Recrutador
de Epstein veio ao Brasil buscando adolescentes: os crimes de Jean-Luc Brunel
Em 4 de
abril de 2019, uma imagem singular postada no Facebook mostra um homem
grisalho, vestindo camisa estampada e calça branca, posando em frente ao
Palácio da Alvorada, em Brasília, residência oficial do presidente da
república. Com um sorriso discreto no rosto, ele faz um gesto simulando uma
“arma de fogo” com as mãos, uma alusão ao então presidente Jair Bolsonaro. É o
francês Jean-Luc Brunel, um dos mais notórios agenciadores de modelos do mundo,
e, àquela altura, figura central no círculo de acusações de abuso e tráfico
sexual que orbitava o bilionário americano Jeffrey Epstein.
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Por que isso importa?
• Investigação mostra como, apesar de não
haver vítimas em litígio judicial contra o bilionário Jeffrey Epstein e seu
cúmplice Jean-Luc Brunel, o Brasil potencialmente não passou alheio ao
escândalo de crimes sexuais que mobiliza a atenção da imprensa internacional.
A foto
foi publicada pela agência Mega Model Brasília com a legenda de agradecimento:
“Jean-Luc Brunel esteve aqui hoje para um casting para levar os nossos modelos
para Nova York”. Brunel não estava apenas de passagem. A viagem era uma
expedição. A busca por modelos o levou a cidades do Centro-Oeste, no coração do
Brasil.
Fernanda*,
dona de uma outra agência, foi uma das brasileiras que esteve no caminho do
francês. “Ele veio com o propósito de conhecer as modelos da minha agência”,
contou, sob a condição de anonimato, em entrevista à Agência Pública.
Antes
de chegar a Brasília, Brunel teria passado por outras cidades no Sudeste,
incluindo São Paulo e Rio de Janeiro, no Sul e no Nordeste. A proposta do
agenciador de Epstein seria ambiciosa: montar uma nova agência no Brasil: a
“One Mother Agency”. Para isso, teria pedido a ajuda de Fernanda para recrutar
“as melhores meninas do Brasil”. “Foi Marcela*, 13 anos, de quem ele mais
gostou”, conta Fernanda, sobre uma das três modelos adolescentes que se
tornaram alvo do interesse do francês.
A
escolha por Marcela teria levado Brunel a visitar a casa da mãe da garota onde
ele teria oferecido um pagamento em dólares, com a promessa de levar a menina
para Nova York. A Pública conseguiu contato com a mãe de Marcela, que preferiu
não ceder entrevista, mas confirmou a visita do agente francês à família. A
proposta, recorda Fernanda, incluía uma visita à Disney, detalhe que “não fazia
sentido no casting”, o que a fez desconfiar.
Ao
perguntar sobre Brunel a uma agente mais experiente de São Paulo, Fernanda
recebeu o link de uma notícia sobre as investigações do FBI contra Brunel e sua
conexão com Jeffrey Epstein: “Olha a reportagem”, teria dito a amiga. “Depois
que eu fiquei sabendo do que ele fez, eu não dei mais moral pra ele”, lembra e
se apressou em buscar a família de Marcela. “Eu fui lá na casa dela, sentei com
ela e com a mãe dela, falei ‘eu errei de ter apresentado esse cara pra vocês’
[…] Eu falei pra elas que eu não queria trabalhar com um cara desse tipo.”
Fernanda
revela ter confrontado Brunel por WhatsApp em abril de 2019, após sua partida.
“Alguém que eu era amigo [Epstein] foi para a prisão, mas não tenho nada a ver
com isso. Como esse cara é muito rico, os advogados tentaram tirar dinheiro
dele ligando o caso com diversas pessoas como eu, Donald Trump, o Duke de York.
Você acha que os Estados Unidos teriam renovado meu visto se eu tivesse algum
problema com a justiça americana?”, teria respondido o francês.
Durante
a passagem no Centro-Oeste, Brunel esteve acompanhado do assistente e tradutor
brasileiro Vinicius Freire, com quem já trabalhava há duas décadas. Procurado,
ele se limitou a dizer que seu trabalho com a MC2, agência de Brunel em Nova
York, “não era nada demais, além do trabalho normal de uma agência de modelos”.
