Doenças
neurológicas afetam 3,4 bilhões, diz OMS
O dia
22 de julho é considerado o Dia Mundial do Cérebro, e as doenças neurológicas
já representam a principal causa de incapacidade no mundo e afetam mais de
3,4 bilhões de pessoas, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).
No
Brasil, onde a população envelhece rapidamente, especialistas defendem que
o cuidado com a saúde cerebral deve começar antes do surgimento dos
primeiros sintomas de doenças como Alzheimer e Parkinson.
Em
2026, a campanha da Federação Mundial de Neurologia tem como tema "Saúde
cerebral: acesso para todos", reforçando a necessidade de ampliar o
acesso à prevenção, ao diagnóstico precoce, ao tratamento e à reabilitação.
Segundo
a OMS, apesar dos avanços da ciência, o acesso aos serviços especializados
em neurologia ainda é desigual em diversos países, principalmente os de
baixa e média renda. O envelhecimento
populacional torna
esse desafio ainda maior para os sistemas de saúde.
No
Brasil, dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram
que a proporção de pessoas com 60 anos ou mais passou de 8,7% da população em
2000 para 15,6% em 2023. Atualmente, o país reúne cerca de 33 milhões
de idosos,
e a projeção é que esse grupo represente 37,8% da população até 2070.
Esse
cenário deve refletir no aumento dos casos de doenças neurodegenerativas. De
acordo com o Relatório Nacional sobre a Demência, cerca de 2,71 milhões de
brasileiros com 60 anos ou mais vivem com algum tipo de
demência.
Mantida a tendência atual, esse número poderá ultrapassar 5,6
milhões até 2050.
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Saúde cerebral além do tratamento
Para
Patrícia Lessa, diretora pedagógica do Supera Estimulação Cognitiva, o
envelhecimento da população exige uma mudança na forma como a saúde cerebral é
encarada.
"Precisamos
deixar de falar apenas sobre tratamento e passar a discutir prevenção, promoção
da saúde cerebral e cuidado ao longo de toda a vida", afirma.
Segundo
a especialista, a saúde cognitiva é construída continuamente e não apenas na
terceira idade.
Hábitos
como atividade física regular, alimentação equilibrada, sono de qualidade,
interação social, aprendizagem constante e desafios intelectuais ajudam a
fortalecer a chamada reserva cognitiva, mecanismo que aumenta a capacidade do
cérebro de lidar com os efeitos naturais do envelhecimento.
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Estudo brasileiro aponta benefícios
Pesquisadores
da USP (Universidade de São Paulo) e do Hospital das Clínicas acompanharam 207
idosos saudáveis durante dois anos para avaliar os efeitos de um programa
estruturado de estimulação cognitiva.
Publicado
na revista científica International Psychogeriatrics, o estudo dividiu os
participantes em dois grupos. Enquanto um deles participou de atividades
voltadas ao desenvolvimento da memória, atenção, raciocínio e outras funções
cognitivas, o outro não recebeu a intervenção.
Ao
final dos 24 meses, os idosos que participaram do programa apresentaram melhora
aproximada de 45% na memória, redução de 60% nas queixas cognitivas e
diminuição de 29% dos sintomas depressivos.
Os
pesquisadores também observaram avanços em funções executivas, como
planejamento, organização, raciocínio e tomada de decisões.
Para a
gerontóloga Thaís Bento, doutora em Neurologia pela USP e uma das autoras da
pesquisa, os resultados reforçam que a estimulação cognitiva pode fazer parte
das estratégias de prevenção.
"Através
deste estudo realizado com pessoas idosas saudáveis voluntárias, reforçamos que
a estimulação cognitiva pode ser iniciada em qualquer fase da vida, antes mesmo
do surgimento de sinais de declínio cognitivo", afirma.
Segundo
a pesquisadora, o cérebro mantém sua capacidade de adaptação ao longo de toda a
vida.
"O
cérebro precisa de novidades. Sempre que aprendemos algo diferente, estimulamos
áreas responsáveis pelo raciocínio, pela memória e pela atenção. Esse processo
fortalece as conexões entre os neurônios e contribui para manter a mente ativa
ao longo dos anos", explica.
Além
dos ganhos cognitivos, a pesquisa identificou benefícios relacionados ao
convívio social e ao bem-estar emocional. As atividades em grupo favoreceram a
interação entre os participantes e estimularam diferentes habilidades
simultaneamente, fatores associados à preservação da autonomia durante o
envelhecimento.
Thaís
também destaca que os resultados ajudam a desfazer a ideia de que envelhecer
significa, inevitavelmente, perder a capacidade de aprender.
"Ainda
existe a ideia de que envelhecer significa ficar frágil, esquecer tudo ou
perder autonomia. Mas a ciência mostra exatamente o contrário. Muitas pessoas
envelhecem preservando suas funções cognitivas porque permanecem aprendendo,
socializando e mantendo o cérebro em constante atividade", diz.
Para a
especialista, em um país que envelhece rapidamente, investir na saúde cognitiva
desde as primeiras fases da vida pode contribuir tanto para melhorar a
qualidade de vida da população quanto para reduzir o impacto das doenças
neurológicas sobre os sistemas de saúde.
