Biotecnologia:
os riscos de uma nova eugenia
Nos
tempos atuais, visões de futuro são escravas de grande indeterminação e, por
vezes, há tentativas de olhar o que poderá vir a ser a partir do resgate de
conceitos e práticas que se pensava já estarem superadas, se não extintas. Este
texto pretende explorar um terreno onde essa assertiva tem lugar. As práticas
eugênicas completamente ultrapassadas, muitas vezes sancionadas por políticas
nacionais, voltam à cena. O desenvolvimento da biotecnologia, em particular as
tecnologias de edição genética mediante ferramentas cada vez mais precisas,
oferece as possibilidades técnicas para a criação, em laboratório, de “humanos
melhores”. Como veremos adiante, esse resgate vem embalado como uma
“neoeugenia”.
Para
abordar esse renascimento, valem alguns comentários sintéticos sobre quatro
pontos importantes: a história da eugenia, o conceito de tecnociência, a
evolução da biotecnologia e as tecnologias duais.
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História
Charles
Darwin publicou sua principal obra, A Origem das Espécies, em 1859, mas foi
Herbert Spencer, em 1862, que expandiu a teoria de Darwin para o estudo das
sociedades, o que, mais tarde, veio a ser chamado de ‘Darwinismo Social’. Ainda
na Inglaterra, em 1883, Francis Galton, primo de Darwin, inventou o termo
“eugenia”. Vale dizer que, apesar desse ambiente, Darwin nunca viu com bons
olhos a sua teoria da evolução das espécies ser estendida às sociedades
humanas. Mas, apesar disso, na segunda metade do século XIX e no início do
seguinte, as teorias e políticas eugênicas expandiram-se pelo mundo, com
especial impacto na colonização da África e das Américas pelos impérios
europeus.
Na
segunda metade do século XX, a revelação das barbáries da Alemanha nazista e
dos japoneses em sua invasão da China (esta, um pouco subsumida em relação à
alemã) fez com que a onda da eugenia arrefecesse em relação à primeira metade
do século. O arrefecimento foi alavancado pelo Código de Nuremberg de 1947 e as
sucessivas Declarações de Helsinque sobre ética de pesquisa com seres humanos,
a partir de 1964. Tenho como hipótese que foi também associada a esse refluxo a
fundação da bioética por Van Rensellaer Potter, em 1970, nos Estados Unidos.
Potter tinha uma visão ampla da bioética, que abrangia a ecologia e as
políticas públicas. Entretanto, a bioética norte-americana se desenvolveu
majoritariamente para o terreno clínico.
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Tecnociência
Este
termo tem precedentes históricos muito antigos que dizem respeito às relações
entre descobertas científicas e suas aplicações práticas. Atribui-se a Francis
Bacon a proposição de que o conhecimento científico deveria ter utilidade, de
modo a ajudar o homem a controlar a natureza. Essa postulação de Bacon
alimentou a Revolução Científica do século XVII.
Na
segunda metade do século XX, vários autores como Heidegger e Bachelard trataram
do tema, mas foi no âmbito do campo de pesquisa interdisciplinar chamado de
Estudos Sociais de Ciência e Tecnologia que o conceito de tecnociência foi
estabelecido. Atribui-se ao filósofo belga Gilbert Hottois a criação do termo,
mas Bruno Latour na França e Donna Haraway nos Estados Unidos, entre outros,
foram os que solidificaram o conceito. Para Latour, os vínculos e distinções
entre ciência e tecnologia não decorrem de epistemologias distintas, mas sim de
um emaranhamento epistêmico, sendo a tecnologia uma condição de possibilidade
da própria ciência e vice-versa. Além disso, as tecnociências implicam
exercício de poder e se exercem mediante o relacionamento de múltiplas
instituições em rede. Uma boa revisão sobre as tecnociências pode ser
encontrada no artigo da filósofa búlgara Ludmila Ivancheva, cuja referência
está no final deste texto.
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A biotecnologia hoje
Atualmente,
práticas potencialmente eugênicas se desenvolvem sob o guarda-chuva da
biotecnologia. Esta vive uma era da biologia sintética ou de precisão, que
opera não apenas na leitura e manipulação de genomas, mas objetiva projetar e
construir sistemas biológicos do zero. A primeira ferramenta desenvolvida para
edição de genomas leva o nome de CRISPR-Cas9, uma espécie de “tesoura” capaz de
modificar DNAs. Em 2020, duas pesquisadoras, uma francesa e outra
norte-americana, ganharam o Nobel de química pelo desenvolvimento dessa
ferramenta. Outras ferramentas mais precisas – Edição de Genes e Edição Prime –
foram desenvolvidas, respectivamente em 2016 e 2019.
