quinta-feira, 23 de julho de 2026

BK e a religião da ascensão

“Nada nem ninguém é mais importante que o progresso.” A frase está na obra de BK como muito mais do que uma formulação poética ou uma declaração circunstancial, sintetizando uma determinada experiência histórica e uma determinada consciência que ganharam grande relevância no interior do rap brasileiro contemporâneo.

A ideia de progresso ocupa uma posição central nessa visão de mundo porque organiza a relação do indivíduo com o tempo, com os outros e consigo mesmo, atribuindo legitimidade àquilo que cresce, se expande, acumula reconhecimento e conquista novos espaços, enquanto tudo o que interrompe esse movimento carrega a marca da insuficiência, do atraso ou da inutilidade.

A escolha do nome inspirado em Abebe Bikila, a presença constante da corrida como metáfora existencial, a associação entre movimento e realização pessoal, a valorização da travessia e a recorrência de expressões ligadas à conquista fazem parte de um universo simbólico coerente, no qual a vida é o percurso ascendente orientado por objetivos sucessivos e busca permanente de novos patamares de reconhecimento.

O Allianz Parque tem relevância por materializar esse imaginário numa escala monumental. O estádio lotado não representa apenas um êxito artístico ou comercial. Sua força simbólica decorre do fato de tornar visível uma promessa presente em grande parte da cultura contemporânea: a promessa de que o esforço individual encontrará recompensa, de que a perseverança produzirá reconhecimento e de que a corrida aponta para um destino capaz de justificar todos os sacrifícios realizados ao longo do caminho.

O interesse sociológico e histórico desse fenômeno reside menos na dimensão biográfica de BK do que na possibilidade de observar, através de sua trajetória, uma sensibilidade cada vez mais presente em amplos segmentos da juventude periférica brasileira, marcada pela transformação da ascensão em horizonte privilegiado de realização humana, medida de reconhecimento social e fundamento simbólico a partir do qual a vida é interpretada.

A história do rap brasileiro nas últimas duas décadas passou por uma mudança profunda na maneira como parcelas significativas da juventude periférica passaram a interpretar a si mesmas e ao mundo que as cerca. Durante muito tempo, a força do rap esteve associada à elaboração de experiências marcadas pela violência policial, racismo, desemprego, precariedade material e pelas diversas segregações produzidas pela sociedade brasileira.

A figura do rapper estava ligada à denúncia, à memória e à narração de conflitos coletivos. Outra sensibilidade ganha espaço ao longo dos anos 2000 (sobretudo após 2005) e se desenvolve na década seguinte. A ascensão individual, a conquista de reconhecimento, a circulação em espaços de prestígio, a ampliação do patrimônio material e simbólico e a construção de trajetórias vitoriosas ganham uma posição cada vez mais central. BK pertence a esse momento histórico. Seu interesse não está apenas na relevância artística de sua obra, mas na possibilidade de observar, através dela, os valores, os desejos e as formas de consciência produzidas por uma nova etapa do rap brasileiro.

Uma leitura superficial poderia transformar essa análise numa defesa nostálgica da marginalidade ou numa crítica moral ao crescimento econômico de artistas oriundos das classes populares. A questão é outra. Nenhum projeto emancipatório pode defender a permanência da pobreza como destino. Nenhuma crítica séria pode lamentar que músicos negros oriundos das periferias ocupem espaços historicamente reservados às elites econômicas e culturais.

A pergunta relevante diz respeito aos significados atribuídos a esse processo. Quais valores acompanham a ascensão? Que concepção de mundo emerge junto com ela? O que acontece com uma cultura fundada na experiência do conflito social quando a conquista individual ocupa o centro de sua imaginação? O Allianz Parque, por si só, não é um problema. O que merece reflexão é a transformação do Allianz em medida de valor, em símbolo máximo de realização e em horizonte privilegiado da experiência cultural.

A melhor maneira de abordar essas questões consiste em observar situações nas quais tais valores aparecem. Letras, entrevistas, espetáculos e declarações públicas são indícios importantes sobre os critérios que orientam determinadas visões de mundo. A entrevista concedida por BK a Marcelo Taz é interessante pela lógica da conversa e não necessariamente pelas respostas do entrevistado.

