BK
e a religião da ascensão
“Nada
nem ninguém é mais importante que o progresso.” A frase está na obra de BK como
muito mais do que uma formulação poética ou uma declaração circunstancial,
sintetizando uma determinada experiência histórica e uma determinada
consciência que ganharam grande relevância no interior do rap brasileiro
contemporâneo.
A ideia
de progresso ocupa uma posição central nessa visão de mundo porque organiza a
relação do indivíduo com o tempo, com os outros e consigo mesmo, atribuindo
legitimidade àquilo que cresce, se expande, acumula reconhecimento e conquista
novos espaços, enquanto tudo o que interrompe esse movimento carrega a marca da
insuficiência, do atraso ou da inutilidade.
A
escolha do nome inspirado em Abebe Bikila, a presença constante da corrida como
metáfora existencial, a associação entre movimento e realização pessoal, a
valorização da travessia e a recorrência de expressões ligadas à conquista
fazem parte de um universo simbólico coerente, no qual a vida é o percurso
ascendente orientado por objetivos sucessivos e busca permanente de novos
patamares de reconhecimento.
O
Allianz Parque tem relevância por materializar esse imaginário numa escala
monumental. O estádio lotado não representa apenas um êxito artístico ou
comercial. Sua força simbólica decorre do fato de tornar visível uma promessa
presente em grande parte da cultura contemporânea: a promessa de que o esforço
individual encontrará recompensa, de que a perseverança produzirá
reconhecimento e de que a corrida aponta para um destino capaz de justificar
todos os sacrifícios realizados ao longo do caminho.
O
interesse sociológico e histórico desse fenômeno reside menos na dimensão
biográfica de BK do que na possibilidade de observar, através de sua
trajetória, uma sensibilidade cada vez mais presente em amplos segmentos da
juventude periférica brasileira, marcada pela transformação da ascensão em
horizonte privilegiado de realização humana, medida de reconhecimento social e
fundamento simbólico a partir do qual a vida é interpretada.
A
história do rap brasileiro nas últimas duas décadas passou por uma mudança
profunda na maneira como parcelas significativas da juventude periférica
passaram a interpretar a si mesmas e ao mundo que as cerca. Durante muito
tempo, a força do rap esteve associada à elaboração de experiências marcadas
pela violência policial, racismo, desemprego, precariedade material e pelas
diversas segregações produzidas pela sociedade brasileira.
A
figura do rapper estava ligada à denúncia, à memória e à narração de conflitos
coletivos. Outra sensibilidade ganha espaço ao longo dos anos 2000 (sobretudo
após 2005) e se desenvolve na década seguinte. A ascensão individual, a
conquista de reconhecimento, a circulação em espaços de prestígio, a ampliação
do patrimônio material e simbólico e a construção de trajetórias vitoriosas
ganham uma posição cada vez mais central. BK pertence a esse momento histórico.
Seu interesse não está apenas na relevância artística de sua obra, mas na
possibilidade de observar, através dela, os valores, os desejos e as formas de
consciência produzidas por uma nova etapa do rap brasileiro.
Uma
leitura superficial poderia transformar essa análise numa defesa nostálgica da
marginalidade ou numa crítica moral ao crescimento econômico de artistas
oriundos das classes populares. A questão é outra. Nenhum projeto emancipatório
pode defender a permanência da pobreza como destino. Nenhuma crítica séria pode
lamentar que músicos negros oriundos das periferias ocupem espaços
historicamente reservados às elites econômicas e culturais.
A
pergunta relevante diz respeito aos significados atribuídos a esse processo.
Quais valores acompanham a ascensão? Que concepção de mundo emerge junto com
ela? O que acontece com uma cultura fundada na experiência do conflito social
quando a conquista individual ocupa o centro de sua imaginação? O Allianz
Parque, por si só, não é um problema. O que merece reflexão é a transformação
do Allianz em medida de valor, em símbolo máximo de realização e em horizonte
privilegiado da experiência cultural.
A
melhor maneira de abordar essas questões consiste em observar situações nas
quais tais valores aparecem. Letras, entrevistas, espetáculos e declarações
públicas são indícios importantes sobre os critérios que orientam determinadas
visões de mundo. A entrevista concedida por BK a Marcelo Taz é interessante
pela lógica da conversa e não necessariamente pelas respostas do entrevistado.
