Falta
de emprego entre jovens vira desafio global
A
dificuldade de inserção de jovens no mercado de trabalho deixou de ser um
problema localizado e passou a mobilizar diferentes países. No ano passado, o
desemprego persistente e a escassez de oportunidades levaram manifestantes às
ruas no Quênia, Peru, Nepal, Indonésia e Filipinas.
Neste
ano, a preocupação com a falta de trabalho para essa faixa etária também
impulsionou protestos na África do Sul e no Marrocos. Na Índia, ajudou a dar
visibilidade ao Partido Cockroach Janta, movimento que surgiu como uma
iniciativa satírica nas redes sociais e rapidamente ganhou projeção nacional.
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O desemprego juvenil na China
O
desemprego juvenil mede a parcela de jovens, normalmente entre 15 e 24 anos,
que procuram trabalho ativamente, mas não conseguem uma vaga. Essa taxa costuma
superar a de desemprego geral, em razão da menor experiência profissional e das
barreiras enfrentadas por quem está iniciando a carreira. Ainda assim, a
diferença entre os dois indicadores tem aumentado em um número crescente de
países.
A China
tornou-se um dos exemplos mais visíveis desse fenômeno. O avanço das matrículas
no ensino superior e o aumento do número de formados ocorreram em ritmo mais
acelerado do que a criação de empregos, contribuindo para a ansiedade, a
prolongada busca por trabalho e o subemprego em um período de desaceleração
econômica.
Em
maio, a taxa oficial de desemprego entre jovens urbanos de 16 a 24 anos na
China foi de 15,6%, segundo dados do governo citados pela agência Reuters.
Embora seja o menor nível em 11 meses, o índice permanece muito acima da taxa
geral de desemprego do país, em torno de 5%.
Desde
2023, as estatísticas chinesas sobre desemprego juvenil deixaram de incluir os
milhões de estudantes universitários, o que dificulta a comparação com os dados
anteriores.
No
Brasil, a dificuldade de inserção no mercado de trabalho também afeta de forma
desproporcional os mais jovens. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego
(MTE) a taxa de desemprego entre pessoas de 18 a 24 anos é de 13,8%, mais que o
dobro da média nacional, de 5,8%. Entre a população de 14 a 24 anos, quase 20%
não estudam nem trabalham.
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A culpa é da IA?
A China
não é o único país a enfrentar crescimento econômico fraco, menor mobilidade
social e uma crescente percepção de desigualdade entre gerações.
Em
diversas economias, o avanço tecnológico, a desaceleração das contratações e o
aumento da concorrência têm enfraquecido a relação tradicional entre diploma
universitário e emprego estável de colarinho-branco.
Além do
aumento do número de graduados, outro fator que alimenta a insegurança é o
temor de que a inteligência artificial (IA) elimine postos de trabalho de
entrada. Os especialistas, porém, ainda não chegaram a um consenso sobre os
efeitos da tecnologia.
"No
Reino Unido, as novas vagas para graduados caíram mais rapidamente do que as
destinadas a pessoas sem formação universitária, e muitas dessas funções
apresentam alta exposição à IA", afirma Golo Henseke, professor associado
de economia aplicada da University College London.
Segundo
pesquisa conduzida por ele, regiões em que as empresas adotaram a IA mais
rapidamente registraram crescimento mais lento do emprego entre pessoas de 15 a
24 anos, enquanto a ocupação entre trabalhadores em idade principal permaneceu
estável. Ainda assim, Henseke avalia que, por enquanto, o impacto da IA é
pequeno quando comparado aos efeitos normais do ciclo econômico.
Sara
Elder, especialista em emprego juvenil da Organização Internacional do Trabalho
(OIT), concorda. Para ela, a IA pode contribuir para a estagnação do emprego
entre jovens, mas não é o principal fator.
"No
momento, as economias não estão suficientemente dinâmicas, e a criação de vagas
não acompanha o número de jovens que entram no mercado de trabalho",
afirma.
Segundo
Elder, o problema é agravado pela tendência de empregadores elevarem as
exigências de contratação, dificultando a entrada de candidatos com pouca
experiência profissional.
Sem
oportunidades em cargos de entrada, muitos jovens podem deixar de adquirir a
experiência necessária para avançar na carreira. As consequências incluem menor
consumo, redução das taxas de compra de imóveis, adiamento da formação de
famílias e aumento da frustração social. Muitos se dizem cada vez mais
endivididados.
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Os setores mais afetados
A OIT
identificou aumento das taxas de desemprego juvenil em oito das 11 regiões do
mundo entre 2023 e 2025, incluindo o Leste Asiático, a América do Norte e o
Sudeste Asiático e Pacífico.
A
redução de oportunidades foi mais acentuada nos setores de manufatura,
construção e serviços.
Por
outro lado, segundo Elder, empregos técnicos altamente qualificados e
intensivos em conhecimento, como os das áreas de ciência, engenharia, saúde e
tecnologia da informação e comunicação, apresentaram desempenho mais favorável
e seguiram em expansão na maioria dos países.
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Cenário exige novos investimentos
O
crescimento econômico mais lento, a concorrência acirrada entre graduados e as
mudanças nos critérios de contratação tornaram mais difícil para muitos jovens
conquistar o primeiro emprego.
Na
Alemanha, uma pesquisa da consultoria EY mostrou que os estudantes estão menos
otimistas em relação à possibilidade de encontrar trabalho adequado após a
graduação do que estavam há dois anos. A segurança no emprego também superou o
salário como principal critério na escolha de um empregador.
Para
Elder, esse cenário evidencia a necessidade de investimentos públicos e
privados na criação de empregos de qualidade e em políticas que facilitem a
transição dos jovens da escola para o mercado de trabalho.
Henseke,
por sua vez, demonstra cautela ao atribuir o problema à qualificação das novas
gerações.
"É
muito improvável que os graduados de hoje sejam menos capacitados do que
aqueles que concluíram os estudos há apenas alguns anos, e as competências
exigidas pelos empregadores não mudaram da noite para o dia", afirma.
"Mais
do que qualquer outra medida, o que realmente ajudaria seria um crescimento
econômico mais forte", conclui.
Ainda
assim, ele não vê a Europa enfrentando atualmente uma crise generalizada de
emprego juvenil. A taxa de desemprego juvenil na União Europeia foi de 15,2% em
maio, contra 5,9% para a população em geral.
Desde
2022, a proporção de jovens que não estudam, não trabalham nem participam de
programas de formação aumentou apenas em alguns países europeus, como Áustria e
Alemanha, e caiu em grande parte do sul do continente.
"O
desemprego juvenil também não é novidade na Europa", afirma. "Ele foi
especialmente grave após a crise financeira global, e as maiores melhorias
ocorreram justamente nos países mais afetados naquele período."
Fonte:
DW Brasil

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