Olimpíadas
escondem exclusão que futebol feminino sofre no Brasil, diz historiadora Aira
Bonfim
Desde
que foi permitido o futebol feminino nas Olimpíadas, na edição de Atlanta em
1996, as mulheres da seleção brasileira estão presentes em todas as edições dos
Jogos. Até agora, elas já conquistaram duas medalhas de prata, em Atenas (2004)
e Pequim (2008). A busca pelo ouro inédito começa nesta quinta-feira (25),
contra Nigéria, às 14h no horário de Brasília.
A
modalidade feminina não chegou à competição internacional muito tempo após
deixar de ser proibida no Brasil, no início da década de 1980. Nesses mais de
40 anos, a trajetória ascendente é notória, independentemente do ponto de
vista. Além das conquistas nas Olimpíadas e da competitividade nas Copas do
Mundos, a modalidade no Brasil se consolida por meio de competições nacionais,
hoje, televisionadas em emissoras abertas.
Apesar
de todo esse sucesso, o futebol feminino ainda não é visto como
"unanimidade" pela população brasileira, segundo avaliação da
historiadora esportiva, pesquisadora e escritora Aira Bonfim. Na opinião da
especialista, o que vemos durante as Olimpíadas é uma exceção da realidade do
futebol feminino no país.
"[O
futebol feminino] é mais aceito dentro do princípio dos Jogos Olímpicos, onde
você tem essa concepção do que é ser brasileiro, que tem um apelo muito maior
da gente se entender como uma nação e explorar essa identificação em todas as
modalidades", comenta a especialista em entrevista ao programa Bem Viver
desta quarta-feira (24).
"Os
Jogos Olímpicos são um caso excepcional, e a gente não pode viver de exceções.
Um contexto de uma visibilidade muito curta." Aira Bonfim não se surpreende ao ver a
seleção brasileira feminina disputando com competitividade os principais
torneios mundiais, apesar das décadas de proibição.
"O
que a gente tem são muitas meninas, principalmente mulheres pobres, populares,
periféricas, que jogam muito bem. E que aprenderam a jogar com os meninos. Que
jogavam entre eles, jogavam misturadas", lembra.
"Então
o que a gente tem é uma formação de jogadoras que já participavam desses clubes
amadores, inclusive internacionalmente, mas fora de uma regulação de
oficialidade. E aí, quando elas se encontram, em 96, tem um bom futebol para
ser demonstrado, apesar de todas as dificuldades técnicas", diz.
"Imagina
se tivessem cuidado um pouquinho melhor dessas seleções, da formação de base
dessas garotas e tudo mais", lamenta Bonfim.
O que a
historiadora vê daqui para frente é uma grande oportunidade da modalidade
feminina criar um novo modelo de futebol, não inspirado no masculino. "O
futebol feminino do alto rendimento quer se profissionalizar. E aí a gente tem
uma grande oportunidade de não usar o futebol masculino, esse mercado
estruturado e centenário como um modelo."
A
seleção brasileira está no grupo C, junto com Nigéria, Espanha e Japão. Além
delas, outras oito seleções disputam a primeira fase do torneio, formando os
grupos A e B.
Será a
estreia em competições oficiais do novo técnico, Arthur Elias, que trouxe boa
parte do elenco do Corinthians, equipe que treinava antes de assumir a seleção.
O Brasil ainda conta com Marta, eleita seis vezes a melhor jogadora do mundo.
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Confira a entrevista na íntegra
• Você sente que o futebol feminino é uma
unanimidade para população brasileira?
Eu acho
que [sim] dentro do princípio dos Jogos Olímpicos, onde você tem essa concepção
do que é ser brasileiro, que tem um apelo muito maior da gente se entender como
uma nação e explorar essa identificação em todas as modalidades.
Algo um
pouco diferente de quando a gente observa, por exemplo, torneios específicos
como a Copa do Mundo, o Sul Americano, agora mais recentemente os torneios de
clube.
Então,
desde que a gente inaugura como competidoras em Jogos Olímpicos, isso não faz
tanto tempo assim, foi em 1996, a gente tem, de alguma forma, uma oportunidade
de se reencontrar com algo que não encontrávamos no cenário nacional, ou seja,
mulheres brasileiras vestindo a camisa amarelinha.
E
notadamente, são seleções que desde o primeiro episódio, vão demonstrar um bom
futebol. Então, de alguma forma, já vão utilizar ali uma ideia crescente, de
que é um futebol bonito e que também merecia ter o mesmo deslumbre que a gente
tem com o masculino.
• As Olimpíadas geram uma falsa sensação
de união do nosso país sobre o futebol feminino, então?
Exatamente.
Acho que é um torneio excepcional, os Jogos Olímpicos, e a gente não pode viver
de exceções. Um contexto de uma visibilidade muito curta, um tiro curto dos
Jogos Olímpicos.
Os
Jogos são uma grande janela de visibilidade, eles foram muito importantes
quando surgiram, lembrando que vai vir muitos anos mais tarde que o torneio
masculino. Então quase que se naturalizava a ausência de mulheres de diferentes
modalidades, não só do futebol.
• Mesmo tendo passado tantos anos
proibido, assim que o futebol feminino começa a existir oficialmente, as
mulheres já disputam de igual pra igual com seleções do mundo. É a trajetória
esportiva mais ascendente da história do país?
Olha,
eu não tenho dados comparativos. Precisamos pensar que as mulheres tiveram
dificuldades em diferentes modalidades, a proibição também, de alguma forma,
atingiu muitas competições, principalmente modalidades que tenham contato
físico ou mesmo modalidades consideradas masculinas, como as lutas. O próprio
boxe, que foi um esporte muito popular, também foi proibido para meninas e
mulheres.
