A
Copa do Mundo e o "antiargentinismo" na América Latina
Suposto
favorecimento da arbitragem, jogo "sujo", catimba e acusações de
racismo. Durante a Copa do Mundo de 2026, a seleção da Argentina voltou
novamente ao centro das atenções – e das críticas dos torcedores. A equipe de
Lionel Messi, que foi derrotada na final pela Espanha, gerou discussões
acaloradas nas redes sociais e mobilizou não só os brasileiros, acostumados com
a rivalidade histórica com os vizinhos do Sul. Pelo menos na internet, o
sentimento "antiargentino" apareceu, durante o Mundial, em outros
países latino-americanos.
Na
primeira rodada, Messi se livrou do que seria um cartão vermelho ao dar um
pisão em um jogador da Argélia, o que rapidamente levantou suspeitas de que o
craque da equipe albiceleste estava sendo protegido pela organização do torneio
por atuar no Inter Miami, dos Estados Unidos, o principal dos três anfitriões
desta Copa do Mundo. Já nas oitavas de final contra o Egito, em uma virada
histórica dos argentinos, uma série de decisões da arbitragem voltou a levantar
suspeitas de favorecimento aos tricampeões.
Obviamente,
a Copa nos EUA, México e Canadá não foi exceção e, ao longo do mês em que durou
a competição, vieram à tona episódios como a da famosa "mão de Deus"
de Maradona, em 1986, ou do título de 1978, na própria Argentina, que teria
sido manipulado em favor da ditadura militar do país.
É
verdade que, em 2026, a seleção dirigida por Lionel Scaloni concentrou toda a
atenção. Houve, por exemplo, comentários racistas contra a seleção francesa em
geral e o seu astro, o artilheiro Mbappé, inclusive pela senadora paraguaia
Celeste Amarilla, que chamou o astro de "camaronês colonizado".
Porém,
a repetição de episódios de racismo por parte de torcedores argentinos
contribuiu ainda mais para a onda de rejeição à seleção de Messi. Xingamentos
de "macaco" proferidos por um torcedor portenho ao repórter da Band
em Buenos Aires remeteu a vários outros casos, como o de uma advogada presa por
imitar um macaco em um bar no Rio de Janeiro, no início do ano.
Do lado
argentino, houve a acusação de que haveria uma campanha antiargentina em curso.
De qualquer forma, a Copa do Mundo deixou de ser disputada apenas no gramado do
futebol para passar para o campo da sociologia, dos comentários jornalísticos e
das colunas de opinião. De repente, não era mais uma taça que estava em jogo,
mas a dignidade das nações, incluindo toda a América Latina.
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Futebol como fato social
O
esporte mais popular do mundo deixou de ser um fato esportivo para se converter
em um fato social "há muito tempo", explica à DW Alejandro
Villanuela, mestre em sociologia pela Universidade Nacional da Colômbia e autor
de ensaios sobre o impacto cultural das torcidas.
"O
futebol é um fato social, ou seja, tem componentes políticos, de desigualdade,
de reivindicações e de lutas sociais, e isso faz com que as vitórias e as
derrotas se expressem em muitos elementos da vida e da agenda pública
nacional", acrescenta o especialista.
"De
certa forma, os times de futebol substituem os pelotões de exército",
compara Alfredo Coronis, jornalista esportivo venezuelano e especialista em
futebol da Televen. "As partidas entre seleções que representam um país
muitas vezes servem para ressuscitar antigas rivalidades políticas que alguns
pretendem que o futebol resolva, como Inglaterra-Argentina ou Chile-Peru, cujos
jogos representam algo mais", diz ele. "Se houver alguma ferida entre
os países, o futebol fará com que essa ferida se abra."
Coronis
também adverte sobre um elemento que costuma ser determinante nesses casos: os
algoritmos das redes sociais, que "lançam percepções de coisas que não
são". Ele cita como exemplo a rivalidade surgida entre México e Argentina,
cujas batalhas costumam se desenrolar nas redes sociais. "Não vejo muito
sentido nisso, porque a história do futebol argentino é muito superior",
pontua.
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Existe "antiargentinismo"?
"É
possível que, em relação à última Copa do Mundo, tenham surgido na América
Latina, e especialmente na Colômbia, posições contrárias à Argentina", diz
Villanueva. Para ele, é paradoxal que em seu país, que teve técnicos e
jogadores argentinos "que chegaram para tornar o futebol colombiano
maior", ocorra algo assim. No entanto, como sociólogo, ele busca
compreender o que poderia explicar esse fenômeno.
"Acredito
que a relação entre Donald Trump e a seleção argentina, especialmente com
Rodrigo de Paul e Lionel Messi, e a relação entre Gianni Infantino e Messi
tenham gerado muito descontentamento no México, em toda a América Central e na
América do Sul", complementa o especialista. Villanueva esclarece, porém,
que isso não representa de modo algum toda a população.
"Digamos
que na Colômbia temos duas visões: uma geral, de muitas pessoas que não
apoiaram a Argentina nesta Copa do Mundo, e uma visão das torcidas organizadas,
que historicamente vêm torcendo e demonstrando seu grande carinho pelas grandes
estrelas do futebol argentino", assinala o autor de Mi segunda piel, um
texto sobre as torcidas organizadas de Bogotá.
Coronis,
por sua vez, acrescenta outro elemento importante. "O que vejo na
Venezuela, que é o caso que mais conheço, é que o único sentimento
antiargentino viria dos torcedores de Cristiano Ronaldo. A Venezuela é um país
muito agradecido à Argentina porque foi um dos poucos países da América Latina
que recebeu de boa maneira os migrantes venezuelanos", explica.
De
qualquer forma, para ele, o mundo se dividiu "entre aqueles que apoiam
Messi e aqueles que apoiam Cristiano Ronaldo", e isso poderia explicar
certa animosidade nas redes sociais contra a Albiceleste.
"As
Copas do Mundo de futebol são o espaço que se constituiu nos últimos anos para
a exacerbação dos movimentos e dos processos nacionais", aponta
Villanueva. "O velho discurso do século 19 dos libertadores a cavalo e com
espada nos campos de batalha já não constitui a identidade latino-americana.
Agora são as seleções de cada país que formam um novo projeto de identidade
nacional", diz ele. Por isso, conclui, um ataque à camisa da seleção é
interpretado, por muitos, como uma afronta à nação como um todo.
Fonte:
DW Brasil

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