quarta-feira, 22 de julho de 2026

O Império quer uma guerra de atrito prolongada contra o Irã

Trump se especializa em rasgar memorandos de entendimento (já são dois que ele mesmo não respeita) e tornar inúteis rodadas de negociações diplomáticas (como as de 2025 e 2026). A partir de 13 de julho se reinicia o intento de cerco naval ao Estreito de Ormuz e o não reconhecimento, por parte dos EUA, da soberania iraniana sobre suas próprias águas. 

O presidente do Império organiza sua marinha como força de ameaça e extratora de riquezas. Por isso a vontade de taxar o trânsito pelo “desvio de Ormuz”, alentando o Sultanato de Omã a trair sua aliança com Teerã. Se Mascate não ceder, a autoridade binacional entre Irã e Omã será soberana nas águas binacionais, mas como tal precisa exercê-la através de força naval. 

O cenário se complica no Estreito de Bab el-Mandeb, que dá acesso ao Mar Vermelho e ao Canal de Suez. É inevitável pensar que o Eixo da Resistência através da aliança com a República do Iêmen vai simplesmente fechar o corredor do Mediterrâneo caso a ofensiva da marinha estadunidense atinja de forma irreversível a infraestrutura do Irã. 

Antecipando esta situação, a monarquia saudita demonstra sua pequenez política e opta por retomar a guerra contra a república iemenita, isso logo após suas forças superarem os satélites dos Emirados no território do Iêmen sob disputa dos aliados das monarquias. Riade sabe que só pode avançar nesta guerra contra o Ansar Allah se alimentar a AQAP – a franquia da Al Qaeda na Península Arábica, perigosa rede takhfirista com uma eficiente infantaria. 

Do lado de Sanaa, a opção estratégica é interromper o oleoduto sob controle saudita e, posteriormente, apontar como alvos válidos as instalações da Saudi Aramco (a petrolífera da monarquia da Casa de Saud). 

A resposta iraniana vem sendo muito dura, simplesmente eliminando qualquer vestígio de instalações físicas das bases militares imperialistas que vergonhosamente se localizam na Jordânia, Kuwait, Omã, Bahrein, Arábia Saudita, Emirados, Catar e Síria. É uma espécie de “precificação inflacionada”. Washington aposta em amputar a infraestrutura iraniana enquanto Teerã quer o ponto de não reversão para o custo dos países da região ao se aliarem com os EUA. 

Caso o último Memorando de Entendimento tivesse sido cumprido na íntegra, Trump se veria obrigado a abandonar o criminoso de guerra Benjamin Netanyahu e sua gangue colonialista. Como optou pelo genocídio ampliado, a tendência é tentar a derrota do Irã ou ao menos a desistência da República Islâmica em manter sua política externa anti-imperialista. 

A projeção mundial desta guerra imperialista é enorme. Além de atingir o mercado futuro dos contratos de petróleo no índice Brent, pode ser vista como um conflito projetado no médio prazo contra a expansão da economia chinesa. O peso sobre Teerã é muito grande, mas a integração por terra através do continente asiático permite o desenvolvimento em escala da economia do século 21 sem utilizar o dólar gringo como moeda corrente internacional e reserva mundial.

¨      Rebeldes pró-Irã ameaçam intensificar crise do petróleo

Os rebeldes houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã, anunciaram nesta segunda-feira (20/07) um embargo marítimo contra a Arábia Saudita. A medida pode elevar ainda mais a tensão no Oriente Médio e ameaça castigar mais o mercado internacional de petróleo, que já vem sentido os efeitos da retomada da guerra entre os EUA e o regime iraniano e o contínuo bloqueio do Estreito de Ormuz.

Os rebeldes houthis declararam "um bloqueio marítimo contra o inimigo saudita criminoso, com base na lógica de 'olho por olho', com efeito imediato a partir da emissão desta declaração", afirmou o porta-voz militar houthi Yahya Saree em um comunicado em vídeo.

