quinta-feira, 23 de julho de 2026

Quarto mandato pautará nacionalismo desenvolvimentista contra trumpismo imperialista

O presidente Lula e o coordenador do seu programa de governo, Sérgio Gabrieli, estão dando o tom nacionalista da nova economia que virá, se o quarto mandato lulista for alcançado, como anunciam previamente todas as pesquisas disponíveis, diante das derrapadas decisivas do adversário, o senador do PL, Flávio Bolsonaro, que dividem direita e ultradireita no início da campanha eleitoral.

Na convenção do PDT, que marca o início da jornada, nesta segunda-feira, o presidente exaltou os nacionalistas Getúlio Vargas e Leonel Brizola, respectivamente, criador e discípulo do trabalhismo, antecessor do petismo; para Lula, Vargas foi o maior presidente, que inaugurou o Estado Nacional, com o advento da Revolução de 1930, por ele comandada ao lado dos tenentistas, para enterrar a República Velha.

Ali começou a jornada trabalhista, marco inicial do nacionalismo, a partir do lançamento da legislação social, com a criação do Ministério do Trabalho; na sequência, vieram as bases das empresas estatais do petróleo e, depois, a de eletricidade; estava dado o início do movimento desenvolvimentista, com a energia como instrumento essencial do novo Brasil.

A industrialização brasileira requeria duas conquistas fundamentais: a nova legislação do trabalho, para garantir direitos e deveres dos trabalhadores, como dos empresários, e a semente desenvolvimentista representada pela exploração do petróleo, com a Petrobrás, lançada logo no desdobrar da revolução, em 1933.

Ao lado dessas providências indispensáveis à mobilização de capital para alavancar o desenvolvimento, Getúlio Vargas convocou os credores do Estado Nacional, basicamente os bancos ingleses, para realizar a auditoria da dívida pública.

Esse passo possibilitou um desconto de perto de 60% do endividamento público, pois o governo revolucionário identificou, na especulação financeira inglesa, a acumulação de capital primitiva do sistema financeiro internacional, razão principal que impedia o desenvolvimento nacional sustentável.

<>< Auditoria, passo fundamental para desenvolvimento capitalista

Realizada a auditoria da dívida pública, Getúlio abriu espaço para a economia crescer mais de 7% ao ano até 1946, quando conduziu a sucessão, fazendo de seu sucessor o general Gaspar Dutra, para impedir os udenistas, apoiados pelos Estados Unidos, com seu programa privatista.

Dutra, como se sabe, historicamente, foi tiro no pé, mas significou a arma getulista para impedir a UDN de chegar ao poder; o general, filiado ao PSD, criado por Getúlio junto com o PTB, rasgou o programa nacionalista getulista, especialmente quando decidiu queimar reservas cambiais acumuladas por Vargas depois da auditoria da dívida.

Dutra renegou o nacionalismo, sob pressão de Washington, produzindo o movimento pela volta do varguismo, denominado “Queremismo”, “Queremos Getúlio de volta”.

A volta triunfal de Getúlio, em 1950, decorreu do desastre econômico de Gaspar Dutra, mas a conjuntura internacional contra o varguismo, como destaca José Augusto Ribeiro, na trilogia “A Era Vargas” (Ed. Folha Dirigida), já estava armada, especialmente depois da morte do presidente Roosevelt (1953).

Os americanos, fortes na segunda guerra, com o dólar dando as cartas nas relações monetárias, mudaram sua orientação relativa ao trabalhismo getulista, anti-Hitler, admirado por Roosevelt, visto como ameaça aos Estados Unidos na América do Sul, conforme conceito da Doutrina Monroe.

A pressão americana, com sua aliada interna, a UDN (o bolsonarismo da época), e seu líder, Carlos Lacerda, prepararia o golpe de 1954, para levar o presidente ao suicídio, como resistência à renúncia pela Petrobrás nacionalista.

Getúlio, com sua morte, atrasou em dez anos o golpe antinacionalista que viria em 1964, para derrubar o governo constitucional de Jango Goulart, articulado pelo governo americano e seus aliados udenistas.

<><> Novo cenário: Doutrina Monroe ameaça Lula

O lulismo (2003-2016 e 2023-2026), admirador do nacionalismo varguista, anti-Doutrina Monroe, está, no início da campanha eleitoral de 2026, deixando seu recado aos neoliberais da Faria Lima, herdeiros da UDN; o coordenador da campanha do presidente, Sérgio Gabrieli, ex-presidente da Petrobras, visitou os banqueiros para dizer que, se Lula ganhar em outubro, o quadro atual, marcado pelo arcabouço neoliberal, não será mais o mesmo que está em vigor.

