quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Mamdani, Sanders, Socialismo: entenda as raízes da “esquerda” que cresce nos EUA

O prefeito eleito em Nova York, Zohran Mamdani, afirma que é um socialista democrático graças ao exemplo do senador Bernie Sanders. Sanders, provém de uma corrente socialista que surgiu nos EUA nas décadas de 1960 e 1970, a qual, por sua vez, tinha parte de suas raízes históricas no Partido Socialista fundado em 1901.

Vale destacar que a organização política Democratic Socialists of America (DSA), da qual Mamdani é membro (embora Sanders não seja), não é um partido, e desde suas origens, nos anos 1970 — quando Michael Harrington e outros fundaram o Democratic Socialist Organizing Committee —, seu objetivo era atuar dentro do Partido Democrata. Mamdani foi o candidato oficial do Partido Democrata (apesar da resistência da cúpula dessa organização política). De fato, a DSA e seus antecessores foram criticados por setores da esquerda mais radical como correntes reformistas semelhantes às dos social-democratas europeus (embora, na conjuntura política atual dos EUA, isso seja considerado radical).

O termo “socialista”, ao longo da história moderna do país, tem sido usado pelas elites como um insulto ou uma forma de desqualificar políticos de esquerda, chegando até a acusá-los de atitudes “antiamericanas”. Mas, nos últimos anos, ocorreu algo curioso: uma pesquisa da Gallup, em setembro, registrou que 66% dos eleitores democratas têm uma percepção positiva do “socialismo”, enquanto a aprovação do capitalismo caiu para apenas 54% entre todos os estadunidenses. Ainda mais alarmante para alguns é uma pesquisa do Cato Institute/YouGov, realizada neste ano, segundo a qual 62% dos estadunidenses com menos de 30 anos têm uma visão “favorável” do socialismo. Não há, porém, uma definição compartilhada de “socialismo”.

O apoio massivo que Sanders acumulou ao lançar sua pré-candidatura presidencial declarando-se abertamente “socialista democrático”, em 2016 e novamente em 2020, sacudiu as cúpulas de ambos os partidos. Utilizando as narrativas desenvolvidas pelo movimento altermundista do final dos anos 1990 e, depois, pelo Occupy Wall Street, Sanders fundiu a tradição dos antigos socialistas democráticos com novas gerações de movimentos mais recentes. Com isso, a DSA foi revitalizada e hoje é a maior organização socialista do país, com cerca de 80 mil membros e milhares de aliados, além de outros esforços independentes, como o Working Families Party, e uma nova liderança progressista em alguns sindicatos e outras organizações sociais, incluindo as de imigrantes. Tudo isso contribuiu diretamente para o triunfo de Mamdani como prefeito da capital do capitalismo, Nova York.

Esses movimentos progressistas e/ou socialistas no campo eleitoral têm uma longa história nos EUA, com raízes no século 19 e nos imigrantes rebeldes que sempre participaram — e às vezes lideraram — as lutas por justiça social na nação estadunidense.

Atualmente, a ampla gama do que se pode qualificar como movimento “progressista” — que inclui, mas não se limita aos socialistas democráticos — continua ampliando sua presença não apenas em cidades e vilas, mas também em legislaturas municipais, estaduais e no Congresso federal. O chamado Caucus Progressista do Congresso inclui quase 100 legisladores que se identificam como “progressistas” — cuja liderança é composta por dois mexicano-estadunidenses e uma somali —, e vários outros como “socialistas democráticos”, quase um quarto da Câmara dos Representantes.

Para além disso, embora seja notável a eleição de um socialista democrático como prefeito da maior cidade do país, ele não é o primeiro nem o único. Atualmente há pelo menos outros oito em cidades que vão da Califórnia a Vermont. No início do século passado, dezenas de cidades e vilas do Meio-Oeste eram governadas por prefeitos socialistas, incluindo Milwaukee, de 1916 a 1940.

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Mamdani fez referência a essa história em seu discurso de vitória na terça-feira, ao citar Eugene Debs, lendário líder nacional e candidato presidencial socialista do final do século 19 e início do 20.

