configurado na relação castrada entre discurso do mestre e o discurso da
universidade e, sob o ponto de vista do marxismo, é a expropriação do trabalho
coletivo realizada por uma minoria, por meio de uma multitudinária e imparável
guerra de classes; (iv) que o objeto da psicanálise é o inconsciente,
compreendido dialeticamente como o inconsciente do semblante e o inconsciente
de um discurso que não fosse o semblante; (v) e, o do marxismo, é a luta de
classes como motor da história, tendo como filosofia da práxis o materialismo
histórico, saber que não é o discurso da universidade, mas o do inconsciente
revolucionário ou conteúdo primário das vidas dos oprimidos de todos os tempos
e lugares; (vi) que há, no horizonte, o discurso do analista, perspectivado, na
psicanálise, como um mundo sem semblante, sem discurso do mestre e sem discurso
da universidade; (vii) que, para o materialismo histórico, o discurso do
analista equivale à sociedade comunista, a dos produtores livremente
associados.
<><>
O inconsciente edípico do semblante da dominação estadunidense
Há o
inconsciente estruturado como um semblante e há o inconsciente estruturado como
um discurso que não fosse o semblante. No primeiro caso, domina a relação
existencial e subjetiva poder-saber – discurso do mestre e discurso da
universidade; é fundamentalmente uma relação exterior à vida, que se impõe à
vida, tanto a do discurso do mestre quanto a do discurso da universidade, razão
por que o discurso do mestre é castrado e o discurso da universidade é o gozo
morto do idiota; relação que se estende à interação metabólica sociedade e
natureza, a partir da qual a sociedade ( estruturada em termos de polaridade
entre classes) se torna o discurso do mestre em face à natureza, poder-saber
sobre, acumulando, de modo contraecológico, tanto a violência do ser castrado,
o discurso do mestre, quanto a do ser que deseja, ao nível do inconsciente
submetido, que os ecossistemas também sejam como si: “pai-sociedade, não vês
que a natureza moribunda está queimando?”
O
inconsciente como semblante da relação discurso do mestre e discurso da
universidade é um inconsciente edípico, nos seguintes termos: (a) o do Édipo
freudiano-familiar, representado pelo enredo melodramático do triângulo
edípico, pai, mãe, filha, filho, como unidade mínima do semblante, podendo
assumir formas distintas em diferentes perfis familiares, como os homoafetivos,
com a tendência de reproduzir a relação entre o discurso do mestre e o discurso
da universidade no âmbito do imediato-vivido das relações amorosas e do cuidado
reprodutivo; (b) o do Édipo do capital-discurso-do-mestre euro-norte-americano
e do trabalho alienado, como, no sentido mais amplo, instância mundial do
discurso da universidade, unidade máxima, embora dinâmica, de uma estrutura
mundial edípica, hoje, sionista-estadunidense, que impõe (ou tenta, por todos
os meios) um sistema planetário de edipianização sionista dos povos
ideologicamente estruturado pela metáfora literal, empirista e
cinematograficamente editada e reeditada pelo retorno ao Antigo Testamento e
pela travessia do Mar Vermelho.
No
Brasil, o escritor e cineasta que compreendeu a edipianização sionista e
cinematográfica, base do semblante do ultraimperialismo estadunidense, foi o
tropicalista nascido em São Paulo, José Agrippino de Paula. Figuras como
Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Rita Lee, Nara Leão, Torquato Neto, Gal
Costa, em maior ou menor medida, protagonizaram, nas artes, o movimento da
contracultura, à brasileira, a saber, o Tropicalismo.
Antecipo,
desde já, que interpreto a contracultura, entre as décadas de 1960 a 1990 do
passado século, com epicentro na de sessenta, como a estrutura fetichizada do
semblante do hegemon norte-americano do período da primeira guerra fria, assim
perspectivado: (i ) discurso do mestre, proprietário da indústria cultural
estadunidense, a produzir narrativas (fílmicas, literárias, radiofônicas,
musicais, “teóricas”) que publicizavam a sua condição de líder absoluto do
capitalismo ocidental, tendo como principal objetivo derrotar o eixo socialista
e sobretudo a URSS, usando, como artifício, a guerra cultural e, no interior
desta, a invenção da juventude – Hollywood,
nesse contexto, tornou-se a principal indústria do hegemon-mestre EUA;
(ii) discurso da universidade ou da servidão voluntária realizado em tempo real
pelo “não vês que estou queimando?” da juventude transviada, porra-louca,
anarquista, irracional, drogada – Maio de 1968 na França foi, sob esse aspecto,
a primeira revolução colorida estadunidense usando a juventude como arma de
guerra, no caso, contra a tentativa de Charles de Gaulle de sair do eixo de
dominação do dólar, estocando ouro.