Questionado se tinha informações sobre crimes sexuais, Freire preferiu não
comentar.
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Trump e a sombra do fantasma Epstein: “Sabia das garotas”
A
menção de Brunel a Donald Trump na resposta a Fernanda não era casual. A
amizade entre o atual presidente dos EUA e Epstein é pública e notória desde os
anos 1990. Em 2002, Trump elogiou Epstein: “Eu o conheço há quinze anos. Cara
ótimo. É muito divertido estar com ele. Dizem até que ele gosta de mulheres
bonitas tanto quanto eu, e muitas delas são do lado mais jovem.”
Embora
Trump declare ter rompido relações com Epstein em 2004, a sombra dessa relação
ainda paira sobre a Casa Branca. Em 2025, o tema voltou ao centro do debate
público norte-americano, impulsionada por uma série de divulgações de
documentos do caso Epstein publicadas na imprensa e um controverso livro
comemorativo de 2003, supostamente assinado por Trump num aniversário de
Epstein.
Além
disso, congressistas democratas publicaram emails atribuídos a Jeffrey Epstein
que fazem referência a Trump neste mês de novembro. A Casa Branca acusou a
oposição de fabricar “narrativa falsa”. Mas entre os cerca de 20 mil arquivos
que se tornaram públicos, diferentes e-mails citam Trump, mas ainda sem
comprovar relação com os crimes cometidos por Epstein.
Em uma
das mensagens publicadas pelo jornal The New York Times, Epstein diz: “Sim,
obrigado. Isso é muito louco. Eu sou o único capaz de derrubá-lo (Trump)”. Em
outra mensagem, Epstein afirmou que o atual presidente dos EUA “passou horas”
na casa do bilionário com uma das vítimas e que ele “sabia das garotas” — mas a
mensagem não detalha as circunstâncias. Trump nunca foi investigado no caso e
afirma ter se afastado do bilionário assim que as acusações surgiram.
Durante
a campanha de 2024, ele prometeu mais de uma vez que, se voltasse à Casa
Branca, tornaria públicos arquivos secretos sobre as investigações. Após a
posse, no entanto, o discurso mudou.
A
Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, dominada pelos republicanos, vota
nesta terça-feira, 18, um projeto de lei para a liberação de todos os arquivos
relacionados a Jeffrey Epstein.
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Príncipe Andrew e a desgraça real pós-Epstein
Outra
figura relacionada à história de Epstein é o príncipe Andrew, o terceiro filho
da Rainha Elizabeth 2ª e irmão do rei Charles 3º. Em outubro de 2025, e-mails
dele de 2011 foram publicados pelo jornal britânico The Mail on Sunday. As
mensagens evidenciam o contato do príncipe com Epstein meses depois de afirmar
publicamente que teria encerrado a amizade com o criminoso sexual.
Em
2022, Andrew fechou um acordo com a denunciante Virginia Giuffre para encerrar
um processo aberto contra ele por acusação de abuso sexual. Giuffre estava
processando Andrew, alegando que ele a agrediu sexualmente em três ocasiões
quando ela tinha 17 anos, em 2001. Ela afirmou que, naquele ano, Epstein a
levou para Londres e a apresentou ao príncipe. Giuffre morreu em abril de 2025,
aos 41 anos. A família dela afirmou que a causa da morte foi suicídio.
O livro
póstumo de Giuffre lançado em outubro, Nobody’s Girl (“A Garota de Ninguém”, em
tradução livre), trouxe novamente o caso de volta aos holofotes e ampliou a
pressão sobre Andrew. “Concordei com uma ordem de silêncio de um ano, o que
pareceu ser importante para o príncipe, pois garantia que o Jubileu de Platina
de sua mãe [naquele ano] não fosse mais ofuscado do que já estava”, narrou
Giuffre sobre o acordo firmado com Andrew em 2022.
Embora
Andrew negue as acusações, a família real considera que houve “graves erros de
julgamento” em seu comportamento. Andrew perdeu oficialmente todos os títulos e
honrarias reais após decisão do rei Charles 3º.
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As mil garotas de Brunel
Brunel
conheceu Epstein nos anos 1980, apresentado pela filha do magnata da mídia
britânica Robert Maxwell, Ghislaine Maxwell. A socialite foi figura central em
todo o esquema, trabalhando como “pessoa de confiança” de Epstein, segundo as
investigações. Para os promotores, ela seria a responsável por recrutar,
aliciar e encaminhar adolescentes para abusos sexuais em diversas localidades.
