quinta-feira, 23 de julho de 2026

De Cuba a Vietnã: os estrangeiros que lutaram pela Rússia e morreram na guerra na Ucrânia

Pelo menos 3.589 cidadãos estrangeiros de mais de 40 países morreram lutando ao lado da Rússia desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, segundo uma investigação da BBC.

Entre eles estão detentos recrutados em prisões russas, migrantes que dizem ter sido coagidos ou enganados, voluntários atraídos pelos altos salários e militares norte-coreanos enviados ao conflito em cumprimento a um acordo entre Rússia e Coreia do Norte.

A BBC News Rússia, serviço em russo da BBC, e o site independente Mediazona mantêm um levantamento das mortes confirmadas nas forças russas com base em informações de fontes abertas, como comunicados oficiais, publicações em redes sociais e imagens de túmulos e memoriais de guerra.

Um dos nomes da lista é o de Edson Kamwesigye, de Uganda. Segundo a família, ele acreditava que viajaria para a Rússia para trabalhar como segurança.

O ugandense, de 45 anos, havia trabalhado como segurança no Iraque e no Afeganistão nos anos 2000, mas nunca participou de combates, contou sua mulher, Caroline Mukuza, a jornalistas.

Quando as oportunidades de trabalho na área de segurança no exterior diminuíram, ele voltou para Uganda, onde passou a dirigir táxi e tentou viver da agricultura. A renda mal dava para sustentar a mulher e os dois filhos.

Em dezembro de 2025, Kamwesigye disse à família que havia conseguido outro emprego como segurança, desta vez na Rússia. Mas, em 16 de janeiro deste ano, telefonou para a Mukuza com uma notícia diferente.

"Ele me pediu que rezasse por ele porque estava passando por treinamento militar e em breve seria enviado para a linha de frente", disse Mukuza ao jornal alemão Taz.

Uma semana depois, Kamwesigye foi morto nas proximidades de Kupiansk, no nordeste da Ucrânia, conforme a BBC News Rússia conseguiu confirmar.

A mulher ainda tenta repatriar o corpo. A imprensa local informou que as autoridades de Uganda se recusaram a providenciar o retorno dos restos mortais. Até junho de 2026, pelo menos outros dois ugandenses que lutavam pela Rússia também haviam morrido, segundo a imprensa de Uganda.

Kamwesigye está entre os 1.285 combatentes estrangeiros do Exército russo cujas mortes foram confirmadas pela BBC News Rússia. O grupo inclui cidadãos de Cuba, Estados Unidos, China, Vietnã, Polônia, Índia, Nepal, Sérvia e diversos outros países.

Outros 2.304 militares norte-coreanos foram identificados pela BBC News Coreia, serviço coreano da BBC, por meio de imagens de satélite e fotografias oficiais de um memorial militar em Pyongyang, capital da Coreia do Norte. Eles morreram em combates contra tropas ucranianas na região russa de Kursk, após a incursão lançada pela Ucrânia em agosto de 2024.

Acredita-se que o número total de estrangeiros que lutaram ao lado da Rússia, incluindo os que sobreviveram, seja várias vezes maior.

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) estima que cerca de 24 mil mercenários estrangeiros de 44 países combatam nas forças russas, disse uma alta autoridade da aliança à BBC News Rússia durante a cúpula realizada em Ancara, capital da Turquia, em julho. Segundo essa fonte, a maioria é formada por pessoas originárias de países africanos.

"Provavelmente centenas de africanos assinaram contratos. Alguns o fizeram voluntariamente, enquanto outros foram coagidos", afirmou.

Nossa lista não inclui moradores das regiões ucranianas da Crimeia, Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporizhzhia que lutam ao lado da Rússia, pois eles são contabilizados separadamente. Por isso, suas mortes não aparecem neste levantamento.

Mas a lista inclui 25 cidadãos ucranianos de outras partes da Ucrânia que morreram na linha de frente integrando formações russas. A maioria deles se alistou para a guerra a partir de colônias penais.

<><> Recrutamento em prisões e no exterior

Quando a invasão em larga escala da Ucrânia lançada pela Rússia, em fevereiro de 2022, não teve o desfecho rápido esperado, a Rússia logo percebeu que faltavam soldados.

Em meados de 2022, presos, inclusive estrangeiros, passaram a receber a opção de deixar a prisão em troca de combater na guerra. Inicialmente, o recrutamento foi conduzido pelo grupo militar privado Wagner e, posteriormente, passou para o Ministério da Defesa da Rússia.

O programa atingiu principalmente cidadãos de antigos países da União Soviética, sobretudo da Ásia Central. Mais da metade dos cidadãos do Uzbequistão e do Tadjiquistão mortos na guerra, por exemplo, eram pessoas que haviam sido enviadas ao fronte a partir de prisões russas.

Em 2024, as autoridades russas aumentaram significativamente os pagamentos oferecidos a quem ingressasse nas Forças Armadas.

