PF
vai investigar mineradora por contaminação em terra indígena no Amazonas
A PF
(Polícia Federal) abriu um inquérito para investigar a possível contaminação da
Terra Indígena Waimiri Atroari, no Amazonas, pela Mineração Taboca, maior
produtora de estanho refinado do país.
O
procedimento foi instaurado a pedido do MPF-AM (Ministério Público Federal no
Amazonas). O órgão acompanha o caso desde 2021, quando fortes chuvas provocaram
o transbordamento de rejeitos minerários nos rios que cortam o território dos
Waimiri Atroari.
Em
abril, a Repórter Brasil mostrou que uma nova onda de poluição gerou
preocupação entre os indígenas.
Segundo
relatos, grandes manchas de lama com “odor forte” e “coloração barrenta” teriam
atingido um igarapé que atravessa a área de mineração e deságua no Alalaú — o
principal rio do território dos kinja, como são conhecidos os Waimiri Atroari.
Nas
semanas seguintes, botos, tartarugas e uma arraia foram encontrados mortos
pelos indígenas.
Diante
dos novos relatos, os procuradores acionaram a PF para a apuração de possíveis
crimes ambientais. Procurada pela Repórter Brasil, a PF confirmou a abertura do
inquérito.
O
MPF-AM também vê com receio os planos de expansão das atividades minerárias da
Taboca. Na recomendação enviada à PF, os procuradores demonstram especial
“preocupação com os planos de expansão do empreendimento para a exploração de
terras raras”, conjunto de elementos cobiçados pela indústria bélica e de
tecnologia.
O órgão
federal recomenda que a empresa “abstenha-se de ampliar a capacidade produtiva
ou de expandir a lavra para outros minerais antes de equacionado, de forma
efetiva, o passivo ambiental documentado”.
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Mineradora diz que não há ‘conclusão técnica’ sobre contaminação
Desde
2021, uma investigação do Ministério Público Federal busca identificar se a
mineradora é responsável pelo vazamento de rejeitos e pela contaminação do rio.
Há mais
de 40 anos na região, a Taboca opera na vizinhança da TI Waimiri Atroari. “São
as únicas estruturas ali, não há dúvida que há contaminação”, diz uma
recomendação do MPF-AM publicada em 25 de junho.
A
investigação do MPF teve início em 2021, mas ganhou força no ano passado,
quando uma análise química detectou traços de chumbo, arsênio e outras
substâncias tóxicas na água do igarapé que alimenta o Alalaú. Os resultados são
de “inegável gravidade”, avaliam André Luiz Porreca e Fernando Merloto Soave,
signatários da recomendação.
O caso
foi revelado pela Repórter Brasil na série de reportagens “Kinja: o povo
indígena com medo do rio”, em parceria com a Rainforest Investigations Network
(Pulitzer Center).
Para os
procuradores, não há dúvida de que há contaminação nos rios. “O quadro fático
delineado revela contaminação concreta e atual dos cursos hídricos que cruzam a
Terra Indígena Waimiri Atroari, somada a indícios consistentes de que a
degradação decorre da própria atividade minerária”, diz o ofício do MPF-AM
enviado à PF.
Procurada
pela Repórter Brasil, a Mineração Taboca informou que “até o momento, não há
conclusão técnica ou decisão definitiva que estabeleça relação causal entre os
fatos investigados e suas operações”.
Em
nota, a empresa diz que os monitoramentos mais recentes da qualidade da água
“indicam parâmetros dentro dos limites estabelecidos pela legislação
ambiental”.
“A
empresa é sensível ao tema trazido pelas comunidades e seguirá avaliando,
juntamente com as autoridades, medidas de aperfeiçoamento de seus controles
ambientais”, diz a empresa. .
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Excesso de chuva não é justificativa para problemas ambientais, diz MPF
A
mineradora alega que as fortes chuvas na região são responsáveis pelo
transbordamento de rejeitos.
Para o
MPF, no entanto, o problema é de “natureza estrutural, e não evento climático
isolado”.
“A
alegação empresarial de que os episódios decorreriam apenas de índices
pluviométricos excepcionais não resiste ao conjunto documental reunido nos
autos”, crava o MPF.
