A
Copa acabou. O jogo continua
A
Espanha conquistou a taça, mas este Mundial será lembrado por muito mais do que
pela seleção que levantou o troféu.
Para
esta série de artigos, este torneio ficou marcado como a Copa da Vergonha.
Não
apenas pela transformação do futebol em uma gigantesca plataforma de negócios
para empresas de apostas. Nem apenas pelas decisões de arbitragem que, ao longo
do torneio, alimentaram dúvidas sobre a uniformidade dos critérios.
Foi,
sobretudo, porque o principal país-sede não apenas restringiu a entrada de
jogadores e integrantes de delegações provenientes de alguns países africanos,
do Irã e de nações de maioria árabe, como também submeteu diversos deles a
procedimentos vexatórios, incluindo revistas íntimas, inspeções invasivas e
longos interrogatórios.
Porque
os ataques dos Estados Unidos ao Irã não produziram qualquer questionamento
sobre a continuidade da competição no país agressor, em contraste com o
tratamento dispensado à Rússia após a invasão da Ucrânia.
O apoio
de Washington ao governo israelense, em meio ao massacre de Gaza, tampouco
provocou reações equivalentes. Ainda assim, a FIFA preferiu o silêncio diante
dessas contradições, chegando ao ponto de conceder a Donald Trump o
recém-criado FIFA Peace Prize (Prêmio da Paz da FIFA).
Porque
boa parte das democracias que costumam apresentar a defesa dos direitos humanos
como um princípio universal também escolheu a omissão.
Durante
um mês, a Copa terminou muitas vezes antes do apito final. Terminou quando o
dinheiro das apostas passou a disputar protagonismo com o próprio futebol.
Terminou quando critérios de arbitragem inconsistentes passaram a interferir
mais do que deveriam nas partidas. Terminou quando o espetáculo comercial
pareceu, em diversos momentos, maior do que o esporte que deveria justificar
sua existência.
Ainda
assim, a bola insistiu em lembrar que conserva uma rebeldia própria.
Quando
tudo parecia submetido ao dinheiro, às estratégias de poder e às narrativas
cuidadosamente construídas, o futebol voltou a fazer aquilo que faz de melhor:
produzir o inesperado.
A
rebeldia começou ainda na disputa pelo terceiro lugar. Inglaterra e França, em
um jogo que muitos tratam apenas como cumprimento de tabela, protagonizaram um
improvável 6 a 4, transformando uma partida quase sempre esquecida em um dos
grandes espetáculos do torneio.
No dia
seguinte, a final entre Espanha e Argentina não apagou as contradições desta
Copa. Ao contrário. Reuniu, em noventa minutos — e depois na prorrogação —
quase todas elas. Foi o momento em que o espetáculo comercial cedeu lugar,
outra vez, ao próprio jogo.
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Noventa minutos para resumir uma Copa
A
Argentina entrou em campo carregando uma história improvável. Sobreviveu quando
parecia eliminada contra Cabo Verde, voltou do abismo diante do Egito, resistiu
à Inglaterra e chegou à decisão sustentada por uma combinação rara de coragem,
entrega e talento de alguns de seus protagonistas. Mas milagres não costumam
ser inesgotáveis.
No jogo
da final, a seleção argentina praticamente não existiu ofensivamente. Durante
os noventa minutos regulamentares, não produziu uma única finalização. Segundo
a Opta, empresa especializada em estatísticas do futebol, tornou-se a primeira
seleção da história das finais da Copa do Mundo a terminar o tempo regulamentar
sem dar um único chute ao gol. A primeira tentativa que exigiu uma intervenção
do goleiro espanhol só aconteceu na reta final da prorrogação. Messi, cercado
durante quase toda a partida, permaneceu distante do jogo. Quando finalmente
encontrou algum espaço para criar, o relógio já jogava pela Espanha.
Quem
manteve os argentinos vivos foi o goleiro Emiliano “Dibu” Martínez, seguro nas
intervenções necessárias. Não realizou defesas espetaculares, mas fez
exatamente aquilo que sua equipe precisava para permanecer respirando enquanto
o restante do time parecia incapaz de reencontrar o caminho do ataque.
A
pergunta inevitável é se o desgaste finalmente cobrou seu preço. A equipe que
tantas vezes renascera durante a competição parecia caminhar como um
sobrevivente que continua avançando apenas porque ainda não percebeu a extensão
dos próprios ferimentos. Permaneceu assim até o gol de Ferran Torres, já na
prorrogação. Só então tentou reagir. Mas já não havia tempo, pernas nem futebol
suficientes.
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A Espanha venceu. O futebol também?
A
Espanha foi superior praticamente do primeiro ao último minuto.
Controlou
o meio-campo com Rodri, dono do ritmo da partida, ocupou os espaços, recuperou
rapidamente a posse de bola e criou sucessivas oportunidades. Faltou-lhe apenas
transformar essa superioridade em gols. As chances desperdiçadas se acumularam.
Mesmo após passar a atuar com um jogador a mais, a equipe demorou para
converter o domínio em vantagem. Seria receio de assumir o risco da
finalização? Excesso de confiança de que o gol surgiria naturalmente? Talvez um
pouco de cada.
