quinta-feira, 23 de julho de 2026

Como prisão perpétua de fundador do Cartel de Sinaloa encerra capítulo da história do narcotráfico no México

A prisão perpétua de Ismael "El Mayo" Zambada, decretada nos Estados Unidos nesta segunda-feira (20/7), representa muito mais do que a forma como termina a trajetória de um dos maiores traficantes da história: ela também marca o fim de um capítulo único na história do narcotráfico no México.

Zambada, assim como o outro cofundador do Cartel de Sinaloa, Joaquín "El Chapo" Guzmán, personifica a figura do líder do narcotráfico mexicano que, por décadas, exerceu um poder quase absoluto por meio da violência e do dinheiro, com uma astúcia que impressionou o mundo.

Em 2025, quando "El Mayo" respondia às acusações de tráfico de drogas nos EUA, ele mesmo contou a autoridades americanas que começou a cultivar maconha nas montanhas de Sinaloa em 1969, ao lado de um amigo. Tinha 19 anos.

Eles escondiam as plantações ilegais entre fileiras de milho. Embora a primeira colheita tenha rendido menos do que esperavam, os 27 quilos de maconha vendidos por cerca de US$ 400 marcaram o início de sua trajetória no narcotráfico, segundo um documento apresentado por sua defesa neste mês.

Com o crescimento de sua atuação no crime, Zambada passou a controlar as rotas de cocaína da América do Sul para os Estados Unidos e, ao lado de Guzmán, liderou o que as autoridades americanas definiram como "a maior organização de tráfico de drogas do mundo".

Mas, após sua controversa captura em 2024 e sua admissão de culpa, o septuagenário foi condenado à prisão perpétua pelo juiz federal Brian Cogan, o mesmo que, sete anos antes, havia imposto a mesma pena a "El Chapo".

A sentença também determinou o confisco de US$ 15 bilhões, valor que os Estados Unidos estimam ter sido obtido pelo Cartel de Sinaloa — estimativa que Zambada considerou adequada.

Com a queda dos antigos chefes do narcotráfico mexicano, a condenação de "El Mayo" marca o desaparecimento desse tipo de traficante com poder absoluto, que passou de cultivador de maconha a controlador de praticamente todas as etapas do tráfico internacional de drogas, chegando a rivalizar com o próprio Estado, afirmam especialistas.

"É uma geração de líderes criminosos que está chegando ao fim. Ou já chegou", disse David Mora, analista sênior para o México do International Crisis Group e pesquisador especializado em crime organizado, à BBC Mundo, serviço em língua espanhola da BBC.

"É como se esses grandes chefes do narcotráfico estivessem desaparecendo", acrescenta. "Mas o problema do narcotráfico e da violência não desaparece: ele continua, apenas assume outras formas e passa para as mãos de outras figuras."

<><> Mudança de era

Zambada e Guzmán se associaram após uma disputa que surgiu na década de 1990 entre narcotraficantes e um confronto de "El Chapo" com o cartel de Tijuana, segundo depoimentos e documentos judiciais.

Nesses tempos também houve alianças entre cartéis colombianos e mexicanos para enviar cocaína para os Estados Unidos.

Embora comandassem grupos e operações diferentes, Zambada e Guzmán passaram a investir juntos em carregamentos de toneladas de cocaína e a transportá-los para grandes cidades americanas por diferentes meios.

Além das rotas terrestres, chegaram a compartilhar aviões, submarinos, lanchas rápidas e embarcações, segundo Jesús Zambada, irmão de "El Mayo", que testemunhou no julgamento de Guzmán em 2018 enquanto aguardava sua própria condenação por tráfico de drogas nos EUA.

A associação entre "El Mayo" e "El Chapo" deu origem ao Cartel de Sinaloa, que, com o tempo, desenvolveu uma estrutura cada vez mais complexa, com transportadores, chefes de praça responsáveis pelo controle de territórios, operadores de lavagem de dinheiro, equipes de segurança e pistoleiros.

Ainda assim, a organização sempre manteve uma estrutura vertical, com Zambada e Guzmán no topo da hierarquia, supervisionando as operações e dando a palavra final.

O cartel corrompeu autoridades, assassinou rivais e expandiu suas operações para diversos países.