Antes se dizia que o “socialismo” era a ameaça à democracia nos EUA. Agora, pode ser que o socialismo esteja resgatando essa democracia.

¨      Mamdani e a crise identitária judaica. Por Rui Martins

Alguma coisa importante parece estar acontecendo no equilíbrio de forças internacionais, menos sorrateira e mais avançada que o aumento do volume das águas oceânicas e a invasão dos continentes em consequência das mudanças climáticas. Tanto uma como outra poderão significar importantes mudanças estruturais no mundo atual.

O sinal mais evidente e mais recente foi a eleição de Zohran Mamdani para a prefeitura de Nova Iorque com o apoio, calculado em 30%, da comunidade judaica novaiorquina, embora Mamdani seja abertamente antissionista. A guerra de Israel contra Gaza, depois do ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro, teria provocado divergências entre os jovens, dentro da comunidade judaica, com evidentes sinais de questionamento identitário.

Paralelamente, retornou no mundo e com força o antissemitismo do passado, e a própria existência de Israel passou a ser questionada pelos jovens estudantes das principais universidades americanas e europeias. O lema bastante difundido “do rio ao mar” não defende a existência de um Estado palestino convivendo ao lado de Israel, mas sua destruição pregada pelo Hamas.

A controvertida tese de um genocídio cometido por Israel contra os palestinos de Gaza acabou sendo aceita também pela metade da população judaica nos EUA de 18 a 34 anos e por 60% dos jovens judeus norte-americanos não religiosos. A informação é de Sebastien Levy, vice-presidente da secção novaiorquina da associação judaica J Street, próxima dos democratas. Segundo ele, muitos jovens judeus, decepcionados com a política de Netanyahu, se manifestaram também nos câmpus universitários contra Israel.

Nova Iorque não é os Estados Unidos, mas a vitória de Mamdani poderá levar os democratas a reforçarem seus valores de esquerda defendidos por Bernie Sanders. Não chegará nem perto das teses defendidas na França pelo partido de extrema esquerda de Mélenchon, antissionista e pró Hamas, mas poderá se distanciar de Israel, que se enfraquecerá e não terá o mesmo apoio em armamentos dos EUA, no caso de um retorno dos democratas ao poder depois de Trump.

Os judeus franceses também se inquietam diante da vitória de Mamdani –muçulmano xiita favorável ao boicote a Israel – em Nova Iorque, cidade onde vive o maior número de judeus da diáspora. O canal Mosaique entrevistou, no YouTube, o escritor Daniel Bensoussan-Bursztein, para ter uma análise da situação.

Assim descobrimos a influência de Edward Said, pai da teoria do pós-colonialismo, sobre Mamdani, pois Said era colega de seu pai, Mahmood Mamdani, na Universidade de Colúmbia, onde ambos eram professores e amigos. Em duas oportunidades, Mamdani deixou pairar a dúvida, num debate antes das eleições, sobre o direito à existência de Israel e, num podcast, sobre uma globalização da intifada. Mas sempre defendeu os palestinos na questão de Gaza.

Para Daniel Bensoussan o governo de Netanyahu decepcionou muitos líderes judeus norte-americanos que se tornaram antissionistas como a militante Simone Zimmerman, que se voltou também contra o Estado de Israel. É também o caso de Judith Butler, que não condenou o 7 de outubro. Isso poderá levar à ruptura de uma grande parte da comunidade judaica dos EUA com Israel. O movimento J Street, sionista de esquerda, é pelo boicote de armas para Israel, exceto as necessárias para sua defesa aérea e terrestre.

Nesta altura, depois de enfatizar a crise identitária na juventude judaica novaiorquina revelada na eleição de Zohran Mamdani, num mundo onde o Sul Global e o pós-colonialismo podem rever valores conquistados em termos de liberdade, democracia, laicidade, talvez valha a pena buscar a visão sociológica e política de uma pensadora “goim”, não judaica, francesa da Corsega, Renée Fregosi, socialista e feminista, professora na Sorbonne.

