De
diversão a “renda extra” e “investimento”: como brasileiro mudou a percepção
sobre bets
Todos
os dias, cerca de 40 milhões de pessoas no Brasil depositam a sorte, e o
dinheiro, em plataformas online de apostas, as bets. A estimativa é da empresa
de infraestrutura de open finance Klavi e inclui o universo dos jogos de azar e
das apostas esportivas. Se os apostadores diários formassem um estado
brasileiro, ele seria o segundo mais populoso do país, atrás apenas de São
Paulo.
Ainda
que números isoladamente não representem fielmente o cenário, eles ajudam a dar
dimensão do mercado – e do desafio a ser enfrentado. A Agência Pública cruzou
pesquisas sobre o setor realizadas ao longo de quase uma década para evidenciar
o quanto esse mercado mudou – e alterou a dinâmica do próprio país.
O
levantamento mostra, por exemplo, que o contingente dos brasileiros que já
realizaram algum tipo de aposta em plataformas digitais mais que dobrou em
apenas três anos. A estimativa da Klavi é de que 74,29 milhões de brasileiros
já tenham realizado apostas do tipo alguma vez, 34,8% da população. Em março de
2023, meses antes da regulamentação das casas de apostas online,
aproximadamente 29,5 milhões de brasileiros já diziam ter realizado alguma
aposta esportiva na internet, segundo o instituto Paraná Pesquisas, que
indicava a atividade por 14,5% da população.
Lúcio*,
26, fez sua primeira aposta há cinco anos, bem antes do governo federal decidir
as regras para a legalidade das plataformas, em dezembro de 2023. Começou com
R$ 50, por pura diversão em jogos de slots do tipo “tigrinho”. Como muitos,
imaginava que bastava insistir um pouco para aumentar os ganhos. “Eu comecei
por brincadeira mesmo. Colocava R$ 50, R$ 70 e ia dando certo, ia sacando. Só
que aí comecei a querer apostar grande. Às vezes dava certo, às vezes não. Eu
recebia meu pagamento, pagava as contas e o que sobrava ia para o jogo”,
lembra.
As
pequenas vitórias alimentavam a expectativa de compensação de prejuízos na
próxima aposta. Aos poucos, a lógica deixou de ser ganhar dinheiro e passou a
ser recuperar as perdas. E quando o salário já não era suficiente, a solução
também foi a de muita gente. “Comecei a apelar para empréstimo. Peguei R$ 10
mil e perdi tudo. Hoje estou tentando arcar com uma dívida bem maior do que o
valor que peguei, por causa dos juros”.
Cinco
anos antes da regulamentação, quando o Brasil autorizou as apostas esportivas
de quota fixa, em 2018, ele sequer aparecia entre os 15 mercados com maior
número de acessos a plataformas internacionais de apostas online, segundo
levantamento da Strategy&, da PwC. Em 2025, o país já ocupa a quinta
posição no ranking mundial de acessos a sites de bets e movimenta
aproximadamente R$ 360 bilhões, segundo estimativas da Confederação Nacional do
Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Para o
advogado especialista em direito esportivo e comunicação Andrei Kampff, o
crescimento não pode ser explicado apenas pela legalização das apostas
esportivas em 2018. “A Lei nº 13.756 abriu a porta ao legalizar as apostas de
quota fixa, mas ela não explica, sozinha, esse crescimento. O mercado acelerou
porque ficou, por anos, em uma zona de baixa regulação efetiva. Nós legalizamos
uma atividade que sabidamente envolve riscos e esperamos mais de cinco anos
para regulamentá-la e fiscalizá-la. Nesse período, os riscos aumentaram em vez
de serem mitigados”.
Segundo
Kampff, a expansão ocorreu em um contexto marcado pela popularização do Pix,
pelo acesso massivo aos smartphones e pela presença crescente das plataformas
no universo esportivo. “Houve segurança jurídica mínima para operar, enorme
demanda digital, popularização do Pix, acesso pelo celular, marketing esportivo
massivo e uma ausência inicial de fiscalização proporcional. Quando a Lei nº
14.790 entrou em vigor, o mercado já havia alcançado uma dimensão muito maior”.
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Endividamento crônico
Além de
encarar as apostas como uma fonte de renda extra ou imediata, o comportamento
tradicional registrado por apostadores é o da tentativa de recuperar perdas. O
panorama mostrado pela Klavi mostra que três entre cada dez apostadores
costumam solicitar crédito imediatamente antes de fazer uma aposta,
comportamento que, segundo a empresa, eleva em 25% a chance de eles passarem a
integrar a parcela da população brasileira que se encontra endividada.
Atualmente, 81,6% das famílias brasileiras se encontram endividadas, segundo a
Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada no
último dia 14 de julho – o comprometimento financeiro diz respeito a todos os
tipos de dívidas, não apenas a empréstimos, e não está diretamente relacionado
a apostas.
