João
dos Reis Silva Júnior: Técnica digital
A
técnica digital tornou se elemento decisivo da vida contemporânea e passou a
integrar o núcleo das práticas sociais, políticas e econômicas que moldam o
destino das nações. A aparência imaterial do mundo digital encobre uma
realidade histórica marcada pela materialidade dos recursos, pela concentração
do saber técnico e pela desigualdade na capacidade de produzir e controlar
instrumentos de cálculo.
O
Brasil, com sua história construída sob o signo da dependência econômica,
cultural e epistêmica, encontra nessa transformação tecnológica um espelho de
suas fragilidades estruturais e também um campo de disputa que exige análise
rigorosa. A técnica digital não surge como força neutra. Ela é resultado de
processos históricos que se sedimentaram ao longo de séculos, como argumenta
Santos 2002 ao examinar a persistência de padrões de dominação simbólica. O
país vive sob instituições que carregam em sua formação marcas profundas de
subordinação, e a técnica contemporânea atualiza essas marcas com nova feição.
A
compreensão do fenômeno digital requer atenção às condições materiais que
permitem o funcionamento de sistemas computacionais. A técnica presente depende
de mineração, energia, infraestrutura e conhecimento especializado. Essa
dependência material revela que o mundo digital não flutua acima da realidade
econômica. Ao contrário, repousa sobre a mesma base que sustentou a ordem
internacional desde o século dezenove, com forte desigualdade entre países que
detêm o controle do conhecimento e países que apenas o consomem.
O
pensamento de Quijano 2000, ao analisar a permanência da dominação fundada na
relação entre saber e poder, ilumina esse movimento. O Brasil ocupa posição em
que a produção autônoma do saber técnico é frequentemente limitada por
estruturas institucionais que resultaram de longa história de dependência e
submissão intelectual.
O
avanço da técnica digital pressiona ainda mais essas estruturas. A aparência de
inovação constante cria sensação de inevitabilidade, como se a técnica fosse
destino e não escolha coletiva. Essa percepção retira a responsabilidade humana
da construção da técnica e a entrega ao automatismo do cálculo.
No
entanto, como já lembrava Heidegger 1954 ao examinar a essência da técnica, o
artefato não é simples meio. Ele é modo de revelação do mundo. Ao aceitar a
técnica digital como destino natural, o Brasil corre o risco de reproduzir
antigas formas de subordinação sob linguagem nova. A reflexão crítica exige
romper essa ilusão e recolocar a técnica no campo da história, onde se
encontram suas origens reais.
O
caminho histórico brasileiro revela sucessivas formas de dependência que se
atualizaram conforme mudanças nos modos de produção. Da agricultura de
exportação ao ciclo industrial incompleto, o país sempre se estruturou em torno
de assimetrias profundas entre criação e consumo de conhecimento. A técnica
contemporânea apenas amplia essa distância, pois exige capacidades que não se
improvisam.
A
concentração global de laboratórios, universidades de ponta e empresas
produtoras de sistemas digitais impede que países dependentes definam os rumos
da inovação. Feenberg 1991 observa que toda técnica carrega valores e escolhas
sociais. Assim, quando o Brasil importa sistemas prontos, importa também
valores embutidos nesses sistemas, que podem entrar em choque com necessidades
e práticas locais.
A
dimensão econômica desse processo é evidente. A técnica digital depende de
energia e de infraestrutura de alto custo. Data centers, cabos de comunicação e
equipamentos avançados exigem investimento contínuo. Países com trajetória de
restrição fiscal e com fundo público pressionado por demandas urgentes
enfrentam dificuldade em construir autonomia técnica.
Essa
dificuldade se acentua quando corporações internacionais controlam patentes e
definem padrões de funcionamento de sistemas. O Brasil se vê compelido a adotar
soluções produzidas fora de seu território, ampliando a dependência técnica que
se soma à dependência econômica e cultural. A técnica digital repete a lógica
que marcou a história da industrialização tardia do país, porém com alcance
mais profundo sobre a vida institucional.
A
dimensão cultural da dependência brasileira se manifesta na aceitação quase
automática de modelos estrangeiros de organização da vida digital. A
valorização do saber externo se combina à desconfiança em relação à produção
nacional. Essa postura fragiliza a busca por caminhos próprios e reforça a
sensação de que a técnica é campo inacessível à criação brasileira.
O país,
ao adotar sem reflexão sistemas que orientam decisões públicas, renuncia em
parte ao exercício da soberania cultural. Essa renúncia tem consequências
diretas sobre a formação intelectual, pois escolas e universidades passam a
operar segundo métricas externas. A técnica se converte em forma de autoridade
silenciosa que orienta comportamentos e reorganiza instituições sem
participação efetiva da sociedade.
A
dimensão epistêmica completa o quadro. O saber técnico depende de longa
formação científica. A técnica digital exige capacidade de produzir modelos
matemáticos, algoritmos e estruturas lógicas que refletem escolhas sobre o
mundo. Quando essas escolhas são feitas fora do país, o Brasil internaliza
lógica de decisão que não resulta de sua experiência histórica.
