Como
funciona fundo que quer usar lógica do mercado financeiro para proteger
florestas
Usar a
lógica do mercado financeiro para salvar as florestas tropicais. Essa é a ideia
por trás da maior aposta do governo brasileiro até agora para a 30ª conferência
da Organização das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP30, que está
em curso em Belém.
A
aposta tem um nome comprido, Fundo Florestas Tropicais para Sempre, mas vem
sendo chamado pelo governo pela sua sigla em inglês: TFFF, que significa
Tropical Forests Fund Facility.
O fundo
foi lançado antes da abertura da COP30, em 7 de novembro, ao final da Cúpula do
Clima, que reuniu chefes de Estado também na capital paraense.
Segundo
o governo, o TFFF vai receber aportes de governos, organizações filantrópicas e
investidores privados que serão investidos em títulos de renda fixa.
Parte
do lucro do fundo será destinada aos investidores e outra será dada aos países
com que aderirem ao TFFF e que comprovaram que estão preservando suas florestas
tropicais.
O
cálculo do governo é que, a partir do momento em que o fundo esteja operacional
e gerando rendimentos, sejam repassados aos países US$ 4 (cerca de R$ 21) por
hectare de floresta preservada por ano.
Desse
total, as regras do TFFF estabelecem que pelo menos 20% dos recursos recebidos
sejam destinados a povos originários ou a projetos que os beneficiem.
Para
receber os recursos do fundo, um país não precisa ter investido nele. Basta
manifestar seu desejo de participar do TFFF e cumprir requisitos como comprovar
a preservação das florestas com base em dados de satélite e criar mecanismos de
governança que garantam que parte dos recursos recebidos seja direcionado a
populações tradicionais, como povos indígenas ou quilombolas.
O
diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), Garo Batmanian, diz à BBC
News Brasil que o TFFF tem algumas diferenças em relação à maior parte dos
fundos criados nos últimos 15 anos com foco na preservação de florestas.
"A
primeira diferença é que não é um fundo para receber doações. É um fundo de
investimentos", afirma Batmanian.
O
paralelo mais imediato feito por Batmanian é com o Fundo Amazônia, criado pelo
governo brasileiro em 2008 e que funciona à base de doações. Neste modelo, os
países doam a fundo perdido, e os recursos são usados pelo governo para
financiar políticas públicas ou projetos voltados à preservação da floresta. A
continuidade do fundo depende de novas doações.
No
TFFF, os aportes formam um montante que é aplicado para gerar mais recursos. Os
investidores receberão os juros sobre seus aportes, o que, em tese, serviria
para atrair países para a iniciativa.
Segundo
a nota conceitual do fundo, documento que indica como ele funcionará, a meta é
que, em dez anos, o TFFF possa funcionar sem a necessidade dos investimentos
feitos pelos países.
A
expectativa é de que até lá, o fundo terá gerado recursos suficientes para
reembolsar esses aportes governamentais e funcionar sem a necessidade de novos
investimentos. A previsão é que após o reembolso, os países deixem o fundo.
"Não
temos nada contra doações, mas esse dinheiro sai do bolso do pagador de
impostos, e isso gera situações em que os governos podem, eventualmente,
diminuir suas contribuições. O TFFF é uma forma de garantir estabilidade no
financiamento de projetos para manter a floresta em pé", diz Batmanian.
O fundo
foi elogiado por parte de diversas organizações não governamentais
ambientalistas como Greenpeace Brasil e World Wide Fund for Nature (WWF).
"O
TFFF é um divisor de águas: ele recompensa os países por manterem suas
florestas em pé. Ele canaliza recursos diretamente para os povos indígenas e
comunidades locais, os verdadeiros guardiões de nossas florestas", disse o
WWF em nota.
O
Greenpeace Brasil classificou o mecanismo como "um passo importante rumo
ao fim do desmatamento global".
Mas,
apesar dos elogios, a iniciativa deverá enfrentar obstáculos para se
consolidar.
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Investidores e metas
O
primeiro obstáculo é atrair investidores e atingir as metas desenhadas por seus
criadores. O objetivo é arrecadar US$ 25 bilhões (R$ 132,7 bilhões) junto a
países do mundo todo.