O diálogo é uma espécie de retrato involuntário de uma sensibilidade que se consolidou em amplos setores da cultura contemporânea. Em nenhum momento a discussão se aproxima das transformações estruturais que marcaram a formação do artista, das mudanças ocorridas nas periferias brasileiras nas últimas décadas ou dos processos históricos que proporcionaram ao rap ocupar espaços antes inacessíveis. A conversa gira em torno de crescimento pessoal, amadurecimento, evolução, conquistas e desenvolvimento individual. A entrevista deixa claro uma concepção de mundo na qual a experiência social é filtrada pela trajetória privada e capacidade de cada indivíduo administrar o próprio destino.

Ao comentar o álbum Diamantes, lágrimas e rostos para esquecer, BK afirma que avançar implica abandonar determinadas coisas pelo caminho. A frase está na entrevista como uma espécie de princípio organizador onde o avanço é investido de legitimidade própria, dispensando qualquer questionamento acerca de sua direção, objetivos ou de seus custos. O movimento, a expansão e a conquista valem por si mesmos.

O tema retorna quando o rapper comenta a viagem realizada à Etiópia para a produção do curta-metragem associado ao disco. O país é relacionado à figura de Abebe Bikila, maratonista que inspira seu nome artístico, e integra uma narrativa construída em torno da corrida, da travessia e da perseverança. Curiosamente, uma das formações históricas mais antigas do planeta é reduzida a um conjunto de elementos visuais destinados a reforçar a identidade estética do projeto. Hienas, muralhas, paisagens e símbolos têm protagonismo enquanto a história concreta daquele espaço permanece praticamente ausente.

A condução da entrevista aprofunda esse movimento. Diante da viagem à Etiópia, Marcelo Taz não pergunta o que BK pensou sobre a experiência, quais reflexões elaborou ou que questões históricas despertaram seu interesse. A pergunta recai sobre o sentimento. Como você se sentiu? Como era estar ali? Como se comunicava com as pessoas? As respostas são igualmente centradas na experiência subjetiva e a Etiópia é reduzida a um lugar tranquilo, de paz, agradável. O pensamento crítico cede espaço à sensação e a análise histórica desaparece na vivência individual.

O mesmo procedimento reaparece quando BK afirma buscar constantemente ser uma pessoa melhor. Em vez de explorar o significado dessa afirmação ou suas possíveis implicações sociais e culturais, Taz pergunta qual foi a última coisa que ele melhorou. A formação humana é convertida numa sequência de aperfeiçoamentos pessoais, quase como etapas de um programa contínuo de autodesenvolvimento.

A entrevista organiza-se em torno de uma perspectiva na qual classes sociais, racismo, capitalismo e os conflitos constitutivos da vida urbana perdem densidade analítica diante da centralidade atribuída ao indivíduo, cuja trajetória, maturidade, capacidade de superação e sucessivas conquistas são elementos suficientes para conferir inteligibilidade ao mundo que o cerca. Versos como “foco nos diamantes”, “avanço sempre sem olhar para trás”, “o bando não espera” e “ou corre ou morre” ultrapassam a condição de simples recursos poéticos ao construir uma ética fundada na valorização do movimento contínuo, da conquista e da ascensão.

Sob esse prisma, o Allianz Parque tem um significado que ultrapassa largamente os limites do espetáculo musical sendo a manifestação de uma promessa de que a corrida produz recompensa, o esforço será reconhecido, existe um destino reservado aos vencedores.

A hipótese formulada por Walter Benjamin segundo a qual o capitalismo deve ser compreendido como religião é uma via fecunda para interpretar esse conjunto de representações. O interesse dessa formulação não está apenas na constatação de que o mercado influencia comportamentos ou organiza relações econômicas, mas na percepção de que ele produz valores, expectativas, desejos e critérios de julgamento capazes de orientar a experiência da vida social.

A corrida, os diamantes, a conquista de novos espaços, a ampliação contínua do reconhecimento e a busca permanente por crescimento articulam-se em torno de uma promessa que confere unidade a esse imaginário. A promessa de que existe uma recompensa reservada àqueles que perseveram, que suportam os sacrifícios do percurso e que conseguem transformar a existência numa trajetória ascendente.

O Allianz tem, portanto, relevância histórica não apenas por representar uma conquista excepcional, mas por expressar uma das contradições fundamentais da cultura contemporânea, já que a consagração pública produzida por um espetáculo dessa magnitude não inaugura qualquer experiência de conclusão, estabilidade ou repouso, integrando-se a uma dinâmica na qual reconhecimento, crescimento e valorização dependem da abertura contínua de novos horizontes de realização.

