“Follow
the Money”: Quem financia os criadores de desinformação?
No
jornalismo, costumamos usar a expressão “follow the money” para falar de uma
das técnicas mais antigas da profissão: se você quer saber quem está por trás
de um crime ou problema social, é necessário seguir a trilha do dinheiro.
Pois,
foi exatamente o que os jornalistas do Estadão Verifica fizeram em uma tremenda
reportagem, que, infelizmente, não recebeu a atenção que merecia. Os repórteres
Luciana Marschall e Pedro Prata descobriram nada menos que 28 contas no
Facebook que estavam produzindo e espalhando conteúdo fake feito por
inteligência artificial (IA) a respeito de Lula e Bolsonaro. Juntas, elas
tinham mais de 1 milhão de seguidores.
Os
conteúdos são apelativos, para dizer o mínimo.
A
página Brazilian Vibes trazia, por exemplo, posts com imagens de soldados do
Exército, enfileirados diante de tanques segurando uma faixa que dizia: “pela
democracia e Justiça, liberdade para Jair Bolsonaro”. Outra imagem mostrava
Jair numa cama humilde, aparentando ser uma cela, com um escrito em vermelho na
parede: “Deus é o juiz e eles pagarão”. Em uma terceira, uma fileira de
soldados encara Alexandre de Moraes: “O STF passou de todos os limites e leis?”
As
imagens apelativas ajudaram o conteúdo a viralizar e atrair cliques, embora
muitos deles tivessem erros crassos de português.
Por uma
simples razão: o administrador de uma das páginas, um homem do Sri Lanka
localizado pelos repórteres, não fala nossa língua. Ele simplesmente pede à
inteligência artificial que crie textos e imagens sobre Bolsonaro, Flávio e
Lula, sabendo que atrairão cliques.
Com a
IA, o custo de se produzir desinformação é zero. E como o Facebook recompensa
visualizações e cliques – são as “medidas de sucesso” para que o próprio
Facebook venda anúncios – isso virou uma profissão.
Este
rapaz, que mora em Colombo, capital do Sri Lanka, disse aos repórteres que faz
isso para gerar renda por meio do programa de criação de conteúdo da Meta. O
programa paga mais a quem faz conteúdo para o Brasil do que quem o faz para o
Sri Lanka.
Entre
as postagens, o Estadão localizou ainda erros de imagens, como um vídeo, da
página We Love Brazil, no qual a família Bolsonaro aparece sorrindo, em uma
viagem de carro. No banco de trás, Eduardo Bolsonaro aparece duas vezes. O
vídeo teve mais de 1,7 mil comentários e 7,9 mil curtidas.
A culpa
é do rapaz do Sri Lanka? Não, a culpa é da Meta, que literalmente o paga pelo
serviço de produzir conteúdo viralizável.
A Meta,
que financiou as páginas cheias de desinformação durante meses, só as derrubou
depois do Estadão entrar em contato. Assim como a empresa faz com quase tudo,
de anúncios de bets ilegais e golpes online – tudo fica no ar até que alguém
denuncie. Enquanto isso, o Mark Zuckerberg e os acionistas vão enchendo os
bolsos de dinheiro. Dane-se com o quê.
Este
problema é particularmente preocupante nas eleições. Embora o TSE tenha
proibido a criação de deepfakes a respeito de candidatos, não existe nenhuma
possibilidade da nossa Justiça eleitoral conseguir punir criadores que estão a
14 mil quilômetros de distância. E, como o Facebook, YouTube, TikTok, Instagram
e WhatsApp não fazem sua parte, estaremos sem dúvida vulneráveis a uma
enxurrada de fake news.
Quando
alguém me pergunta por que decidimos investigar as Big Techs, eu conto uma
pequena historinha: em 2014, fomos pioneiras em fazer fact-checking no Brasil,
chegando às mentiras e exageros dos candidatos à corrida eleitoral. Em 2018,
percebemos que a coisa havia mudado: a eleição de Bolsonaro demonstrou que a
desinformação havia virado um instrumento da política, de maneira organizada,
industrializada, e regada a muito dinheiro. Até então, as plataformas sempre
prometiam que iam lutar contra a desinformação. Mas, a partir de 2023, com a
tentativa de golpe de Estado e as respostas fraquíssimas das Big Techs à
desinformação, ficou claríssimo que nunca houve, nem haverá um compromisso
sério das Big Techs em enfrentar o problema da desordem informacional.
