quinta-feira, 23 de julho de 2026

Doenças neurológicas afetam 3,4 bilhões, diz OMS

O dia 22 de julho é considerado o Dia Mundial do Cérebro, e as doenças neurológicas já representam a principal causa de incapacidade no mundo e afetam mais de 3,4 bilhões de pessoas, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).

No Brasil, onde a população envelhece rapidamente, especialistas defendem que o cuidado com a saúde cerebral deve começar antes do surgimento dos primeiros sintomas de doenças como Alzheimer e Parkinson.

Em 2026, a campanha da Federação Mundial de Neurologia tem como tema "Saúde cerebral: acesso para todos", reforçando a necessidade de ampliar o acesso à prevenção, ao diagnóstico precoce, ao tratamento e à reabilitação.

Segundo a OMS, apesar dos avanços da ciência, o acesso aos serviços especializados em neurologia ainda é desigual em diversos países, principalmente os de baixa e média renda. O envelhecimento populacional torna esse desafio ainda maior para os sistemas de saúde.

No Brasil, dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que a proporção de pessoas com 60 anos ou mais passou de 8,7% da população em 2000 para 15,6% em 2023. Atualmente, o país reúne cerca de 33 milhões de idosos, e a projeção é que esse grupo represente 37,8% da população até 2070.

Esse cenário deve refletir no aumento dos casos de doenças neurodegenerativas. De acordo com o Relatório Nacional sobre a Demência, cerca de 2,71 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais vivem com algum tipo de demência. Mantida a tendência atual, esse número poderá ultrapassar 5,6 milhões até 2050.

<><> Saúde cerebral além do tratamento

Para Patrícia Lessa, diretora pedagógica do Supera Estimulação Cognitiva, o envelhecimento da população exige uma mudança na forma como a saúde cerebral é encarada.

"Precisamos deixar de falar apenas sobre tratamento e passar a discutir prevenção, promoção da saúde cerebral e cuidado ao longo de toda a vida", afirma.

Segundo a especialista, a saúde cognitiva é construída continuamente e não apenas na terceira idade.

Hábitos como atividade física regular, alimentação equilibrada, sono de qualidade, interação social, aprendizagem constante e desafios intelectuais ajudam a fortalecer a chamada reserva cognitiva, mecanismo que aumenta a capacidade do cérebro de lidar com os efeitos naturais do envelhecimento.

<><> Estudo brasileiro aponta benefícios

Pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) e do Hospital das Clínicas acompanharam 207 idosos saudáveis durante dois anos para avaliar os efeitos de um programa estruturado de estimulação cognitiva.

Publicado na revista científica International Psychogeriatrics, o estudo dividiu os participantes em dois grupos. Enquanto um deles participou de atividades voltadas ao desenvolvimento da memória, atenção, raciocínio e outras funções cognitivas, o outro não recebeu a intervenção.

Ao final dos 24 meses, os idosos que participaram do programa apresentaram melhora aproximada de 45% na memória, redução de 60% nas queixas cognitivas e diminuição de 29% dos sintomas depressivos.

Os pesquisadores também observaram avanços em funções executivas, como planejamento, organização, raciocínio e tomada de decisões.

Para a gerontóloga Thaís Bento, doutora em Neurologia pela USP e uma das autoras da pesquisa, os resultados reforçam que a estimulação cognitiva pode fazer parte das estratégias de prevenção.

"Através deste estudo realizado com pessoas idosas saudáveis voluntárias, reforçamos que a estimulação cognitiva pode ser iniciada em qualquer fase da vida, antes mesmo do surgimento de sinais de declínio cognitivo", afirma.

Segundo a pesquisadora, o cérebro mantém sua capacidade de adaptação ao longo de toda a vida.

"O cérebro precisa de novidades. Sempre que aprendemos algo diferente, estimulamos áreas responsáveis pelo raciocínio, pela memória e pela atenção. Esse processo fortalece as conexões entre os neurônios e contribui para manter a mente ativa ao longo dos anos", explica.

Além dos ganhos cognitivos, a pesquisa identificou benefícios relacionados ao convívio social e ao bem-estar emocional. As atividades em grupo favoreceram a interação entre os participantes e estimularam diferentes habilidades simultaneamente, fatores associados à preservação da autonomia durante o envelhecimento.

Thaís também destaca que os resultados ajudam a desfazer a ideia de que envelhecer significa, inevitavelmente, perder a capacidade de aprender.

"Ainda existe a ideia de que envelhecer significa ficar frágil, esquecer tudo ou perder autonomia. Mas a ciência mostra exatamente o contrário. Muitas pessoas envelhecem preservando suas funções cognitivas porque permanecem aprendendo, socializando e mantendo o cérebro em constante atividade", diz.

Para a especialista, em um país que envelhece rapidamente, investir na saúde cognitiva desde as primeiras fases da vida pode contribuir tanto para melhorar a qualidade de vida da população quanto para reduzir o impacto das doenças neurológicas sobre os sistemas de saúde.