A corrida encontra aí sua expressão mais acabada, pois o valor da conquista não reside apenas naquilo que foi alcançado, mas na capacidade de alimentar novos desejos, novas expectativas e projeções, mantendo o olhar permanentemente dirigido para aquilo que ainda se encontra além do presente.

A transformação mais significativa associada aos processos de mercantilização do rap pode ser observada na figura do antagonista. Durante décadas, o rap brasileiro organizou grande parte de sua força narrativa a partir de conflitos presentes na experiência concreta das periferias urbanas, fornecendo à crítica um objeto claramente identificável e à revolta um endereço preciso.

Rafael Lopes de Sousa observou esse fenômeno ao analisar aquilo que denominou “república dos manos”, uma comunidade simbólica construída pelo rap paulista a partir da afirmação de pertencimentos coletivos e da produção consciente de antagonismos sociais. O “mano” não designava apenas uma origem territorial ou uma identidade cultural, mas uma posição no interior do conflito social brasileiro.

Sua existência dependia da identificação de fronteiras relativamente nítidas entre periferia e elite, explorados e exploradores, entre a experiência cotidiana dos bairros populares e os valores dominantes da sociedade brasileira. A anticordialidade identificada por Rafael Lopes de Sousa derivava dessa recusa em dissolver os antagonismos sob o discurso da harmonia nacional. O rap afirmava o conflito porque encontrava nele uma descrição mais fiel da realidade.

Parte significativa da produção contemporânea conserva fragmentos desse vocabulário, mas sua estrutura narrativa obedece a outra lógica. A corrida ocupa o centro da experiência e a ascensão individual desempenha um papel organizador que anteriormente pertencia ao pertencimento coletivo. A república dos manos tinha adversários; a religião da ascensão encontra seu principal drama na possibilidade de interrupção da corrida. O enfraquecimento da figura do inimigo histórico caminha lado a lado com o enfraquecimento da ideia de destino coletivo.

Em boa parte do universo simbólico construído por BK, essa configuração tem outra feição. A corrida ocupa posição central, mas a pergunta fundamental permanece sem resposta evidente: contra quem se corre? O que impede a chegada? O que ameaça a trajetória? A tensão narrativa sai gradualmente das estruturas que organizam a vida social para a capacidade do indivíduo de sustentar seu movimento ascendente. O conflito continua existindo, mas sua principal arena não se encontra nas relações sociais que produzem a desigualdade.

Essa alteração também afeta a relação com a memória. A frase que melhor sintetiza esse fenômeno é a afirmação segundo a qual tudo e todos que se tornarem um fardo serão esquecidos. O verbo esquecer tem importância nesse contexto. Durante muito tempo, a memória teve posição central na cultura hip hop, fazendo da lembrança dos mortos, presos, desaparecidos, dos derrotados e de todos aqueles abandonados à margem da história uma prática ética fundamental de resistência contra mecanismos sociais permanentemente dedicados ao apagamento dos vencidos.

A centralidade da ascensão reorganiza a relação com o passado ao subordinar a memória aos imperativos do crescimento contínuo, fazendo com que lembranças, vínculos e experiências historicamente associados à construção da identidade coletiva sejam avaliados segundo sua capacidade de contribuir para a corrida, incorporando o esquecimento à lógica que orienta a conquista, o reconhecimento e o sucesso.

A questão que atravessa este debate não diz respeito apenas ao destino do rap ou à trajetória de um artista específico, mas ao modo como uma época passa a imaginar a si mesma. Toda formação cultural produz seus heróis, símbolos de realização e narrativas de futuro. Durante muito tempo, o rap encontrou sua força na memória dos vencidos, na denúncia da violência social e na construção de uma identidade coletiva forjada em condições adversas.

Hoje, sob a força crescente da mercadoria, do espetáculo e da lógica da ascensão, o centro de gravidade move-se para outro lugar. O sucesso é a linguagem universal, o reconhecimento o horizonte comum e a vitória individual conduz aspirações que antes se organizavam em torno de experiências compartilhadas. Precisamos saber não se um artista venceu ou fracassou, mas sim o que uma cultura perde quando a memória das lutas deixa de orientar seus sonhos e quando a história passa a ser narrada apenas do ponto de vista daqueles que conseguiram chegar ao topo.

Nesse sentido, o problema ultrapassa BK. Ele nos obriga a perguntar que tipo de consciência coletiva ainda pode ser construída numa época em que a ascensão se tornou mais visível que o antagonismo e em que o triunfo parece falar mais alto que a experiência histórica que o tornou possível.

 

Fonte: Por Arthur Moura, em A Terra é Redonda 

 

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