Como
nova tarifa contra o Brasil faz parte de estratégia maior de Trump para
inimigos (e aliados)
A nova
tarifa dos Estados Unidos contra parte das exportações do Brasil – que entra em
vigor nesta quarta-feira (22/07) – faz parte de uma estratégia maior do governo
de Donald Trump para contornar uma proibição imposta pela Suprema Corte
americana e reconstruir as maiores e mais abrangentes tarifas implementadas no
início de seu segundo mandato.
Segundo
especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, a taxação aplicada contra os
produtos brasileiros após uma investigação sobre práticas comerciais
consideradas injustas pode ser apenas a primeira de uma série de novas medidas
protecionistas com base em inquéritos semelhantes.
"Em
resposta à decisão da Suprema Corte, o governo Trump está implementando um
plano B e identificando uma estratégia mais robusta do ponto de vista
jurídico", resume Oliver Stuenkel, pesquisador da Universidade Harvard e
do Carnegie Endowment for International Peace e professor da FGV.
Desde
antes de assumir a Casa Branca pela segunda vez, Trump tem defendido uma agenda
econômica conservadora e protecionista para os EUA.
Ainda
nos primeiros meses de 2025, o presidente americano anunciou as chamadas
tarifas recíprocas, que estavam no núcleo da estratégia tarifária do governo.
Dezenas
de países foram alvos de alíquotas extras entre 10% e 41%, impostas com base na
Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA, na sigla em
inglês). Segundo Trump, a legislação nacional de 1977 o autorizaria a adotar
esse tipo de medida em situações excepcionais.
Mas
entre negociações bilaterais e idas e vindas anunciadas pela própria Casa
Branca, a Suprema Corte decidiu em fevereiro deste ano que o republicano
extrapolou sua autoridade e que a IEEPA não permite ao presidente criar tarifas
por conta própria.
Imediatamente
após a decisão judicial, Trump assinou uma ordem executiva para impor uma nova
tarifa global de 10%, dessa vez usando a seção 122 da Lei de Comércio americana
de 1974.
Esta
seção da legislação americana permitiu que o presidente impusesse taxas de até
15% por até 150 dias sobre as importações de todos os países, sem necessidade
de aprovação do Congresso.
O prazo
de 150 dias, porém, expira ainda nesta semana, em 24 de julho.
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Em busca de bases jurídicas
É nesse
contexto que entram as investigações sobre práticas comerciais desleais e
ameaças à segurança nacional conduzidas pelo governo americano.
Essa
foi a alternativa encontrada por Trump e seus assessores para manter sua agenda
protecionista, avaliam economistas e analistas políticos consultados pela BBC
News Brasil.
Em
entrevista ao podcast The Daily, do jornal The New York Times, o próprio
representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, disse que o
governo está reconstruindo as bases jurídicas para restabelecer parte das
sobretaxas derrubadas ou impor novas.
Ele
também falou sobre uma outra frente de tarifas em preparação, que poderá
atingir mais de 40 países acusados de práticas como subsídios à indústria e
manipulação cambial.
Segundo
Ana Swanson, repórter do jornal que entrevistou Greer, a administração
americana acredita que esse caminho pode ser muito mais duradouro e prevê a
entrada em vigor de tarifas de cerca de 10% contra mais de 80 países,
provavelmente até o final deste mês.
O
primeiro país efetivamente taxado seguindo essa estratégia no segundo mandato
de Trump é o Brasil. Após uma investigação de quase um ano, o Escritório do
Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) anunciou
a aplicação das tarifas de 25% sobre uma série de produtos brasileiros.
O
inquérito tem como base uma outra parte da mesma lei de 1974 usada pelo
presidente republicano para aplicar as tarifas temporárias que expiram nesta
semana.
A Seção
301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos permite que o governo americano apure
práticas consideradas prejudiciais ao comércio dos EUA.