Os valores variam conforme a região, mas quem assina um contrato a Rússia atualmente recebe cerca de US$ 30 mil (cerca de R$ 166,2 mil) de bônus de adesão, pagos de uma só vez, além de um salário mensal de aproximadamente US$ 3,5 mil (cerca de R$ 19,4 mil). Com bônus por participação em combate, os ganhos no primeiro ano podem ultrapassar US$ 72.300 (cerca de R$ 400,7 mil) para recrutas de Moscou.

A renda média mensal na Rússia é de cerca de US$ 760 (cerca de R$ 4.200).

Por volta desse período, também teve início o recrutamento de moradores de países mais distantes, como Cuba, Nepal, Índia, Sri Lanka e Iêmen. Alguns sabiam que estavam ingressando nas Forças Armadas. Outros afirmaram que viajaram para a Rússia acreditando que iriam estudar ou trabalhar na construção civil ou na área de segurança, mas acabaram enviados para treinamento militar e, depois, para a linha de frente.

Desde meados de 2025, organizações de direitos humanos e advogados vêm relatando uma nova onda de pressão sobre trabalhadores migrantes de antigos países da União Soviética que vivem na Rússia. Segundo esses relatos, alguns receberam ofertas de ajuda para resolver ordens de deportação, proibições de entrada no país ou pedidos de cidadania em troca da assinatura de contratos com o Exército. Outros disseram ter sido ameaçados.

Também houve esforços para recrutar pessoas de países africanos mais pobres, segundo a agência de notícias Reuters e a Federação Internacional pelos Direitos Humanos.

A Coreia do Norte é um caso à parte. Diferentemente dos demais estrangeiros recrutados individualmente, seus militares foram enviados oficialmente pelo governo norte-coreano com base em um acordo de defesa firmado com a Rússia.

Apesar do alcance geográfico da campanha de recrutamento, os estrangeiros representam uma parcela pequena das perdas russas. Mesmo somando os militares norte-coreanos, eles correspondem a menos de 2% das 233.033 mortes confirmadas pela BBC.

Eles não são capazes de substituir a principal fonte de soldados da Rússia: seus próprios cidadãos. Mas, à medida que as baixas aumentam e menos russos parecem dispostos a assinar contratos, é provável que a Rússia continue buscando recrutas no exterior.

O governo russo não divulga novos dados oficiais sobre o número de militares mortos desde setembro de 2022 e, em geral, não comenta as conclusões das investigações da BBC News Rússia.

<><> A 'legião estrangeira' da Ucrânia

A Ucrânia também recruta cidadãos estrangeiros por meio de um sistema nacional criado após o início da invasão em larga escala lançada pela Rússia, em fevereiro de 2022.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, criou a Legião Internacional da Ucrânia poucos dias depois do início da guerra e fez um apelo para que voluntários de outros países se alistassem. Atualmente, estrangeiros servem tanto na Legião Internacional quanto em outras unidades das Forças Armadas ucranianas. Sob a lei marcial, eles só podem deixar o serviço voluntariamente após seis meses consecutivos de atuação, em condições normais.

Em junho deste ano, Zelensky anunciou que a Ucrânia aumentaria os salários dos militares e buscaria recrutar mais combatentes no exterior, diante da escassez de efetivos enfrentada pelo Exército após quatro anos de guerra com a Rússia.

A Ucrânia não divulga um número consolidado de estrangeiros mortos em combate. Em agosto de 2025, um responsável pela coordenação do serviço de militares estrangeiros afirmou ao veículo ucraniano Hromadske que mais de 8 mil voluntários estrangeiros haviam ingressado apenas nas forças terrestres.

Segundo ele, o total em todos os ramos das Forças Armadas ucranianas pode chegar a pelo menos 16 mil militares, oriundos de 72 países.

O perfil do contingente estrangeiro mudou ao longo da guerra. Os primeiros voluntários eram, em grande parte, cidadãos de países ocidentais e de ex-repúblicas soviéticas, alguns com experiência militar.

Posteriormente, a Ucrânia passou a desenvolver estruturas de recrutamento e de comando em espanhol, e centenas de veteranos colombianos se juntaram às forças ucranianas. Alguns afirmam que viajaram para defender a Ucrânia. Para outros, a remuneração é um fator importante: os salários pagos a quem atua na linha de frente podem ser várias vezes superiores aos recebidos por militares na Colômbia.

Os estrangeiros que servem na Ucrânia recebem o mesmo salário dos militares ucranianos: cerca de US$ 2.690 (cerca de R$ 14,9 mil) por um mês completo de combate. Além disso, recebem US$ 1.570 (cerca de R$ 8.700) para cada período acumulado de 30 dias na linha de frente.

Ainda assim, dos dois lados do conflito, os combatentes estrangeiros representam apenas um reforço limitado para forças militares que continuam sendo compostas, em sua ampla maioria, por russos e ucranianos.