Lúcio,
operador de caixa goiano, disse que conseguiu parar de apostar. Excluiu as
contas das plataformas e mudou de emprego para aumentar a renda, mas ainda tem
que lidar com o pagamento das parcelas mensais dos empréstimos contraídos
durante o período em que jogava frequentemente. “Diversas vezes me vi tentado a
apostar mais algumas vezes para recuperar o valor, mas já estava tão afundado
que o medo de ficar pior com as dívidas falou mais alto”.
Dados
do Programa de Proteção e Defesa do Consumidor de São Paulo (Procon-SP) mostram
que, entre 2025 e 2026, o percentual de jogadores que desembolsaram mais de R$
1 mil por mês com apostas passou de 18% para 30%.
Relatos
como o de Lúcio, que passou a recorrer a empréstimos para continuar jogando,
ajudam a ilustrar esses índices. “O pagamento caía, eu pagava as contas e o que
sobrava ia para o jogo. Quando perdia, começava a pegar dinheiro emprestado.
Depois veio cartão de crédito… quando vi, o dinheiro só estava sumindo”, conta.
Para a
psicóloga e doutora em comunicação Regina Nicolosi, o recurso frequente a
crédito e empréstimos é um dos sinais mais claros de que a atividade deixou de
ser recreativa. “O principal sinal é quando a aposta deixa de ser uma atividade
recreativa e passa a ocupar um espaço central na vida da pessoa”, diz. “Quando
o jogo deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade emocional,
estamos diante de um importante sinal de alerta”.
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O inimigo que mora dentro de casa
A
explosão do mercado de apostas não mudou apenas o faturamento das empresas.
Também alterou a forma como os brasileiros convivem com o jogo dentro de casa.
Em maio de 2026, uma pesquisa do Instituto Meio/Ideia mostrou que 31% dos
brasileiros suspeitam que algum familiar aposte escondido. Entre os adultos
mais jovens, 34% afirmaram que parentes próximos haviam feito apostas
recentemente.
Todos
os dias, cerca de 40 milhões de pessoas no Brasil depositam a sorte, e o
dinheiro, em plataformas online de apostas
À
medida que as bets se popularizaram, elas deixaram de ser percebidas apenas
como entretenimento e passaram a ocupar espaço crescente nas preocupações das
famílias. Em 2024, outra pesquisa já apontava que a preocupação pública
avançava em ritmo semelhante ao das plataformas. O levantamento do Instituto de
Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) apontou que 67% dos
brasileiros consideravam as bets uma “epidemia instalada” no país e um grave
problema de dependência psicológica.
O
crescimento também aparece na forma como as apostas passaram a disputar espaço
no orçamento doméstico. Pesquisa do Observatório Nacional da Indústria (ONI),
da Confederação Nacional da Indústria (CNI), mostra que 37% dos apostadores
admitem ter usado dinheiro originalmente destinado a despesas essenciais, como
alimentação, aluguel e contas de consumo, para continuar jogando.
Mas,
apesar de apostarem mais, os brasileiros também passaram a ter mais ciência a
respeito desse mercado. Ainda em 2023, pesquisa do Paraná Pesquisas mostrava
que 63,9% dos apostadores acreditavam que os resultados poderiam ser
manipulados para favorecer determinados grupos. Dois anos depois, em 2025, o
Ipespe encontrou um cenário semelhante: 85% afirmam confiar pouco ou nada nas
empresas do setor – além disso, 57% dos brasileiros avaliam a atuação das
plataformas como ruim ou péssima.
À
medida que os impactos financeiros e emocionais se tornam mais visíveis, cresce
também o apoio da população a regras mais rígidas para o setor. Em abril de
2026, uma pesquisa AtlasIntel em parceria com a Bloomberg mostrou que sete em
cada dez brasileiros já defendem a proibição das bets no país. Outro
levantamento, realizado pelo Ipespe, aponta que 78% apoiam uma atuação mais
firme do governo federal para fiscalizar o mercado e bloquear empresas que
operam fora das regras.
Combater
o mercado ilegal é fundamental, mas isso, sozinho, não resolve. O Brasil
precisa fiscalizar a publicidade, proteger apostadores vulneráveis, controlar o
uso de crédito, exigir transparência das operadoras e punir quem descumpre as
regras. Uma regulação eficiente não é a que apenas arrecada impostos; é a que
reduz danos, protege consumidores e preserva a integridade do esporte” - Andrei
Kampff.
Advogado
especialista em direito esportivo e comunicação
As
informações desta reportagem incomodam um mercado bilionário. A Agência Pública
não aceita dinheiro de casas de apostas e investiga quem lucra com o vício
alheio. Se esta investigação te indignou, apoie o jornalismo independente e
fortaleça esse trabalho.