O
instrumento segue um trâmite que passa pelo início de diálogo com o parceiro
comercial, investigação, mediação e, por fim, medidas para corrigir eventuais
irregularidades. O processo completo dura pelo menos 12 meses, podendo ser
estendido.
No caso
brasileiro, a tarifa foi justificada pelos EUA alegando práticas como
favorecimento ao Pix, acesso ao mercado de etanol e problemas relacionados à
corrupção e desmatamento.
Segundo
Jamieson Greer, a medida é necessária "para enfrentar práticas comerciais
desleais e garantir que trabalhadores e empresas americanas possam competir em
condições justas."
A lista
dos produtos alvo das tarifas inclui etanol, máquinas agrícolas, roupas e
calçados e material elétrico. Já itens como café, laranja, suco de laranja e
carne bovina entraram na lista de exceções.
Mas o
Brasil não é o único país alvo de uma investigação com base na Seção 301.
O USTR
conduz atualmente um inquérito que tem como alvo dezesseis dos maiores
parceiros comerciais dos Estados Unidos — China, União Europeia (UE),
Singapura, Suíça, Noruega, Indonésia, Malásia, Camboja, Tailândia, Coreia do
Sul, Vietnã, Taiwan, Bangladesh, México, Japão e Índia — por se envolverem em
práticas comerciais supostamente desleais. Essa investigação está em curso e os
resultados são esperados em breve.
Outro
processo recente, que também se baseia na 301, concluiu que 60 parceiros
comerciais dos EUA, incluindo a UE, o Japão e o Brasil, adotaram práticas
comerciais desleais ao não impedirem o comércio de produtos fabricados com
trabalho forçado.
O USTR
propõe que o Brasil e outros 53 países citados no relatório recebam tarifas
adicionais de 12,5%. Outras seis economias devem receber taxação de 10%.
O
período de consulta pública sobre as taxas já encerrou e elas podem ser
impostas a qualquer momento.
Os EUA
também investigam Alemanha e Vietnã em processos individuais por questões
relacionadas à indústria farmacêutica e propriedade intelectual,
respectivamente.
Há
ainda inquéritos sendo conduzidos a partir de outro artigo da legislação
americana, a Seção 232 da Lei de Expansão Comercial de 1962.
Esse
artigo permite que o presidente americano ajuste as importações por meio de
tarifas ou cotas, caso o Departamento de Comércio reconheça que determinados
bens estão sendo importados em quantidades ou circunstâncias que ameacem a
segurança nacional dos EUA.
Essa
seção foi usada, por exemplo, para aplicar uma tarifa de 50% sobre produtos
feitos com aço, alumínio e cobre importados, que também afeta o Brasil.
Mais
recentemente, o presidente americano acionou o artigo novamente, mas para
reduzir as tarifas sobre alguns desses itens e favorecer empresas que se
comprometerem a fortalecer a produção dos metais no país.
Na
última segunda-feira (20/7), o governo americano ainda usou mais um artigo, de
outra lei comercial americana, para anunciar uma tarifa de 50% sobre uma série
de produtos importados do Canadá, em retaliação ao que Trump chamou de
"tratamento desigual" dado a carros, laticínios e bebidas alcoólicas
dos EUA.
A Seção
338 da Lei Tarifária de 1930 foi a escolhida da vez. Segundo essa peça da
legislação americana, o presidente pode impor tarifas sobre as importações de
um país estrangeiro para compensar o ônus ou a desvantagem decorrente da
discriminação ou da imposição desigual de tarifas sobre o comércio nacional.
Para
Filipe Mendonça, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal
de Uberlândia (UFU), a taxação do Canadá confirmou o padrão da nova estratégia
americana de tentar reconstruir, de forma mais durável, o mesmo "poder de
coerção tarifária que a IEEPA permitia".
Segundo
o especialista, Seção 338 é "um instrumento praticamente esquecido, nunca
usado na política comercial moderna, ressuscitado para ampliar o arsenal
disponível".