Seu último livro – O Sul Global sem rumo, entre decolonialismo e antissemitismo – foca justamente nas contradições do novo pensamento da esquerda que, em outros textos aqui no Observatório da Imprensa, qualificamos de islamizada, indiferente ao fato do Sul Global ter na sua liderança ditaduras e teocracias, nas quais não são prioritários os direitos femininos, a questão de gênero e a laicidade. O retorno do velho antissemitismo, mascarado muitas vezes de antissionismo não revela também uma crise identitária no pensamento da esquerda?

Renée Fregosi, numa longa entrevista ao mesmo canal Mosaique, se pergunta sobre o aumento do antissemitismo no mundo, sem ignorar a crise de Gaza, e por que a questão palestina se tornou o centro das preocupações das opiniões ocidentais, mostrando uma permeabilidade da esquerda ocidental ao “palestinismo”. E o Mosaique resume a resposta de Fregosi: “por ter substituído a luta de classes pela de raças, a esquerda se juntou ao combate do movimento islâmico embora oposto aos ideais emancipadores do socialismo”.

Citando no seu livro uma conferência de Eliezer Cherki sobre As concepções políticas do Islã, Renée Fregosi enfatiza o conceito guerreiro islâmico de um mundo a ser conquistado e submetido. Um livro essencial para se entender e combater o antissemitismo dos nossos dias.

¨      Ameaças de morte e acusações: o professor alvo da extrema-direita americana

Com a bagagem despachada e os cartões de embarque em mãos, Mark Bray e sua família passaram pela segurança no aeroporto de Newark no início de outubro. O voo para a Espanha deveria levar a família de quatro pessoas para um lugar seguro após dias de ameaças crescentes; em vez disso, enquanto esperavam no portão de embarque, foram informados de que alguém havia cancelado a reserva.

“Senti como se estivesse sendo observada e ridicularizada”, disse Bray, professora da Universidade Rutgers, que ministra um curso sobre a história do antifascismo e escreveu um livro sobre a Antifa em 2017. “Eu sabia que era algo com motivação política, de uma forma ou de outra.”

O incidente catapultou Bray para as manchetes como uma das pessoas de maior destaque envolvidas nos esforços de Donald Trump para atacar a Antifa.

Durante anos, Trump atacou a Antifa, tentando transformá-la em um inimigo formal, apesar de o movimento descentralizado – que se opõe à extrema-direita, aos fascistas e aos racistas – não ter estrutura, hierarquia ou líder.

Sua cruzada ganhou novo fôlego após o assassinato do ativista de extrema-direita Charlie Kirk. Dias depois do crime, sem qualquer evidência que ligasse o suspeito ao Antifa, o presidente assinou uma ordem executiva designando o movimento como uma “organização terrorista doméstica”.

Nos últimos dias, o governo foi além, acusando quatro entidades europeias de serem "grupos violentos da Antifa" e anunciando planos para designá-las como organizações terroristas estrangeiras.

Os esforços para estabelecer uma ligação entre o assassinato de Kirk e a Antifa, por mais tênue que fosse, abalaram a vida de Bray. Desde a publicação de seu livro de 2017, Antifa: O Manual Antifascista, o professor era amplamente considerado um especialista no movimento.

A distinção sempre foi clara. "Sou antifascista na medida em que não gosto do fascismo e gostaria muito que nos organizássemos contra ele", disse ele. "Mas é só isso. Nunca fiz parte de nenhum grupo."

No final de setembro, enquanto as tensões continuavam a aumentar devido ao assassinato de Kirk, influenciadores da extrema-direita e a mídia de direita intensificaram seus esforços para obscurecer essa distinção. Um influenciador de direita proeminente o descreveu como um "professor terrorista doméstico", uma alegação rapidamente adotada por outros, enquanto um grupo de estudantes afiliado à organização fundada por Kirk o acusou de ser um "líder proeminente do movimento Antifa no campus" e pediu sua demissão.

Logo em seguida, vieram algumas ameaças de morte. Quando seu livro sobre a Antifa foi publicado em 2017, Bray ignorou as ameaças que recebeu. Mas agora, como pai de duas crianças pequenas, era difícil ignorar o e-mail que o ameaçava de morte na frente de seus alunos ou o fato de alguém ter publicado seu endereço residencial nas redes sociais.