Ele disse que a medida era uma resposta ao bloqueio saudita de "portos e aeroportos" houthis e a um ataque ao aeroporto de Sanaa na semana passada, acrescentando que responderiam ao "bloqueio com um bloqueio".

"Qualquer ato insensato cometido pelo imprudente inimigo saudita, por meio de qualquer escalada, será respondido com uma escalada abrangente e decisiva", acrescentou Saree.

Na semana passada, as hostilidades se intensificaram no conflito iemenita — que estava em grande parte inativo —, à medida que o Irã, por meio de seus aliados da milícia houthi, parecia desafiar a hegemonia saudita sobre o espaço aéreo do Iêmen.

Os houthis dispararam mísseis contra um aeroporto na cidade de Abha, no sul da Arábia Saudita, na segunda-feira passada, depois que o governo do Iêmen informou ter atingido o aeroporto de Sanaa para impedir a chegada de um voo vindo do Irã que transportava uma delegação houthi.

Os houthis atribuíram a responsabilidade pelo ataque aos sauditas, que apoiam o governo iemenita.

Há mais de uma década, aeronaves que entram no espaço aéreo do Iêmen precisam de autorização prévia da coalizão liderada pela Arábia Saudita, que apoia o governo iemenita e afirma aplicar essa restrição a pedido das autoridades governamentais.

Como parte da guerra em Gaza, os houthis já haviam atacado embarcações no Golfo de Aden e no Mar Vermelho — rota que leva à Europa via Canal de Suez —, forçando os navios a fazerem longos desvios contornando a África.

O Mar Vermelho também abriga o porto saudita de Yanbu, por meio do qual Riad tem conseguido exportar milhões de barris de petróleo, contornando o bloqueio imposto pelo Irã ao Estreito de Ormuz e ao Golfo Pérsico durante o conflito com os Estados Unidos.

<>< Riscos para o mercado de petróleo

Não está claro como os houthis pretendem impor um bloqueio marítimo da Arábia Saudita — seu vizinho ao norte, ao longo da costa do Mar Vermelho — ou se isso incluiria ataques a embarcações.

O Iêmen está situado em frente ao estreito de Bab el-Mandeb — a porta de entrada sul para o Mar Vermelho — e a possibilidade de fechamento dessa via abriria uma nova frente na crise energética e no conflito mais amplo do Irã com os EUA.

Com o fluxo em Ormuz já prejudicado, o Mar Vermelho tornou-se uma rota alternativa crucial para o escoamento de parte do petróleo saudita para a Ásia.

Com Ormuz fechado pelo Irã, os sauditas desviaram mais de 70% de suas exportações diárias habituais de petróleo bruto para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, por meio de um oleoduto. Os navios que partem de Yanbu com destino à Europa seguem para o norte, passando pelo Canal de Suez, que corta o Egito; aqueles que se dirigem à Ásia seguem para o sul, passando por Bab el-Mandeb.

Uma interrupção desse outro estreito significaria o fechamento simultâneo das duas rotas cruciais para exportação de petróleo do Oriente Médio, especialmente para a produção enviada para a Ásia.

O bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã, após ataques de Israel e dos EUA em 28 de fevereiro, já havia afetado a maior parte das exportações de petróleo e outros produtos do Golfo, elevando os preços e provocando um choque energético global.

O volume total de petróleo que transitou pelo estreito de Bab el-Mandeb totalizou 7,4 milhões de barris por dia em junho — cerca de 7% da produção global de petróleo —, um aumento em relação aos 4,2 milhões de barris por dia registrados no ano passado. Isso serviu como uma tábua de salvação parcial para o mercado de energia, ajudando a conter em parte os preços globais do petróleo.

<><> Quem são os houthis?

Os houthis surgiram como um movimento militar, político e religioso no norte do Iêmen na década de 1990, travando campanhas de guerrilha contra o governo iemenita. Em 2014, eles tomaram a capital do país, Sanaa. Desde então, o governo oficial do país tem permanecido baseado no porto de Aden.

O governo iemenita é apoiado pela Arábia Saudita, que já entrou em conflito diretamente contra os houthis em diversas ocasiões. Os houthis também já atacaram países vizinhos do Golfo com mísseis e drones.