Embora tenha se tornado o grupo criminoso mais poderoso do México, outros cartéis continuaram atuando em paralelo, com líderes que acabaram mortos ou presos. Alguns agora aguardam julgamento nos Estados Unidos — e negociam possíveis acordos que envolvam admissão de culpa em troca de redução de penas ou benefícios.

Um deles é Vicente Carrillo Fuentes, ex-líder do Cartel de Juárez, que inicialmente se aliou ao Cartel de Sinaloa e depois passou para o lado de seus rivais, os Los Zetas, em meio à guerra sangrenta entre as organizações criminosas.

Outro exemplo é Rafael Caro Quintero, que também começou cultivando maconha e depois passou a traficar outras drogas, até ganhar o apelido de "narco dos narcos". Ele foi acusado de ordenar o assassinato do agente americano Enrique Camarena, da agência de combate ao tráfico de drogas Drug Enforcement Administration (DEA), em 1985.

O homicídio, cometido após o sequestro e a tortura de Camarena, levou México e EUA a intensificarem a ofensiva contra os cartéis e seus principais chefes.

Ainda assim, as organizações criminosas continuaram a desafiar o Estado. Em 2006, o governo mexicano declarou guerra ao narcotráfico, mobilizou as Forças Armadas para combater os cartéis e mergulhou o país em uma espiral de violência que já deixou centenas de milhares de mortos e desaparecidos.

À medida que os antigos chefes eram presos ou mortos e os cartéis incorporaram ao negócio novas drogas sintéticas, como metanfetamina e fentanil, as organizações criminosas adaptaram sua estrutura às novas circunstâncias.

Os cartéis começaram a se fragmentar, e a era dos grandes chefes do narcotráfico ficou para trás.

"O cenário está se afastando da era do líder único e todo-poderoso", disse à BBC Mundo Ray Donovan, ex-chefe de operações da DEA.

Donovan participou das operações que levaram à captura de "El Chapo" no México, em 2016, e da caçada a Nemesio "El Mencho" Oseguera, líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), que foi, por anos, o homem mais procurado do país.

Segundo ele, os cartéis agora buscam "estruturas de liderança mais resilientes e interconectadas", com modelos de comando descentralizados.

<><> Estilos diferentes

Embora tenham sido sócios durante tanto tempo, Zambada e Guzmán tinham estilos e trajetórias muito diferentes como líderes do narcotráfico.

"El Chapo" apareceu em público em diversas ocasiões e protagonizou duas fugas espetaculares de prisões no México, o que alimentou sua fama mundial e ajudou a construir uma imagem quase lendária, reforçada por músicas e séries de TV — algo que parecia seduzi-lo cada vez mais.

"Forneci mais heroína, metanfetamina, cocaína e maconha do que qualquer outra pessoa no mundo", afirmou em entrevista ao ator americano Sean Penn para a revista Rolling Stone, quando ainda estava foragido, antes de sua prisão definitiva.

Já "El Mayo" sempre manteve um perfil discreto, quase fantasmagórico: poucas pessoas conheciam seu rosto, e ele jamais havia sido preso até dois anos atrás.

As autoridades americanas acreditam que sua captura foi resultado de uma armadilha. Joaquín Guzmán López, um dos filhos de "El Chapo", teria convidado Zambada para uma reunião de negócios, dominado o traficante, levado-o de avião para os arredores de El Paso, no Texas, e o entregado às autoridades americanas.

O episódio gerou atritos entre os governos dos EUA e do México, que buscou esclarecer se agentes americanos atuaram secretamente na transferência de "El Mayo" a partir de território mexicano.

A captura de Zambada também desencadeou uma guerra interna no Cartel de Sinaloa entre seus aliados, conhecidos como "Los Mayos", e os herdeiros de Guzmán, chamados de "Los Chapitos", mergulhando o Estado de Sinaloa em uma nova onda de violência.

Mora afirma que, em seu trabalho de campo no Estado mexicano, observa que essa violência acabou com o papel exercido pelos antigos chefes do narcotráfico, que, além de recorrerem à força, desempenhavam funções quase estatais em áreas como saúde e até justiça para conquistar legitimidade junto à população.

