quinta-feira, 23 de julho de 2026

EUA são 'pai tóxico' e dificultam processo de reconstrução da Venezuela, avaliam analistas

A Venezuela vive uma longa crise econômica, desencadeada por sanções econômicas ocidentais lideradas pelos Estados Unidos, incluindo o congelamento de ativos de Caracas no exterior. O sofrimento financeiro da população foi agravado durante a pandemia de COVID-19, uma emergência sanitária que afetou o capital em todo o mundo.

O martírio venezuelano ganhou novos capítulos após o início do segundo governo do presidente Donald Trump. Tropas norte-americanas passaram a bombardear embarcações na costa do país sob o pretexto de combate a organizações terroristas.

Poucos meses após o início desses ataques, em 3 de janeiro, uma operação militar de Washington, durante a madrugada, terminou com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. Em poucas horas, o casal já estava preso em uma penitenciária de Nova York, nos Estados Unidos.

Desde o rapto de Maduro, a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, assumiu interinamente o cargo. A líder tenta trazer novos ares para o país, em busca de um diálogo inédito com os EUA neste século.

É nesse contexto que, em 24 de junho, dois terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, atingiram a região centro-norte do país com um intervalo inferior a um minuto. Os tremores causaram enorme destruição, com mais de mil prédios danificados, incluindo 190 edifícios que desabaram.

De acordo com as autoridades da Venezuela, mais de 5 mil pessoas morreram, cerca de 16.700 ficaram feridas e quase 18 mil continuam desabrigadas.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas apontam que a reconstrução da Venezuela — tanto econômica quanto física — é atrapalhada pelo novo "aliado" por meio de suas sanções e interferências.

Jefferson Nascimento, doutor em ciência política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e membro do Observatório Político Sul-Americano (OPSA), declarou que a relação de Washington com Caracas, desde o sequestro de Maduro, tem características de um "pai tóxico".

Mas, para chegar a 2026 e ao rapto de Maduro, Nascimento voltou à década de 1950 para explicar a relação entre os países. À época, Caracas passava por um processo de transição democrática liberal e teve apoio de Washington, que interferiu pedindo que fosse contido o avanço de movimentos comunistas no país caribenho.

Décadas mais tarde, já no período de Hugo Chávez, a Venezuela apresentava uma retórica "muito agressiva" sobre a postura dos Estados Unidos na América Latina. Ainda assim, os países continuavam a fazer negócio, sobretudo relacionado ao petróleo, que desde 1923 contava com a empresa norte-americana Chevron na extração.

Em 2007, Chávez decretou a nacionalização do petróleo, tornando o Estado o acionista majoritário de todas as operações na faixa petrolífera do Orinoco por meio da Petróleos de Venezuela S.A (PDVSA) — fato que só viria a mudar em 2026, após o sequestro de Maduro.

Portanto, para Nascimento, voltar a ter acesso aos hidrocarbonetos venezuelanos é o fator principal para Trump ter ordenado o rapto do presidente da Venezuela. Segundo o especialista, o republicano pouco fala sobre democracia em seus discursos relacionados a Caracas, enquanto a palavra "petróleo" é usada com maior frequência.

"Isso é um indício de que o fato de os EUA estarem preocupados com a Venezuela — e isso não é uma questão só de agora, mas histórica — está ligado muito mais a questões de interesses econômicos."

O cientista político explica que o dinheiro da venda do petróleo da Venezuela, desde a captura de Maduro, passa antes pelo Tesouro Americano, conforme combinado entre Rodríguez e as autoridades de Washington. No entanto, há pouca transparência nesse processo, o que indica que "a soberania venezuelana está muito limitada no momento".

"A relação que os EUA estabeleceram com a Venezuela depois do sequestro de Nicolás Maduro é uma relação de uma espécie de pai tóxico."

<><> E os recursos congelados?

Rodríguez e outras autoridades venezuelanas vieram a público pedir que instituições financeiras internacionais, incluindo apelos ao rei da Inglaterra, Charles III, liberassem ativos de Caracas congelados em bancos ao redor do mundo. As posses, de acordo com o governo da Venezuela, seriam vitais para a reconstrução do país e assistência aos desabrigados.

Carolina Pedroso, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), estima que cerca de US$ 25 bilhões venezuelanos estejam travados em instituições financeiras em todo o globo. Poucos dias após o terremoto, os EUA desbloquearam algumas propriedades venezuelanas por meio de uma licença-geral, mas que carece de especificidade.

"É uma licença-geral que não coloca valor. Ela não inclui, portanto, esse grande volume de reservas internacionais que estão tanto no sistema financeiro norte-americano quanto fora, em bancos da Europa. […] Esse abrandamento da sanção não atinge a totalidade dos recursos e também não específica o quanto de recurso poderia ser liberado. Isso fica a cargo justamente de Washington."

