Pressão
social e resistência fóssil ensaios que marcou a COP30
A
primeira semana de negociações da COP 30, em Belém, foi um ensaio para o
período decisivo, que vai de 17 a 21 de novembro, na Zona Azul, no Parque da
Cidade. Na área onde ocorrem as negociações oficiais entre os países, os
representantes fizeram uma espécie de demarcação de terreno, definindo os temas
que podem evoluir para algum tipo de avanço e aqueles que poderão travar. Um
elemento novo nesta conferência, ausente das últimas COPs, se sobressaiu: as
manifestações de povos indígenas e da sociedade civil chamaram a atenção de
observadores entrevistados pela Amazônia Real.
“A COP
do Clima se transformou em um evento muito tecnocrático, muito fechado à
participação social e pouco democrático. O processo da COP não está adequado à
realidade e à crise climática. Tudo que se defina aqui vai ser insuficiente.
Isso foi muito reforçado nas últimas três COPs, em países que não permitiram a
participação da sociedade civil”, afirma a Susana Muhamad, ex-ministra do Meio
Ambiente da Colômbia no governo Gustavo Petro. Ela é enviada especial do
Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis, tem fortes críticas ao
formato de funcionamento das COPs e disse que o fato político mais importante
até agora, em Belém, foi o protesto dos indígenas.
“A
questão, aqui em Belém, é que estamos em território amazônico que é um
território indígena e um dos pilares para a estabilidade climática. Esta COP
deveria estar falando da Amazônia a fundo e não se pode falar da Amazônia sem
os povos indígenas. A Amazônia não pode ser só o nome de um território. Povos
indígenas não podem ser uma decoração, apenas para dizer que estão aqui. Suas
vozes deveriam incidir na conferência”, avalia.
A
ex-ministra criticou o aparato militar empregado na segurança das instalações
da COP para impedir manifestações populares. Segundo ela, a COP de Belém
produziu “a foto icônica do século XXI”. “É o momento em que a resposta à luta
climática e aos direitos é militar. Representa o autoritarismo e a opressão do
capital fóssil. É terrível porque isso ocorre no Brasil, que é um país
democrático. Poderia ser pior. As manifestações não puderam acontecer no Egito,
no Azerbaijão e muito menos em Dubai. Mas também é muito duro ver isso. A foto
dos militares impedindo os indígenas nos fala muito do tempo em que estamos”,
refletiu.
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O petróleo no pulmão do mundo
Para
ela, outro tema que deveria ser decisivo nas discussões da conferência é a
transição efetiva para o fim da dependência de combustíveis fósseis. Segundo
Muhamad, a Colômbia propôs aos países da Organização do Tratado de Cooperação
Amazônica (OTCA) que se criasse um eixo de trabalho para declarar a não
proliferação de combustíveis fósseis na Amazônia. Isso significaria frear as
frentes de exploração no ponto em que estão e começar a fazer uma transição.
“Só a
Colômbia, que foi autora da proposta, esteve disposta a trabalhar nesse
sentido. O que vemos é que prevalece o interesse fóssil sobre algo que é
absolutamente crítico. Não tem lógica explorar petróleo no pulmão do mundo.
Isso poderia ter sido um dos fatos políticos mais importantes da COP. Fazer
isso é algo concreto, real. E teria que ser feito, claro, em acordo com os
povos indígenas e com as comunidades”, disse a ex-ministra.
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Protestos de um lado, impasses do outro
Ima
Vieira, ecóloga, pesquisadora do Museu Emílio Goeldi e integrante do Conselho
Científico da COP30, considera que a manifestação dos indígenas Munduruku e
outras que possam ser realizadas na segunda semana da conferência têm potencial
para, de alguma forma, repercutir nos espaços de decisão. “Um componente novo
nesse cenário foi a forte intervenção dos indígenas brasileiros. Embora
esperada, a contundência da etnia Munduruku sempre é muito forte. Acho que vai
continuar e se expandir com outros grupos fazendo coro”, disse Vieira.
Ela vê
muitos impasses nas negociações até agora e acha que eles podem se acirrar.
“Teve um impulso inicial dos países para apoiar o abandono gradual dos
combustíveis fósseis, mas precisa de tomada de decisões e aí aparecem os
problemas. Este tema enfrenta forte resistência. A redução da dependência dos
combustíveis fósseis, levantada pelo Brasil, é uma questão delicada que corre
em paralelo. Os grandes produtores de petróleo, liderados pela Arábia Saudita,
sequer aceitam que este assunto seja tratado”, disse a pesquisadora.