Nesse
contexto, o caso do Brasil foi uma primeira tentativa para o governo de Donald
Trump em sua estratégia, afirma Oliver Stuenkel.
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Mas por que o Brasil?
Segundo
Filipe Mendonça, o Brasil é um caso emblemático dessa reconfiguração da
estratégia tarifária americana.
"O
Brasil combina, de forma pouco comum, atrito regulatório e desalinhamento
político com os Estados Unidos", diz.
"Historicamente,
o Brasil já é 'veterano' da Seção 301, pois fomos alvos desse tipo de
unilateralismo agressivo em 1985 (informática), em 1987 (patentes
farmacêuticas) e em 2021 (Imposto sobre Serviços Digitais), o que facilita, na
perspectiva trumpista, reativar o instrumento contra o Brasil com custo
relativamente baixo."
Ainda
segundo Mendonça, a investigação sob a Seção 301 "já nasceu mais política
do que comercial", reunindo acusações heterogêneas e pouco comuns para
esse tipo de instrumento.
Stuenkel
aponta ainda que por ser governado pela esquerda, o Brasil atrai certo
descontentamento em Washington.
Ao
mesmo tempo, o país é considerado um adversário de "baixo risco".
Isto é, se o Brasil decide retaliar e uma guerra tarifária se inicia, o impacto
não seria tão extenso devido à menor relevância comercial em comparação com,
por exemplo, um parcerio americano de mais peso como a China, diz o
especialista.
E
enquanto em 2025, quando o Brasil foi alvo de uma taxa extra de 50% diante da
insatisfação do governo Trump com o processo contra o ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado, a motivação para as tarifas
"era abertamente política", agora foi preciso "encontrar um
verniz técnico" para justificar a ação americana.
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Por que Trump é a favor de tarifas?
Donald
Trump disse muitas vezes que as tarifas protegem e criam empregos nos EUA. Ele
as vê como uma forma de fazer a economia dos EUA crescer e aumentar as receitas
fiscais.
"Sob
meu plano, os trabalhadores americanos não ficarão mais preocupados em perder
seus empregos para nações estrangeiras", disse Trump, quando anunciou o
primeiro tarifaço de seu segundo mandato. "Em vez disso, as nações
estrangeiras ficarão preocupadas em perder seus empregos para a América."
Trump
também defende as tarifas como uma forma de suprimir as vendas de produtos
importados e promover as vendas de produtos nacionais. Esse foi seu motivo para
impor tarifas no passado à UE, por exemplo.
Em sua
entrevista ao The Daily, o representante de Comércio dos Estados Unidos,
Jamieson Greer, disse ainda que o protecionismo é uma questão de
"emergência" nos EUA, como forma de reduzir o déficit comercial do
país e recuperar sua industrialização, elevando os salários dos americanos.
No ano
passado, o Tesouro dos EUA registrou um forte aumento de arrecadação graças ao
tarifaço do presidente. No primeiro semestre de 2025, a receita proveniente das
tarifas de importação atingiu US$ 87 bilhões (R$ 442 bilhões), valor que supera
toda a arrecadação de 2024.
Mas
desde que a Suprema Corte decidiu, em fevereiro, que as tarifas impostas por
Trump eram ilegais, os importadores receberam cerca de US$ 71 bilhões em
reembolsos, de acordo com o relatório mensal do Tesouro dos EUA. E outros US$
166 bilhões ainda devem ser pagos de volta pelo governo americano.
Para
alguns especialistas, esses resultados também têm motivado os EUA a buscar
novas estratégias para a implementação de tarifas.
Por
outro lado, aponta Filipe Mendonça, o déficit comercial e a arrecadação do
governo americano não são os objetivos centrais de Trump.
"O
que está por trás é a busca de realinhamento estratégico dos parceiros
comerciais dos EUA no contexto da rivalidade com a China", afirma o
professor da UFU. "O acesso ao mercado americano é usado como instrumento
de disciplina política, não apenas como resposta a distorções comerciais
específicas."