"As evidências reforçam que esse cuidado deve começar antes do aparecimento dos primeiros sintomas. Não é preciso esperar que apareçam falhas importantes de memória para começar a cuidar do cérebro. Quanto mais cedo esse estímulo fizer parte da rotina, maiores são as chances de preservar as funções cognitivas durante o envelhecimento", conclui.

¨      "Marcapasso cerebral": como funciona tecnologia que trata Parkinson e TOC

Utilizada há décadas no tratamento do Parkinson, a estimulação cerebral profunda também vem sendo empregada em casos selecionados de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), depressão resistente e outras condições neurológicas. O neurocirurgião Dr. Cesar Cimonari de Almeida explica como funciona essa tecnologia e quem pode se beneficiar dela.

Quando ouvimos a palavra marcapasso, a maioria das pessoas pensa imediatamente no coração. Mas existe uma tecnologia semelhante que atua em outra estrutura igualmente complexa: o cérebro.

Conhecida como estimulação cerebral profunda, ou DBS (do inglês Deep Brain Stimulation), a técnica consiste na implantação de eletrodos em regiões específicas do cérebro para modular circuitos neurais associados a determinadas doenças.

Embora o tratamento seja amplamente reconhecido por seu uso na doença de Parkinson, seu campo de aplicação vem se expandindo nas últimas décadas. Hoje, a estimulação cerebral profunda já faz parte do arsenal terapêutico para algumas condições neurológicas e psiquiátricas graves, especialmente quando os tratamentos convencionais não conseguem oferecer resultados satisfatórios.

Apesar dos avanços, ainda existe muita desinformação sobre a técnica. Algumas pessoas imaginam procedimentos experimentais ou intervenções que alteram a personalidade. A realidade é bastante diferente.

<><> Como funciona o chamado “marcapasso cerebral”

O sistema é composto por eletrodos implantados em áreas específicas do cérebro, conectados a um gerador de impulsos elétricos posicionado sob a pele, geralmente na região do tórax. Esses impulsos atuam modulando circuitos cerebrais que apresentam funcionamento alterado em determinadas doenças.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a técnica não destrói tecido cerebral nem substitui funções do cérebro. O objetivo é regular a atividade de circuitos neurais envolvidos nos sintomas da doença.

Na doença de Parkinson, por exemplo, a estimulação cerebral profunda pode reduzir tremores, rigidez e oscilações motoras que deixam de responder adequadamente aos medicamentos. O mesmo princípio vem sendo estudado e aplicado em outras condições, sempre com critérios rigorosos de seleção.

<><> Muito além do Parkinson

O Parkinson continua sendo a indicação mais conhecida da estimulação cerebral profunda, mas não é a única. Pacientes com distonia, tremor essencial e algumas formas de epilepsia também podem se beneficiar da técnica em situações específicas.

Nos últimos anos, a neurocirurgia funcional passou a ocupar espaço crescente no tratamento de transtornos psiquiátricos graves e resistentes aos tratamentos convencionais.

O transtorno obsessivo-compulsivo grave é um dos exemplos mais conhecidos. Em pacientes que permanecem altamente incapazes mesmo após tratamento medicamentoso e psicoterapia adequados, a estimulação cerebral profunda pode oferecer melhora significativa da qualidade de vida.

A depressão resistente ao tratamento também tem sido alvo de pesquisas e aplicações clínicas em centros especializados ao redor do mundo. Embora os resultados sejam promissores, trata-se de uma área que continua em evolução científica.

É importante destacar que esses tratamentos não são indicados para casos leves ou moderados. Estamos falando de pacientes com sintomas graves, persistentes e que não responderam adequadamente às abordagens convencionais.

<><> Resultados promissores, mas sem soluções milagrosas

Uma das maiores preocupações quando se fala em novas tecnologias é a criação de expectativas irreais.

A estimulação cerebral profunda não representa uma cura universal para doenças neurológicas ou psiquiátricas. Também não substitui acompanhamento médico, medicamentos ou suporte multiprofissional. Seu papel é complementar.

Em pacientes corretamente selecionados, os resultados podem ser expressivos. Muitos recuperam autonomia, reduzem sintomas incapacitantes e apresentam melhora importante na qualidade de vida.

Mas o sucesso depende de uma avaliação criteriosa, realizada por equipes especializadas que incluem neurologistas, psiquiatras, neurocirurgiões, psicólogos e outros profissionais. A decisão de implantar um sistema de estimulação cerebral profunda é sempre individualizada e baseada em critérios científicos rigorosos.

O cérebro continua sendo uma das estruturas mais complexas do corpo humano. Justamente por isso, tecnologias capazes de modular seus circuitos de forma precisa representam um dos avanços mais fascinantes da medicina moderna.

O chamado “marcapasso cerebral” não substitui o cérebro nem modifica quem somos. Seu objetivo é ajudar determinados circuitos a funcionar de forma mais equilibrada, oferecendo uma nova possibilidade terapêutica para pacientes que, muitas vezes, já esgotaram outras alternativas de tratamento.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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