Com
base nesses recursos, o fundo faria uma operação de captação de recursos junto
ao mercado para arrecadar mais US$ 100 bilhões (R$ 530,9 bilhões), totalizando
US$ 125 bilhões (R$ 663,6 bilhões).
Essa
operação visa atrair investidores privados como empresas, fundos de
investimento e entidades filantrópicas. A ideia é que eles façam novos
investimentos no fundo e passem a ser remunerados com os juros obtidos por ele
assim como os países.
A meta
é que, com essa arquitetura, o TFFF não dependa somente de investimentos feitos
por governos nacionais.
Antes
do lançamento oficial, em 3 de novembro, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad
(PT), disse que a meta inicial era que o TFFF recebesse, até o final de 2026,
US$ 10 bilhões (R$ 53,1 bilhões) em aportes de países estrangeiros. Esse
montante permitira, segundo o governo brasileiro, que o fundo começasse a
operar.
Até
agora, no entanto, os anúncios de investimento somam US$ 5,5 bilhões (R$29,2
bilhões). Os países que indicaram aportes no fundo foram: Brasil (US$ 1
bilhão), Indonésia (US$ 1 bilhão), França (US$ 577 milhões), Noruega (US$ 3
bilhões) e Portugal (US$ 1 bilhão).
Os
recursos, porém, ainda não entraram nos cofres do fundo. Isso porque países
como a Noruega, maior investidor até o momento, impuseram condições para que
concretizar o investimento. Uma delas é que o aporte dos noruegueses não supere
20% do total captado. Na prática, isso gera ainda mais pressão para que o TFFF
obtenha mais recursos de mais países.
Os
investimentos anunciados pelo Brasil e pela Indonésia só deverão se concretizar
no ano que vem porque os dois países ainda estão elaborando seus orçamentos
para o ano que vem e, só depois de aprová-los com a previsão destes aportes, é
que poderão aplicar de fato o dinheiro prometido no fundo.
Nações
como a Alemanha e o Reino Unido, que participaram das discussões sobre o
desenho do fundo, deram indicações a membros do governo brasileiro de que
poderiam anunciar aportes durante a COP30, mas isso ainda não ocorreu. Há
expectativa, verbalizada em caráter reservado por integrantes da delegação
alemã, de que o país europeu anuncie a entrada no TFFF nesta quarta-feira
(18/11).
O
possível anúncio, se concretizado, acontecerá dois dias após o chanceler
alemão, Friedrich Merz, ter gerado reações negativas nas redes sociais
brasileiras após ressaltar, em discurso, que Alemanha era um país bonito e que
os jornalistas de seu país que vieram a Belém estariam felizes ao voltarem para
casa.
Segundo
Batmanian, um dos motivos para o recuo nas doações de alguns países pode ter
relação com o processo de votação dos orçamentos nestes países.
"Eles
ainda precisam votar os seus orçamentos. Talvez tenhamos que esperar eles
aprovarem os seus orçamentos para ver quanto recursos eles terão disponíveis.
Há conjunturas políticas internas que precisam ser consideradas", diz ele.
Apesar
da ponderação de Batmanian, a hesitação de alguns países em anunciar aportes no
fundo levantou dúvidas sobre a capacidade do mecanismo de atrair novos
investidores.
No dia
do lançamento, ainda sob a promessa alemã de aporte na COP30, Haddad defendeu
que o montante arrecadado indicaria que o projeto é um sucesso. "Estamos
saindo do dia bastante animados", disse o ministro em entrevista coletiva.
Agora,
o governo brasileiro tem usado um tom mais cauteloso.
Uma
reportagem do portal UOL apontou que um dos motivos pelos quais os alemães
teriam ficado de fora seria a análise de que o mecanismo foi considerado
"arriscado" pelos técnicos do país.
Garo
Batmanian tenta minimizar a suposta desconfiança: "Eles não nos disseram
que o modelo não é bom. Há questões de política interna que precisam ser
consideradas. O que temos é que os alemães prometeram que fariam um aporte, e
estamos aguardando isso se concretizar".
Batmanian
diz não ser realista esperar que um fundo atinja seu objetivo de recursos
captados tão rapidamente.
"Em
geral, os fundos ficam abertos por meses até atingir a sua meta de
capitalização. Nós acabamos de lançar o fundo e tivemos uma recepção bastante
boa e vamos ficar abertos durante algum tempo para atingir nossa meta."