O
diálogo é uma espécie de retrato involuntário de uma sensibilidade que se
consolidou em amplos setores da cultura contemporânea. Em nenhum momento a
discussão se aproxima das transformações estruturais que marcaram a formação do
artista, das mudanças ocorridas nas periferias brasileiras nas últimas décadas
ou dos processos históricos que proporcionaram ao rap ocupar espaços antes
inacessíveis. A conversa gira em torno de crescimento pessoal, amadurecimento,
evolução, conquistas e desenvolvimento individual. A entrevista deixa claro uma
concepção de mundo na qual a experiência social é filtrada pela trajetória
privada e capacidade de cada indivíduo administrar o próprio destino.
Ao
comentar o álbum Diamantes, lágrimas e rostos para esquecer, BK afirma que
avançar implica abandonar determinadas coisas pelo caminho. A frase está na
entrevista como uma espécie de princípio organizador onde o avanço é investido
de legitimidade própria, dispensando qualquer questionamento acerca de sua
direção, objetivos ou de seus custos. O movimento, a expansão e a conquista
valem por si mesmos.
O tema
retorna quando o rapper comenta a viagem realizada à Etiópia para a produção do
curta-metragem associado ao disco. O país é relacionado à figura de Abebe
Bikila, maratonista que inspira seu nome artístico, e integra uma narrativa
construída em torno da corrida, da travessia e da perseverança. Curiosamente,
uma das formações históricas mais antigas do planeta é reduzida a um conjunto
de elementos visuais destinados a reforçar a identidade estética do projeto.
Hienas, muralhas, paisagens e símbolos têm protagonismo enquanto a história
concreta daquele espaço permanece praticamente ausente.
A
condução da entrevista aprofunda esse movimento. Diante da viagem à Etiópia,
Marcelo Taz não pergunta o que BK pensou sobre a experiência, quais reflexões
elaborou ou que questões históricas despertaram seu interesse. A pergunta recai
sobre o sentimento. Como você se sentiu? Como era estar ali? Como se comunicava
com as pessoas? As respostas são igualmente centradas na experiência subjetiva
e a Etiópia é reduzida a um lugar tranquilo, de paz, agradável. O pensamento
crítico cede espaço à sensação e a análise histórica desaparece na vivência
individual.
O mesmo
procedimento reaparece quando BK afirma buscar constantemente ser uma pessoa
melhor. Em vez de explorar o significado dessa afirmação ou suas possíveis
implicações sociais e culturais, Taz pergunta qual foi a última coisa que ele
melhorou. A formação humana é convertida numa sequência de aperfeiçoamentos
pessoais, quase como etapas de um programa contínuo de autodesenvolvimento.
A
entrevista organiza-se em torno de uma perspectiva na qual classes sociais,
racismo, capitalismo e os conflitos constitutivos da vida urbana perdem
densidade analítica diante da centralidade atribuída ao indivíduo, cuja
trajetória, maturidade, capacidade de superação e sucessivas conquistas são
elementos suficientes para conferir inteligibilidade ao mundo que o cerca.
Versos como “foco nos diamantes”, “avanço sempre sem olhar para trás”, “o bando
não espera” e “ou corre ou morre” ultrapassam a condição de simples recursos
poéticos ao construir uma ética fundada na valorização do movimento contínuo,
da conquista e da ascensão.
Sob
esse prisma, o Allianz Parque tem um significado que ultrapassa largamente os
limites do espetáculo musical sendo a manifestação de uma promessa de que a
corrida produz recompensa, o esforço será reconhecido, existe um destino
reservado aos vencedores.
A
hipótese formulada por Walter Benjamin segundo a qual o capitalismo deve ser
compreendido como religião é uma via fecunda para interpretar esse conjunto de
representações. O interesse dessa formulação não está apenas na constatação de
que o mercado influencia comportamentos ou organiza relações econômicas, mas na
percepção de que ele produz valores, expectativas, desejos e critérios de
julgamento capazes de orientar a experiência da vida social.
A
corrida, os diamantes, a conquista de novos espaços, a ampliação contínua do
reconhecimento e a busca permanente por crescimento articulam-se em torno de
uma promessa que confere unidade a esse imaginário. A promessa de que existe
uma recompensa reservada àqueles que perseveram, que suportam os sacrifícios do
percurso e que conseguem transformar a existência numa trajetória ascendente.
O
Allianz tem, portanto, relevância histórica não apenas por representar uma
conquista excepcional, mas por expressar uma das contradições fundamentais da
cultura contemporânea, já que a consagração pública produzida por um espetáculo
dessa magnitude não inaugura qualquer experiência de conclusão, estabilidade ou
repouso, integrando-se a uma dinâmica na qual reconhecimento, crescimento e
valorização dependem da abertura contínua de novos horizontes de realização.
A
corrida encontra aí sua expressão mais acabada, pois o valor da conquista não
reside apenas naquilo que foi alcançado, mas na capacidade de alimentar novos
desejos, novas expectativas e projeções, mantendo o olhar permanentemente
dirigido para aquilo que ainda se encontra além do presente.
