Sementes
resistentes ao fogo podem ajudar a reflorestar áreas atingidas por incêndios
Um
projeto realizado pela bióloga Giovana Cavenaghi Guimarães, doutoranda da Unesp
(Universidade Estadual Paulista) de São José do Rio Preto (SP), aponta que o
cultivo de sementes capazes de resistir ao fogo pode ser uma estratégia
promissora e econômica para restaurar áreas devastadas por incêndios.
O
estudo inicialmente foca em cinco espécies de sementes nativas do Cerrado
brasileiro, como jatobá (Hymenaea courbaril), amendoim-bravo (Pterogyne
nitens), mulungu (Erythrina mulungu) e canafístula (Peltophorum dubium), que
possuem mecanismos naturais de adaptação ao calor extremo.
Segundo
Giovana, essas plantas sobrevivem em condições adversas, como as altas
temperaturas ocasionadas pelas queimadas, tornando suas sementes ideais para a
recuperação ambiental após um incêndio. Essas espécies também apresentam maior
capacidade de germinação, onde, em média, 99% das sementes evoluem para árvores
“A
ideia do estudo é entender como ocorre a dormência física dessas espécies, que
possibilita elas sobreviverem nessas condições de altas temperaturas e
incêndio. Quando essas sementes estão na terra, mesmo que o fogo destrua as que
já germinaram, elas resistem às altas temperaturas e germinam mesmo após a
queimada”, explicou a pesquisadora em entrevista à Mongabay.
A
dormência física é um processo natural de algumas espécies que impede a
germinação de sementes. Ela é considerada um mecanismo de sobrevivência. No
caso das plantas estudadas por Giovana, a exposição à alta temperatura pode
quebrar essa dormência física ao causar rachaduras no tegumento (casca),
permitindo a entrada de água e a germinação.
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Uma solução para um problema crescente
Segundo
a pesquisadora, plantar sementes dessas espécies nativas que resistem à
passagem do fogo pode ser uma solução para recuperar grandes áreas destruídas
por queimadas. Sobretudo no Cerrado, atualmente o bioma brasileiro que mais
arde: segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), 46,8%
do total de focos de incêndio registrados no país este ano ocorreu ali — quase
50 mil entre janeiro e outubro de 2025.
Vale
lembrar que, no Cerrado, o fogo é um mecanismo natural de regeneração da
vegetação — daí o fato de que muitas de suas espécies nativas tenham
desenvolvido estratégias de resistência ao calor. O aumento das queimadas no
bioma, porém, está relacionado à atividade agropecuária.
Para
Elisangela Ronconi Rodrigues, doutora em Biologia Vegetal, e que não tem
relação com o estudo de Giovana, a tese desenvolvida pela doutoranda pode de
fato ajudar a restaurar áreas atingidas por incêndios. No entanto, é preciso
enfatizar que o método não serve para todos os locais devastados do Brasil.
“O
primeiro passo de uma restauração é fazer o diagnóstico da área e entender as
particularidades do local. A dormência física ocorre em sementes de algumas
espécies, mas não em todas. Assim, o método é interessante para áreas onde
essas sementes têm mais chances de germinarem, como o Cerrado ou locais onde o
clima é quente e com secas prolongadas”, diz Elisângela, que também é docente
no Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU).
Kenny
Tanizaki Fonseca, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e
pesquisador na área de florestas e reflorestamentos, é outro que também
acredita no potencial de reflorestamento dessas espécies: “Esse método de usar
sementes que possuem dormência física e menor chance de mortandade em áreas de
queimada é uma estratégia interessante e de fácil implementação.”
Outro
ponto relevante sobre reflorestamento, segundo os especialistas, é que a área a
ser restaurada receba uma grande variedade de espécies para garantir a
biodiversidade e aumentar a possibilidade de sucesso nessa restauração
ecológica.
“Uma
área doente, que é atingida por fogo, tem a capacidade de se recuperar
naturalmente”, explica Rafael Bitante Fernandes, gerente de restauração
florestal da SOS Mata Atlântica. “Mas é claro que, se isso ocorrer com
frequência, é importante ajudarmos a natureza fazendo a restauração com a maior
variedade de espécies possíveis, para tentar blindar a área. Como cada espécie
tem suas particularidades, quanto mais diversidade tivermos num local, maior a
chance de sucesso nessa restauração.”
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O método ideal de plantio
A
pesquisa de Giovana ainda está em desenvolvimento, e sua tese deve ser
publicada nos próximos meses. Mas ela já aponta caminhos para uma estratégia de
reflorestamento com base nessas sementes que vem estudado.
Segundo
a pesquisadora, o melhor método de plantio é o direto, já que ele é mais
barato. Nele, as sementes são colocadas diretamente na terra, manualmente — ou
mecanizada, dependendo do tamanho da área. Nessa técnica de semeadura, o solo
não é remexido; apenas um pequeno buraco é aberto onde a semente será plantada.
“Com a
semeadura direta, a restauração ecológica vai ocorrer de forma natural. Então,
sugerimos que isso seja feito com essas sementes que são resistentes ao fogo,
assim mesmo que a área seja queimada, elas vão resistir e germinar”, explica
ela.
O outro
método de reflorestamento usado no país é o plantio por mudas, em que o custo é
maior. “Esse processo de criarmos as mudas e depois plantá-las nessas áreas
devastadas é mais caro, porque precisamos de mão-de-obra para cultivar as mudas
e depois para plantá-las. Diversas pesquisas nacionais já provaram que o
plantio direto é uma maneira econômica e que tem bons resultados. Essa técnica
é bastante usada na agricultura e podemos também usá-la na restauração
ecológica”, diz Giovana.
As
sementes estudadas por Giovana são de plantas pioneiras, ou seja, são as
primeiras a chegarem em um ambiente degradado e estabelecer a primeira
vegetação. Como são resistentes a condições adversas, elas germinam e protegem
o solo para que outras espécies surjam ou possam ser plantadas na área em um
segundo momento.
Fonte:
Mongabay

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