Ela foi presa após a morte de Epstein em 2020 e sentenciada a 20 anos de
prisão.
No caso
de Brunel, ele tinha acesso a centenas de jovens de todo o mundo, muitas vindas
de famílias humildes convencidas com a promessa de uma carreira internacional
de modelo. Em 2005, Brunel fundou a MC2 Model Management com financiamento
direto de Epstein. A agência tinha escritórios em Nova York e Miami.
Segundo
depoimento à justiça da ex-contabilista da MC2 Maritza Vasquez, Epstein
garantiu uma linha de crédito de 1 milhão de dólares [cerca de R$ 5,3 milhões]
para a empresa e pagava diretamente pelos vistos das modelos levadas aos
Estados Unidos. Brunel e as modelos, algumas com apenas 13 anos (idade da
brasileira Marcela*), viviam em apartamentos controlados por Epstein em
Manhattan.
Virginia
Giuffre alegou, em documentos judiciais de 2014, que o sistema era um disfarce
para o tráfico sexual. “Brunel oferecia às garotas empregos como ‘modelos’”,
dizia o documento. Giuffre também alegou que o bilionário Epstein se gabava de
ter dormido com mais de mil “garotas de Brunel”.
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O mistério de Santa Catarina: “Só com o tempo a verdade vai sair”
O caso
Epstein veio à tona em junho de 2008, quando um acordo judicial selou o destino
do bilionário. Culpado por explorar a prostituição, inclusive envolvendo uma
adolescente, o financista escapou à época de uma potencial prisão perpétua com
uma pena branda: 13 meses em regime semiaberto.
Os anos
seguintes foram um gotejar de acusações até que em 2018 uma reportagem do
jornal Miami Herald mudou o rumo da história e provocou indignação pública. Uma
nova investigação foi iniciada em julho de 2019 e novas acusações, desta vez
por tráfico sexual, levaram Epstein de volta à prisão, em Nova York. O
bilionário se declarou inocente e sempre negou as acusações. Após um mês na
cadeia, segundo versão oficial, ele teria tirado a própria vida e foi
encontrado morto numa cela, aos 66 anos.
Com a
morte de Epstein no noticiário mundial, a passagem de Brunel pelo Brasil poucos
meses antes da morte do amigo ganha um novo significado quando confrontada com
informações publicadas em outubro de 2019 pela Sky News, que divulgou uma
investigação mostrando que tanto Brunel quanto Ghislaine Maxwell, a parceira de
Epstein, haviam sido rastreados no Brasil após a morte do bilionário em agosto.
Segundo
a reportagem britânica, o telefone de Brunel foi rastreado no luxuoso Infinity
Blue Resort & Spa, em Santa Catarina. Ao mesmo tempo, o celular de Maxwell
também foi conectado a uma rede no estado de Santa Catarina. As informações
foram obtidas por um ex-policial americano, diz a reportagem. Quando a equipe
da Sky News chegou ao hotel, não havia sinais deles. A presença de ambos no
Brasil naquele período nunca foi confirmada.
Fernanda
conta que voltou a procurar Brunel após a morte de Epstein: “Eu mandei um novo
link de reportagem pra ele. Falei ‘olha, tá vendo um dos motivos pelos quais a
gente não fechou a parceria?’ Aí ele respondeu: ‘Eu vou provar que isso tudo tá
errado e que é falso e fabricado”, ela recorda. “Só com o tempo a verdade vai
sair”, ele teria dito.
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Epstein: do início ao fim, crimes foram além
As
acusações contra Brunel remontam aos anos 1980, bem antes de ele conhecer
Epstein. Ainda em 1988, a CBS exibiu uma investigação sobre abusos na indústria
da moda em Paris. O programa revelou alegações contra Brunel, incluindo o
depoimento de uma mulher que afirmou ter sido drogada e estuprada por ele.
Brunel recusou-se a dar entrevista à época.
