Por
que o trabalho está adoecendo os brasileiros?
Os
transtornos mentais já são a principal causa de afastamento do trabalho no
Brasil, e a tendência é de agravamento. Burnout, depressão, síndrome do pânico
e outros diagnósticos deixaram de ser exceção para se tornarem a rotina de
milhões de brasileiros. O que ainda falta, segundo a médica e pesquisadora
Maria Maeno, da Fundacentro e do Instituto Walter Leser, é o sistema oficial
reconhecer que a culpa, na maioria dos casos, é das condições de trabalho.
“Quando
falamos do grande aumento de afastamentos por transtornos mentais, a ínfima
minoria é reconhecida como relacionada ao trabalho, menos de 10%”, afirma Maeno
em entrevista ao programa do Outra Saúde no Farol Brasil (assista). Para a
especialista, o abismo entre a realidade vivida pelos profissionais e os
registros oficiais é resultado direto de um modelo econômico estruturalmente
adoecedor.
As
causas são conhecidas, como jornadas prolongadas, ritmo intenso, equipes
reduzidas e um regime de metas que funciona como pressão permanente. “As
pessoas têm entregas a fazer e, o tempo todo, sentem que estão devendo algo ou
atrasadas em relação aos prazos”, descreve a pesquisadora. Esse ambiente abre
espaço para o assédio moral, que assume formas variadas, desde pressões sutis
até a violência explícita por parte de gestores e da hierarquia corporativa.
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Nexo causal e a barreira que o sistema não atravessa
Mesmo
em setores com altíssimos índices de adoecimento psíquico, como o bancário, o
reconhecimento da relação entre o transtorno e o trabalho (o chamado nexo
causal) raramente acontece.
No
Sistema Único de Saúde (SUS), a Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do
Trabalhador e da Trabalhadora (Renastt), que integra serviços de assistência,
vigilância e promoção da saúde, foi criada em 2002, mas ainda não conseguiu
preparar todos os profissionais para identificar o adoecimento ocupacional.
“Existe
uma grande subnotificação, mesmo nos atendimentos realizados no SUS”, afirma
Maria Maeno. Já na Previdência Social, os médicos peritos federais operam sem
diálogo com a área assistencial. “Nós, que trabalhamos na assistência,
enfrentamos uma barreira quase intransponível para dialogar com os peritos
federais”, relata a pesquisadora. O resultado é uma cultura institucional que
sistematicamente nega benefícios e relega o trabalhador adoecido à
invisibilidade.
Quando
o nexo causal é reconhecido, o trabalhador garante estabilidade de um ano após
o retorno, recolhimento do FGTS durante o afastamento e acesso ao
auxílio-doença acidentário. Sem o reconhecimento oficial, ele perde todos esses
direitos.
Empresas,
normas e a ausência de democracia
A
atualização da Norma Regulamentadora 1 (NR-1), que incluiu a gestão dos riscos
psicossociais, foi adiada por pressão empresarial e só entrou em vigor em 2025.
E ela, sozinha, não é suficiente.
Maria
Maeno destaca que nenhuma norma resolve o problema central, que é a ausência de
democracia nos ambientes de trabalho. “Os acidentes e doenças do trabalho
continuam ocorrendo não por falta de conhecimento, mas por negligência das
empresas”, afirma. Enquanto os profissionais que contestam as condições
correrem risco de demissão e as Comissões Internas de Prevenção de Acidentes
(CIPAs) permanecerem controladas pela gestão, nenhuma regulamentação será
suficiente.
“A
questão das metas é tratada como poder diretivo da empresa. Ora, se a questão
das metas é um dos principais problemas na organização e gestão do trabalho das
empresas e isso é poder diretivo das empresas, então o trabalhador tem zero de
participação”, conclui Maeno.
Para a
médica, a saída passa pelo fortalecimento sindical, pela fiscalização rigorosa
do Estado e, sobretudo, pela democratização real dos locais de trabalho. Sem
isso, o adoecimento seguirá sendo tratado como uma falha individual do
trabalhador, e não como o produto de um modelo que o explora as pessoas até o
limite.
Fonte:
Por Glauco Faria, em Outra Saúde

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