José
Agrippino de Paula foi um escritor que, não obstante encarnasse o semblante do
discurso da universidade do seu período histórico, exerceu, como criador,
momentos de histerismo rumo a um discurso que não fosse o semblante, por meio
da técnica estético-antropofágica de um realismo alegórico assentado na crítica
ficcional ao discurso do mestre castrado estadunidense. De modo antropofágico,
conseguiu, nos limites anarquistas que lhe diziam respeito, ruminar a
contracultura estadunidense, colocando-a contra si mesma.
No seu
romance PanAmérica (1967), o enredo da narrativa é o seguinte: começa com um
cineasta, que se supõe ser brasileiro, designado marcialmente como Eu,
dirigindo um filme epopeico da travessia do Mar Vermelho. Os personagens da
narrativa são, Burt Lancaster, Anjo do Senhor, Che Guevara, Marilyn Monroe,
Cary Grant, representando o Moisés, Yul Brynner, representando Deus, John
Wayne, Marlon Brando, Andy Warhol, Joe Di Maggio, Carlo Ponti, papa Paulo VI,
Luther King, Dom Quixote, De Gaulle, Hitler, Kennedy, Churchill muito gordo,
Marx, Napoleão, Gandhi.
O
capítulo inicial é o Estúdio F, o da travessia do Mar Vermelho, terminou
abruptamente com um acidente em certo sentido previsível porque o filme (o
romance) se propõe a ser realista, posição assumida pelos próprios atores
hollywoodianos, motivo do seguinte fragmento da narrativa: “Eu gritei irritado
com Burt dizendo que eu pretendia colocar o seu double na cena da fuga dos
judeus, mas que ele é que havia insistido para ser ele mesmo o Anjo do Senhor”
(De Paula, 1988, p. 10).
Burt,
como Anjo do Senhor, deveria mediar o encontro de Deus, Yul Brynner, com
Moisés. Atento ao desafio, o diretor perguntou a respeito aos assistentes que
“responderam que Yul Brynner e Gary Grant e já tinham ensaiado os diálogos
entre Deus e Moisés” (DE Paula, 1988, p.11).
Leio, a
propósito, a passagem do romance de Agrippino de Paula, “já tinham ensaiado o
diálogo entre Deus e Moisés”, apresentada no parágrafo anterior, reforçando a
instância “entre”, entre Deus e Moisés; o entre como o vazio castrado do
discurso do mestre (Deus) e o discurso da universidade, Moisés, semblante da
edipianização sionista da dominação cultural de EUA, tendo em vista: (a) que a
expressão “já tinham ensaiado”, remetendo ao passado, replica a sentença, no
contexto bíblico, “está escrito!”, isto é, determinado, preestabelecido,
predestinado como Antigo Testamento; (b) se o vazio castrado do semblante da
dominação edípica estadunidense implica um “já está escrito”, um diálogo entre
Deus e Moisés realizado antes do antes, isso significa que o durante e o
depois, ou o presente e o futuro funcionarão como a reescrita das origens
supostamente sagradas ( não esqueçamos, com Lacan, o pai, na origem, é
castrado); (c) no livro O ultraimperialismo americano e a antropofagia
matriarcal da literatura brasileira (2018), analisei PanAmérica como romance em
que o Mar Vermelho se tornou, na encruzilhada ideológica do sistema
imperialista anglo-saxônico e sionista, a própria história da humanidade, de
modo que esta tende a ser concebida como travessia do Povo Escolhido ( os
sionistas anglo-americanos, associados à elite judaica revisionista) rumo ao
mesmo tempo às origens míticas da Terra Prometida (Plymouth para os EUA; e
Grande Israel, para os judeus sionistas) e ao Juízo Final.
Chamo
de “cinema total estadunidense”, em diálogo com o enredo de PanAmerica, a
transformação da história da humanidade em estúdio de estúdios, de modo que,
para o Pentágono, as guerras, sobretudo aéreas, são estúdios de guerra contra
os povos, permanentemente editáveis (leia-se, matáveis!), sobretudo quando
perdidas; para o Federal Reserve, Wall Street, Departamento de Estado, a CIA, o
FBI, suas múltiplas agências, Ongs, Universidades, com seus estúdios de
teorias; e assim para o Vale do Silício, com suas armas de algoritmos contra
tudo que existiu, existe e existirá.
O
cinema total estadunidense é o discurso do mestre que reatualiza sem cessar o
Antigo Testamento, o povo escolhido; e o discurso da universidade, seu
semblante planetário, é Mar Vermelho, sangue dos povos.
Histéricos
do mundo, com a vanguarda de Irã, uni-vos em torno do eixo de resistência do
materialismo histórico-ecológico que a si mesmo se edita, soberanamente.
Fonte:
Por Luis Eustáquio Soares, em A Terra é Redonda

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