“Não
adianta culpar a chuva. A poluição que fizeram lá dentro [do complexo
minerário] é isso que a chuva leva. Chove e leva essa sujeira. Quem destruiu
primeiro? Quem está cavando a terra? É a Taboca, não é a chuva”, protesta
Sanapyty Atroari, liderança indígena que participou de diversas expedições pelo
rio Alalaú para monitorar o avanço da poluição.
“A
poluição sempre desce pelo rio e passa pelas aldeias na época do inverno
[estação de chuvas na Amazônia]”, disse Meki Atroari, em entrevista realizada
em outubro do ano passado na terra indígena. “Quando chega na época do inverno
a água fica poluída, suja e barrenta”, reforçou Makabia Atroari, da aldeia
Teweri.
Diante
disso, o MPF recomendou que a Taboca adote medidas estruturais para conter o
transbordamento de rejeitos e prevenir novos episódios de contaminação nos rios
da TI Waimiri Atroari.
Em nota
enviada à reportagem, a empresa afirmou que “mantém monitoramento contínuo de
suas estruturas e as mesmas encontram-se seguras”.
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Taboca anuncia aumento da produção, MPF recomenda pausa
A
Mineração Taboca aposta na exploração de cassiterita (matéria-prima do
estanho), tântalo e nióbio.
A
empresa também estuda extrair elementos de terras raras. Esses minerais têm
despertado cada vez mais interesse das indústrias bélica e tecnológica em todo
o mundo — tanto que, em 2024, a mineradora foi comprada pela China Nonferrous
Metal Mining Group, uma estatal do país asiático.
A
perspectiva é de crescimento. Em janeiro de 2026, a empresa anunciou um
investimento de US$ 100 milhões (R$ 523 milhões na cotação atual) para dobrar a
sua produção no Amazonas e atender a demanda global pelos chamados “minerais
críticos”.
“O que
está acontecendo é que há investimentos para ampliar projetos que já tem um
histórico de impactos sobre comunidades”, alerta Marco Gandarillas, pesquisador
sênior da LAS (Latinoamérica Sustentable), organização que analisa
investimentos chineses na América Latina. “Com esses investimentos, os impactos
ganham uma escala maior e novos riscos podem surgir.”
Entre
os pedidos, o MPF recomenda que a empresa “abstenha-se de ampliar a capacidade
produtiva ou de expandir a lavra para outros minerais “antes de equacionado, de
forma efetiva, o passivo ambiental documentado”.
A
recomendação do MPF é um “sinal importante para as empresas chinesas que estão
entrando no setor mineral brasileiro”, avalia Gandarillas. “As autoridades
locais estão dispostas a condicionar a expansão das operações, inclusive no
contexto da corrida pelos minerais críticos, à resolução prévia dos passivos
ambientais e sociais”, diz o pesquisador.
Os
procuradores também acionaram a ANM (Agência Nacional de Mineração). Na
recomendação, pedem que a agência considere as medidas necessárias para o
enfrentamento da situação, “inclusive a eventual suspensão da atividade e a
vedação da expansão da exploração mineral, caso necessárias, à vista do risco
de agravamento da contaminação dos rios Tiaraju e Alalaú.”
A ANM
realizou uma vistoria na área da mineração no início de julho, de acordo com
nota enviada à reportagem.
“Apenas
com a conclusão do relatório a ANM/AM poderá avaliar a possibilidade de
suspensão das atividades ou adotar medidas que garantam a segurança da expansão
da exploração mineral”, diz o posicionamento.
Em
relação ao anúncio da Taboca sobre o aumento da produção, a ANM informou que
até o momento “não existem processos ou solicitações em andamento relacionados
aos planos de expansão da Mineração Taboca para a exploração de terras raras”.
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Íntegra das respostas
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Mineração Taboca
A
Mineração Taboca informa que tomou conhecimento da recomendação expedida pelo
Ministério Público Federal e prestará os esclarecimentos e informações dentro
do prazo estabelecido pelo órgão. A empresa considera natural e legítima a
adoção de medidas por parte das autoridades competentes no contexto de
investigações em curso e segue colaborando integralmente com todos os órgãos
envolvidos.
A
companhia ressalta que, até o momento, não há conclusão técnica ou decisão
definitiva que estabeleça relação causal entre os fatos investigados e suas
operações. Os monitoramentos mais recentes realizados pela Taboca para
verificação da qualidade das águas, em pontos diretamente relacionados às áreas
de interesse das comunidades, indicam parâmetros dentro dos limites
estabelecidos pela legislação ambiental.