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Sempre em campo, a normalização dos riscos
No
autointitulado país do futebol, o maior campeonato anual do esporte não apenas
é patrocinado quanto mudou de nome após o apoio de uma casa de apostas online.
Na Série A do Campeonato Brasileiro, agora Brasileirão Betano, praticamente
todos os clubes exibem marcas de bets nos seus uniformes.
Acompanhar
os resultados ao longo da semana e nos dias de descanso também é dialogar com
essa realidade. As empresas patrocinam transmissões esportivas na TV, no rádio
e na internet, podcasts, influenciadores digitais e conteúdos produzidos para
redes sociais.
Para a
psicóloga e doutora em comunicação Regina Nicolosi, essa exposição permanente
ajuda a naturalizar o cenário. “Quando uma pessoa é exposta repetidamente às
apostas em camisas de clubes, placas nos estádios, transmissões esportivas etc,
ela tende a perceber esse comportamento como algo comum e socialmente aceito”,
além disso há a associação das apostas “à diversão, ao entretenimento, à emoção
e até ao sucesso financeiro”, não a seus riscos, especialmente quando o assunto
é futebol.
Muitas
pessoas acreditam que, por conhecerem futebol, estatísticas ou determinado
time, possuem maior capacidade de prever resultados. Essa falsa sensação reduz
a percepção do acaso e aumenta a confiança para continuar apostando” - Regina
Nicolosi, Psicóloga e doutora em comunicação
Desde o
início da Copa do Mundo de 2026, em 11 de junho, a Klavi passou a monitorar, em
tempo real, o comportamento financeiro de uma amostra representativa de 1,2
milhão de brasileiros. O painel acompanha diariamente quantas pessoas enviam
dinheiro para casas de apostas e quanto era movimentado pelas plataformas
durante a competição.
Até 15
de julho, 38,4% dos participantes da amostra haviam realizado ao menos uma
transferência para casas de apostas durante a competição. No mesmo período, o
volume movimentado já alcançava R$ 886,2 milhões. Os dados ainda que o ritmo
das apostas crescia em dias de jogos decisivos, especialmente nos dias em que a
seleção brasileira entrava em campo, indicando que partidas importantes
funcionam como catalisadores para esse mercado.
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Realidades diferentes pelo Brasil
A
disseminação das apostas não ocorreu de forma homogênea pelo país. A Klavi
aponta que a participação nas bets é mais intensa em estados do Norte e do
Centro-Oeste. Tocantins lidera o ranking nacional: 42% da população adulta do
estado realizou ao menos uma transferência para casas de apostas. Na sequência
aparecem Acre (44,5%), Mato Grosso (44,3%) e Rondônia (44%).
Na
outra ponta, os menores percentuais estão concentrados principalmente no
Nordeste. Ceará (34,1%), Sergipe (34,9%) e Pernambuco (35,1%) registram as
menores proporções de pessoas enviando dinheiro para plataformas de apostas.
Estados mais populosos, como São Paulo (38,3%), Rio de Janeiro (38,2%) e Minas
Gerais (37,5%), aparecem próximos da média nacional, o que sugere que a
expansão das bets alcança praticamente todo o território brasileiro.
Quando
o assunto é o mercado financeiro, a percepção não é tão impactada pela
geografia, mas pelo perfil. O levantamento da 8ª edição do Raio X do Investidor
Brasileiro, da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros
(Anbima), de 2025, mostrou que pessoas classificadas no chamado “Perfil
Diversifica”, ou seja, investidores que alocam recursos em mais de um produto
financeiro, apostam valores 60% mais altos do que a média da população
nacional.
No
entanto, há uma clareza cada vez maior dos investidores em geral quanto ao
papel que essas plataformas representam no que diz respeito à alocação de
recursos. O mesmo Raio X identificou que até 2023, 22% enxergavam apostas como
uma forma de investimento, em 2024 esse percentual já havia caído para 16%.
Ainda
morando em Goiás dois anos depois de abandonar as plataformas, Lúcio diz que
não voltou mais a apostar, mas ainda é impactado por publicidades constantes, o
que acredita que deveria passar por restrições maiores. “Se existisse menos
publicidade incentivando as pessoas a jogar, seria melhor. Porque afunda mesmo.
Se a pessoa não tiver controle para parar quando perde ou quando ganha, ela vai
continuar apostando”, conta.
Sem
aplicativos instalados no celular e com o CPF bloqueado para novos cadastros em
casas de apostas, ele compartilha uma certeza que precisou aprender do modo
difícil: “Dinheiro perdido no jogo dificilmente volta. O que sempre volta é a
dívida”.
Fonte:
Por Duda Sousa e Ed Wanderley, da Agencia Pública

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