Após o
escândalo, ele deixou a agência Karin Models em 1999 e se mudou para os Estados
Unidos, onde fundou a MC2 com o dinheiro de Epstein. Entre 2000 e 2005, Brunel
fez pelo menos duas dezenas de viagens no jato particular de Epstein, o Lolita
Express, além de visitar o amigo na sua primeira passagem pela prisão diversas
vezes.
A
última aparição pública de Brunel antes de ser rastreado no Brasil havia sido
em 5 de julho de 2019, em uma festa no Paris Country Club. Após a morte de
Epstein e do escândalo já escancarado, o Ministério Público de Paris abriu uma
investigação contra Brunel por estupro e agressão sexual. Em outubro do mesmo
ano, uma nova queixa foi registrada.
Em
dezembro do ano seguinte, ele foi preso no aeroporto Charles de Gaulle, em
Paris, tentando embarcar para o Senegal, onde supostamente passaria férias.
Em
fevereiro de 2022, da mesma maneira que seu amigo Epstein, Brunel foi
encontrado enforcado em sua cela na prisão de La Santé, em Paris, aos 75 anos,
enquanto aguardava julgamento.
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O passo a passo recorrente de estupros silenciosos e a impunidade que persiste
A
Agência Pública entrevistou a advogada francesa Anne-Claire Le Jeune, que
representa algumas das vítimas de Brunel. Ela explicou que oficialmente Brunel
foi indiciado por estupro de adolescente e assédio sexual, mas as suspeitas iam
muito além. “A investigação estava aberta tanto para estupro quanto para
tráfico”, esclarece Le Jeune.
A
advogada confirmou que, embora o foco da agência de Brunel tenha se voltado
para modelos brasileiras nos anos 2000, não há, no processo judicial francês,
vítimas de nacionalidade brasileira. “Sabemos que houve viagens com o objetivo
de recrutar jovens modelos brasileiras. Mas, fora isso, tudo o que você está me
contando eu desconhecia completamente”, admitiu Le Jeune à reportagem.
A
advogada detalhou o padrão de comportamento de Brunel, descrito de forma
similar por diversas vítimas de diferentes nacionalidades. “Falou-se muito na
França em ‘estupros silenciosos’. Várias mulheres, de nacionalidades
diferentes, que nunca chegaram a se conhecer, descrevem exatamente o mesmo.”
O modus
operandi consistia em abordar jovens modelos, de agências menores, em festas e
boates, prometendo impulsionar suas carreiras. Ele as convidava para fazer uma
sessão de fotos em sua casa, oferecia uma bebida e, em seguida, as vítimas
relatavam um “apagão total”, acordando enquanto eram estupradas. “E elas
confiavam porque ele tinha boa reputação, era famoso, tinha muitos contatos e
já havia alavancado a carreira de várias modelos famosas. Elas pensavam que não
haveria o que temer”, completa Le Jeune. “Havia um forte sentimento de
impunidade e de poder absoluto”.
Das
mais de dez mulheres que o denunciaram por estupro e agressão sexual, a maioria
teve seus casos prescritos pela lei da época, o que reduziu drasticamente o
escopo da ação penal. Apenas três processos civis, incluindo Virginia Giuffre,
compunham o processo ativo contra Brunel na França.
O
suicídio de Brunel na prisão, embora não questionado como o de Epstein, é visto
por suas vítimas como uma confissão. “Para minhas clientes, isso soa como um
reconhecimento de culpa: ele sabia que o cerco estava se fechando. Tínhamos
cada vez mais provas contra ele”, afirma Le Jeune. Uma acareação com uma de
suas clientes estava marcada para semanas após sua morte, o que reforça a tese
de que ele temia o avanço das investigações.
Com sua
morte, a ação penal foi extinta, mas a busca por justiça continua na esfera
cível. Duas das vítimas, incluindo uma modelo nórdica que prefere o anonimato,
processam os herdeiros de Brunel por indenização. A grande questão que
permanece sem resposta, no entanto, é a exata dimensão de seu papel na rede de
tráfico humano de Epstein e Ghislaine Maxwell. “O grande ponto que ficou sem
resposta foi o papel dele junto ao Epstein e à Maxwell — fotografias dos três
juntos, viagens à ilha, visitas na prisão etc. A investigação parou cedo
demais”, lamenta a advogada.
Fonte:
Por Augusta Lunardi e Thiago Domenici, da Agencia Pública

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