Segundo a professora, os americanos liberaram, dias após os terremotos, US$ 150 milhões para ajudar nos esforços de Caracas. A Casa Branca também enviou militares para atuar nos resgates, o que chamou a atenção das autoridades venezuelanas.

"Tem-se observado, ao longo das últimas semanas, um aumento da presença de militares americanos na Venezuela, e desconfia-se muito de qual realmente é o intuito do envio desses militares, que não são as pessoas mais adequadas para estar atuando nesse terreno. Então há uma grande desconfiança de que eles estejam aproveitando mais uma vez uma tragédia […] para conseguir aumentar sua influência naquele país."

Em 1999, fortes chuvas culminaram em um deslizamento de grandes proporções na região de La Guaira. Estima-se que os temporais de 26 anos atrás provocaram a morte de até 30 mil pessoas, embora apenas mil corpos tenham sido encontrados — acredita-se que a maior parte das vítimas tenha sido arrastada para o mar ou soterrada.

Pedroso explica que, à época, Chávez recusou a ajuda norte-americana, que também queria enviar militares à Venezuela. O líder de Caracas declarou que o país precisava de ajuda especializada, e não de tropas.

"Naquela ocasião, a Venezuela ainda tinha condições de se colocar enquanto país soberano e, de certa forma, selecionar que tipo de ajuda receberia naquele contexto. E agora, em 2026, infelizmente a gente tem visto outra postura, tanto interna quanto externa, para lidar com essa tragédia."

A professora destaca que o Brasil tem ajudado com medicamentos, alimentos e resgatistas, mas que a postura do Itamaraty deveria ser mais proativa na questão estrutural dos problemas de soberania na Venezuela.

"A gente, em geral, tende a agir de forma rápida e solidária tanto com os vizinhos como com outros países que passam por catástrofes ou dificuldades humanitárias, mas ainda falta dentro da política externa brasileira um ativismo mais sustentável ao longo do tempo, que não seja só de ocasião."

Rubio diz que EUA estarão ‘muito envolvidos’ em diálogo entre governo e oposição na Venezuela

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, disse nesta segunda-feira (20/07) que os Estados Unidos estarão “muito envolvidos” no processo de diálogo entre o governo e um setor da oposição na Venezuela, previsto para começar na primeira semana de agosto.

Em entrevista coletiva concedida na base aérea Andrews, antes de seguir para uma agenda nas Filipinas, o chefe da diplomacia estadunidense classificou como muito boas notícias o estabelecimento das negociações.

“Acredito que as primeiras conversas oficiais começarão na primeira semana de agosto. Achei essa uma proposta muito significativa. Obviamente, veremos como isso evolui, mas acreditamos que esse acordo foi recebido na Venezuela como uma notícia muito boa e, naturalmente, é algo em que estaremos muito envolvidos”, alegou.

No entanto, as autoridades venezuelanas não confirmaram a participação direta de funcionários estadunidenses nas conversas.

A data mencionada pelo secretário de Estado coincide com o cronograma oficial de trabalho anunciado pelo presidente da Assembleia Nacional da Venezuela (ANV), Jorge Rodríguez, na semana passada, quando o deputado oficializou o início de uma rota de trabalho conjunta com ex-membros do parlamento que atuaram no período entre 2015 e 2020.

O grupo de opositores em questão consiste em um conjunto de ex-deputados que não possui mandato oficial e atua como uma estrutura paralela, que durante anos manteve articulações políticas com apoio financeiro dos Estados Unidos em tentativas de desestabilização do governo do presidente Nicolás Maduro.

“No âmbito do apelo à unidade nacional para enfrentar em conjunto as consequências do devastador duplo terramoto e com o objetivo de fortalecer a democracia, anunciamos o lançamento de um plano de trabalho conjunto com antigos membros da Assembleia Nacional do período 2015-2020, com início a 1º de agosto”, dizia o comunicado publicado em 14 de julho, que menciona o apoio internacional sem referência a algum país especificamente.

“O apoio internacional unânime ao nosso povo e ao governo nacional no enfrentamento desta tragédia sublinha que só juntos poderemos avançar na reconstrução e na manutenção da paz”, finaliza o texto.

Segundo Rodríguez, a prioridade atual do Estado é a reconstrução das zonas afetadas e a manutenção da estabilidade social. O deputado pontuou que a economia precisa caminhar para um dinamismo que faça a população sentir os benefícios sociais após mais de dez anos de bloqueio econômico internacional.

Na coletiva desta segunda-feira, Rubio ainda chegou a falar em um “processo de transição” sem, no entanto, dar detalhes.