No entanto, uma trégua de 2022 entre os lados em guerra do país se manteve em grande parte até a semana passada, quando o governo do Iêmen, internacionalmente reconhecido, disse ter atacado o aeroporto de Sanaa para impedir o pouso de um avião iraniano.

O Irã, por sua vez, apoia os houthis como parte de seu "Eixo de Resistência" regional, que inclui o Hezbollah do Líbano, o Hamas em Gaza e milícias xiitas iraquianas, embora seus laços com o movimento iemenita sejam menos claros do que com esses outros grupos.

Os houthis não reconhecem o líder supremo do Irã como sua autoridade religiosa máxima da mesma forma que o Hezbollah e os grupos iraquianos o fazem. Suas motivações são principalmente internas, embora o grupo esteja ideologicamente alinhado ao Irã.

Os EUA afirmam que o Irã armou, financiou e treinou os houthis com a ajuda do Hezbollah. Os houthis negam atuar como representantes do Irã e dizem desenvolver suas próprias armas. Não está claro até que ponto a postura do grupo em relação a Bab el-Mandeb e ao Mar Vermelho decorre de suas próprias prioridades estratégicas ou se está sendo adotada em nome do Irã.

Nos últimos meses, enquanto o Hezbollah e grupos iraquianos entraram na guerra com os EUA e Israel logo no início, com disparos de foguetes e drones, os houthis haviam permanecido comparativamente quietos.

<><> Histórico de ataques

No entanto, os houthis têm um histórico de pressão sobre o Mar Vermelho. Após o ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023 e a campanha devastadora de Israel em Gaza, os houthis dispararam contra Israel e contra embarcações no Mar Vermelho, alegando agir em apoio aos palestinos.

À época, os ataques prejudicaram gravemente o transporte marítimo global, levando companhias como a Maersk e a Hapag-Lloyd a desviarem suas rotas contornando a África — um trajeto muito mais longo e custoso. Os ataques não provocaram choques graves no mercado de petróleo, mas as ações houthis ocorreram quando o trafégo de energia do Golfo seguia normalmente em Ormuz.

O tráfego no Mar Vermelho não se recuperou desde então; dados da Autoridade do Canal de Suez mostram que o movimento de embarcações na região caiu 52% em 2025 em relação aos níveis de 2023, atingindo o patamar mais baixo em pelo menos 50 anos.

Uma missão liderada pelos EUA entre 2023 e 2025 para restaurar a livre navegação no Mar Vermelho envolveu ataques repetidos a alvos houthis e uma campanha defensiva que abateu centenas de drones e mísseis.

No entanto, alguns ataques houthis continuaram até o verão passado, cessando completamente apenas com o acordo de cessar-fogo em Gaza, em outubro.

No mês passado, os Houthis anunciaram que proibiriam a circulação de navios ligados a Israel no Mar Vermelho, após Israel retomar ataques militares contra o Irã.

Contudo, essa ameaça não se concretizou, e as empresas de transporte marítimo Maersk e Hapag-Lloyd estão retomando algumas rotas pelo Mar Vermelho que haviam abandonado durante os ataques houthis no ano passado, informou a Maersk neste mês.

¨      Irã diz manter contatos diplomáticos indiretos com EUA, mas reitera resposta aos ataques

O governo do Irã afirmou nesta segunda-feira (20/07) que continua recebendo mensagens dos Estados Unidos por meio de mediadores, apesar da escalada entre os dois países. A declaração foi feita pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmaeil Baghaei, em entrevista coletiva  em Teerã.

Segundo Baghaei, o canal diplomático permanece ativo, ainda que de forma indireta. “Fomos informados por mediadores. Recebemos mensagens, sem entrar em detalhes, mas o principal é que o aparato diplomático tem estado ativo nos últimos dias e ideias nos foram transmitidas por certos mediadores”, afirmou.