“Eu ficava lutando contra a ideia de que, ao ter medo disso, eu estaria fazendo o jogo deles”, disse ele. “Mas a diferença entre desta vez e da última, entre outras coisas, foi ter filhos pequenos, e se houvesse uma chance de 0,001% de alguém passar de carro na frente da nossa casa e metralhá-la com uma arma automática, eu não podia correr esse risco.”

Com o apoio da Universidade Rutgers, ele e sua esposa, também professora, decidiram se mudar para a Espanha, pelo menos até o final do ano letivo, e lecionar remotamente, na esperança de que a situação se acalmasse. Com as ameaças pairando sobre eles, empacotaram o necessário em poucos dias, mantendo as cortinas fechadas e os filhos sem saber o motivo da mudança repentina.

Quando a primeira tentativa de embarcar no voo falhou, ficou evidente como o contexto havia mudado. Anos antes, quando Bray se tornou conhecido por suas pesquisas sobre a Antifa, ele sentiu como se a raiva contra ele tivesse surgido de algumas pessoas ressentidas que, então, tentaram incitar outras a atacá-lo.

“Desta vez, porém, não foi uma ação de baixo para cima. Foi de cima para baixo”, disse ele. “Na minha opinião, a Casa Branca decidiu que a Antifa está na mira.”

Horas antes do voo de Bray ser cancelado, Trump e seus principais assessores realizaram uma reunião na Casa Branca, prometendo usar toda a força do governo para esmagar a Antifa, que compararam a algumas das gangues e cartéis de drogas mais violentos do mundo.

“No dia em que eu estava saindo do país, os influenciadores de extrema direita que me atacaram estavam na Casa Branca reunidos com Trump sobre a Antifa e estão em contato direto com ele”, disse Bray.

No dia seguinte, enquanto a mídia, advogados e um senador democrata acompanhavam o progresso da família, eles conseguiram embarcar no voo para a Espanha. Antes do embarque, porém, foram detidos por cerca de uma hora por agentes da alfândega e da patrulha de fronteira, que bombardearam Bray e sua esposa com perguntas, pediram para ver o celular dele e revistaram a bagagem de mão da família.

As perguntas feitas a Bray logo se tornaram mais incisivas, insinuando que ele havia doado metade dos lucros do livro de 2017 ao Fundo Internacional de Defesa Antifascista, que apoia os custos legais e médicos de pessoas ao redor do mundo acusadas de crimes relacionados a ações antifascistas. "Não é um grupo Antifa", disse Bray, observando que os agentes recuaram quando ele disse que precisaria da presença de seu advogado para responder a tais perguntas.

Várias semanas depois, tomando um café em uma conhecida rede espanhola, Bray falou com o Guardian. De um ponto de vista a mais de 5.600 quilômetros de distância, ele descreveu o sofrimento de sua família como parte de uma estratégia mais ampla do governo Trump para usar a Antifa – um movimento que permanece pouco compreendido por muitos – para promover seus próprios objetivos.

“O manual do fascista autoritário está bem documentado e prospera em crises e emergências”, disse ele. “Está bem documentado que figuras como essa querem sufocar a resistência da oposição e geralmente tentam criar uma categoria genérica de bode expiatório para fazê-lo.”

A Antifa estava sendo usada dessa forma, apesar de sua falta de estrutura a tornar mais semelhante ao socialismo do que a qualquer organização formal. "Eu realmente acho que o MAGA é um movimento fascista, e acredito que a intenção do governo é destruir a oposição e os protestos, criando um sistema autoritário", disse ele.

Com o início desse processo por parte do governo Trump, a vida que ele e sua esposa haviam construído nos EUA tornou-se – pelo menos temporariamente – dano colateral. “Não se tratava exatamente de mim, mas sim de usar um bode expiatório para tentar atacar qualquer pessoa de quem o governo não gostasse. É assim que eu vejo”, disse ele, apontando para o ecossistema da mídia de extrema direita que amplificou essas alegações, deixando-o à mercê de ameaças de morte. “Mas era irritante que alguém pudesse simplesmente enviar um e-mail e mudar minha vida.”

 

Fonte: La Jornada/Observatório da Imprensa/The Guardian

 

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