Por
que novo tarifaço de Trump terá pouca influência e não deve decidir eleição
Ao
entrarem em vigor nesta quarta-feira (22/7), as novas tarifas
de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros devem
manter acesa, até a eleição de outubro, a disputa de narrativas entre o governo
Lula (PT) e a família Bolsonaro sobre de quem é a culpa pela taxação.
Mas,
diferentemente de 2025, quando o primeiro
tarifaço uniu a esquerda em torno da bandeira da "soberania
nacional" e melhorou
percepções sobre o governo, o impacto positivo ao presidente
brasileiro deve ser mais limitado, segundo analistas consultados pela BBC News
Brasil.
"Nesse
primeiro momento, não é uma boa notícia para o Flávio Bolsonaro, mas está muito
longe de ser qualquer bala de prata [para o Lula]. A depender das consequências
objetivas do tarifaço e a depender de como Flávio e Lula se colocam sobre o
tema, pode mudar essa sensação", resume o analista político Beto Vasques,
professor da FESPSP que tem feito pesquisa com eleitores indecisos.
As
tarifas passam a valer nesta quarta após o Escritório do Representante
Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluir uma
investigação em que acusou o Brasil de práticas
"irrazoáveis" que "oneram ou restringem o comércio dos EUA"
e com críticas ao
Pix,
Do lado
da campanha de Flávio Bolsonaro, o próprio pré-candidato sabe que o tema tende
a prejudicar seu objetivo de chegar ao Palácio do Planalto.
Em uma
carta enviada no início de julho ao USTR, o senador fez um alerta: caso o
governo Trump confirmasse a nova taxa contra o Brasil, isso daria uma
"vitória política" a Lula.
No
documento, Flávio pedia o adiamento por 180 dias da aplicação. Ou seja, para
depois das eleições. O senador ainda foi ao EUA participar de
uma audiência pública antes da confirmação das tarifas.
Em um
artigo publicado na segunda-feira (20/7), o economista americano Paul Krugman,
ganhador do Nobel, ressaltou essa percepção ao dizer que as tarifas podem
fortalecer Lula.
De
fato, segundo o cientista político Sergio Simoni Junior, professor na
Universidade de São Paulo (USP), ainda é Lula quem tem mais chance de usar as
tarifas em seu benefício nas eleições, devido às contradições persistentes do
discurso bolsonarista sobre as tarifas.
"É
um discurso que tem ainda essa contradição: dizem 'olha, nós estamos negociando
[com os EUA], diferente do governo. Mas ainda assim defendendo a tarifa se eles
não ganharem eleição", avalia.
Mas
essa contradição, dizem os analistas consultados, deve se somar a outros vários
fatores contra os dois candidatos que vão decidir o voto dos indecisos.
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Experimento com indecisos: de quem é a culpa?
Diretor
do Instituto Democracia em Xeque, Beto Vasques tem feito pesquisas qualitativas
com eleitores indecisos para as eleições 2026 junto à cientista política Esther
Solano.
São
reunidos semanalmente dois grupos de eleitores, a quem são aplicados
questionários baseados em estudos de pesquisas quantitativas (como Quaest ou
Datafolha) e de monitoramento de redes sociais.
Os
grupos são formados pelo chamado "eleitor pendular" de Estados como
Minas Gerais, Bahia e São Paulo. São pessoas que em 2018 votaram em Jair
Bolsonaro contra Fernando Haddad, em 2022 votaram Lula contra Bolsonaro e agora
estão indefinidas, sem rejeitar totalmente nem Lula nem Flávio.
"É
um eleitor que a gente acha que é importante botar a lupa porque a gente acha
que ele é o cara que está chamado a decidir a eleição", diz Vasques.
Segundo
o professor, são eleitores "ultrapragmáticos", que se negam a se
abster e prefeririam uma terceira via, mas sabem que precisam escolher entre os
dois principais candidatos. O seu voto depende sobretudo da agenda factual e do
comportamento dos dois até as eleições.
E é aí
que entra o tarifaço.
Segundo
Vasques, o tarifaço está começando a se transformar numa ameaça real para o
bolso desses eleitores. Há um receio de o custo de vida subir ainda mais.
"Todos,
inequivocamente, dizem que o responsável primeiro é o Trump, que faz o que
quer", explica.
"Mas
eles criticam tanto o Flávio, que parece estar mais preocupado em usar
proximidade com Trump para fazer o seu cálculo eleitoral do que aliviar a vida
do brasileiro, quanto o Lula, que, enquanto presidente, deveria negociar mais,
não jogar a toalha e ser mais sóbrio na negociação."
"O
espírito do eleitor pendular é de que a soberania tem que vir antes de
submissão, mas só depois de negociação", segue o professor.
São
eleitores que, toda semana, pedem nas conversas "mais Palácio, menos
palanque" a Lula e que estão se distanciando de Flávio após semanas de um
noticiário negativo, como as ligações com
Daniel Vorcaro no filme Dark Horse e o vídeo crítico
da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
"Ainda
assim, esse eleitor não fecha totalmente a porta pro Flávio porque esse eleitor
queria trocar, queria mudança", diz Vasques.
Só que
"o presidente Lula não termina de ganhar esse eleitor decisivo porque ele
não segura a língua", avalia Vasques, ressaltando que a forma como Lula
fala de Trump e das tarifas em seus discursos é enxergada como
"bravata".