O
pensamento de Santos 2002 sobre produção de conhecimento periférico ajuda a
compreender essa tensão. A dependência epistêmica cria sensação de inadequação
permanente e dificulta a consolidação de tradição científica autônoma. A
técnica digital, por sua vez, intensifica essa sensação ao apresentar se como
saber absoluto.
O
caminho histórico do Brasil é marcado por tentativas recorrentes de
modernização que, ao invés de superar a dependência, muitas vezes a reforçaram.
A técnica digital pode seguir esse percurso se não for submetida ao exame
crítico. O país precisa reconhecer que não há neutralidade na técnica. Cada
sistema digital expressa visão de mundo, interesse econômico e estrutura de
poder.
A
adoção acrítica desses sistemas pode comprometer a capacidade nacional de
construir políticas públicas que reflitam a realidade brasileira. A técnica,
quando não compreendida historicamente, se converte em fator de dominação.
A
formação do Brasil ocorreu sob combinação de exploração econômica, imposição
cultural e subordinação do saber. A técnica digital atualiza esse triplo eixo.
No plano econômico, extrai valor por meio da captura de dados e da venda de
soluções externas. No plano cultural, impõe modelos de comportamento e
comunicação que podem dissolver tradições locais. No plano epistêmico, orienta
práticas científicas e administrativas com base em raciocínios produzidos em
outros contextos. O país se vê diante de desafio histórico que exige
consciência, planejamento e coragem intelectual.
A
técnica digital não deve ser rejeitada. Ao contrário, deve ser compreendida
como possibilidade de ação. Feenberg 1991 mostra que a técnica pode ser
apropriada por projetos emancipadores quando submetida à reflexão crítica. Essa
reflexão, porém, exige soberania intelectual. Exige investimento contínuo em
universidades públicas, instituições científicas e formação cultural. Exige
compreensão clara de que a técnica deve servir ao país e não orientar o país
segundo padrões que não nascem de sua experiência.
O exame
da técnica digital no Brasil precisa avançar para o campo das instituições
públicas, onde se expõem de modo mais nítido as tensões entre modernização e
dependência. A administração estatal tem incorporado sistemas digitais para
organizar informações, distribuir serviços e orientar decisões.
Essa
incorporação é frequentemente celebrada como sinal de eficiência. Contudo, a
técnica não é simples ferramenta administrativa. Ela transforma o modo de
trabalho, altera hierarquias e redefine a relação entre governo e sociedade. Em
contexto de dependência histórica, essa transformação pode aprofundar
desigualdades e comprometer a capacidade do Estado de agir de modo soberano.
O fundo
público brasileiro sustenta políticas sociais que abrangem saúde, educação,
previdência e assistência. Essas áreas passaram a integrar sistemas digitais de
registro, monitoramento e avaliação. A promessa de precisão e rapidez seduz
gestores e reforça a crença de que o sistema digital é solução para problemas
estruturais.
Contudo,
quando os sistemas são importados e operam com lógica externa à realidade
brasileira, o Estado adota modelo de gestão que não nasce de sua experiência.
Esse movimento cria vulnerabilidade. A técnica se impõe como autoridade que não
pode ser contestada, pois sua operação se apresenta como evidência matemática.
O espaço de deliberação política se reduz, e a administração se converte em
execução de instruções produzidas fora de seu alcance.
Na área
da educação, o uso crescente de plataformas digitais reorganiza o cotidiano das
instituições de ensino. Sistemas de avaliação automática quantificam aspectos
da aprendizagem que deveriam ser compreendidos por meio de diálogo e reflexão.
A técnica reduz a complexidade da formação humana a indicadores de desempenho.
Essa redução interfere no trabalho docente, que perde autonomia e passa a
seguir metas numéricas.
A
formação crítica, que exige tempo e densidade, é substituída por rotinas
calculáveis. O pensamento de Santos 2002 sobre empobrecimento da experiência
ilumina esse processo. A técnica digital, ao impor métricas rígidas, aprisiona
a ação educativa em moldura estreita e impede que a pluralidade cultural dos
estudantes se torne centro do processo formativo.
A saúde
pública enfrenta dilema semelhante. Sistemas digitais são capazes de organizar
grandes volumes de informações, mas esses sistemas dependem de modelos de
interpretação que podem não corresponder à realidade epidemiológica brasileira.
Quando se importam algoritmos treinados com dados estrangeiros, corre se o
risco de aplicar lógicas inadequadas ao território nacional.
Essa
inadequação pode produzir erros de diagnóstico e comprometer políticas de
prevenção. A técnica promete neutralidade, mas essa neutralidade é ilusória
quando a origem dos modelos reflete outra sociedade. A dependência epistêmica
se manifesta de forma concreta no corpo do paciente, que pode ser atendido por
sistemas incapazes de compreender sua singularidade social.