A
arbitragem voltou a ocupar um espaço que jamais deveria ser protagonista numa
decisão. A expulsão de Enzo Fernández, após uma falta tão desnecessária quanto
imprudente, foi inevitável. Mas o mesmo rigor não apareceu diante da sequência
de entradas duras que marcou a partida desde os primeiros minutos. Mais grave
foi a anulação do gol espanhol por uma falta cuja existência dificilmente
resiste às imagens. Ficou a sensação de que a régua utilizada para medir o
contato físico variava conforme a circunstância. No futebol, a regra deveria
ser invisível. Quando ela se torna assunto principal, algo deixou de funcionar.
A
decisão também colocou frente a frente duas escolas de futebol extraordinárias
que convivem com uma contradição persistente. Espanha e Argentina encantam o
mundo pela qualidade de seus jogadores, mas ambas enfrentam, há anos, episódios
recorrentes de racismo praticados por setores de suas torcidas. Seria injusto
transformar esse comportamento em característica de povos inteiros. Mas seria
igualmente injusto fingir que se trata apenas de casos isolados.
Talvez
a conquista da Copa pela Espanha e o vice-campeonato da Argentina possam
produzir algo além da alegria de uns e da frustração de outros. O futebol não
transforma sociedades por decreto, mas, às vezes, ajuda a revelar suas
contradições. As duas seleções chegaram à final com elencos que expressam a
diversidade étnica do futebol contemporâneo. Que suas arquibancadas consigam,
um dia, refletir essa mesma diversidade com o respeito que ela merece.
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Muito além da final
Ao
longo do torneio, discutimos a transformação do futebol em plataforma de
negócios globais, a presença sufocante das empresas de apostas, a naturalização
seletiva dos conflitos internacionais, a permanência das desigualdades entre
Norte e Sul e a surpreendente afirmação de seleções que, durante décadas,
ocuparam apenas papéis secundários no imaginário esportivo.
Não era
apenas uma Copa.
Era um
espelho.
Enquanto
alguns insistiam em acreditar que a geografia continuava decidindo partidas,
africanos, latino-americanos e asiáticos lembravam que mapas desenhados pelos
colonizadores não definem o resultado de um jogo. Enquanto patrocinadores
disputavam cada centímetro das transmissões, jogadores ainda encontravam
maneiras de devolver humanidade ao espetáculo. Enquanto governos procuravam
transformar vitórias em propaganda, alguns atletas insistiam em lembrar que
nenhuma camisa vale mais do que uma vida humana.
O
futebol jamais resolveu as contradições do mundo.
Apenas
as tornou visíveis.
Por
isso, talvez a maior lição desta Copa tenha sido justamente aquela que não
aparece na tabela de classificação.
Nenhum
sistema é absoluto. Nenhum favoritismo é permanente. Nenhuma hegemonia está
garantida para sempre.
Em uma
Copa que também poderá ser lembrada como a Copa dos africanos, Marrocos,
Senegal, Egito, Cabo Verde, Gana, África do Sul, Costa do Marfim, Argélia e
República Democrática do Congo demonstraram que o mapa do futebol mudou e que a
velha divisão entre centros e periferias já não explica o que acontece dentro
de campo.
A
tradição continuou sendo patrimônio. Mas deixou de ser garantia de futuro.
Talvez
essa tenha sido a maior rebeldia desta Copa: mostrar que nem a história, nem o
dinheiro, nem as velhas hierarquias conseguem eliminar completamente o espaço
do improvável.
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Quando termina o espetáculo
Mesmo
cercado pelo mercado, pelas disputas de poder e pelas manipulações do
espetáculo, o futebol continua preservando esse pequeno território de rebeldia
onde o improvável ainda encontra espaço para existir.
As
luzes dos estádios se apagam. As transmissões terminam. Os patrocinadores
procuram novos produtos para vender. As plataformas de apostas continuam
buscando novos apostadores. As guerras continuam ceifando vidas. A fome
continua atravessando fronteiras. As desigualdades permanecem distribuindo
privilégios e sofrimentos de forma escandalosamente desigual. E os povos
continuam lutando para escrever uma história que quase nunca aparece nas
propagandas oficiais.
Em
grande parte do mundo, a bola será substituída pelas urnas. Nos Estados Unidos,
as eleições de meio de mandato representarão o primeiro grande teste político
do segundo governo Donald Trump. No Brasil, a eleição presidencial voltará a
colocar em disputa os rumos do país. Mas, para além das diferenças entre
sistemas eleitorais e realidades nacionais, ambos os processos farão parte de
uma disputa mais ampla, travada neste momento em praticamente todas as
sociedades: a resistência das democracias ao desgaste de suas instituições e ao
avanço das forças neofascistas.
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Agora começa outro campeonato
Haverá
quem tente transformar o medo em estratégia, a desinformação em método e o
dinheiro em atalho para a vitória. Haverá árbitros institucionais sob
permanente escrutínio, narrativas em disputa e interesses econômicos tentando
ocupar o espaço reservado à vontade popular.
Mas as
eleições, como o futebol, conservam uma característica incômoda para quem
acredita controlar o resultado antes do jogo começar.
O
futuro nunca entra em campo derrotado.
Depende
da capacidade de cada sociedade de distinguir espetáculo de realidade,
propaganda de projeto e paixão de manipulação.
A Copa
termina.
As
democracias entram em seu tempo decisivo.
E, ao
contrário do futebol, não haverá prorrogação.
Fonte:
Por Luís Mauro Filho, em Brasil 247

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