Por um
motivo simples: dinheiro.
Quem
mais paga e quem mais lucra com a desinformação, seja sobre um golpe localizado
mirando velhinhos, seja sobre um candidato da República, são elas. É essa a
resposta, pura e simples.
E
sabemos que os executivos do Vale do Silício – e também aqueles aqui, naqueles
escritórios coloridos e lúdicos na Faria Lima – topam tudo por dinheiro.
• O Leviatã digital. Por Eduardo S.
Vasconcelos
A
política contemporânea talvez esteja diante de uma transformação mais profunda
do que supõem as análises habituais sobre fake news, polarização, inteligência
artificial ou redes sociais. Esses fenômenos são importantes, mas talvez sejam
apenas sintomas de uma mudança maior: o deslocamento do poder para o interior
da própria formação da consciência pública.
O
problema já não está apenas no que o cidadão pensa. Está no modo como ele passa
a desejar, temer, reagir e perceber o mundo antes mesmo de pensar.
Durante
muito tempo, imaginamos o poder como algo visível: o Estado, a lei, a polícia,
o parlamento, o governo, o partido, a imprensa, a empresa, a igreja, a escola.
Hoje, no entanto, uma parte decisiva do poder tornou-se ambiental. Ele não
aparece como ordem. Aparece como recomendação. Não se impõe como censura
direta. Aparece como fluxo. Não exige obediência explícita. Produz permanência,
dependência, repetição e engajamento.
É nesse
cenário que proponho pensar o conceito de “Leviatã digital”[1]: uma nova
arquitetura de poder formada por plataformas, algoritmos, dados, vigilância,
inteligência artificial, economia da atenção e administração dos afetos
coletivos. Ele não substitui o Estado, mas passa a disputar com ele a
organização da vida pública.
O
Leviatã de Thomas Hobbes nasceu como resposta ao medo. Diante da ameaça da
guerra de todos contra todos, os indivíduos entregariam parte de sua liberdade
a uma autoridade soberana capaz de garantir ordem, segurança e previsibilidade.
O
Leviatã clássico era visível. Tinha forma estatal. Legislava, punia, julgava,
arrecadava, vigiava e comandava. O Leviatã digital é mais difuso. Não possui
uma cabeça única. Não se limita ao Estado. É composto por empresas globais,
plataformas digitais, infraestruturas algorítmicas, bancos de dados, sistemas
de recomendação, publicidade comportamental, influenciadores, militâncias
digitais e inteligência artificial.
Seu
poder não está apenas em proibir. Está em orientar. Não está apenas em
reprimir. Está em modular. Não está apenas em vigiar. Está em prever.
O poder
soberano dizia: obedeça. O poder algorítmico sugere: continue rolando a tela.
A
atenção tornou-se uma das principais mercadorias do capitalismo contemporâneo.
Mas ela não é uma mercadoria qualquer. A atenção é a porta de entrada da
consciência. Quem controla a atenção controla parte da percepção. Quem controla
a percepção influencia o julgamento. Quem influencia o julgamento interfere no
comportamento político.
A
economia da atenção transforma o cidadão em usuário, o usuário em dado, o dado
em previsão e a previsão em mercadoria. A vida subjetiva passa a ser extraída,
calculada, segmentada e vendida. Nesse ambiente, a política não precisa mais
convencer apenas por argumentos. Ela precisa capturar afetos. Medo, raiva,
ressentimento, indignação, humilhação e pertencimento tornam-se recursos de
mobilização. A política deixa de ser apenas disputa de projetos e passa a ser
disputa pela arquitetura emocional da sociedade.
Jürgen
Habermas pensou a esfera pública como espaço de argumentação, crítica e
formação racional da vontade coletiva. Essa ideia nunca se realizou plenamente,
mas serviu como horizonte democrático.