A
administração tributária também foi transformada pela técnica digital. Sistemas
de cruzamento de dados ampliaram a capacidade de fiscalização e reduziram a
sonegação em certas áreas. Entretanto, essa capacidade depende de tecnologias
complexas que são frequentemente adquiridas de empresas internacionais. A
dependência técnica implica entrega parcial de soberania tributária, pois parte
do processo de decisão se apoia em ferramentas cujo funcionamento não é
plenamente conhecido pelos gestores nacionais. Esse cenário evidencia que a
técnica pode reforçar a concentração de poder ao mesmo tempo em que fragiliza a
autonomia do Estado.
No
campo da segurança pública, a adoção de sistemas de análise de dados se
expandiu rapidamente. A promessa é identificar padrões de comportamento e
antecipar ocorrências. Contudo, esse tipo de técnica corre o risco de
consolidar preconceitos históricos, pois interpreta dados produzidos em
sociedade profundamente desigual.
O
algoritmo pode reproduzir e ampliar vieses que se tornaram parte da vida
brasileira ao longo de séculos. A técnica digital assume então papel perigoso,
pois legitima decisões com aparência de objetividade que, na verdade, refletem
desigualdades sociais persistentes. A crítica de Quijano 2000 sobre permanência
da hierarquia social ajuda a compreender essa armadilha. A técnica confirma o
que já estava estruturado, mas o apresenta como fruto do cálculo e não da
história.
As
transformações do trabalho também revelam efeitos profundos da técnica digital.
A automação de processos administrativos, industriais e financeiros cria
expectativa de ganhos em produtividade. Entretanto, muitos desses ganhos
dependem da intensificação do ritmo de trabalho. A técnica altera o tempo,
acelera processos e produz sensação contínua de urgência. Essa aceleração
repercute na saúde física e mental dos trabalhadores. A dependência econômica e
técnica se combina à pressão temporal, produzindo novas formas de desgaste. O
país, ao aceitar a técnica como padrão inevitável, corre o risco de ignorar o
impacto humano de seus sistemas.
A
técnica digital também reconfigura a vida cultural. A circulação de imagens,
músicas e textos depende cada vez mais de plataformas estrangeiras que
selecionam conteúdos por meio de cálculo automatizado. A preferência cultural
passa a ser moldada por critérios que não refletem a diversidade brasileira. A
cultura nacional, rica em múltiplas tradições, perde espaço para repertórios
globalizados. Essa substituição silenciosa aprofunda a dependência cultural. A
formação do gosto se desloca do convívio e da criação para o consumo
automatizado. O país perde parte de sua capacidade de preservar a própria
memória e de elaborar projetos culturais autônomos.
A
política nacional também sofre efeitos da técnica digital. A circulação de
informação se acelerou, mas essa aceleração trouxe consigo novos riscos.
Notícias falsas, manipulações e campanhas digitais se espalham pela rede com
velocidade maior que a capacidade humana de verificar conteúdo. O debate
público se empobrece. A técnica se converte em meio de propagação de discursos
que não passam por filtros éticos.
Esse
fenômeno ameaça a própria ideia de esfera pública, que depende de informação
qualificada e de debate racional. A dependência técnica, cultural e epistêmica
dificulta a criação de mecanismos nacionais de regulação capazes de proteger a
sociedade sem comprometer a liberdade de expressão.
O
caminho histórico do Brasil revela que a técnica sempre foi incorporada de
forma desigual. A modernização industrial se deu de maneira tardia e
incompleta. A técnica digital corre o risco de repetir esse padrão se não
houver projeto nacional claro. A grande questão não é adotar ou rejeitar a
técnica, mas orientá-la para o desenvolvimento humano. A técnica precisa ser
instrumento e não guia. Essa distinção, fundamental em Feenberg 1991, indica
que a técnica deve se submeter à reflexão coletiva. Países dependentes precisam
levar essa reflexão a sério, pois o risco da subordinação tecnológica é real e
profundo.
A
superação da dependência digital exige investimento em ciência, formação
intelectual sólida e fortalecimento das universidades públicas. Exige também
construção de instituições capazes de pensar o país em longo prazo. A técnica
pode servir ao Brasil se o Brasil se servir dela com consciência e autonomia.
Para isso, é necessário reconhecer que a técnica não é neutra. Ela expressa
escolhas sobre o modo como desejamos viver. O país, ao compreender esse ponto,
poderá transformar sua história de subordinação em história de construção.
Essa
possibilidade não é garantida, mas permanece aberta. O caminho histórico do
Brasil sempre oscilou entre dependência e busca de autonomia. A técnica digital
pode aprofundar a desigualdade ou pode contribuir para superá la. A escolha
dependerá da capacidade de reconhecer que a técnica não define o destino, mas
oferece meios para construí lo. A reflexão crítica, ancorada no estudo da
história brasileira e na compreensão profunda da técnica, constitui passo
essencial nesse movimento. O país precisa assumir essa tarefa com maturidade
intelectual.
Fonte:
A Terra é Redonda

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