"As
evidências reforçam que esse cuidado deve começar antes do aparecimento dos
primeiros sintomas. Não é preciso esperar que apareçam falhas importantes de
memória para começar a cuidar do cérebro. Quanto mais cedo esse estímulo fizer
parte da rotina, maiores são as chances de preservar as funções cognitivas
durante o envelhecimento", conclui.
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"Marcapasso cerebral": como funciona tecnologia
que trata Parkinson e TOC
Utilizada
há décadas no tratamento do Parkinson, a estimulação cerebral profunda também
vem sendo empregada em casos selecionados de transtorno obsessivo-compulsivo
(TOC), depressão resistente e outras condições neurológicas. O neurocirurgião
Dr. Cesar Cimonari de Almeida explica como funciona essa tecnologia e quem pode
se beneficiar dela.
Quando
ouvimos a palavra marcapasso, a maioria das pessoas pensa imediatamente no
coração. Mas existe uma tecnologia semelhante que atua em outra estrutura
igualmente complexa: o cérebro.
Conhecida
como estimulação cerebral profunda, ou DBS (do inglês Deep Brain Stimulation),
a técnica consiste na implantação de eletrodos em regiões específicas do
cérebro para modular circuitos neurais associados a determinadas doenças.
Embora
o tratamento seja amplamente reconhecido por seu uso na doença de
Parkinson,
seu campo de aplicação vem se expandindo nas últimas décadas. Hoje, a
estimulação cerebral profunda já faz parte do arsenal terapêutico para algumas
condições neurológicas e psiquiátricas graves, especialmente quando os
tratamentos convencionais não conseguem oferecer resultados satisfatórios.
Apesar
dos avanços, ainda existe muita desinformação sobre a técnica. Algumas pessoas
imaginam procedimentos experimentais ou intervenções que alteram a
personalidade. A realidade é bastante diferente.
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Como funciona o chamado “marcapasso cerebral”
O
sistema é composto por eletrodos implantados em áreas específicas do cérebro,
conectados a um gerador de impulsos elétricos posicionado sob a pele,
geralmente na região do tórax. Esses impulsos atuam modulando circuitos
cerebrais que apresentam funcionamento alterado em determinadas doenças.
Ao
contrário do que muitas pessoas imaginam, a técnica não destrói tecido cerebral
nem substitui funções do cérebro. O objetivo é regular a atividade de circuitos
neurais envolvidos nos sintomas da doença.
Na
doença de Parkinson, por exemplo, a estimulação cerebral profunda pode
reduzir tremores, rigidez e
oscilações motoras que deixam de responder
adequadamente aos
medicamentos. O mesmo princípio vem sendo estudado e aplicado em outras
condições, sempre com critérios rigorosos de seleção.
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Muito além do Parkinson
O
Parkinson continua sendo a indicação mais conhecida da estimulação cerebral
profunda, mas não é a única. Pacientes com distonia, tremor essencial e algumas
formas de epilepsia também podem se beneficiar da técnica em situações
específicas.
Nos
últimos anos, a neurocirurgia funcional passou a ocupar espaço crescente no
tratamento de transtornos psiquiátricos graves e resistentes aos tratamentos
convencionais.
O
transtorno obsessivo-compulsivo grave é um dos exemplos mais conhecidos. Em
pacientes que permanecem altamente incapazes mesmo após tratamento
medicamentoso e psicoterapia adequados, a estimulação cerebral profunda pode
oferecer melhora significativa da qualidade de vida.
A
depressão resistente ao tratamento também tem sido alvo de pesquisas e
aplicações clínicas em centros especializados ao redor do mundo. Embora os
resultados sejam promissores, trata-se de uma área que continua em evolução
científica.
É
importante destacar que esses tratamentos não são indicados para casos leves ou
moderados. Estamos falando de pacientes com sintomas graves, persistentes e que
não responderam adequadamente às abordagens convencionais.
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Resultados promissores, mas sem soluções milagrosas
Uma das
maiores preocupações quando se fala em novas tecnologias é a criação de
expectativas irreais.
A
estimulação cerebral profunda não representa uma cura universal para doenças
neurológicas ou psiquiátricas. Também não substitui acompanhamento médico,
medicamentos ou suporte multiprofissional. Seu papel é complementar.
Em
pacientes corretamente selecionados, os resultados podem ser expressivos.
Muitos recuperam autonomia, reduzem sintomas incapacitantes e apresentam
melhora importante na qualidade de vida.
Mas o
sucesso depende de uma avaliação criteriosa, realizada por equipes
especializadas que
incluem neurologistas, psiquiatras, neurocirurgiões, psicólogos e outros
profissionais. A decisão de implantar um sistema de estimulação cerebral
profunda é sempre individualizada e baseada em critérios científicos rigorosos.
O
cérebro continua sendo uma das estruturas mais complexas do corpo humano.
Justamente por isso, tecnologias capazes de modular seus circuitos de forma
precisa representam um dos avanços mais fascinantes da medicina moderna.
O
chamado “marcapasso cerebral” não substitui o cérebro nem modifica quem somos.
Seu objetivo é ajudar determinados circuitos a funcionar de forma mais
equilibrada, oferecendo uma nova possibilidade terapêutica para pacientes que,
muitas vezes, já esgotaram outras alternativas de tratamento.
Fonte:
CNN Brasil

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