O coordenador destacou que o novo programa lulista visa o Estado forte, e não o Estado mínimo, fraco, privatista, pregado pelos bolsonaristas, propensos a entregá-lo de bandeja ao presidente Trump, cujo olhar imperialista se volta para a recolonização brasileira, com domínio sobre petróleo, minerais e terras raras, junto com o tarifaço, como preço a pagar pelos exportadores brasileiros para ajudar à reindustrialização americana.

Haveria, portanto, reversão ao movimento golpista de derrubada da ex-presidenta Dilma Rousseff, em 2016, encabeçado pelos neoliberais privatistas, como Michel Temer, seguido por Jair Messias Bolsonaro, cujo destino foi a prisão por tentar dar golpe na democracia em 2022, resistindo à entrega do poder ao presidente Lula, a partir de 2023.

Gabrieli destacou ainda, segundo o repórter Lauro Jardim, do Globo, que a estratégia econômica, no quarto mandato lulista, combaterá os juros altos, principal bombeador da dívida pública especulativa, raiz do déficit público nominal — primário e financeiro —, fato que alteraria os critérios para cálculo do ajuste fiscal; como se sabe, atualmente, o esforço para combater o déficit centra-se no corte de gastos sociais, enquanto são imexíveis os gastos financeiros; o problema, no entanto, é que, enquanto o déficit financeiro especulativo representa 9% do PIB, o déficit primário, dos gastos sociais, não chega aos 2% do PIB; ou seja, a prioridade, segundo Gabrieli, será outra: o combate aos juros altos, bombeados pelos juros extorsivos, causa principal do déficit fiscal, e não os gastos primários, responsáveis por puxar a demanda global desenvolvimentista.

<><> Recado contra imperialismo trumpista

O recado de Gabrieli à Faria Lima, portanto, é o oposto do que diz o bolsonarismo fascista, que defende a orientação neoliberal ditada pelo FED — Banco Central americano —, sob as ordens do Consenso de Washington, reforçado pelo neocolonialismo trumpista: metas inflacionárias, câmbio flutuante e superávit primário, estratégia antinacionalista vigente desde a Era FHC, cuja missão essencial foi dar cabo da Era Vargas, objetivo central de Washington para combater o nacionalismo.

Gabrieli antecipa a luta política que está por vir, diante de eventual vitória eleitoral lulista, que incomoda o presidente Donald Trump em sua cruzada imperialista neocolonial, colocada em prática, especialmente, pelo secretário de Estado, Marco Rubio, a quem Lula chamou de latino-americano frustrado.

O desafio levantado pelo presidente brasileiro ao presidente Trump e ao seu secretário de Estado ficou explícito durante a convenção do PDT, quando sugeriu a Rubio que, como cabo eleitoral do bolsonarismo, abrisse comitê eleitoral no Brasil, para enfrentá-lo como adversário nas urnas em outubro.

Lula, portanto, escolheu a base eleitoral trabalhista, herdeira de Getúlio e de Brizola, para defender a soberania nacional, ameaçada pelo tarifaço e pela Doutrina Monroe.

A luta política será, essencialmente, o embate entre soberania nacionalista e entreguismo bolsonarista fascista apoiado pelo trumpismo imperialista.

¨      Tarifa seletiva e soberania restrita. Por Monica Loyola Stival 

Um país de democracia restrita só pode ter uma soberania restrita (que Florestan Fernandes me permita). Uma soberania restrita é aquela que beneficia a classe burguesa e seus ídolos, ambos de mãos dadas com o inimigo externo que ameaça a soberania nacional. Do ponto de vista político, o ídolo é a representação do entreguismo ideológico encarnado por Flávio Bolsonaro.

Do ponto de vista econômico, o ídolo às vezes anonimizado sob a capa do herói (por ironia, forjado na criação de “campões nacionais” como política pública de Estado) é a representação do sucesso empreendedor encarnado por Joesley Batista.

Flávio Bolsonaro e Joesley Batista são inimigos do povo brasileiro e aliados do inimigo externo do Brasil, os Estados Unidos de Donald Trump. Nas análises políticas acostumadas à hipocrisia do ajuste, do caminho do meio, da conciliação, da moderação, da técnica como ausência de política, da pacificação que atropela e esconde as disputas concretas, “inimizade” parece uma palavra forte demais.

Porém, o fato é que a ideia de inimigo é aquela de uma ameaça ao modo de existência de uma unidade política, como o país, por exemplo. E é só porque há ameaça ao nosso modo de existência que a discussão sobre soberania se coloca. Quer dizer, se estamos preocupados em defender a soberania do Brasil é porque sabemos que existe uma ameaça externa real.

O que nem sempre sabemos ou tornamos explícita é a presença dessa mesma ameaça à soberania a partir de dentro. Não apenas por uma aliança com os estrangeiros, mas por uma disputa que se desenrola no próprio tecido social. Afinal, a unidade política não é identidade política.