Tal
objetivo fica evidente no caso brasileiro, segundo o especialista.
"A
lógica de fundo é reposicionar o Brasil na órbita americana num momento de
disputa por cadeias produtivas, tecnologia e influência regulatória com a
China, justamente na véspera da disputa presidencial brasileira", diz.
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A nova estratégia vai funcionar?
Embora
a nova política tarifária americana esteja cada vez mais clara, ainda não é
possível afirmar se as novas tarifas contribuirão para os objetivos do governo
Trump – e, principalmente, se resistirão a novas contestações judiciais.
Em seu
primeiro mandato, o presidente americano usou a Seção 301 da Lei de Comércio
dos Estados Unidos (a mesma utilizada atualmente contra o Brasil) para impor
tarifas de 25% sobre aproximadamente US$ 250 bilhões em importações chinesas.
E
embora tenham sido contestadas por cortes nos Estados Unidos, as tarifas de
Trump sobre a China não foram anuladas pelos tribunais.
Os
especialistas ouvidos pela reportagem também enxergam a estratégia de usar a
lei comercial americana para apoiar as tarifas como mais consistente e robusta
do ponto de vista jurídico do que a aplicação da IEEPA.
Mas
isso não elimina os riscos.
"A
Seção 338, último capítulo desta nova onda tarifária trumpista, não é usada há
quase um século e sua aplicação contra o Canadá certamente será
contestada", diz Mendonça.
"Já
as determinações de Seção 301 também podem ser questionadas por vícios
processuais ou por serem consideradas arbitrárias pelos tribunais, mas acho
muito difícil a reversão pela via jurídica neste caso", completa.
No caso
brasileiro, Jamieson Greer afirmou que Washington continua aberto a conversas
com Brasília em relação à nova tarifa de 25%.
O
sentimento do governo Lula, porém, é de pessimismo. Segundo uma fonte no
Palácio do Planalto, a decisão dos EUA tem mais motivações políticas do que
econômicas, e os argumentos apresentados pelo Brasil para contestar as
acusações não foram sequer considerados.
Mas
para a economista e pesquisadora do Instituto Peterson de Economia
Internacional (PIIE), Monica de Bolle, a extensa lista de itens que não serão
alvo das tarifas americanas contra o Brasil revela os limites do protecionismo
e da margem de manobra de Donald Trump no mundo globalizado de hoje.
A lista
de produtos isentos das tarifas inclui mais de 2,2 mil itens, entre eles carnes
bovinas, frutas, café, minerais, fertilizantes e aeronaves, itens de maior
importância entre os exportados pelo Brasil aos EUA.
"Pelas
minhas contas, cerca de 65%, senão mais, das exportações do Brasil para os
Estados Unidos ficarão completamente isentas", disse De Bolle em
entrevista à BBC News Brasil.
"Ou
seja, a tarifa de 25% se aplica apenas a um terço dos bens exportados. Além
disso, já havia uma lista de isenções publicada no início de junho, e novos
itens foram acrescentados agora", afirmou.
"Tudo
isso é muito revelador dos limites dessa ação norte-americana. Apesar de
aparentemente não quererem mais isso, os Estados Unidos são uma economia muito
integrada com o resto do mundo."
Para
Monica de Bolle, o caso do Brasil deve servir como um sinalizador para outros
países que também estão sendo investigados sob a Seção 301: ao mesmo tempo em
que os EUA adotaram uma nova estratégia comercial, há um limite para o
protecionismo norte-americano.
Pressões
internas, especialmente antes das eleições para o Congresso marcadas para
novembro e diante da perspectiva de alta da inflação, também podem dificultar o
caminho de Trump para manter sua estratégia.
Por
tudo isso, diz Mendonça, da UFU, "o sucesso da estratégia depende menos da
blindagem jurídica do instrumento e mais da capacidade do governo de sustentar
capital político doméstico e internacional simultaneamente".
Fonte:
BBC News Brasil

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