Hegemonia
imperialista em crise, tarifaço e a ameaça do PIX
Há mais
de um ano Trump iniciou seu carrossel de ameaças ao Brasil por meio de tarifas
comerciais. Depois de implementações breves e recuos consecutivos, o governo
dos Estados Unidos voltou a anunciar essas medidas para uma série de produtos
importados do Brasil, dessa vez com uma alíquota de 25%. Entre os motivos
elencados por uma suposta investigação do Escritório do Representante Comercial
dos Estados Unidos (USTR) estão — as também supostas — barreiras comerciais ao
etanol estadunidense no Brasil, a fragilidade na aplicação de leis
anticorrupção, tarifas preferenciais concedidas a países como México e Índia, e
até acusação de frouxidão no combate ao desmatamento ilegal. Além disso,
mencionam o comércio digital e os serviços de pagamento eletrônico, em que
misturam, num mesmo balaio, questões de regulamentação das plataformas digitais
e big techs e o principal serviço de pagamentos digitais
instantâneos utilizado no país, de criação originalmente brasileira e oferecido
gratuitamente, o PIX.
O uso
de tarifas comerciais como instrumento de subjugação política, diplomática e
econômica foge a todos os acordos multilaterais estabelecidos e não encontra
respaldo legal, nem legítimo, na Organização Mundial do Comércio (OMC), mas se
tornou o principal instrumento de chantagem dos EUA frente à sua própria
decadência, ao crescimento de outros polos econômicos e geopolíticos no mundo
e, consequentemente, ao temor da perda de sua influência sobre regiões onde
busca manter sua hegemonia imperialista. Ao Brasil, enfrentar com firmeza essas
intimidações e construir alternativas no comércio e na estrutura produtiva
nacional são movimentos indispensáveis à manutenção da soberania econômica,
digital e política.
O
insistente apelo de Trump por tarifas comerciais como instrumento de chantagem
— ou subjugação — não é meramente casuístico ou aleatório, mas tem embasamento
num projeto claro e que se estrutura em reação à situação desconfortável que
vive o império estadunidense, com o declínio de sua hegemonia e a ascensão de
novos polos de poder geopolítico e econômico no mundo, especialmente a China.
Mas
vamos por partes. E aqui quero me valer de três etapas para conduzir essa
história: 1) os abalos na hegemonia dos Estados Unidos no mundo, tomando
emprestado o conceito de dominação sem hegemonia cunhado por Gramsci e
utilizado nas reflexões de Arrighi; 2) as estratégias de Trump para tentar
reparar esses buracos no casco de uma gigantesca embarcação em lento naufrágio,
com destaque para o papel das tarifas comerciais; 3) e por fim, porque nesse
cenário o Brasil, as plataformas digitais e o PIX são tão relevantes.
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Uma hegemonia em crise
Comecemos
pelos tremores na hegemonia estadunidense. Em 2008, o economista italiano, e de
tradição marxista, Giovanni Arrighi sentou-se para escrever a última
obra de sua vida, Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século
XXI. E o título não é mera provocação. A tese é que a ascensão chinesa — e,
com ela, a de outras potências asiáticas — não é uma cópia tardia do
capitalismo ocidental, mas o desdobramento de um caminho próprio: aquele que o
velho Adam Smith batizou de “caminho natural” do desenvolvimento, baseado no
mercado, mas não necessariamente capitalista, de uso intensivo de mão de obra e
— repare nesse detalhe, que voltará a nos assombrar — poupador de energia. Onde
o Ocidente acumulou capital e poder de forma “interminável”, a Ásia teria trilhado
uma via mais horizontal. E é justamente aí que Arrighi enxerga a semente de uma
“sociedade mundial de mercado baseada em maior igualdade entre as
civilizações”, como sonhara Smith, e, no mesmo gesto, o lento declínio da
hegemonia estadunidense.
Escrevendo
ainda sob a fumaça da invasão do Iraque, Arrighi lança mão de um conceito
afiado para dar nome ao que via: a dominação sem hegemonia. A ideia é
colhida de Ranajit Guha e apoiada no conceito elaborado
por Gramsci, e aqui convém não simplificar. Hegemonia, para Gramsci, não é
mero convencimento, mas uma força que repousa sobre um alicerce bem concreto:
poderio econômico, político e militar de fato conquistado. O grupo hegemônico
dirige porque é central na economia, porque comanda as instituições, porque, no
limite, tem superioridade militar; e é sobre esses alicerces que ele faz
concessões reais aos grupos subordinados e consegue vestir seus próprios
interesses com a roupagem do interesse geral. A coerção não some nesse arranjo:
fica de prontidão, discreta, na retaguarda. Hegemonia é, nas palavras de
Arrighi, a capacidade dos grupos dominantes de apresentar seu domínio como se
servisse não só aos seus próprios interesses, mas também aos dos grupos
subordinados. Quando essa capacidade se esgota e sobra apenas o porrete
escancarado, não há mais hegemonia, há dominação nua e crua.
E foi
isso, argumenta Arrighi, que a guerra no Iraque revelou: os Estados
Unidos saíram politicamente derrotados daquelas incursões, revelando sua
incapacidade de liderar pelo consenso e pela força das instituições globais.
Sobrava-lhes a força bruta. Uma possível comparação com os recentes
ataques ao Irã não se trata de mera coincidência. Nesses momentos, a
tentativa de impor domínio se veste de farda militar; nada impede, porém, que
se manifeste de outras formas, como a arma econômica e a chantagem diplomática,
encarnadas, hoje, em sanções comerciais ou nos malfadados tarifaços.
A ascensão
da China como protagonista global na corrida tecnológica, uma enorme
liquidez de capital para financiamento externo, aliada a um imenso mercado
consumidor e a uma enorme demanda por importações, dinamizou o comércio com
diversas partes do mundo. Essa nova possibilidade reduziu a dependência
comercial — e, por vezes, até financeira — de vários países em relação aos
Estados Unidos e à Europa. E essa dinâmica não apenas se confirmou, como se
tornou tendência. No Oriente Médio, a exportação de petróleo se deslocou
majoritariamente para a Ásia; a África se consolidou como fornecedora de
importantes minerais críticos e metais estratégicos; e o Brasil, de um lado,
viu sua balança comercial melhorar com o aumento substancial das exportações de
alimentos e, de outro, tornou-se um destino cada vez mais relevante do
investimento estrangeiro direto chinês.
No
âmbito financeiro, as transformações ocorrem em ritmo mais lento, mas já podem
ser percebidas. Depois de se consolidar no topo da hierarquia monetária, os
Estados Unidos passaram a registrar déficits comerciais gigantescos,
sustentados pela imensa demanda por dólares e por títulos do Tesouro
estadunidense — a principal moeda das transações comerciais e de reserva de
valor internacional — de que os demais países precisam para liquidar seus
negócios e guardar suas reservas. Esse processo foi, em boa medida, alimentado
pela própria ascensão chinesa: entre 2000 e 2024, de acordo com dados do
próprio governo da República Popular da China, suas importações saltaram de
cerca de US$ 225 bilhões para aproximadamente US$ 2,59 trilhões — um
crescimento superior a 1.000% —, enquanto suas reservas internacionais saltaram
de US$ 165 bilhões, em 2000, para cerca de US$ 3,4 trilhões, em 2025, após
alcançarem um pico de quase US$ 4 trilhões em 2014. Ao acumular esse colossal
volume de reservas — em grande parte aplicado em ativos denominados em dólar —,
a China tornou-se uma das principais financiadoras do déficit norte-americano.
No
entanto, ao menos três movimentos vêm corroendo o papel do dólar. O primeiro é
o avanço dos investimentos e empréstimos externos chineses. O segundo é a
ascensão lenta, porém persistente, do renminbi: embora ainda modesto nos
pagamentos globais — cerca de 3,1% em janeiro de 2026, na quinta posição, atrás
de dólar, euro, libra e iene —, o yuan já responde por perto de metade das
transações transfronteiriças da própria China (num recorte em que o dólar caiu
de cerca de 80% para 50%) e por aproximadamente 6% do financiamento ao comércio
mundial. O terceiro é a redução deliberada e sustentada das reservas de títulos
do Tesouro estadunidense pelo Banco Popular da China: de um pico de US$ 1,32
trilhão, em novembro de 2013, para cerca de US$ 680 bilhões no fim de 2025 —
uma queda de quase 50% que fez a China recuar do primeiro para o terceiro lugar
entre os maiores credores estrangeiros dos EUA, atrás de Japão e Reino Unido.
Evidentemente,
essa movimentação nas placas tectônicas do capitalismo global não passaria
ilesa a uma reação irritada do imperialismo estadunidense. E aliás, em certa
medida chega a ser grosseira a similaridade na propaganda e na estratégia
utilizadas por Donald Trump, ao ressuscitar o movimento “Make America
Great Again”, com o momento em que essa expressão foi cunhada, durante o
governo de Ronald Reagan, contexto também marcado por inflação
elevada e desemprego crescente, que já prenunciava o fim da era dourada da
economia do pós-guerra. A década de 1980 representou a superação do capitalismo
regulado e do Estado de bem-estar social associados aos acordos de Bretton
Woods. Esse período viu a concentração de renda nos Estados Unidos disparar
para patamares inéditos, impulsionada por inovações financeiras que permitiram
ganhos estratosféricos por meio de instrumentos de capital fictício, cada vez
mais descolados dos ativos reais da economia.
Mas
esse declínio também tem raízes internas. A mesma globalização financeira que
reorganizou a economia norte-americana — com a desintegração vertical das
empresas, o offshoring e o outsourcing rumo à
mão de obra barata asiática — aprofundou uma fratura dentro dos próprios
Estados Unidos. A produtividade líquida da economia disparou cerca de 90% entre
1979 e 2025, mas a remuneração do trabalhador mediano cresceu apenas 33% no
mesmo período: a riqueza foi gerada, mas cada vez menos distribuída. Sob o
“capitalismo de gestão de ativos”, fundos de investimento impuseram uma lógica
de curto prazo voltada ao valor para o acionista, e executivos passaram a ser
remunerados maciçamente em ações e bônus — de modo que a razão entre o salário
de um CEO e o de um trabalhador típico saltou de 31 vezes, em 1978, para 280,7
vezes em 2024 (chegando a 408,5 vezes em 2021). A hegemonia estadunidense,
portanto, corrói-se por fora e por dentro ao mesmo tempo: perde terreno no
tabuleiro global enquanto concentra renda e ressentimento em casa. É diante
dessa dupla crise que o governo dos Estados Unidos ensaia suas respostas para
tentar preservar o próprio império.
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A reação de um império em declínio
Não por
acaso Trump lança mão das mesmas estratégias adotadas por Reagan. Para decifrar
essa estratégia, é fundamental examinar as ideias de Stephen Miran,
ex-presidente do Conselho de Consultores Econômicos de Trump e que atuou,
ainda, como conselheiro na Casa Branca e atual governador do Federal Reserve.
Considerado um dos arquitetos do “Acordo de Mar-a-Lago”, Miran publicou, no
final de 2024, “Um guia do usuário para a Reestruturação do sistema de comércio
global” quando ainda era estrategista na empresa de consultoria Hudson
Bay Capital. Suas teses repousam sobre o objetivo de “reconfigurar os
sistemas globais de comércio e finanças em benefício dos Estados Unidos”
(Miran, 2024, p. 38, tradução livre) e confrontam Wall Street ao defender que o
Estado pode influenciar a taxa de câmbio do dólar por meio de ferramentas
multilaterais ou unilaterais.
Entre
as medidas unilaterais, Miran chega a sugerir a compra de moedas estrangeiras,
a venda massiva de dólares, restrições legais a transações cambiais e até uma
taxação de uso sobre títulos do Tesouro dos EUA detidos por governos
estrangeiros. No entanto, as tarifas comerciais emergiram como sua ferramenta
preferencial, isto é: “um instrumento pelo qual se pode obter com sucesso
alavancagem de negociação — e receita — junto a parceiros comerciais” (Miran,
2024, p. 38, tradução livre), provavelmente sendo usadas antes de qualquer
intervenção cambial.
O
objetivo principal é financiar o déficit em conta corrente dos EUA, mas também
reduzir o déficit fiscal e proteger a indústria nacional da concorrência
internacional — notadamente a chinesa — e da desvantagem cambial. Contudo, as
consequências desse tipo de estratégia já se manifestam: a elevação do custo
global do financiamento da economia estadunidense, pressões inflacionárias
adicionais sobre o consumo e o afastamento de aliados históricos, que podem se
sentir prejudicados pela postura coercitiva.
Políticas
multilaterais de desvalorização cambial não são novidade, como demonstram os
Acordos do Plaza e do Louvre nos anos 1980 (período em que Reagan também
buscava “tornar a América grande novamente”). No entanto, o uso de ferramentas
unilaterais e coercitivas como na forma atual é inédito e expressa uma
característica do conceito de dominação sem hegemonia.
Num
cenário em que os alicerces do sistema monetário internacional baseados no
dólar estão abalados e a força do comércio global se desloca da centralidade
nos Estados Unidos, fica evidente que esse país vê seu poder ameaçado; suas
fundações, contudo, permanecem sólidas e com raízes profundas. Um marco
tecnológico fundamental reforça essas fundações: o paradigma da tecnologia da
informação. As plataformas digitais passaram a permear quase todas as
esferas das relações sociais, e são parte cotidiana da sociedade moderna. Por
deter o domínio tecnológico e de propriedade das principais plataformas
utilizadas no mundo, os Estados Unidos mantêm capacidade de sustentar sua
hegemonia que se espalha por meio desses serviços. E os serviços de
intermediação financeira digital estão intrinsecamente ligados a esse processo.
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A centralidade do Brasil e do PIX para a reação estadunidense
A
lógica coercitiva com que os EUA tentam sustentar seu domínio materializa-se,
de forma exemplar, no caso brasileiro. As tarifas de 25% anunciadas em julho de
2026 apoiam-se numa investigação do USTR sob a seção 301 que, a pretexto de
práticas “desleais”, apenas reembala acusações já mencionadas (do etanol às
tarifas preferenciais, do “combate à corrupção” ao desmatamento). Entre elas,
uma se destaca e revela o alvo real: o comércio digital e os serviços de
pagamento eletrônico, com foco nas ordens judiciais a plataformas como X, Meta
e Google e no suposto favorecimento ao PIX. O próprio Representante de
Comércio, Jamieson Greer, resumiu o espírito da medida ao afirmar que proteger
os interesses econômicos americanos contra práticas desleais seria o fundamento
da política “América Primeiro” de Trump. Por trás do discurso, porém, o que
está em jogo é mais profundo: não uma lista de queixas comerciais, mas os
próprios alicerces, monetários e tecnológicos, sobre os quais os Estados Unidos
ainda sustentam seu poder.
Nesse
tabuleiro, o Brasil se torna peça-chave por pelo menos três razões. A
primeira é geopolítica: sua posição estratégica no comércio disputado
entre Estados Unidos e China. A segunda é econômica: trata-se de um amplo
mercado consumidor sob influência histórica dos EUA, sobretudo para serviços de
tecnologia da informação. E a terceira, a que mais importa aqui, é
a construção de alternativas financeiras, como a aproximação com os BRICS
em torno de plataformas de pagamento e instituições próprias e, no centro dela,
o PIX. É esse terceiro canal que ganha relevância especial no contexto atual, e
é para ele que voltamos nossa atenção, pelo simbolismo que representa para o
país.
Os
desdobramentos que a consolidação do PIX traz consigo podem não parecer óbvios
à primeira vista, mas têm uma amplitude que vai muito além da disputa
propagandística. A evolução dos sistemas digitais de pagamento está
diretamente ligada ao monopólio de empresas estadunidenses (algumas já
amplamente conhecidas, como Visa e Mastercard), mas a grande virada nessa
história é a entrada das big techs nesse tipo de serviço.
O modelo que faria do WhatsApp, controlado pela Meta, a principal
plataforma de pagamentos do Brasil já estava lançado e prometia revolucionar um
mercado prestes a ser dominado por uma big tech estrangeira, à semelhança do
que o WeChat faz na China, com a “singela” diferença de ser uma empresa
nacional, submetida a forte regulação e supervisão estatal.
Em um
outro trecho do documento de Miran, na seção “financial extraterritoriality”,
ele descreve como o controle do dólar permite aos EUA congelar ativos,
cortar países do SWIFT e restringir acesso ao sistema bancário, ou seja, o
poder de coagir “without having to mobilize a single soldier”(Miran, 2024, p.
10, tradução livre). O PIX pôde, ao mesmo tempo, frustrar a possibilidade
das big techs estadunidenses se consolidarem no setor de
pagamentos digitais num mercado importantíssimo e levantar possibilidades de
acordos internacionais envolvendo transações instantâneas e gratuitas, que
podem servir, inclusive, de base para o desenvolvimento de outras inovações
tecnológicas financeiras também para transações transfronteiriças, a exemplo do
que se busca desenvolver com o BRICS Pay.
A perda
desse mercado não significa apenas a perda de possibilidades de lucro, mas
da capacidade de controle de uma imensa quantidade de dados e informações
financeiras num país de grande relevância geopolítica e cuja capacidade
política de impor normas e regulações sobre a ingerência de empresas
estrangeiras é ainda muito limitada. Portanto, a existência do PIX é, de
antemão, uma proteção indispensável à soberania financeira do Brasil, além de
tantas outras vantagens oferecidas ao cidadão brasileiro em suas transações
bancárias cotidianas. O PIX é um avanço civilizacional, um serviço de
utilidade pública que possibilita reduzir custos e distâncias, facilitar o
trabalho de pequenos produtores, autônomos e empresários, agilizar processos,
num mundo moderno permeado pela quase essencialidade de serviços digitais,
tornando-se então um avanço em termos de serviços essenciais ao cidadão
brasileiro. Questionar o PIX em relação à concorrência de empresas
privadas seria como questionar a oferta de vacinas gratuitas pelo SUS por
competir com as empresas privadas da indústria farmacêutica, é uma contradição
humanitária.
O
enredo que se desenrola desde o anúncio de tarifas por Trump, que vai desde as
justificativas políticas, como os processos movidos contra Bolsonaro, até todos
esses interesses não ditos, evidencia o caráter político dessas tarifas.
Mas essas medidas descumprem todas as normas e regras estabelecidas nos acordos
internacionais e nas instituições multilaterais, e mesmo que sempre tenham
atuado como um braço da hegemonia dos EUA, seguem paralisadas e sem capacidade
— ou sem interesse — de reagir, um exemplo claro é a inércia da OMC. E
quanto mais medidas ilegais são levadas a cabo, menos as regras e acordos
estabelecidos têm funcionalidade.
O
governo brasileiro acerta quando reage com firmeza na defesa do PIX e não
aceita as tarifas. Negociações e instituições multilaterais devem sempre
ser um canal a se utilizar, mas esse momento se apresenta também como uma
encruzilhada histórica. As pressões e chantagens dos Estados Unidos não vão
cessar com base na negociação e tampouco por medidas da OMC, portanto cabe
também ao país construir uma estratégia de soberania de longo prazo e
estruturada, o que pressupõe a diversificação de parceiros comerciais, o avanço
na consolidação de uma estrutura produtiva diversificada e de maior teor
tecnológico, a construção de novos blocos de transações financeiras que reduzam
o poder do dólar e o desenvolvimento de novas tecnologias da informação que
reduzam a dependência das big techs estrangeiras,
especialmente no setor de transações financeiras, e nisso o PIX é um grande
trunfo.
Esse
cenário cria aberturas para o fortalecimento de alternativas, ainda que
incipientes, como as iniciativas dos BRICS. O papel de liderança do Brasil e de
Lula no bloco, somado ao desgaste da extrema-direita brasileira após as
tentativas de golpe frustradas, contribuiu para que o país se tornasse um alvo
preferencial. Mas ser alvo, aqui, é também sinal de que há o que defender:
resistir a essas chantagens e apostar em alternativas soberanas é cada vez mais
uma necessidade — e, nesse tabuleiro, o PIX é menos um meio de pagamento
do que a prova de que outros caminhos são possíveis.
Fonte:
Por Iago Montalvão, no Blog da Boitempo

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