Em 6 de
junho de 2026, a respeitada revista científica britânica Nature publicou um
artigo intitulado, em tradução livre, “A edição precisa do genoma de embriões
humanos gera elogios e alarmes; a técnica de ‘edição de bases’ usada pelos
pesquisadores está longe de estar pronta para uso clínico, mas os críticos
temem que ela incentive uma corrida para comercializar a abordagem”.
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A dualidade tecnológica
A
biotecnologia é um vasto campo de saberes e práticas com grande
transversalidade. Seus braços vão desde a saúde humana até o clima, a
agricultura, o meio ambiente, a indústria e a defesa, entre outros. No terreno
da saúde humana, as contribuições biotecnológicas, como a edição genética já
mencionada, destinam-se a prolongar e salvar vidas. Entretanto, e essa é também
uma marca dos tempos correntes, esse campo está imerso em uma dimensão muito
presente nas tecnociências, que é o das tecnologias duais.
A face
mais conhecida das tecnologias duais no campo biotecnológico diz respeito à
guerra microbiológica e ao bioterrorismo, capazes de criar microrganismos
patogênicos, aumentar sua virulência, fazer com que se tornem mais resistentes
a medicamentos e vacinas, aumentar sua transmissibilidade etc. Mas há outra
vertente dessa dualidade, mais atual e ainda muito aberta a desenvolvimentos,
que diz respeito à edição genômica em humanos, que busca aumentar suas
capacidades físicas e mentais, sua resistência a traumas psíquicos ou torná-los
mais inteligentes.
Essa
vertente, que tem como objetivo um denominado “aprimoramento humano”, está na
raiz da neoeugenia e engendra consequências muito afastadas dos laboratórios de
pesquisa biotecnológica. Por exemplo, de ordem bioética: qual a sua moralidade
– haverá distinções sociais e econômicas entre os “aprimorados” e os
“não-aprimorados”? Há também debates político-ideológicos – uma eugenia
regulada pelo Estado ou pelas famílias – uma eugenia liberal? Essa modalidade
neoeugênica foi proposta pelo filósofo Nicholas Agar, em 1998 .
Mas
além dessas dimensões, a neoeugenia tem chamado cada vez mais a atenção das
forças militares e do cenário geopolítico. Por exemplo, soldados “aprimorados”
mais resistentes ou que possam resistir melhor a radiações ou substâncias
tóxicas. O fato é que, nesse futuro de humanos “aprimorados”, as nações que
mais e melhor dominarem essas tecnologias terão vantagens competitivas
importantes. Em outros termos, seu domínio será considerado um importante ativo
geopolítico. Talvez de um modo algo hiperbólico se possa afirmar que no futuro
o domínio dessas tecnologias poderá cumprir um papel parecido com o domínio do
poder nuclear estabelecido na segunda metade do século passado.
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Convergências tecnocientíficas
As
propostas de uma neoeugenia têm vínculos com outras tecnociências e há
propostas de integração entre elas, formando uma “convergência tecnológica”.
Essa convergência propõe articular as Tecnologias da Informação (em particular
a Inteligência Artificial), Nanotecnologia, Ciências da Cognição e a
Biotecnologia. A iniciativa não classificada mais conhecida dessa convergência
é um programa conhecido como NBIC, e o acrônimo são as iniciais em inglês das
quatro.
Para
sua implementação, em 2001-2002 foi realizado um seminário patrocinado pela
National Science Foundation dos Estados Unidos. O seminário publicou um
relatório com o títuloConverging Technologies for Improving Human Performance.
Em 2010, os mesmos organizadores do seminário propuseram o nascimento de uma
“Ciência da Convergência” e em 2013 ampliaram o escopo da sua proposta para
integrar estudos sociais nesse projeto.
Portanto,
uma convergência entre as quatro tecnociências e a vida em sociedade. É muito
provável que as discussões sobre esses temas continuem em curso. No entanto,
devem ser classificadas, portanto, fora do alcance do público.
Fonte:
Por Reinaldo Guimarães, em Outra Saúde

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