"Quando converso com pessoas das comunidades da serra, elas me dizem que essa era uma figura que já não existe. Era como a figura do patrão, alguém que, se alguém matasse alguma pessoa próxima a você, aparecia e lhe dava recursos", relata o pesquisador.

Ele acrescenta que, em vez de organizações do narcotráfico com hegemonia estadual e nacional, hoje predominam grupos de atuação mais local, que mantêm o negócio por meio de alianças e disputas com outras organizações criminosas.

Um relatório do International Crisis Group indica que nem a guerra territorial entre facções do narcotráfico em Sinaloa nem o grande efetivo militar enviado ao Estado pelo governo de Claudia Sheinbaum, sob pressão dos EUA para destruir laboratórios, apreender drogas e prender suspeitos, parecem ter alterado significativamente o fornecimento de fentanil.

Isso sugere que surgiram novos atores e novos locais de produção de drogas, além de novas formas de tráfico para atender à demanda, como já ocorreu anteriormente com outros entorpecentes, observa Mora.

"Podemos fazer uma lista de todos os grandes chefes do narcotráfico mexicano que foram capturados, mortos ou condenados nos EUA", afirma. "E eu me atreveria a dizer que a conclusão seria muito frustrante, porque pouco ou nada mudou em relação ao problema."

¨      Quem são os chefes mexicanos do tráfico presos nos EUA

O traficante mexicano Ismael "El Mayo" Zambada, cofundador do Cartel de Sinaloa, foi condenado nesta segunda-feira (20/07) à prisão perpétua por um tribunal de Nova York por liderar uma "organização criminosa contínua" e por sua relação com o narcotráfico.

Preso nos Estados Unidos há dois anos, ele se declarou culpado em agosto de 2025 por uma série de crimes ligados à sua atuação no comando do grupo narcotraficante. Seu ex-sócio, Joaquín "El Chapo" Guzmán, também mexicano, cumpre prisão perpétua em território americano. Ambos estão entre as principais figuras do narcotráfico mexicano das últimas décadas.

A condenação de "El Mayo" marca o episódio mais recente da ofensiva dos EUA contra o crime organizado mexicano. Ao longo dos anos, os cartéis ampliaram suas redes de cocaína, metanfetamina e, mais recentemente, fentanil rumo ao mercado americano, o que levou Washington a perseguir seus chefes de forma sistemática. Muitos acabaram extraditados após serem capturados no México e posteriormente acusados ou sentenciados em cortes federais dos Estados Unidos.

Segundo o governo americano, 12.430 mexicanos estão atualmente presos em unidades federais, o equivalente a 8,1% de toda a população carcerária federal. Há ainda detentos em prisões estaduais e municipais.

Washington mantém sob custódia diversos nomes que chegaram a ocupar posições de destaque na liderança do narcotráfico. Veja abaixo os principais deles.

<><> Ismael "El Mayo" Zambada

"El Mayo", de 76 anos, foi preso em um aeroporto americano em 26 de julho de 2024. Ele afirma que foi enganado por um aliado do cartel para embarcar em um avião que o entregou às autoridades americanas. Os promotores renunciaram ao pedido de pena de morte em troca de sua declaração de culpa.

"Ismael Zambada García passou quase quatro décadas envenenando comunidades americanas para obter bilhões de dólares em lucros e ordenando o assassinato de qualquer pessoa que cruzasse seu caminho. Hoje, este capítulo se encerra definitivamente", declarou nesta segunda-feira o procurador federal do Distrito Leste de Nova York, Joseph Nocella Jr.

Zambada pediu para não ser mantido em uma prisão de segurança máxima. No entanto, o Ministério Público dos EUA afirma que ele representa um risco significativo à segurança. Na acusação, Zambada é descrito como um dos traficantes mais prolíficos e poderosos das últimas décadas. O Cartel de Sinaloa é retratado na série "Narcos", da Netflix.

<><> Joaquín Guzmán, conhecido como "El Chapo"

O ex-líder do Cartel de Sinaloa Joaquín "El Chapo" Guzmán cumpre prisão perpétua na penitenciária de segurança máxima ADX Florence, no Colorado, desde 2019. Ele foi condenado por tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e crime organizado. O tribunal também determinou o confisco de 12,6 bilhões de dólares (R$ 64,3 bilhões), valor estimado dos lucros obtidos pelo cartel sob sua liderança compartilhada com "El Mayo".