A
transformação mais significativa associada aos processos de mercantilização do
rap pode ser observada na figura do antagonista. Durante décadas, o rap
brasileiro organizou grande parte de sua força narrativa a partir de conflitos
presentes na experiência concreta das periferias urbanas, fornecendo à crítica
um objeto claramente identificável e à revolta um endereço preciso.
Rafael
Lopes de Sousa observou esse fenômeno ao analisar aquilo que denominou
“república dos manos”, uma comunidade simbólica construída pelo rap paulista a
partir da afirmação de pertencimentos coletivos e da produção consciente de
antagonismos sociais. O “mano” não designava apenas uma origem territorial ou
uma identidade cultural, mas uma posição no interior do conflito social
brasileiro.
Sua
existência dependia da identificação de fronteiras relativamente nítidas entre
periferia e elite, explorados e exploradores, entre a experiência cotidiana dos
bairros populares e os valores dominantes da sociedade brasileira. A
anticordialidade identificada por Rafael Lopes de Sousa derivava dessa recusa
em dissolver os antagonismos sob o discurso da harmonia nacional. O rap
afirmava o conflito porque encontrava nele uma descrição mais fiel da
realidade.
Parte
significativa da produção contemporânea conserva fragmentos desse vocabulário,
mas sua estrutura narrativa obedece a outra lógica. A corrida ocupa o centro da
experiência e a ascensão individual desempenha um papel organizador que
anteriormente pertencia ao pertencimento coletivo. A república dos manos tinha
adversários; a religião da ascensão encontra seu principal drama na
possibilidade de interrupção da corrida. O enfraquecimento da figura do inimigo
histórico caminha lado a lado com o enfraquecimento da ideia de destino
coletivo.
Em boa
parte do universo simbólico construído por BK, essa configuração tem outra
feição. A corrida ocupa posição central, mas a pergunta fundamental permanece
sem resposta evidente: contra quem se corre? O que impede a chegada? O que
ameaça a trajetória? A tensão narrativa sai gradualmente das estruturas que
organizam a vida social para a capacidade do indivíduo de sustentar seu
movimento ascendente. O conflito continua existindo, mas sua principal arena
não se encontra nas relações sociais que produzem a desigualdade.
Essa
alteração também afeta a relação com a memória. A frase que melhor sintetiza
esse fenômeno é a afirmação segundo a qual tudo e todos que se tornarem um
fardo serão esquecidos. O verbo esquecer tem importância nesse contexto.
Durante muito tempo, a memória teve posição central na cultura hip hop, fazendo
da lembrança dos mortos, presos, desaparecidos, dos derrotados e de todos
aqueles abandonados à margem da história uma prática ética fundamental de
resistência contra mecanismos sociais permanentemente dedicados ao apagamento
dos vencidos.
A
centralidade da ascensão reorganiza a relação com o passado ao subordinar a
memória aos imperativos do crescimento contínuo, fazendo com que lembranças,
vínculos e experiências historicamente associados à construção da identidade
coletiva sejam avaliados segundo sua capacidade de contribuir para a corrida,
incorporando o esquecimento à lógica que orienta a conquista, o reconhecimento
e o sucesso.
A
questão que atravessa este debate não diz respeito apenas ao destino do rap ou
à trajetória de um artista específico, mas ao modo como uma época passa a
imaginar a si mesma. Toda formação cultural produz seus heróis, símbolos de
realização e narrativas de futuro. Durante muito tempo, o rap encontrou sua
força na memória dos vencidos, na denúncia da violência social e na construção
de uma identidade coletiva forjada em condições adversas.
Hoje,
sob a força crescente da mercadoria, do espetáculo e da lógica da ascensão, o
centro de gravidade move-se para outro lugar. O sucesso é a linguagem
universal, o reconhecimento o horizonte comum e a vitória individual conduz
aspirações que antes se organizavam em torno de experiências compartilhadas.
Precisamos saber não se um artista venceu ou fracassou, mas sim o que uma
cultura perde quando a memória das lutas deixa de orientar seus sonhos e quando
a história passa a ser narrada apenas do ponto de vista daqueles que
conseguiram chegar ao topo.
Nesse
sentido, o problema ultrapassa BK. Ele nos obriga a perguntar que tipo de
consciência coletiva ainda pode ser construída numa época em que a ascensão se
tornou mais visível que o antagonismo e em que o triunfo parece falar mais alto
que a experiência histórica que o tornou possível.
Fonte:
Por Arthur Moura, em A Terra é Redonda

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