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Resistências e amadurecimento
Um
segundo obstáculo é a resistência de alguns movimentos sociais em relação ao
TFFF.
Segundo
eles, o mecanismo não aborda ameaças estruturais à sobrevivência das florestas,
como o avanço predatório da agricultura, mineração e a exploração de petróleo.
Também
há o temor de que adotar a lógica do mercado financeiro para salvar a floresta
possa agravar ainda mais a situação tanto das florestas quanto dos povos que
vivem nelas.
"O
TFFF é um mecanismo para privatização financeira das florestas", diz uma
nota assinada por 102 organizações não governamentais, entre elas a Rede de
Trabalho Amazônica, que reúne movimentos sociais dos nove Estados da Amazônia
brasileira.
"O
TFFF não prioriza os povos indígenas e as populações locais e nem estabelece
equidade de gênero ou intergeracional na sua alocação de recursos. Oitenta por
cento dos US$ 4 por hectare [que serão destinados aos países com florestas]
irão para os governos nacionais. Somente 20% vão para aqueles que de fato
defendem e preservam as florestas tropicais."
À BBC
News Brasil, Batmanian rebate as críticas: "A gente precisa de dinheiro
para fazer conservação. O dinheiro vai vir de onde? Não estamos vendendo
florestas".
Batmanian
afirma que os países que aderirem ao fundo terão que atender a critérios e
padrões de governança que garantam, por exemplo, que os recursos destinados aos
povos indígenas não sejam aplicados em outras áreas.
A
diretora para Políticas Públicas da organização não governamental The Nature
Conservancy (TNC), Karen Oliveira, reconheceu, em um posicionamento público
sobre o TFFF, que o mecanismo é um "modelo inovador" e que pode
representar avanços em como se combate o desmatamento de florestas tropicais.
Mas ela
indica pontos que merecem atenção. "Como o fundo opera com lógica de
mercado, está sujeito a flutuações e instabilidades econômicas globais, o que
pode comprometer sua sustentabilidade", diz Oliveira.
"Por
transformar a floresta em pé em um ativo financeiro, é fundamental ter atenção
para evitar uma excessiva valoração comercial dos serviços ecossistêmicos sem
considerar adequadamente os aspectos sociais e culturais das comunidades
locais."
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O xadrez do financiamento
Uma das
preocupações expressada por dois negociadores de países em desenvolvimento
ouvidos pela BBC News Brasil em caráter reservado é que o TFFF não seja
"sequestrado" pelos países desenvolvidos e usado para diluir o pleito
das nações mais pobres por mais financiamento de projetos de mitigação e
adaptação às mudanças climáticas.
Eles
temem que os países desenvolvidos incluam uma eventual adesão a mecanismos como
o TFFF na contabilidade dos recursos que, por força do Acordo de Paris,
deveriam repassar aos países em desenvolvimento.
Na
interpretação destes negociadores, como o TFFF prevê retorno financeiro aos
seus investidores, ele não poderia ser contabilizado como recurso previsto
dentro do Acordo de Paris.
O
Acordo prevê que os países desenvolvidos devem prover recursos para os em
desenvolvimento se adaptarem e mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Há
um debate, no entanto, sobre qual a fatia desses recursos deve ser de origem
pública e quanto deve ser privada e como contabilizá-los.
Na
COP29, no Azerbaijão, os países em desenvolvimento pressionaram para que a
fatia de financiamento saísse de US$ 100 bilhões até 2035 para US$ 1,3 bilhão.
Após
intensos debates, chegou-se a um acordo que previa elevar esse valor a US$ 300
bilhões em 2035, com um compromisso de que, até a COP30, fosse apresentado um
mapa do caminho apontando medidas para se chegar a US$ 1,3 trilhão. O mapa foi
entregue no início do mês.
Batmanian
diz que o TFFF não deve ser encarado como uma solução ao debate sobre
financiamento climático que está sendo feito durante a COP30.
"O
TFFF é um mecanismo que se soma a outros que já existem. Ele não vem para
substituir nada. Ele é mais um item em um menu de opções que temos para
preservar as florestas tropicais."
Fonte:
BBC News Brasil

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