Mas
mesmo proibido, as brasileiras sempre jogaram esse futebol. O que a gente tem,
na verdade, é o impedimento de desenvolvimento de uma estrutura de alto
desenvolvimento, de uma aceitação de desenvolvimento dentro das entidades,
dentro dos clubes e notadamente também um preconceito colocado dentro do
ambiente cultural do Brasil.
Então a
gente vai falar, respirar o futebol, sonhar o futebol, mas esse futebol tem
gênero.
O que a
gente tem são muitas meninas, principalmente mulheres pobres, populares,
periféricas, que jogam muito bem e que aprenderam a jogar com os meninos. Que
jogavam entre elas, jogavam misturadas, mas de alguma forma não tinham essa
referência que a gente já tem hoje, de ligar a televisão e poder ver, por
exemplo, Corinthians e Palmeiras feminino, ou mesmo no caso de Jogos Olímpicos.
Então o
que a gente tem é uma formação de um espectro das jogadoras que já participavam
desses clubes amadores, inclusive, internacionalmente, mas fora de uma
regulação de oficialidade. Era como se não existisse esse futebol para a CBF
[Confederação Brasileira de Futebol]. E aí, quando elas se reencontram no nível
internacional, em 96, tem um bom futebol para ser demonstrado, apesar de todas
as dificuldades técnicas.
A
despeito de todos esses prejuízos que a seleção teve desde os seus inícios,
sim, a gente tem ali pelo menos dois quartos lugares na chegada de competição
nos Jogos Olímpicos e, na sequência, duas pratas.
Imagina
se tivessem cuidado um pouquinho melhor dessas seleções, da formação de base
dessas garotas e tudo mais? Talvez a gente tenha perdido muito tempo.
O que a
gente tem hoje são muitas nações correndo e desenvolvendo, enquanto o Brasil
perdeu muitos anos em um ambiente muito machista, muito misógino, muito
racista. Lembrando que, de novo, essas primeiras composições são de mulheres
muito populares, mulheres negras, mulheres lésbicas.
• Existem maneiras de o futebol feminino
se massificar no Brasil sem ter quer passar por toda lógica mercadológica que
gera tantas discrepâncias, como se vê hoje no masculino?
A gente
[do futebol feminino] tem colhido uma evolução nesses últimos 10 anos em
relação à modalidade, falando do alto rendimento. Isso é importante para, de
alguma maneira, você atingir o futebol massificado, o futebol de lazer, o
futebol das crianças, o futebol que está acontecendo nas escolas, nas ruas, com
meninas.
Então,
todo o fruto dessa desenvoltura dos últimos anos obviamente passa por esses
grandes eventos, mas não é por causa deles e sim, notadamente, por causa dos
movimentos de mulheres.
Quando
a gente faz e usa dessa ferramenta, de reparar desigualdades a partir do
futebol, principalmente no caso do Brasil, a gente tem uma ferramenta muito
poderosa onde você consegue falar de questões políticas a partir de um esporte
que tem muita adesão popular, desde uma criança até uma pessoa adulta, e uma
discussão massificada, principalmente pelas televisões, mas também pela
internet, pelas redes sociais, etc.
A gente
observa nesses últimos anos que existiu a oportunidade de conversar sobre uma
reparação histórica uma vez que o Brasil, que é conhecido como país de futebol,
tinha essa proibição de mais de 40 anos de impedimento da evolução do futebol
feminino como uma modalidade, uma modalidade séria e oficial, mas também como
um projeto profissional, um projeto de sonho.
Então,
não era uma questão do meu corpo, não era uma questão de dificuldade das
mulheres, muito ao contrário. Era uma questão cultural que quase foi
sedimentada a ponto das pessoas naturalizarem essas desigualdades.
Esses
avanços têm permitido, inclusive, reconhecer a ausência de mulheres trabalhando
com um mercado estruturado, que é o mercado do futebol masculino.
Então
onde estão as mulheres que trabalham lá? Será que a gente vai aceitar quando
escolherem a melhor técnica do mundo para gerir uma equipe masculina? Por
exemplo, hoje existe uma negociação em torno de uma técnica mulher para assumir
o time inglês.
O
futebol feminino do alto rendimento quer se profissionalizar. E aí a gente tem
uma grande oportunidade de não usar o futebol masculino, esse mercado
estruturado e centenário, como um modelo. Talvez ser um meio, ser uma
alternativa de maior sustentabilidade, com outras recursos éticos, com outros
demonstradores do que é ser um jogador, ser muito bem pago, mas não
necessariamente ser uma celebridade. Ser uma pessoa rica e, de novo, acentuar
essas desigualdades em questões que envolve a rentabilidade de se tornar um
jogador.
Não sei
se de fato esse mercado que está sendo constituído em relação ao futebol
feminino dá conta dessa responsabilidade, mas é uma oportunidade sim.
• A atual má fase do futebol masculino é
uma janela de oportunidade para o futebol feminino?
Eu acho
que a gente não depende do masculino para nada. Mas de alguma forma, acho que
toda modalidade esportiva demanda identificação.
E é
muito legal você pensar que muitas dessas jogadoras que vão estar representando
o Brasil têm identificação com a população brasileira, inclusive com a
população internacional.
Pessoas
vão assistir o Brasil porque acompanham as jogadoras brasileiras há muito
tempo. Então eu acho que tem uma reflexão aí que na verdade é um grande espelho
da sociedade, não que a gente queira ser melhor ou mais, a gente só quer estar
junto.
Fonte:
Brasil de Fato

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