A
Taboca mantém monitoramento contínuo de suas estruturas e as mesmas
encontram-se seguras. Ainda assim, a empresa é sensível ao tema trazido pelas
comunidades e seguirá avaliando, juntamente com as autoridades, medidas de
aperfeiçoamento de seus controles ambientais. A empresa entende que o
esclarecimento dos fatos é importante e deve ocorrer com base em evidências
técnicas, científicas e em avaliações conduzidas pelos órgãos competentes.
Por
fim, a companhia reafirma seu compromisso com a condução responsável de suas
operações, a transparência, o diálogo com as comunidades e a plena colaboração
com as autoridades no andamento das apurações.
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ANM (Agência Nacional de Mineração)
A
vistoria foi realizada entre os dias 06 e 10 de julho. No momento, a ANM/AM
está no processo de desenvolvimento do relatório pós-vistoria. A princípio, não
há como informar a existência de irregularidades, o que só será possível após a
conclusão do relatório.
Conforme
destacado, apenas com a conclusão do relatório a ANM/AM poderá avaliar a
possibilidade de suspensão das atividades ou adotar medidas que garantam a
segurança da expansão da exploração mineral.
No
momento não existem processos ou solicitações em andamento relacionados aos
planos de expansão da Mineração Taboca para a exploração de terras raras.
• Frigorífico Minerva é condenado por
demissões após ato contra horas-extras em Rondônia
ALÉM de
trabalhar como faqueira, Michele* também preparava os animais para o abate em
um frigorífico da Minerva Foods, localizado em Rolim de Moura (RO). A jornada
de trabalho — de 9h20 por dia, de segunda a sábado — era realizada com pausas reduzidas para
descanso.
Em 8 de
setembro de 2025, Michele se uniu a uma manifestação promovida pelo sindicato
da categoria, na frente do abatedouro, pedindo a redução das duas horas extras
cumpridas todos os dias. De acordo com os trabalhadores, o ato teria sido
filmado por uma empresa contratada pela Minerva Foods. No dia seguinte, ela e
outros oito colegas foram demitidos.
O
Sintra-Ali (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Carne, Leite e
Cereais), de Rolim de Moura, entrou com um processo contra a companhia de
proteína animal por atos antissindicais.
A
Minerva foi condenada em duas instâncias da Justiça do Trabalho. Cada um dos
nove trabalhadores vai receber R$ 65 mil referentes a danos morais e a salários
não recebidos entre a demissão e a publicação da decisão judicial.
Em nota
enviada à Repórter Brasil, a Minerva Foods afirma que não comenta processos
judiciais. “Reafirmamos nosso compromisso com o cumprimento da legislação
trabalhista, com o respeito aos direitos de nossos colaboradores e à liberdade
de associação sindical”, diz o posicionamento.
A nota
informa ainda que, ao longo dos últimos anos, a empresa mantém “uma relação
respeitosa com o Sindicato dos Trabalhadores de Rolim de Moura (RO), tendo
firmado diversos acordos coletivos, incluindo o mais recente, com vigência até
2027”.
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Trabalhadores do frigorífico se queixavam de sobrecarga
As
condições descritas pelas testemunhas ouvidas ao longo do processo apontam para
empregados sobrecarregados por causa do número insuficiente de funcionários, da
alta carga de trabalho e da redução do tempo de pausa térmica e do intervalo
para almoço.
Prevista
no artigo 253 da CLT, a pausa térmica garante aos trabalhadores 20 minutos de
descanso a cada 1 hora e 40 minutos trabalhados para profissionais que atuam em
câmaras frigoríficas.
No
entanto, testemunhas afirmam que a pausa seria de no máximo 14 minutos. O
intervalo para o almoço, por sua vez, não alcançava a uma hora prevista na CLT.
Uma das
depoentes afirmou que, inicialmente, um dos coordenadores da planta frigorífica
teria dito que a empresa havia concordado com a limitação das horas extras e
com a redução da jornada.
Três
dias depois, segundo ela, os funcionários teriam sido comunicados de que a
Minerva Foods havia voltado atrás na decisão.
A
justificativa era de que não haveria câmaras frigoríficas suficientes para
armazenar as carcaças que deixariam de ser cortadas, em caso de redução da
jornada.