O porta-voz responsabilizou Washington pela escalada do conflito e reiterou que o Irã “não tem hostilidade em relação aos países da região“, mas espera que governos vizinhos impeçam que seus territórios sejam utilizados para lançar ataques contra o país. “Enquanto esses crimes continuarem, nossas Forças Armadas responderão a eles”, acrescentou.

Horas antes, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, havia afirmado que Washington ainda está aberto a negociações. “Vamos continuar respondendo. Se a porta se abrir para a diplomacia – se aqueles que querem fazer algo produtivo para o Irã vencerem e assumirem o controle desse sistema, ou o controle das negociações – isso será um desenvolvimento muito positivo”, declarou.

Após as declarações, os preços do petróleo recuaram. O barril para entrega em setembro chegou a subir quase 4%, alcançando US$ 91,42, mas posteriormente recuou para cerca de US$ 90,20.

<><> ‘Vitória estratégica’

Baghaei também reagiu às reiteradas ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de realizar uma invasão terrestre para tomar a ilha de Kharg, principal terminal de exportação de petróleo do Irã, em Bushehr. Segundo ele, os Washington enfrentará as “consequências de qualquer aventura” visando ocupar o território, acrescentando que os líderes militares estão “contando os minutos para receber” as tropas norte-americanas.

Já o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, afirmou à agência estatal IRNA que Teerã somente encerrará a guerra quando obtiver “vantagem no campo de batalha”. Segundo ele, “o fim da guerra é possível tanto por meio de uma vitória militar absoluta quanto por meio de negociações. O momento certo para negociar é precisamente quando se alcança uma vitória estratégica e de campo confiável na frente militar”.

<><> Terceira baixa norte-americana

As Forças Armadas dos Estados Unidos confirmaram que um militar foi morto no sábado (18/07) no norte do Iraque, região onde mantêm bases militares, durante a detonação de um artefato explosivo de um drone iraniano. É a terceira baixa norte-americana nos últimos dias. Na sexta-feira (17/07), dois militares foram mortos em um ataque do Irã a uma base aérea jordaniana; um terceiro oficial encontra-se desaparecido.

Ao retornar a Washington, após acompanhar a final da Copa do Mundo em Nova Jersey, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que a ofensiva desta noite foi realizada em homenagem aos militares. “Nós os atacamos com muita força novamente esta noite, e fizemos isso em homenagem a, provavelmente três, provavelmente três grandes patriotas”, declarou. Questionado sobre as mortes, Trump afirmou que os soldados lutavam para impedir que “o Irã tenha uma arma nuclear”.

O Comando Central das Forças Armadas dos EUA (CENTCOM) informou ter concluído, nesta segunda-feira (20/07), a nona onda de bombardeios contra o Irã. Segundo o comando militar, os ataques tiveram como alvo centros de comando militar, instalações de defesa aérea, sistemas de vigilância costeira, capacidades marítimas, locais de lançamento de mísseis e drones e redes de comunicação.

A mídia iraniana informou ataques contra uma área da cidade de Khormoj, no sudoeste do país; em Tabriz, no noroeste iraniano e nos arredores de Bushehr, onde está localizada uma usina nuclear civil.

<><> Ataques do Irã

Do lado iraniano, a Guarda Revolucionária do Irã (IRGC) informou que dois petroleiros foram interceptados no Estreito de Ormuz após tentarem atravessar a passagem marítima.

A corporação iraniana também informou o lançamento de mísseis balísticos contra aeronaves militares norte-americanas no aeroporto de Aqaba, na Jordânia, alegando danos a aviões de transporte C-17 e aeronaves de patrulha P-8. Segundo o comunicado, 20 hangares na Base Aérea de Muwaffaq Salti, em Azraq, foram destruídos.

Mísseis iranianos também foram lançados contra bases militares no Bahrein, que abriga a Quinta Frota da Marinha dos Estados Unidos; e no Kuwait. Segundo a agência Mehr, um drone MQ-9 foi abatido sobre a cidade de Eslamabad-e Gharb, na província de Kermanshah, por um sistema de defesa aérea da força aeroespacial da Guarda Revolucionária.

 

Fonte: Opera Mundi/DW Brasil

 

Nenhum comentário: