Michael
Sean Winters: A saga de Epstein é assustadora e pior do que assustadora
"O
que é realmente assustador é que as pessoas associadas a Epstein não
têm nenhum tipo de má reputação. São pessoas altamente competentes,
bem-sucedidas e muito inteligentes. É impossível não concluir que se envolveram
nesse comportamento simplesmente porque podiam. São donos do universo. Tão
convencidos da própria importância, viam essas garotas meramente como meios
para a sua própria gratificação", escreve Michael Sean Winters, autor católico, em
artigo publicado.
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Eis o artigo.
Uma
série de e-mails de Jeffrey Epstein, o falecido acusado
de tráfico sexual e condenado por crimes sexuais, foi divulgada por membros
da Câmara dos Representantes, tanto democratas quanto republicanos,
lançando mais luz sobre a sórdida história do comportamento criminoso de um homem
influente. Toda a história é arrepiante.
Exceto
o presidente Donald Trump. Ele não se incomoda
nem um pouco com o caso Epstein. Sua resposta tem sido mais negação e mais
evasivas, pedindo ao Departamento de Justiça que investigue quaisquer
democratas implicados pelos e-mails. É claro que a procuradora-geral Pam
Bondi acatou o pedido.
A
interferência da Casa Branca no Departamento
de Justiça costumava ser algo que recebia condenação quase unânime e
bipartidária. Lembra-se da demissão de Archibald Cox, procurador especial
do caso Watergate, pelo ex-presidente Richard Nixon, que levou à
renúncia do procurador-geral Elliot Richardson e do procurador-geral
adjunto William Ruckelshaus? Isso mudou a opinião pública contra Nixon e
representou um grande passo rumo ao seu impeachment. Seria
desejável que a história se repetisse, mas, em 1973, os republicanos
no Congresso ainda priorizavam a lealdade à Constituição em
detrimento da lealdade ao presidente.
Trump
espera que, ao investigar democratas proeminentes e suas ligações com Epstein,
ele consiga fazer com que os democratas recuem. Em uma entrevista com Sam
Stein, o senador democrata Chris Murphy disse:
"Ele não estaria agindo dessa forma se não estivesse tão profundamente
preocupado com o conteúdo desses arquivos... Claramente, Donald
Trump estava no centro de uma rede de exploração sexual infantil".
Isso é verdade, mas todo democrata deveria responder a cada pergunta sobre os
arquivos de Epstein afirmando, de forma clara e inequívoca, que se democratas
estiverem implicados nesses arquivos, que as consequências sejam as que forem.
Ninguém está isento.
Na
revista Politico, Jacob Wendler destaca nove das revelações
"mais chocantes" contidas nos documentos recentemente divulgados.
"Surpreendentes" seria mais preciso. Há uma velha piada sobre a
esposa de Noah Webster, que o encontrou na cama com sua amante. "Noah,
estou chocada", disse ela, ao que Noah respondeu: "Não,
senhora, a senhora é que está surpresa. Somos nós que estamos chocados".
O fato de Larry Summers ter trocado e-mails com Epstein é
surpreendente. O comportamento moralmente depravado das poderosas elites
americanas já não choca mais.
Os
arquivos não revelam muito sobre Trump, mas contradizem sua alegação de
que não sabia nada sobre o tráfico sexual de menores por Epstein. Em um
e-mail, Epstein afirma que Trump "sabia das meninas". Certamente, a
secretária de imprensa da Casa Branca, Karline Leavitt, não foi totalmente
precisa ao insistir: "Esses e-mails não provam absolutamente nada além do
fato de que o presidente Trump não fez nada de errado". É estarrecedor
ver Leavitt no pódio. Políticos costumam mentir com facilidade, mas Leavitt
elevou a arte da mentira a um nível completamente novo.
Abusar
sexualmente e traficar crianças é um ato de extrema depravação. Muitas vezes,
os autores de abuso sexual infantil também foram abusados na infância.
Frequentemente, são pessoas profundamente traumatizadas. Isso não
justifica o crime, certamente, mas atenua a responsabilidade moral.
O que é
realmente assustador é que as pessoas associadas a Epstein não têm
nenhum tipo de má reputação. São pessoas altamente competentes, bem-sucedidas e
muito inteligentes. É impossível não concluir que se envolveram nesse
comportamento simplesmente porque podiam. São donos do universo. Tão
convencidos da própria importância, viam essas garotas meramente como meios
para a sua própria gratificação.
Em
maio, Elon Musk disse: "A fraqueza
fundamental da civilização ocidental é a empatia". Qualquer
pessoa que tenha ido à "ilha dos pedófilos" de Epstein para
explorar sexualmente meninas jovens sofre de uma profunda falta de empatia. É a
marca de um sociopata.
¨ Por que Trump mudou
de ideia sobre os arquivos de Epstein
Após o
Congresso americano votar para obrigar o Departamento de Justiça a publicar
seus arquivos sobre Jeffrey Epstein, financista
condenado por crimes sexuais morto em 2019, o texto chega agora à mesa do
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Se
Trump assinar o texto, como é esperado, esse será o ato final de uma mudança
notável e abrupta em sua posição.
Por
meses, Trump rejeitou pedidos para divulgar todo o acervo de documentos do
governo sobre Epstein, que também foi condenado por crimes contra uma menor de
idade. Em julho, ele descreveu o caso como uma "coisa bem chata".
Era
assim que Trump lidava com a
situação até domingo (16/11), quando, em meio a um número crescente de
republicanos na Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados
brasileira) sinalizando que votariam pela divulgação, Trump cedeu e os
incentivou a apoiar a medida. A guinada abriu caminho para a aprovação massiva
de 427 a 1 na terça-feira (18/11).
A
reversão de Trump representa um caso raro em que políticos republicanos o
pressionam a agir — e a mudar publicamente de posição —, em vez de ser o
contrário, o que costuma acontecer.
Independentemente
do que novos arquivos sobre Epstein possam revelar, a disputa expõe fraturas no
Partido Republicano e destaca a força da base Make America Great Again (Maga, "Faça a
América Grande Novamente", em tradução livre) de Trump.
Também
mostra que, apesar do esforço, Trump teria dificuldade para desviar a atenção
dos arquivos de Epstein se não tivesse apoiado a votação.
"Acho
que ele vê que esse é um tema no qual está em desvantagem entre republicanos
médios", disse Martha Zoller, apresentadora conservadora de rádio e
estrategista na Geórgia, no sudeste dos EUA.
"Acho
que Trump precisava fazer isso neste momento porque quer voltar ao lado
certo."
Uma
pesquisa das redes NPR, PBS News e Marist feita no fim de setembro — quando
Trump ainda não apoiava a divulgação dos arquivos — indicou que 67% dos
eleitores republicanos registrados defendiam a liberação de todos os documentos
de Epstein, com os nomes das vítimas ocultados. Outros 18% apoiavam divulgar
parte dos arquivos com o mesmo tipo de ocultação.
"A
transparência sobre o que ocorreu é extremamente importante para os
eleitores", disse Chris Ager, ex-presidente do Partido Republicano de New
Hampshire (no nordeste dos EUA), em entrevista à BBC.
Ele
elogiou a mudança de postura de Trump e afirmou que é sinal de um partido
saudável "que pode haver divergência sobre um tema e se chegar a uma
conclusão em que essencialmente todos concordam: vamos divulgar os
arquivos".
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'Maga' despedaçado
Durante
boa parte do ano, porém, houve divergências duras sobre o tema. A reversão de
posição de Trump ocorreu quando crescia a possibilidade de ele enfrentar uma
rebelião na Câmara.
A
"desertora" mais conhecida, a congressista republicana Marjorie
Taylor Greene, da Geórgia, afirmou em entrevista na terça-feira (18/11) ao lado
de vítimas de Epstein que a disputa "despedaçou o Maga".
Por
causa da oposição contundente de Greene, Trump a chamou de "traidora"
na rede social Truth Social. Normalmente, um ataque público do presidente
silenciaria a dissidência de um republicano, sobretudo de alguém que busca a
reeleição. Mas, num sinal da força política do caso Epstein, Greene reagiu.
"Ele
me chamou de traidora por apoiar essas mulheres e me recusar a retirar meu nome
desta petição de liberação", disse Greene.
A
Câmara aprovaria o projeto, afirmou Greene, "porque o povo americano, a
quem servimos como representantes aqui no Congresso, exigiu que essa votação
acontecesse".
Greene,
que rompeu com Trump pela primeira vez no início do ano, tornou-se a face
pública da dissidência crescente dentro do movimento Maga — não apenas sobre
Epstein, mas também em outros temas, como os bombardeios dos EUA a instalações
nucleares iranianas em junho e o foco contínuo do presidente em guerras no
exterior.
Mas,
especificamente no caso Epstein, Greene e outros integrantes do movimento
exigiram maior transparência, apesar do desejo de Trump de se concentrar em
outros assuntos. Após a aprovação no Congresso, eles podem reivindicar uma
vitória concreta.
"A
saga revela o quanto a base republicana exerce poder atualmente", disse a
estrategista do partido Rina Shah à NPR. "Os eleitores do Maga estão
furiosos."
"Essa
pressão está forçando até os aliados mais fiéis de Trump a se rebelarem. E
sinaliza um Partido Republicano cada vez mais populista, no qual a base pode
pressionar líderes a agir, ou eles terão de pagar um preço."
A
votação sobre o caso Epstein também ofuscou outras iniciativas da Casa Branca.
Na semana passada, Trump anunciou que reduziria tarifas sobre produtos como
café, bananas e carne bovina, diante da crescente preocupação dos americanos
com o custo de vida.
"Acho
que ele prefere que as pessoas falem sobre esses temas em vez de Epstein",
disse Zoller, estrategista republicana na Geórgia.
Um alto
funcionário do governo Trump disse ao site jornalístico Axios que o presidente
americano decidiu abandonar a oposição à liberação dos arquivos de Epstein
porque a repercussão se mostrava "uma grande distração".
A
própria Greene afirmou que a Casa Branca seguia na direção errada ao resistir à
divulgação de mais arquivos de Epstein, em vez de se concentrar em outros
temas.
"É
uma direção completamente errada", disse Greene ao site jornalístico
Politico. "O incêndio mais urgente é a saúde e a acessibilidade financeira
para os americanos. É nisso que o foco deveria estar."
Enquanto
isso, a Casa Branca declarou à BBC que, "ao divulgar milhares de páginas
de documentos, cooperar com o pedido de intimação da Comissão de Supervisão da
Câmara e com o recente apelo do presidente Trump por investigações adicionais
sobre os amigos democratas de Epstein, o governo Trump fez mais pelas vítimas
do que os democratas jamais fizeram."
Mesmo
além de Epstein, a influência de Trump no Partido Republicano foi testada — e
até contestada nesta semana. Há também sinais de possíveis fissuras.
Seus
esforços públicos para incentivar os líderes de Indiana, no meio-oeste dos EUA,
a redesenhar os mapas dos distritos eleitorais para favorecer os próprios
republicanos nas eleições de 2026 encontraram resistência no mesmo dia da
votação sobre Epstein.
O
Senado de Indiana, controlado pelos republicanos, votou na terça-feira para
suspender a sessão até janeiro, sinalizando que não tratará do tema do
redesenho eleitoral. A decisão ocorreu apesar da forte pressão de Trump e do
governador (também republicano), que pediu aos parlamentares que trabalhassem
no redesenho dos distritos.
Trump
chegou a ameaçar apoiar rivais nas primárias contra senadores que se opusessem
ao redesenho. Mas, assim como no caso Epstein, houve resistência dentro do
partido.
"Sou
parlamentar há 42 anos. Não vou mudar meu voto", disse a senadora
republicana Vaneta Becker em entrevista à emissora CNN.
Referindo-se
ao apelido dado aos habitantes de Indiana, Becker afirmou: "Os hoosiers não
estão acostumados a ficar em uma posição de chantagem. Isso não é um bom
sinal".
Mas,
como observam pessoas próximas a Trump, o presidente americano já lidou com
consequências e oposição interna no passado. Apesar da resistência em vários
temas, Trump continua sendo a figura mais poderosa do partido.
"Acho
que o presidente será elogiado pelo fato de que a informação será divulgada e
estará disponível. No fim das contas, são os resultados que contam, não o
processo que nos levou até lá", disse Ager, ex-presidente do Partido
Republicano de New Hampshire, em referência aos arquivos de Epstein.
Trump
fez comentário similar em sua rede social na terça-feira à noite, afirmando que
não se importa quando os republicanos no Senado aprovam projetos de lei.
"Só não quero que os republicanos tirem os olhos de todas as vitórias que
tivemos."
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O que apareceu sobre Trump nos arquivos de Epstein já divulgados
Na
quarta-feira (12/11), parlamentares do Partido Democrata na Comissão de
Supervisão da Câmara dos Representantes tornaram públicas três trocas de
e-mails entre Epstein e sua antiga associada Ghislaine Maxwell — atualmente
presa e condenada a 20 anos por tráfico sexual — e entre Epstein e o escritor
Michael Wolff, autor de diversos livros sobre Trump.
O
primeiro e-mail divulgado pelos democratas é de 2011 e mostra uma troca entre
Epstein e Maxwell.
Epstein
escreve: "Quero que você perceba que o 'cachorro que não latiu' é o
Trump... a [nome omitido da vítima] passou horas na minha casa com ele."
Epstein
prossegue, afirmando que Trump "nunca foi mencionado uma única vez",
nem mesmo por um "chefe de polícia".
Maxwell
responde: "Tenho pensado sobre isso..."
Um
outro e-mail divulgado pelos democratas é de janeiro de 2019, durante o
primeiro mandato de Trump, o qual mostra Epstein dizendo ao escritor Michael
Wolff: "Trump disse que me pediu para renunciar", aparentemente em
referência à suposta filiação ao clube do presidente, Mar-a-Lago. Epstein
afirma no email nunca ter sido membro e acrescenta: "Claro que ele sabia
sobre as garotas, já que pediu a Ghislaine para parar."
A
porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que os e-mails foram
"vazados seletivamente" por democratas "à mídia liberal, para
fabricar uma narrativa falsa e manchar o presidente Trump".
Trump
diz que foi amigo de Epstein por vários anos, mas que os dois romperam relações
no início dos anos 2000, dois anos antes da primeira prisão do milionário. O
presidente tem negado qualquer envolvimento em crimes ligados a Epstein.
Em
setembro, parlamentares divulgaram uma cópia de um "livro de
aniversário" entregue em 2003 a Epstein. O material, entregue ao Congresso
por advogados do espólio de Epstein, inclui uma nota supostamente escrita e
assinada por Trump.
Eis o
conteúdo da suposta carta, traduzido:
Narração:
Deve haver mais na vida do que ter tudo.
Donald:
Sim, há, mas não direi o que é.
Jeffrey:
Nem eu, já que também sei o que é.
Donald:
Temos certas coisas em comum, Jeffrey.
Jeffrey:
Sim, temos, pensando bem.
Donald:
Enigmas nunca envelhecem, você reparou isso?
Jeffrey:
De fato, isso ficou claro para mim na última vez que te vi.
Donald:
Um amigo é algo maravilhoso. Feliz aniversário — e que cada dia seja outro
segredo maravilhoso.
Donald
J. Trump
Quando
a existência da nota atribuída a Trump foi revelada pelo Wall Street Journal em
julho de 2025, o presidente americano disse que ela era "falsa" e
negou ser o seu autor.
Trump
processou judicialmente repórteres, editores e executivos do jornal, incluindo
Rupert Murdoch, dono da News Corp, pedindo indenização de US$ 10 bilhões (cerca
de R$ 55 bilhões). Ainda não houve decisão final sobre o processo.
Fonte:
National
Catholic Reporter/BBC News Brasil

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