Segundo dados do Ministério das Relações Exteriores do Brasil até junho de 2026, pelo menos 33 brasileiros morreram no confronto (2 na Rússia e 31 na Ucrânia) e outros 76 estão desaparecidos em combate. Não há registro oficial de brasileiros detidos como prisioneiros de guerra.

¨      Kiev transformou o assassinato de civis em 'entretenimento' semelhante a jogo de computador, afirma Zakharova

A representante oficial do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, declarou que o regime de Kiev havia transformado a caça à população civil de Donbass em algo semelhante a um jogo de computador.

Segundo ela, Kiev criou uma indústria de assassinatos de civis à distância, convertendo essa prática em uma forma de entretenimento na qual a tela do monitor supostamente isenta o operador do drone da responsabilidade pelos assassinatos.

A diplomata também chamou atenção para o fato de que, em Donbass, estava sendo construída "toda uma indústria de assassinato à distância da população civil" — com sua própria tecnologia, logística e apoio diário do Ocidente.

"Durante oito anos, a propaganda de Kiev incutiu em seus cidadãos a ideia de que os moradores de Donbass não são ucranianos, nem europeus e, na verdade, nem sequer são pessoas", afirmou ela durante a apresentação do relatório do Tribunal Público Internacional sobre os crimes dos neonazistas ucranianos.

Zakharova ressaltou que todos os envolvidos nesses crimes serão identificados e punidos.

<><> Não importa o que o Ocidente faça, Rússia encontra apoio dos países do mundo não ocidental, diz jornal

Apesar de a Europa ter cortado todas as relações com a Rússia e imposto um número sem precedentes de sanções, o país não cedeu e estreitou laços com as nações do Sul Global, escreveu um jornal norte-americano.

Quando a Rússia iniciou a operação militar especial, em 2022, muitos países ocidentais esperavam que Moscou se tornasse um "inimigo jurado". No entanto, em breve, os adversários da Rússia perceberam que o país nunca desapareceria, relata a publicação do The New York Times.

"A Rússia logo se tornou um fenômeno curioso: o país com mais sanções do mundo, mas ao mesmo tempo perfeitamente capaz de se manter à tona. O afastamento da Europa foi compensado por relações cada vez mais estreitas com os países do Sul Global", diz a matéria.

Assim, segundo os autores da reportagem, a Rússia conseguiu se adaptar às sanções ocidentais e obter apoio em países não ocidentais, como os Emirados Árabes Unidos, a África do Sul e a Geórgia.

Ao realizar com sucesso centenas de eventos no âmbito do grupo BRICS no ano de sua presidência, em 2024, a Rússia impressionou seus parceiros e deixou claro para o mundo que não ficará isolada por causa das restrições ocidentais, destaca a publicação.

A Rússia enfatizou repetidamente que o país lidará com qualquer pressão de sanções que o Ocidente começou a exercer há vários anos e continua a intensificar.

Moscou ressaltou que o Ocidente não tem coragem de admitir o fracasso das sanções contra a Rússia. Os próprios países ocidentais expressaram repetidamente a opinião de que as sanções antirrussas são ineficazes.

<><> 'Chegou a hora': especialista apela à União Europeia para retomar diálogo diplomático com Rússia

A União Europeia deve parar de sabotar a resolução diplomática do conflito ucraniano e iniciar o diálogo com a Rússia, afirmou na rede social X o professor da Universidade do Sudeste da Noruega Glenn Diesen.

Após o início da operação militar especial, em 2022, a União Europeia nomeou russófobos radicais para altos cargos dentro do bloco e boicotou assim a diplomacia, escreveu Diesen.

"Agora, quando as hostilidades devem acabar, chegou a hora de trazer de volta diplomatas normais e reviver a diplomacia", destacou o especialista europeu.

O professor explicou que os russófobos radicais que se encontraram no poder na UE após o início da operação militar especial são incapazes de seguir uma política sólida. Isso precisa ser corrigido agora, acrescentou Diesen.

Anteriormente, a mídia noticiou que os líderes europeus procuravam um candidato adequado para o papel de negociador com a Rússia.

Já foram citados os nomes dos ex-chanceleres alemães Gerhard Schroder e Angela Merkel, do ex-primeiro-ministro italiano Mario Draghi, do presidente do Conselho Europeu António Costa, da chefe do serviço diplomático da UE Kaja Kallas, de sua chefe, a atual presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen, e de outros.

Como observou o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, Moscou não tem ilusões sobre os planos reais da UE de participar da resolução da situação na Ucrânia.

Ele também enfatizou que o líder ucraniano, Vladimir Zelensky, estava apresentando condições grosseiras e irrealistas tanto para Moscou quanto para os seus curadores do Ocidente.

 

Fonte: BBC News Mundo/Sputnik Brasil

 

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