Na
última sexta-feira (17/7), por exemplo, Lula comentou as tarifas em discurso e
disse querer uma "guerra da narrativa" e "da verdade" com
Trump. "Eu quero provar ao mundo quem está falando a verdade nessa guerra
tarifária entre Brasil e EUA", disse o presidente.
Do lado
das pesquisas quantitativas, os primeiros sinais são positivos a Lula. A
pesquisa Quaest divulgada no dia 16 de julho mostrou que a maioria dos
eleitores atribui mais a Flávio Bolsonaro a responsabilidade pelas tarifas.
As
entrevistas, encomendadas pela Genial Investimentos, foram realizadas entre os
dias 10 e 14 de julho, portanto antes da confirmação da tarifa, no dia 15 de
julho. Mas, desde junho, os EUA já haviam concluído a investigação.
Na
pesquisa, foi feita a seguinte pergunta: "Lula acusa Flávio Bolsonaro de
ter pedido o tarifaço contra o Brasil. Flávio nega e diz que pediu a Trump para
não taxar o país. Com quem você concorda mais?"
51% dos
entrevistados concordaram com a versão de Lula (eram 47% em junho); Já os que
compartilhavam a opinião de Flávio Bolsonaro foram 30%, contra 35% em junho.
Um dia
antes, a Quaest divulgou que Lula aparece com um saldo de aprovação positivo
pela primeira vez desde dezembro de 2024. Isso é, numericamente, a aprovação do
governo, de 48%, superou a desaprovação, de 47%.
Na
pergunta espontânea de intenção de voto, 54% continuam indecisos; 26% dizem que
vão votar em Lula (+3%) e 14% em Flávio (-3%).
Em um
eventual cenário de segundo turno, Lula tem 45% contra 37% de Flávio, ampliando
em dois pontos a vantagem.
Segundo
Felipe Nunes, diretor da Quaest, o fator mais importante para a queda atual de
Flávio foi o conflito com Michelle Bolsonaro, não as tarifas.
"Os
vídeos divulgados parecem ter provocado algum dano dentro da base potencial do
Flávio, já que 35% da direita e 20% do bolsonarismo acham que Michelle acertou
ao divulgar o vídeo", analisou Nunes em postagem no X. "Toda essa
confusão dentro da família acabou provocando uma reação que parece afastar o
potencial eleitor independente do Flávio."
Segundo
Vasques, essa pesquisa, somada às entrevistas que faz, também mostram que o
eleitor pêndulo, que estava querendo uma mudança no governo, começa "a ter
maior benevolência com as políticas do Lula" a partir do momento que
Flávio decepciona.
"Como
a possibilidade de mudança não tá sendo bem encarnada, eles fazem um processo
de dissonância cognitiva para justificar porque, mesmo tendo dito que eu queria
mudar [o governo], eu vou continuar", analisa.
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Um impacto diferente ao de 2025
No
primeiro tarifaço, em 2025, a família Bolsonaro se colocou frontalmente a
favor, com Eduardo postando até um agradecimento a Trump. Na época, o
presidente americano relacionou a taxa ao julgamento do ex-presidente Jair
Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
Esse
cenário muda um pouco agora, já que Flávio tem tentado publicamente se colocar
contra a tarifa — ao menos, por enquanto. E o argumento utilizado pelos EUA
para a última rodada tarifária vem de uma investigação comercial formal.
"Estão
surfando nessa ambiguidade, então não foi colada na testa deles a culpa [por
esse tarifaço]", diz Beto Vasques.
O
cientista político Sergio Simoni Junior também ressalta que o tarifaço de agora
vem num contexto de idas e vindas na relação entre Lula e Trump.
Em
novembro, após Bolsonaro ter sido condenado em setembro a 27 anos de prisão em
regime inicial fechado, os EUA retiraram a
tarifa de 40% de novos itens, incluindo café, carnes e frutas.
A decisão foi tomada após Trump iniciar negociações diretas com Lula, meses
após elogiar o
brasileiro em discurso na ONU.
Mas, em
maio deste ano, o governo Trump azedou a relação ao decidir classificar as
facções brasileiras PCC e Comando Vermelho como organizações
terroristas, uma demanda dos bolsonaristas.
Para
Simoni, é um assunto que faz a relação de Lula com os EUA se tornar mais
espinhosa para a repercussão interna no Brasil. Ou seja, nessa disputa com os
americanos, não são apenas mais as tarifas que estão em jogo.
"Isso
tornou esse cenário de agora mais complicado, porque o governo não pode
simplesmente fazer uma defesa dessas organizações criminosas. Então, fica numa
sinuca de bico aí", diz o analista.
Em
entrevista à BBC News Brasil na época do primeiro tarifaço, o professor da USP
avaliou que as tarifas traziam uma oportunidade "inesperada" a Lula,
a de levantar a bandeira do nacionalismo.
As
pesquisas que vieram em seguida confirmaram uma maré positiva. A Quaest
seguinte mostrou, por exemplo, a melhoria na avaliação de Lula entre os
eleitores que dizem que não têm posicionamento. Na época, Felipe Nunes, diretor
do instituto, disse ao G1 que o tarifaço empurrava o eleitor de centro para
"colo de Lula".
Se essa
vai ser uma verdade agora, vai depender mais desse conjunto de fatores e do
impacto econômico das tarifas nos três meses que faltam para o segundo turno
das eleições, concluem os analistas.
Fonte:
BBC News Brasil

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