A unidade política nacional envolve conflitos e disputas que atravessam a vida no país e a relação deste com os demais países. Isso significa que as disputas políticas não são domésticas ou internacionais, mas são ao mesmo tempo internas e externas. Flávio Bolsonaro não está apenas em aliança com Donald Trump. Ele faz parte do mesmo projeto, da mesma ideologia, do mesmo modo de vida. Um projeto que subjuga o Brasil ao modo de vida da extrema direita estadunidense.

Joesley Batista também não está apenas em aliança com Donald Trump. Ele faz parte do mesmo projeto, aquele que subjuga a economia nacional à estrutura neoliberal orientada pelo imperialismo estadunidense. Faz algum tempo que tenho me dedicado a pesquisar o papel político, econômico e climático dos irmãos Batista. Mas basta sobrevoar os acontecimentos recentes mais decisivos para a soberania nacional para perceber a grandeza da pegada política da família.

<><> Do enfrentamento à conciliação e da conciliação ao enfrentamento

No primeiro tarifaço, ao que consta, Joesley Batista interveio a favor do Brasil, pelo menos do Brasil que tem boa parte de suas terras e meios de produção de energia sob gestão do diplomata de ocasião. Na conciliação à qual Lula se dedicou, a presença ou até mesmo o telefonema de Joesley Batista foi fundamental, segundo dizem, estabilizando o fluxo de seus negócios. Em todas as situações, contudo, o fato é que a carne fica de fora.

Do tarifaço de 2025 às tarifas de 2026 houve uma oscilação decisiva na posição política do governo brasileiro, ao menos do ponto de vista da sociedade (supondo uma coerência na postura diplomática de Estado). Nesse período, o governo optou por uma superação do primeiro conflito ao invés de explicitar a polarização que distingue Brasil e EUA de maneira mais ampla. Não tem nada de errado com polos, ademais. Existem polos e polarização porque existe diferença; só existe política porque existe diferença.

Ou seja, depois da defesa da soberania no tarifaço de 2025 veio a conciliação forjada na ridícula ideia de uma “indústria petroquímica” entre os chefes de Estado que estavam em lados opostos. E não é que eles voltam a estar com as tarifas de 2026, mas o fato da “polarização” volta a ser assumido. Contudo, o que fica é a oscilação de postura política. Como explicar essa alternância de posições? Essa hesitação?

Politicamente, o governo deveria ter sustentado a defesa da soberania assim como deveria ter sustentado a discussão sobre o congresso inimigo do povo. Não é possível ser contra, depois pró, depois contra novamente em um ano. Nem em relação à política estadunidense, nem em relação à posição hegemônica do congresso. Não houve conversa com Davi Alcolumbre como não há com Marco Rubio.

Colocando cada um no seu quadrado, o que fazer com a JBS? A carne está fora das tarifas porque está decisivamente dentro da política. Dentro da política e acima do Estado. Temos um empresário que move seus pauzinhos para uma ligação entre presidentes ao invés de um presidente que eventualmente abrisse ou fechasse portas a empresários. Há um poder que desafia o Estado e restringe a própria soberania nacional.

Inclusive, podemos imaginar que a correlação de forças seria outra se a “reciprocidade” fosse a impossibilidade de venda barata de carne para aquele país do norte. Mas a economia de grandes produtos escapa à fronteira da soberania, o que indica que o neoliberalismo vai bem, obrigado.

Quando se “corta na carne” em nome do equilíbrio fiscal (isto é, ajuste da desigualdade considerada aceitável pelos favorecidos), toma-se uma decisão supostamente necessária para a política nacional em sua condição dependente. Na disputa geopolítica, não seria o caso de cortar na carne a soberania empresarial em favor do país?

Seja como for, o importante é compreender que o Brasil que queremos não pode mais ser o Brasil da conciliação (procurei comentar nesse sentido o artigo de José Dirceu de agosto de 2025). Essa postura antipolítica não acomoda a experiência cotidiana da desesperança nem a urgência de mudança. Se tudo fosse conciliável, não seria preciso mudar, seriam requeridos de “incumbentes” alguns ajustes e nada mais, nada demais.

É preciso que fiquem explícitas as opções, a alternativa política, sobretudo em um ano eleitoral decisivo como este. A defesa da soberania precisa ser (portanto, deve parecer) consistente, coerente, mais estável do que respostas a eventos pontuais. Não se pode titubear; precisamos admitir, a extrema-direita não hesita em suas posições atrozes. Muitos de nós esperam que essa exigência da atualidade não seja novamente um slogan de conjuntura a ser substituído rapidamente por conjunções insuspeitas em eleições congressuais ou em encontros químicos de ocasião.

 

Fonte: Por César Fonseca, em Brasil 247/A Terra é Redonda

 

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