Segundo
Vieira, embora um dos pontos positivos alcançados até agora seja a urgência do
tema da proteção das florestas tropicais, impasses importantes persistem em
temas como financiamento dos países ricos para os mais pobres poderem fazer a
transição energética.
“Os
debates sobre financiamento, metas de emissões e compromissos internacionais
progrediram pouco, e acho que a conferência vai ter dificuldades para
apresentar resultados concretos. Os países em desenvolvimento continuam
insistindo que só poderão aumentar suas ambições [de metas climáticas] se
houver garantia dos recursos financeiros prometidos e isso está muito distante.
Os impasses entre países ricos e em desenvolvimento são muito grandes”,
avaliou.
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Uma agenda de superação
Também
integrante do Conselho Científico da COP 30, o físico e professor da USP Paulo
Artaxo, fez uma avaliação mais positiva, para a Amazônia Real, da primeira
rodada de negociações. Ele destacou que outros países já aderiram a uma agenda
de superação da dependência dos combustíveis fósseis, como foi proposto pelo
presidente Luís Inácio Lula da Silva, no seu discurso na Cúpula do Clima, que
antecedeu a COP30.
“Esse
tópico, sozinho, pode fazer dessa COP a mais importante de todas. Isso não é
pouca coisa. O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, foi muito
hábil e inteligente em focar na agenda de ação e implementação. Por que isso é
inteligente? Porque esta agenda não é regulada pelas regras da UNFCC
(Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que organiza as
COPs), não está amarrada ao bloqueio de alguns países”, explicou Artaxo.
“Dinamarca,
Alemanha, Noruega e Uganda falaram que apoiam integralmente esse tópico, que
ele seja incluído na agenda de ação e que esta COP defina uma comissão para
desenhar o mapa do caminho sobre como, quando e de que jeito nós vamos chegar
lá. Esse é o grande avanço dessa COP”, afirmou o professor, com entusiasmo.
Contudo, ele também reconhece dificuldades à frente.
“Quem
mais está se opondo ao mapa do caminho é a Arábia Saudita. Mas tem um detalhe
muitíssimo importante que não deve ser desprezado. A Arábia Saudita sempre teve
essa posição e ela tinha o apoio dos Estados Unidos. Aqui, ela não tem apoio
político do peso dos Estados Unidos. A Venezuela também é outro país que sempre
se opôs a essa questão, só que agora a Venezuela está numa posição muito frágil
e precisa do apoio brasileiro para enfrentar uma eventual invasão [dos Estados
Unidos]. Então, eles também estão fragilizados. É um jogo geopolítico. São
esses interesses que dominam a negociação diplomática. Considerando tudo isso,
não há razão nenhuma para ter uma perspectiva pessimista. É preciso entender a
complexidade do que está em jogo. Estamos falando do desenvolvimento econômico
de mais de 190 países para os próximos 50 a 60 anos”, avaliou Artaxo.
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Tobogã do clima, manejo do fogo
A
geógrafa Ane Alencar, Diretora de Ciência do IPAM (Instituto de Pesquisa
Ambiental da Amazônia) destacou um avanço e uma preocupação na primeira semana
da COP. A preocupação é que as metas de redução de gases do efeito estufa
apresentadas pelos países, chamadas de Contribuições Nacionalmente Determinadas
(NDCs na sigla em inglês) não estão à altura da emergência climática.
“Vários
países submeteram suas NDCs, mas a gente vê claramente que a ambição desses
países não está a contento, não está de acordo com o que a gente precisa e com
a emergência que estamos enfrentando. O relatório do Global Carbon Budget
(2025), mostra que o que a gente tem que fazer daqui para frente tem que ser bem mais ambicioso e mais rápido.
O relatório tem um gráfico que mostra o quanto a gente tem que reduzir de
emissões para ficar em 1,5 grau até 2035. A curva é uma descida de tobogã para
reduzir. E eu não vejo o engajamento suficiente dos países para que isso
aconteça”, avaliou Alencar.
O ponto
positivo é que pela primeira vez uma COP trata com destaque o manejo integrado
do fogo, fazendo uma “chamada para ação” sobre o tema. Alencar acredita que a
frequência e intensidade dos incêndios florestais em vários países acenderam o
sinal de alerta.
“Até hoje, as COPs não tinham tratado do fogo
como uma questão importante porque os incêndios florestais não entram nos
inventários nacionais de emissões. Hoje, tem vários painéis sobre incêndios
florestais na COP porque a gente tem vivido isso intensamente, no Brasil e em
outros países. Finalmente, a gente tem essa chamada para ação sobre os
incêndios. Ele não entra na agenda, mas é uma chamada para ação assinada por
mais de 60 países. É como se fosse uma carta de intenções apontando os
principais rumos que a gente pode construir a partir de agora. Deu-se
relevância à questão do fogo. É um tema cada vez mais prioritário e que ganhou
mais visibilidade. A gente precisa achar caminhos para a gestão do fogo. Nem
todo fogo é ruim, mas os incêndios florestais precisam ser controlados”,
comemorou.
• O grito da sociedade civil em Belém
Após
três anos de restrições em conferências do clima realizadas em países com
regimes autoritários, a sociedade civil global retomou as ruas, agora em Belém,
sede da COP30. A Marcha Mundial pelo Clima, realizada na manhã deste sábado
(15), reuniu lideranças indígenas, quilombolas, ribeirinhas, movimentos sociais
e ativistas que transformaram a capital paraense no palco da principal pressão
popular sobre a conferência.
O
próprio presidente da COP30, o embaixador André Corrêa do Lago, disse aos
jornalistas que reconhece a força da mobilização: “Esses documentos [preparados
pela sociedade civil na Cúpula dos Povos] têm uma influência significativa nas
negociações”. As edições das conferências no Egito (2022), Catar (2023) e
Azerbaijão (2024) ocorreram sob forte pressão da indústria da mineração e
também do lobby do setor petrolífero, e sem a presença de marchas.
Depois
da primeira semana de COP30, que já é celebrada como o encontro de maior
presença da sociedade civil, as reivindicações presenciadas na marcha podem
ganhar força na mesa de negociações: demarcação de territórios tradicionais,
financiamento climático para uma transição justa rumo a uma economia de baixo
carbono, além de ações urgentes para adaptação climática e combate ao
aquecimento global.
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Contra a privatização dos rios
Várias
cobranças ecoaram no trajeto da Marcha Mundial pelo Clima. Uma das mais
emblemáticas foi a denúncia contra a política de privatização dos rios
amazônicos. Nilva Borari, do povo Borari, participou da marcha ao lado do
coletivo musical As Karuana e representou a Associação Kuximawara, formada por
artistas e artesãs indígenas de Alter do Chão, distrito de Santarém (PA). Ela
reafirmou a defesa dos direitos originários e a revogação do Decreto nº 12.600,
de 28 de agosto, do governo Lula.
O
decreto incluiu as hidrovias dos rios Tapajós e Tocantins-Araguaia, no Pará, e
Madeira, no Amazonas e Rondônia, no Programa Nacional de Desestatização (PND).
“Estamos aqui unindo nossas vozes pelos nossos direitos originários, pelo
direito de vida do Rio Tapajós, que é a nossa vida e a vida de todo o Pará”,
disse em entrevista à Amazônia Real.
Nilva
reforçou que a medida traz “grandes mazelas e impactos negativos” para o
Tapajós e para as comunidades. O projeto promete entregar mais de 3 mil
quilômetros de trechos navegáveis dos rios amazônicos para a iniciativa
privada, atendendo aos interesses do agronegócio e outros setores econômicos.
A
manifestação deste sábado percorreu cerca de 4,5 quilômetros entre o Mercado de
São Brás, no bairro de São Brás, e a Aldeia Amazônica, na baixada da Pedreira.
O ato ocorre também para pressionar os organizadores da COP30 a ouvirem o que a
sociedade civil tem a dizer. Na sexta-feira (14), os Munduruku se manifestaram
pacificamente, bloqueando o acesso à Zona Azul, restrita aos negociadores dos
países. Eles tinham reivindicações concretas para que o presidente Lula cancele
o decreto de privatização do rio Tapajós. Na noite de terça-feira (11),
indígenas e não-indígenas ultrapassaram a barreira do pavilhão que dá acesso à
Zona Azul, o que fez a organização reforçar a segurança desde então.
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Lutas que se encontram
Os
manifestantes entoaram gritos de resistência durante toda a marcha, denunciando
os grandes empreendimentos que ameaçam a vida na Amazônia, como a construção da
Ferrogrão, ferrovia que atravessará terras indígenas e unidades de conservação
em prol do escoamento de grãos do agronegócio.
A
ativista e indigenista Neidinha Suruí, que lidera a Associação de Defesa
Etnoambiental Kanindé, destacou a dimensão política. “Essa marcha é importante
porque é a voz do povo. Tem cerca de 50 mil manifestantes dizendo Free
Palestine, dizendo não ao petróleo, não ao Ferrogrão. É fundamental ouvir todas
essas vozes gritando por demarcação de território indígena, por reforma agrária
no País. Essa é a voz do povo que precisa ser ouvida na COP30”, afirmou.
Com
manifestantes vindos de todos os cantos do planeta, a luta pela libertação da
Palestina e pelo fim do genocídio na Faixa de Gaza também confluíram as
demandas populares. Bandeiras palestinas e gritos como “A Amazônia, a
Palestina, é pelo clima e contra a chacina” marcaram os passos durante toda a
marcha.
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COP da sociedade civil
Para
Caetano Scannavino, um dos coordenadores da Cúpula dos Povos, esta COP
representa um marco após três anos de conferências com forte restrição à
sociedade civil. “Esperamos que esse movimento global não seja só um evento,
mas algo permanente, capaz de pressionar os tomadores de decisão a abandonar
uma lógica que está nos levando ao fim. Não do mundo, mas da Humanidade”,
disse.
Ele
enfatizou que, realizada na Amazônia e com a maior participação indígena da
história das conferências, a COP30 cria uma oportunidade única para que o
pensamento ancestral seja ouvido. “Quando falamos de outra forma de viver, não
estamos falando só de carbono. Estamos falando de cooperação acima da
competição, de colocar o coletivo antes do individual, estamos falando de ser
feliz. Não é felicidade pelo consumo, mas pelo bem-viver. Se destruirmos este
modo de vida ancestral, seja na Amazônia, na África, na Ásia, nós nos
destruiremos a nós mesmos”, afirmou.
Do
Quilombo Urbano Liberdade, em São Luís (MA), Ivana Braga defendeu que a
mobilização reacende o trabalho de base. “O sentido da marcha é ver essa
pujança dos movimentos sociais, porque a gente tem visto muita desmobilização
em relação às lutas sociais. Quando a gente está aqui e vê o povo na rua e vê
as discussões, isso também fortalece a gente a voltar para nossas bases e
compartilhar o que a gente aprendeu”, disse. “É uma questão da educação popular
para a gente fazer esse trabalho de base. É prova de que existe alternativa.
Entre
os manifestantes Angela Bandeira, de Soure, cidade na região do Marajó,
defendeu a espiritualidade amazônica e as tradições de matriz africana,
relatando o preconceito sofrido por sua comunidade na realização de eventos
culturais. “A gente está aqui para lutar pela natureza. Eu sou umbandista, sou
pajé, trabalho com os espíritos curandeiros, e a gente vai conseguir o que
queremos”, afirmou.
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A força do ‘artivismo’
A
programação também incluiu o “artivismo” com manifestações culturais que
aliaram a cultura popular à luta. O Boi da Terra, grupo cultural do bairro da
Terra Firme, periferia de Belém, e o Arraial do Pavulagem, patrimônio cultural
do Pará e manifestação cultural do Brasil, transformaram a Marcha Mundial pelo
Clima em festejo.
Segundo
Júnior Soares, músico e co-fundador do Arraial do Pavulagem, o grupo trabalha há 38 anos na defesa da
Amazônia. “Nada mais natural do que estar aqui neste momento com todo mundo,
nessa celebração, nesse encontro de pessoas que acreditam que a Amazônia
precisa ficar em pé para que nós sobrevivamos plenamente nela”, resumiu.
Magna
Souza, moradora de Belém há 25 anos, resumiu o sentimento de urgência que
atravessou os discursos proferidos durante todo o trajeto da Marcha Mundial
pelo Clima. “Estamos aqui para cobrar dos poderes públicos. O mundo inteiro
está voltado para o meio ambiente porque isso define a vida de todos os seres.
A marcha é um grito de socorro. Não estamos aqui para tirar foto, estamos
pedindo que o mundo pare e resolva essa situação climática”, manifestou.
Fonte:
Amazônia Real

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