“[O] grupo que representa a Assembleia Nacional de 2015 – a última Assembleia Nacional eleita democraticamente e o grupo que reconhecemos como o governo legítimo da Venezuela – reuniu-se com o governo interino e concordou em estabelecer um formato e um fórum não apenas para conversas de reconciliação, mas para iniciar o processo de transição, que é o que o povo venezuelano precisa”, disse.

O anúncio feito por Washington ocorre em um contexto onde o país vizinho busca se recuperar de um duplo terremoto ocorrido no dia 24 de junho, que resultou em mais de 5 mil mortes até o momento e destruiu centenas de edifícios em Caracas e La Guaira, na região centro-norte do país.

<><> Os limites constitucionais e as hipóteses para novas eleições

Apesar da pressão de setores da oposição de extrema direita para a realização imediata de novas eleições presidenciais, não existe previsão constitucional para tal convocação no atual cenário. Juristas ouvidos pelo Brasil de Fato apontam que o país vive uma situação inédita desde o dia 3 de janeiro de 2026, quando o presidente eleito Nicolás Maduro foi sequestrado por forças estrangeiras e levado para os Estados Unidos como prisioneiro de guerra.

De acordo com a Constituição Bolivariana, a realização de eleições antecipadas só ocorre em casos de falta absoluta do presidente. O Artigo 233 da Carta Magna venezuelana lista as situações que configuram essa falta, como a morte do governante, sua renúncia, a destituição por sentença do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), a incapacidade física ou mental permanente aprovada pelo parlamento, o abandono do cargo ou a revogação do mandato via referendo.

Diante desse vácuo legal, o TSJ determinou que Delcy Rodríguez, então vice-presidenta, assumisse a presidência interina por tempo indeterminado. Como o mandato presidencial vigente termina apenas em 2031, somente a própria presidenta interina ou a Assembleia Nacional teriam poder para convocar um novo pleito antes desse prazo.

Por sua vez, o governo sustenta que o foco imediato deve ser a gestão do Estado e a melhoria da qualidade de vida, enquanto o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) ainda precisaria passar por processos de renovação técnica para garantir a confiança de todos os atores políticos.

Nesse debate, a oposição liderada por María Corina Machado tem defendido um roteiro para eleições livres no mais breve tempo possível, condicionando o processo à restauração de direitos políticos de pessoas inelegíveis. Entretanto, a Lei de Anistia aprovada em fevereiro de 2026 exclui explicitamente crimes de instigação à invasão do país e de golpes de Estado, acusações que pesam contra Machado.

Enquanto o diálogo avança, o governo de Delcy Rodríguez atua pela retirada das sanções econômicas contra o país que seguem vigentes. O objetivo é recuperar ativos como a Citgo, que foi alvo de disputas judiciais em solo estadunidense durante a gestão anterior de Donald Trump.

O chavismo ainda aposta no fortalecimento das comunas e na autogestão territorial como forma de blindar o processo político contra retrocessos de longo alcance, independentemente do calendário eleitoral que venha a ser definido no futuro.

Procuradores dos EUA propõem que julgamento de Maduro comece em junho de 2027

O Escritório do Procurador dos Estados Unidos para o Distrito Sul de Nova York, Estados Unidos, propôs nesta terça-feira (21/07) que o julgamento contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, acusados de tráfico de drogas e importação de cocaína, comece em junho de 2027.

“Assim, as partes propõem conjuntamente o seguinte cronograma para a apresentação de provas, moções pré-julgamento e o processo judicial (…). Início do julgamento: junho de 2027”, diz o documento endereçado ao juiz Alvin Hellerstein, pelo promotor federal Jay Clayton.

A abordagem do Ministério Público foi anunciada antes da audiência marcada para esta quarta-feira (22/07), que discutirá o cronograma do processo contra o presidente venezuelano, que encontra-se em uma prisão federal no Brooklyn, há mais de meio ano, após ter sido sequestrado em janeiro passado.

Esta é a terceira audiência realizada em Nova York após o sequestro do casal em sua residência em Caracas em 3 de janeiro. A defesa do casal planeja apresentar seus primeiros argumentos em setembro e o governo espera entregar a maior parte das provas classificadas em novembro.

Maduro e Flores se declararam inocentes perante o juiz de Nova York em janeiro.

Em abril passado, os Estados Unidos permitiram que o Executivo venezuelano pagasse os honorários dos advogados que defendem os acusados.

Em 3 de janeiro de 2026, as Forças Armadas norte-americanas entraram em território venezuelano realizando um ataque armado que deixou pelo menos 100 mortos e sequestro do chefe de Estado venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, que foram transferidos para Nova York.


Fonte: Sputnik BrasilOpera Mundi


 

Nenhum comentário: