Data
centers na América Latina: novas veias do extrativismo
Em
diversos países da América Latina tem ocorrido um processo intenso de
planejamento e construção de data centers. Essa dinâmica está associada à
ampliação do uso da chamada Inteligência Artificial generativa, que aprofunda a
voracidade das Big Techs na busca por lugares que comportem, geográfica e
socialmente, as instalações de seus data centers.
Os
impactos e conflitos socioambientais que emanam dessa investida são variados e,
em que pese tenham uma roupagem de dilema contemporâneo, expressam tensões
antigas nas sociedades latino-americanas. Neste artigo, analisaremos mais de
perto os casos da Argentina e do Brasil, buscando identificar como o
extrativismo, que marca ambas as nações, se relaciona com os desafios
ambientais da crise climática em um mundo onde imperialismo e extrema direita
avançam sobre recursos naturais e a força de trabalho.
<><>
Data centers e o impacto ambiental
Data
centers são estruturas de armazenamento e processamento de dados de imensas
proporções, que operam sobretudo para que sistemas de Inteligência Artificial
funcionem. A capacidade operacional das chamadas Inteligências Artificiais
generativas é significativamente mais complexa que modelos anteriores, esse
alto desempenho exige mais energia e espaço físico para operar.
Um data
center nada mais é do que uma grande edificação onde todo o equipamento
associado a esse processo é instalado e operado. A título de exemplo, vale
citar o maior data center do mundo em área física, o China Telecom Inner
Mongolia Information Park. Localizado em Hohhot, ele possui cerca de 1.000.000
metros quadrados e é o centro das operações de hiperescala da empresa China
Telecom.
O
principal impacto ambiental causado pelos data centers é o elevado consumo de
água, utilizada para esfriar o maquinário gigantesco que, durante o
processamento de dados, se superaquece. No caso dos países com maior
dependência de água para geração de energia elétrica, como é o caso do Brasil,
a demanda de energia de um data center compõe um segundo escoamento
significativo dos recursos hídricos da região.
Por
aqui, esse é o centro do principal conflito socioambiental associado à
instalação de data centers. A etnia indígena Anacé que vive no estado do Ceará,
organizou uma série de manifestações contrárias à instalação de um data center
no município de Caucaia, onde o empreendimento vem sendo realizado por um
conjunto de empresas associadas ao Tik Tok.
Os
números envolvendo o projeto são bastante relevantes. A previsão é de que as
instalações ocupem uma área equivalente a 12 campos de futebol. Do ponto de
vista hídrico, diariamente o volume de água consumido pode equivaler ao consumo
de 2,2 milhões de pessoas, considerando a média por indivíduo no Brasil. A
localidade já vive uma situação de vulnerabilidade hídrica – nos últimos 21
anos, vale lembrar, a região declarou emergência hídrica 16 vezes.
O
processo de estudo e início da construção remonta a tendências gerais que os
Estados latino-americanos historicamente vêm reproduzindo em obras de grande
impacto ambiental. Truculência institucional e social se articulam em um
processo repleto de ilegalidades e de construção de uma narrativa determinista
em relação a um suposto desenvolvimento econômico.
Do
ponto de vista legal, um elemento chama atenção no caso do data center de
Caucaia: a ausência de consulta prévia do povo Anacé é atentatória à
Constituição brasileira e à convenção 169 da Organização Internacional do
Trabalho, da qual o Brasil é signatário. Tanto o texto constitucional quanto o
acordo internacional determinam que grupos e etnias que sofrerão impactos
causados por grandes obras devem ser consultados antes de suas implementações.
As
ilegalidades, embora relevantes no processo de luta, são quase um detalhe em um
capitalismo marcado pelo extrativismo que drena força de trabalho e recursos
naturais há séculos nessa região do mundo. Ainda que associada a uma tecnologia
inédita, a conduta se insere na mesma dinâmica de pilhagem que Rosa Luxemburgo
(e, antes dela, o próprio marx Marx) reconheceu ao descrever os processos de
aquisição de terras ao longo do desenvolvimento capitalista. Mais recentemente,
autores como Maristella Svampa e Eduardo Gudynas designaram os processos
contemporâneos de lida com recursos naturais na América Latina como
neoextrativismo.
As
grandes obras de infraestrutura são chaves de leitura importantes, porque
condensam em tempo mais curto e num território menos vasto um profundo conflito
sobre o uso da terra, que marca parte significativa das atividades econômicas
latino-americanas no século XXI. É o caso da Usina Hidroelétrica de Belo Monte,
que foi construída e atualmente opera mesmo com intensas mobilizações de povos
indígenas por ela impactados.
Ainda
que haja significativas diferenças entre as realidades locais, a colonização na
América Latina estruturou uma lógica de espoliação da natureza que destruiu
biomas a partir de atividades sobretudo de mineração, pecuária e agricultura.
Essa é a marca da agricultura brasileira (monocultura e latifúndio atravessam
nossa história); da exploração de prata na região de Potosí, na Bolívia; e da
pecuária argentina, que criou uma dinâmica de exportação de lã, couro e,
evidentemente, carne bovina.
São
processos nos quais há uma articulação social e política que permite a
concentração de poder e privatiza os ganhos financeiros da extração de valor da
natureza (e do trabalho), enquanto socializa o passivo ambiental resultante de
uma lógica de acumulação que opera a partir de um “paradigma de Eldorado”, no
qual os biomas latino-americanos aparecem no imaginário dos setores
proprietários como um uma infinita fonte de riqueza.
Na
Argentina, o RIGI (Régimen de Incentivo para Grandes Inversiones) é o programa
que Milei tem utilizado para que grandes empresas de tecnologia acessem o solo
e os recursos argentinos, expandindo seus mercados, transferindo passivo
ambiental e promovendo hiperconcentração de renda.
No que
diz respeito aos data centers, o projeto Stargate Argentina é ilustrativo.
Trata-se de um empreendimento para instalação de data centers na Patagônia,
ainda sem local definido (há rumores de que possa ser na província de Neuquén
ou na de Río Negro). A Open IA e a Sur Energy são as empresas envolvidas, e a
proporção das instalações será gigantesca, com capacidade anunciada de 500 MW,
o que exige recursos hídricos e, de forma geral, naturais na mesma proporção.
Desse modo, com a anuência e o incentivo do governo argentino, a dinâmica que
se estabelece é que a Argentina fornecerá energia, água, território e
incentivos fiscais, enquanto o principal valor econômico gerado pela computação
e pelos modelos de IA permanecerá concentrado em corporações globais.
<><>
Dilemas e enigmas da emancipação latino-americana
Embora
os impactos ambientais da construção de data centers sejam inegáveis, há
setores sociais que sustentam que tais impactos poderiam estar subordinados a
uma lógica de construção de autonomia tecnológica dos Estados da América
Latina, de modo que, apesar do ônus ecológico, os centros de processamento de
dados fariam parte de um processo de fortalecimento da soberania e do
desenvolvimento nacional. Essa é a posição que o próprio governo federal
brasileiro vem expressando, tanto em falas do presidente Lula quanto de
Fernando Haddad, antigo Ministro da Economia e atual candidato a governador de
São Paulo pelo Partido dos Trabalhadores.
Nesse
sentido, o exame histórico de tendências do extrativismo na região ajuda a
compreender que empreendimentos associados à apropriação colossal da natureza
tendem a não contribuir com processos de emancipação social de setores
populares. Uma possível exceção seria, talvez, o caso venezuelano, que é
atravessado por tensões e contradições próprias. Contudo, antes de qualquer
coisa, deve-se notar que foram conduzidos em um contexto de alteração radical
das dinâmicas do poder.
Já o
que se observa nos países que não romperam (nem se propõem a romper) com o
capitalismo é que empreendimentos assim acabam operando para aprofundar
desigualdades, reafirmar a reprimarização da economia e impor pesados passivos
socioambientais às comunidades atingidas. Afinal, o extrativismo na América
Latina tem como uma de suas características fundantes e principais a total
adequação de suas estruturas à divisão internacional do trabalho.
Em que
pese a importância do desenvolvimento tecnológico nacional em todos os países
da região, não parece ser esse o caminho aberto pelos data centers. Mais que
isso, esse mesmo tipo de argumento tem sido historicamente reciclado repetidas
vezes para justificar, além dos data centers, empreendimentos como
mega-hidroelétricas e estradas que atravessam biomas, como a Amazônia.
Pode-se
argumentar que a construção de data centers não é propriamente uma atividade
extrativista, mas o que importa aqui é considerar como e sob qual lógica
recursos hídricos em proporção gigantesca serão utilizados. Inclusive e
principalmente porque, diante da crise climática, o acesso a água potável é um
dos elementos mais críticos colocados à humanidade.
Como
lembra Michael Löwy em artigo publicado na revista Margem Esquerda #42 | Crise
Ecológica, a crise climática “já é a questão social e política mais importante
do século XXI. Sua importância só aumentará nos próximos meses e anos”. Nesse
contexto, as disputas sociais em torno dos recursos tendem a se intensificar.
Nesse
sentido, é importante considerar que as iniciativas de construção dessas
infraestruturas de grande escala têm sido protagonizadas não pelos Estado (nem
no caso brasileiro, nem no argentino), tampouco por empresas nacionais (o que
poderia ao menos tensionar as tendências históricas do extrativismo), mas pelo
setor privado internacional, em particular as Big Techs. Ou seja, apostar que
os data centers vão operar uma lógica de fortalecimento da soberania e da
autonomia tecnológica é, em primeiro lugar, ignorar as tendências históricas
das obras de grande impacto associadas aos interesses do capitalismo
internacional.
Mas há,
além disso, mais um elemento à ser considerado. É preciso também reconhecer que
esse tipo de tecnologia tem sido dominada por um setor político e social que
opera na expansão dos interesses da extrema direita. A investida pela
construção de grandes data centers na América Latina não tem ocorrido em uma
realidade abstrata, na qual poderia representar uma democratização do acesso à
tecnologia e à informação, ao contrário, a materialidade na qual esse processo
se dá indica uma associação perigosa entre Big Techs, Inteligência Artificial,
redes sociais e extrema direita.
<><>
Avanço digital e extrema direita
O
fenômeno internacional da extrema direita no capitalismo contemporâneo não é,
evidentemente, uniforme; ele apresenta semelhanças e distinções em cada
realidade nacional. Há temas que se repetem e há assuntos específicos de
determinados grupos locais, mas talvez o espaço de um domínio mais profundo em
todos esses grupos sejam as redes sociais.
As
redes sociais e o avanço do uso de tecnologias em aparelhos individuais ocorreu
há algumas décadas e, no início, projetava um clima de inovação, ou mesmo de
ruptura que, mesmo em sintonia com o capitalismo neoliberal, estava distante do
conservadorismo social. Nos últimos anos, e em particular após a segunda
eleição de Donald Trump, esse espírito mudou radicalmente. Houve um profundo
ajuste de rota por parte dos donos dessas companhias, que passaram não apenas a
demonstrar publicamente apoio aos grupos e ideias de extrema direita, como
participaram do alto escalão de governos da extrema direita. Elon Musk e Mark
Zuckerberg são representativos de todo um conjunto de bilionários com essas
características.
A
identificação de que redes sociais favoreciam a circulação de ideias de extrema
direita foi apenas o início de um processo em que bilionários donos de redes
sociais e outras Big Techs passaram a defender publicamente uma visão de mundo
e uma agenda política que têm na espinha dorsal a exclusão de grupos étnicos, a
privatização de bens da natureza, o descontrole das redes sociais e a
hiperconcentração de renda. A articulação desse setor com Israel, com Milei,
com os Bolsonaro e, claro, com o governo dos Estados Unidos foi quase
automática.
No ano
de 2026, em particular, esse setor ainda intensificou suas investidas
imperialistas, apontando suas armas para governos que representavam algum tipo
de obstáculo a mercados e, sobretudo, recursos naturais necessários ao
desenvolvimento do capitalismo fóssil. São bastante explícitas, talvez como
nunca antes na história, as intenções do governo Trump na invasão à Venezuela e
nos ataques ao Irã. O imperialismo e a escalada de armas da extrema direita no
século XXI são marcados por objetivos extrativistas.
É nesse
contexto que se articula o avanço sobre as terras raras e os minerais críticos,
a construção de data centers, a exploração de força de trabalho na construção e
operação na infraestrutura tecnológica (há relatos de extrema exploração de
trabalhadores de países de língua inglesa na periferia do capitalismo), assim
como a destruição de qualquer tipo de legislação de controle social e estatal
em relação às redes sociais.
Sem
deixar de reconhecer que há disputas políticas e sociais que podem subverter
tais tendências, é esse programa da extrema direita para a gestão da vida
social e dos recursos ambientais que deve ser considerado para entender a
construção de data centers no Brasil.
O
capitalismo internacional encontra-se diante de uma multiplicidade de crises,
talvez suas principais expressões sejam as crises climática e política. A
superação dessa situação, do ponto de vista das classes populares, exige o
fortalecimento de laços sociais (que rompam com o individualismo e consumismo
das redes sociais) e a construção de paradigmas de interação com a natureza que
rompam com a lógica da super exploração.
Esse
caminho, urgente e necessário, não parece mais próximo com a facilitação da
construção de data centers no território brasileiro.
Fonte:
Por Lucas Zinet, no Blog da Boitempo

Nenhum comentário:
Postar um comentário