Para
Camila Santos, advogada do Sintra-Ali, a suposta falta de infraestrutura não é
um argumento convincente. “A unidade de Rolim de Moura é uma das melhores [do
grupo empresarial]”, diz .
Em
março de 2023, a Minerva Foods renovou a certificação BRCGS (Brand Reputation
Compliance Global Standards) da unidade. O selo assegura excelência em
segurança e qualidade dos alimentos e é essencial para exportação e
fornecimento para grandes redes de supermercados.
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Funcionários dizem ter sido coagidos a não participar das manifestações
Segundo
os autos do processo, a Minerva Foods teria sido notificada sobre a paralisação
em 3 de setembro, cinco dias antes do ato. Depoentes do caso afirmam que teriam
sido coagidos a não participar da manifestação.
“Eles
estavam procurando os funcionários, coagindo-os com perguntas sobre se estavam
por dentro da greve e se iriam participar. Foi falado que haveria ‘medidas’
[contra os que fizessem parte do ato]”, relata outra testemunha.
De
acordo com o processo, líderes de diferentes setores do frigorífico teriam
conhecimento sobre os nomes dos funcionários que participavam das reuniões do
sindicato, sugerindo uma possível espionagem.
No dia
da greve, a advogada Camila estava presente. Ela narra que cerca de 60
trabalhadores realizaram ato na frente da fábrica. Ainda segundo ela,
seguranças da unidade e funcionários de uma empresa de comunicação terceirizada
da cidade também estariam presentes, filmando os rostos dos trabalhadores.
O abate
estava previsto para iniciar às 7h neste dia. No entanto, ao tentar voltar para
suas funções, os trabalhadores foram impedidos de entrar na unidade e foram
dispensados.
No dia
seguinte, alguns funcionários levaram advertências; outros foram demitidos —
como no caso de Michele e de mais oito colegas. De acordo com os autos do
processo, outra empregada também dispensada alega que não houve justificativa
para a demissão e acredita ter sido desligada por causa da greve.
A
ex-funcionária explica que quem permaneceu no emprego ficou com medo de seguir
se manifestando. “Não estávamos reivindicando nada errado. No domingo, não
consigo descansar e todo mundo tem direito a descansar”, diz.
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Minerva aparece entre os três maiores litigantes da Justiça do Trabalho no Acre
e em Rondônia
Michele
entrou com uma ação contra a Minerva Foods. Inicialmente, na audiência de
conciliação realizada em outubro de 2025, a empresa se recusou a fazer um
acordo.
O
frigorífico foi condenado em primeiro grau ao pagamento de R$ 200 mil por danos
morais a Michele.
Na
sentença, o juiz Ailsson Camargo, responsável pelo caso, destacou que o valor
era equivalente ao faturamento da Minerva Foods em aproximadamente um minuto e
cinquenta e cinco segundos, considerando o faturamento da companhia registrado
em 2025.
Ao
recorrer à segunda instância, a empresa teve o valor da indenização por danos
morais reduzido para R$ 50 mil.
Nos
oito demais processos, os valores das indenizações estipuladas pela Justiça
variaram. Mas, ao fim, a Minerva Foods celebrou um acordo com cada um dos nove
trabalhadores no valor de R$ 65 mil —
referentes aos danos morais e aos salários não recebidos no período entre a
demissão e a decisão judicial.
Em
abril de 2026, a Minerva Foods figurava em 3º lugar entre os maiores litigantes
do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 14ª região.
A
empresa só fica atrás de outro frigorífico, a JBS, e o estado do Acre. Em 4ª
lugar está a Fortunceres S.A., adquirida pela Minerva Foods em maio de 2025.
Juntas, elas acumularam 334 processos em primeira e segunda instâncias, em
abril de 2026.
Camila,
à frente do sindicato há 12 anos, frisa que foi a primeira vez que presenciou
um caso de discriminação sindical no setor.
Dos
nove trabalhadores, apenas um pediu reintegração ao quadro de funcionários da
Minerva Foods.
Por
fim, a empresa promoveu a redução da jornada de trabalho. Hoje, a carga horária
é de 8 horas de segunda a sexta-feira, e de 4 horas aos sábados, totalizando 44
horas semanais na escala 6×1.
* O
nome da trabalhadora foi alterado para preservar sua privacidade
Fonte:
Repórter Brasil

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