O
Leviatã digital corrói esse horizonte. A esfera pública é fragmentada em
bolhas. A realidade comum é substituída por versões afetivas da realidade. O
debate vira reação. A divergência vira ameaça. A dúvida vira fraqueza. A
complexidade vira inimiga da viralização.
A
democracia precisa de tempo. O algoritmo exige velocidade. A democracia precisa
de escuta. O algoritmo premia reação. A democracia precisa de mediação. O
algoritmo radicaliza o conflito. O resultado é uma política cada vez mais
emocionalizada, performática e tribalizada.
Shoshana
Zuboff chamou atenção para o capitalismo de vigilância: um regime econômico
baseado na captura de experiências humanas transformadas em dados
comportamentais. Mas a questão não é apenas econômica. É política. Quando a
subjetividade passa a ser rastreada, prevista e influenciada, a democracia
enfrenta um problema novo. A manipulação deixa de ser apenas propaganda pública
e passa a operar no nível micropsicológico da experiência individual.
Guy
Debord mostrou que a sociedade moderna transformou a vida em espetáculo. Pierre
Bourdieu mostrou que o poder simbólico opera quando é reconhecido como
legítimo. Michel Foucault demonstrou que o poder moderno não apenas reprime,
mas produz sujeitos.
O
Leviatã digital articula essas três dimensões: espetáculo, poder simbólico e
produção de subjetividade. Ele produz o sujeito conectado, indignado, vigiado,
segmentado, ansioso e permanentemente convocado a reagir.
O
cidadão contemporâneo já não é apenas eleitor, trabalhador ou consumidor. Ele é
também terminal afetivo de circulação política. Recebe estímulos. Reage.
Compartilha. Indigna-se. Confirma crenças. Ataca adversários. Defende
identidades. Produz dados. Alimenta o sistema que o captura.
Essa é
a sofisticação do Leviatã digital: ele transforma participação em extração.
Cada gesto de engajamento parece liberdade, mas também alimenta a máquina que
aprende a conduzir novos gestos. O sujeito acredita estar apenas expressando
sua opinião. Muitas vezes, porém, está funcionando como vetor de circulação de
narrativas que foram desenhadas para explorar suas vulnerabilidades.
A
democracia não desaparece. As eleições continuam. Os parlamentos continuam. Os
tribunais continuam. Os partidos continuam. Mas todos passam a funcionar sob
pressão de uma nova camada de poder.
Parlamentares
precisam performar para suas bases digitais. Governos precisam disputar
narrativas em tempo real. Gestores públicos passam a ser pressionados por
métricas de imagem. Campanhas eleitorais segmentam medos. Crises institucionais
são aceleradas por cortes virais. A mentira organizada circula mais rápido que
sua correção.
A
política pública, que exige continuidade e planejamento, passa a concorrer com
a lógica do espetáculo permanente. O risco é grave: governar deixa de ser
resolver problemas e passa a ser administrar percepções.
Nenhuma
sociedade enfrenta aquilo que não consegue nomear. O conceito de “Leviatã
digital” não pretende substituir outras categorias já fundamentais, como
capitalismo de vigilância, sociedade do espetáculo, esfera pública, biopolítica
ou poder simbólico. Ele procura articular essas dimensões em uma imagem
política capaz de descrever o nosso tempo.
Estamos
diante de uma estrutura que não apenas comunica a política. Ela reorganiza a
política. Não apenas transmite conflitos. Produz conflitos. Não apenas informa
cidadãos. Modela percepções. Não apenas observa comportamentos. Aprende a
induzi-los.
A
democracia brasileira ainda discute, com razão, eleições, instituições, golpes,
corrupção, desigualdade e representação. Mas precisa acrescentar outra pergunta
ao seu vocabulário crítico: quem controla o ambiente mental no qual os cidadãos
formam suas escolhas políticas?
O
Leviatã Digital ainda não governa como Estado. Mas talvez já esteja aprendendo
a governar antes do Estado. E é precisamente por isso que compreendê-lo deixou
de ser uma curiosidade teórica. Tornou-se uma urgência democrática.
Fonte:
Por Natalia Viana, da Agencia Pública/A Terra é Redonda

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