No
Dia D de Bolsonaro, Trump recuou no tarifaço
Durou
pouco mais de 100 dias. Mas, custou muito caro aos consumidores americanos, que
reagiram votando nos democratas, e à popularidade do presidente Trump, que
piscou primeiro, a sua tentativa de interferir, por influência do filho 03, o
deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), no julgameno do ex-presidente Jair
Bolsonaro, mediante a chantagem de ameaçar o Brasil com um tarifaço. Em carta
ao presidente Lula, em 9 de julho, pela sua rede “Truth Social”, Donald Trump
exigia a suspensão “IMEDIATAMENTE” do julgamento de Bolsonaro, caso contrário
imporia tarifaço extra de 40% a produtos brasileiros que seriam taxados em 50%
em agosto.
Após
uma clivagem, em 6 de agosto, que excluiu cerca de 700 produtos de alto
interesse para a indústria americana (sobretudo peças e insumos para a aviação)
e bens de consumo do qual os Estados Unidos são muito dependentes do Brasil,
como o suco de laranja que supre mais de 70% do mercado), sem interrupção no
julgamento do Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro foi a julgamento assistido
por seus advogados de defesa em julho, e o tarifaço atingiu o café, carne,
açúcar, etanol, castanha do Pará, açaí, banana e manga. O impacto sobre o
consumidor americano desgastou Trump.
Mesmo
com sanções a ministros do STF, à frente o relator Alexandre de Moraes, e ao
governo Lula, por pressão do 03 e do economista Paulo Figueiredo, neto do
último ditador brasileiro, general João Figueiredo (em seu governo, sob a
gestão de Delfim Neto na Economia, o país quebrou e foi ao FMI), o Supremo não
recuou e o Brasil manteve a soberania.
Por
ironia, na sexta-feira, 14 de novembro, dia em que se esgotaria, às 23h59, o
prazo para a proclamação da Primeira Turma da Suprema Corte do veredito sobre
Bolsonaro e os outros seis réus do núcleo principal da trama golpista, com
rejeição por quatro a zero das alegações das defesas, o que abre espaço, após a
publicação do acórdão [não o acordão com que sonhavam a oposição bolsonarista e
o “Centrão”, materializado no PL da Impunidade rejeitado pela opinião pública,
que foi às ruas, com blindagem geral das falcatruas dos congressistas], para a
prisão do ex-presidente em ambiente carcerário, Trump deu uma primeira guinada
no tarifaço.
Trump
anunciou uma primeira redução de 10% na tarifa extra sobre o café, a carne, o
açaí e uma ampla lista de produtos exportados pelo Brasil. E, para coroar o
tiro pela culatra, no mesmo dia 14, a Primeira Turma do STF aceitou a denúncia
do procurador geral da República, Paulo Gonet, contra o filho 03, por tentar
obstruir o julgamento de Bolsonaro (motivo de sua prisão domiciliar).
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Jornais dos EUA veem guinada de Trump
Os
jornais americanos, à frente o “New York Times” e o “Wall Street Journal” ,
noticiaram que o “Presidente Trump implementa grande reversão das tarifas de
alimentos”. Segundo o NYT, o presidente decidiu reduzir em 10% os impostos
sobre carne bovina, café e dezenas de outros produtos agrícolas e alimentícios,
marcando uma reversão significativa de suas chamadas taxas recíprocas, enquanto
procura maneiras de lidar com as preocupações dos americanos sobre o custo de
vida”. O WSJ anunciou que “Trump emitiu uma ordem executiva modificando as
taxas recíprocas que impôs a praticamente todos os parceiros comerciais em
agosto, isentando em 10% mais de uma centena de alimentos comuns, incluindo
frutas, nozes e especiarias". Segundo o WSJ, “o governo Trump disse que
reduziria as tarifas na tentativa de tornar esses produtos básicos mais
acessíveis”. Aumentos acentuados nos preços do café, carne bovina e banana no
ano passado alimentaram a frustração generalizada com o aumento do custo de
vida. Os planos do governo Trump de reduzir algumas tarifas sobre esses
produtos podem aliviar a pressão, dizem economistas. Depois da derrota para os
democratas na semana passada, há campo para mais reduções de tarifas nas
negociações bilaterais com o Brasil.
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Café, carne moída e banana lideram inflação
Não é
só no Brasil que os preços do café subiram (a perda da safra do Vietnã, o
segundo produtor do mundo, concentrado no café robusta, estreitou o mercado).
Nos EUA, segundo o WSJ, “os preços médios de varejo do café torrado moído
subiram mais de 40% sobre setembro do ano passado, de acordo com o “Bureau of
Labor Statistics”. Os preços médios de varejo da carne moída e das bananas
aumentaram 11,5% e 8,6% desde setembro de 2024 – bem à frente da taxa de
inflação geral de cerca de 3%”, diz o WSJ.
Para se
ter ideia da importância da carne bovina de dianteiro, preferencialmente
exportada pelo Brasil para os EUA, para uso na confecção da carne moída dos
hamburguers, enquanto o preço da arroba do dianteiro oscila entre US$ 58/60 no
Brasil, é quase o dobro (US$ 120/130) nos EUA. Com uma grande diferença: a
carne brasileira é mais magra e mais saudável.
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A química certa
O azar
de Eduardo Bolsonaro e todo o clã Bolsonaro na tentativa de convencer o governo
americano de que o ex-presidente é vítima de uma “caça às bruxas” por parte do
ministro Alexandre de Moraes, do STF, é que, se o assunto foi assimilado pelo
secretário de Estado, Marco Rubio, da ultradireita americana, foi Donald Trump
quem percebeu, nas primeiras semanas de setembro, os ruídos do tarifaço no
custo de vida dos americanos. Bem como os entraves à cadeia produtiva,
relatados pelos empresários norte-americanos e brasileiros que operam nos
Estados Unidos, como os irmãos Batista, maiores processadores de carne do
mundo, que lá têm várias filiais da JBS-Friboi.
A casa
começou a cair para Eduardo Bolsonaro e sua atuação lesa-pátria em dobradinha
com Paulo Figueiredo, quando Trump prestou atenção ao belo, lúcido e corajoso
discurso de Lula na abertura da Assembleia Geral da ONU, em setembro. Como o
Brasil, por tradição, desde os anos 40, é o primeiro país a discursar, seguido
pelos Estados Unidos, Trump ainda cruzou com Lula no acesso ao púlpito, e
trocaram 39 segundos de “boa química”, segundo Trump. Começava ali, em 23 de
setembro, a virada no relacionamento entre os governos Trump e Lula. Ainda esta
semana, Marco Rubio e o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, se encontraram no
Canadá, na reunião do G7.
Além de
negociar mais baixas de tarifas, falta os EUA reconhecerem que o Brasil é
deficitário no comércio bilateral, e mais ainda quando o relacionamento inclui
os serviços, “royalties”, direitos de propriedade e fluxos financeiros que
fazem parte do escopo da Organização Mundial do Comércio, cujo esvaziamento
decorreu do equívoco maior: o tarifaço (com sucessivos recuos).
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O fracasso do tarifaço
Como
lembrou o NYT, o tarifaço foi anunciado em 2 de abril como a principal medida
para os Estados Unidos recuperarem a hegemonia econômica nos planos da MAGA, no
pomposo “Liberation Day”, no qual o presidente exibia uma tabela semelhante a
um cardápio de porta de restaurante popular, listando os países prioritários
nas sanções tarifárias. A China era o principal alvo. Mas as reações internas
das grandes corporações americanas, pela interrupção da cadeia de produção,
levaram o governo a adiar para maio e junho. Depois de ameaçar a China com
100%, em julho, Trump cedeu. A China retrucara, suspendendo exportações
(inclusive de terceiros países) de produtos que contivessem materiais críticos
de terras raras chinesas. Isso afetou o complexo industrial-militar e a
estrutura de defesa dos EUA. Agora, com as tarifas suspensas, as negociações se
estenderão por um ou dois anos.
Mas a
principal razão do fracasso e sucessivos recuos de Trump foi que o tarifaço
afetou o custo de vida dos americanos já no café da manhã: o café ficou mais
caro, o açúcar, o suco de laranja (primeiro produto a ser isentado em julho),
os ovos já estavam caros antes do governo Trump, pelo impacto da gripe aviária
que dizimou parte do plantel de galinhas poedeiras. Por fim, o preço da carne
de hamburguer disparou.
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Brasil é solução para os EUA
Em boa
parte, esses produtos só podem ser supridos em quantidade e qualidade pelo
Brasil. Que é parte da solução e não um problema ou ameaça para os Estados
Unidos, como “venderam” a Marco Rubio e sua equipe os conspiradores Eduardo
Bolsonaro e Paulo Figueiredo. A acachapante derrota dos republicanos nas
eleições regionais na semana anterior alertou para o risco de perda da maioria
na Câmara e no Senado nas eleições de renovação de parte do Congresso em 2026.
Embora
tenha dito que não “há mais espaço para reduções tarifárias”, Trump já
percebeu, há algum tempo, o erro da estratégia, e está fazendo a guinada
gradativa para não declarar o fracasso. Sua imagem desgastada e cansada no dia
da suspensão do "Shutdown" era o recibo da derrota eleitoral para os
democratas, a quem acusara como responsáveis pela paralisação das atividades
federais, mas o eleitorado respondeu de forma inversa.
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E a meia-volta volver no Brasil
O que
dirão agora o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e outros acólitos
do bolsonarismo que saíram comemorando e até usando o boné da MAGA quando Trump
anunciou o tarifaço sobre o Brasil, se não suspendesse o processo contra
Bolsonaro (na instância do Poder Judiciário)? Embora governe o maior estado do
Brasil, sede das empresas mais afetadas pelo tarifaço americano, Tarcísio de
Freitas só começou a recuar quando as lideranças da indústria paulista lhe
cobraram uma mudança de posição em defesa dos interesses nacionais. Já era
tarde para quem se abrigou embaixo de uma enorme bandeira americana no 7 de
setembro, na Avenida Paulista, e teve de engolir em seco quando Trump elogiou
Lula duas semanas depois, na ONU, autorizando as negociações entre os dois
países.
Vale
dizer que, embora os exportadores de café, de frutas frescas como as mangas e
uvas do São Francisco, de peixes de Santa Catarina e outros pontos do país, do
açaí, do mel, da carne, além de madeiras e produtos industriais, tivessem
sofrido pesados prejuízos, a capacidade de resiliência do Brasil está sendo
maior do que a dos Estados Unidos. O Brasil, que tem a China como maior
comprador, não se acomodou e saiu pelo mundo, à frente o presidente Lula, e em
missões empresariais com participação de ministros, em busca de novos mercados,
como a Indonésia (quarto país mais populoso, com 286 milhões de habitantes) e a
Malásia. E também ampliou os negócios com o Japão.
Já os
EUA, não têm muita alternativa para encontrar volumes de carne, café, mel,
madeira serrada, peixes, açaí, frutas e equipamentos que integrem a cadeia
produtiva das multinacionais que operam no Brasil e exportam para lá. O
resultado foi o salto da inflação, temida pelo presidente do Federal Reserve
Bank, Jerome Powell, que era cauteloso quanto à baixa de juros, fixação do
grande especulador imobiliário que ora responde pela maior nação do planeta.
• Na Celac, Lula defende protagonismo da
América Latina e 'nova ordem mundial pacífica'
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a retomada do protagonismo
político da região e uma “nova ordem mundial pacífica”. A declaração foi dada
neste domingo (10/11), durante sua participação, na abertura da 4ª Cúpula Celac
- UE, com chefes de Estado e de Governo da Comunidade de Estados
Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e da União Europeia (UE), que ocorre em
Santa Marta, na Colômbia. Lula volta ao Brasil ainda neste domingo, para
participar da abertura da COP30, que começa nesta segunda-feira (10/11), em
Belém.
Lula
afirmou que a América Latina não pode continuar dependente das decisões das
grandes potências e destacou que a unidade entre os 33 países do bloco é
essencial para enfrentar os desafios globais e garantir desenvolvimento
soberano. Ele destacou a importância da volta do Brasil à Celac, dizendo que é
hora de de “reconstruir pontes” entre os países vizinhos, fortalecendo o
comércio, a ciência, a cultura e as políticas sociais. “A América Latina
precisa falar com uma só voz e ocupar o lugar que lhe cabe no cenário
internacional”, afirmou Lula.
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Ele
também criticou o aumento da presença militar de potências estrangeiras no
Caribe, em referência à movimentação de tropas e navios norte-americanos, que
estão na região. “A América Latina e o Caribe devem ser uma zona de paz, sem
espaço para bases estrangeiras ou intervenções armadas”, declarou. Ele afirmou
que os conflitos regionais devem ser resolvidos por meios diplomáticos e
políticos, “com respeito à soberania de cada nação”.
O
presidente defendeu ainda que os países da região participem ativamente da
construção de uma nova governança global, em que o Sul Global tenha mais poder
de decisão. Ele afirmou que o atual modelo de poder mundial é “injusto e
excludente”, e que a América Latina pode desempenhar papel central na transição
energética, no combate à fome e na inovação sustentável. “Precisamos de uma
nova ordem internacional que privilegie o diálogo, a solidariedade e o
desenvolvimento com justiça social”, disse Lula.
O chefe
do Executivo brasileiro defendeu o fortalecimento das democracias,
principalmente da região que compõe a cúpula. Disse que é preciso combater a
pobreza e investir em políticas públicas integradas. “A verdadeira integração
regional começa dentro de casa, com respeito aos direitos humanos e compromisso
com o bem-estar do nosso povo”, concluiu.
Fonte:
Por Gilberto Menezes Côrtes, no JB/Correio Braziliense

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