<><> Ovidio Guzmán López, conhecido como "El Ratón"

Filho de "El Chapo", Ovidio Guzmán é um dos líderes dos "Chapitos", atualmente a facção mais influente do Cartel de Sinaloa, ao lado de seus irmãos. As autoridades dos EUA acusam o grupo de forte envolvimento no comércio de fentanil. Guzmán foi extraditado para os Estados Unidos em 2023 e se declarou culpado em 2025. Desde então, foi transferido para um local não divulgado, devido à sua cooperação com as autoridades.

<><> Rafael Caro Quintero

Caro Quintero, cofundador do Cartel de Guadalajara, foi extraditado para os Estados Unidos em 2025, onde responde a acusações que incluem o sequestro e assassinato do agente americano Enrique "Kiki" Camarena, em 1985. Ele está detido em Nova York, declarou-se inocente e enfrenta um processo que pode resultar em pena de morte.

<><> Vicente Carrillo Fuentes, conhecido como "El Viceroy"

Após a morte de seu irmão Amado, Vicente Carrillo Fuentes assumiu a liderança do Cartel de Juárez, que por anos travou confrontos sangrentos com o Cartel de Sinaloa. Ele foi preso no México em 2014 e posteriormente extraditado para os Estados Unidos. O FBI havia oferecido anteriormente uma recompensa de 5 milhões de dólares (R$ 25,5 milhões) por informações que levassem à sua captura.

<><> Genaro García Luna

Genaro Luna, ex-ministro da Segurança Pública do México durante o governo do conservador Felipe Calderón (2006-2012), é a autoridade mexicana de mais alto escalão já condenada nos Estados Unidos. Em 2023, um tribunal de Nova York o considerou culpado por tráfico de cocaína, crime organizado e recebimento de milhões de dólares em propinas do Cartel de Sinaloa. Ele cumpre uma pena de mais de 38 anos de prisão desde 2024.

<><> Miguel Ángel Treviño Morales, conhecido como "Z-40"

Treviño Morales liderou em determinado momento os Los Zetas, uma das organizações criminosas mais brutais do México, originalmente criada como braço armado do Cartel do Golfo. Após sua prisão em 2013, permaneceu sob custódia mexicana até sua extradição em 2025. Atualmente está preso nos Estados Unidos.

<><> Omar Treviño Morales, conhecido como "Z-42"

Omar Treviño Morales sucedeu o irmão Miguel Ángel na liderança dos Los Zetas. Ele foi preso no México em 2015 e extraditado para os Estados Unidos dez anos depois. Hoje está em uma prisão federal na Pensilvânia. Segundo autoridades penitenciárias, foi transferido para lá após supostamente ameaçar um agente penitenciário.

<>< Néstor Isidro Pérez Salas, conhecido como "El Nini"

Como chefe de segurança dos Chapitos, Pérez Salas era considerado uma das figuras operacionais mais importantes do Cartel de Sinaloa. Os Estados Unidos o acusam de desempenhar um papel central no comércio de fentanil. Após sua prisão em 2023, foi extraditado em 2024 e acusado de tráfico de drogas. O local onde está detido não foi divulgado.

<><> Antonio Oseguera Cervantes, conhecido como "Tony Montana"

Antonio Oseguera Cervantes é irmão de Nemesio Oseguera Cervantes ("El Mencho"), principal líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) até sua morte em fevereiro de 2026. Mesmo após a morte de "El Mencho", o CJNG continua sendo uma das organizações criminosas mais poderosas do México, apesar das disputas internas pelo poder. Antonio Oseguera foi extraditado para os Estados Unidos em 2025, depois de ter sido preso várias vezes tanto no México quanto nos EUA por delitos relacionados a drogas.

<><> Outros casos de destaque

Entre os mexicanos conhecidos que ficaram temporariamente presos nos Estados Unidos estão o ex-ministro da Defesa Salvador Cienfuegos, preso em 2020, mas deportado de volta ao México ainda naquele ano, e o ex-governador do estado de Tamaulipas, Tomás Yarrington. Ele foi extraditado da Itália e condenado por lavagem de dinheiro nos Estados Unidos, mas foi libertado em julho de 2024.

 

Fonte: BBC News Mundo/DW Brasil

 

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