sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Fernando Castilho: Por que tem que ser Papuda?

Nos últimos meses, a grande imprensa, sempre obediente ao mercado financeiro, vem tentando naturalizar a corações e mentes de que Jair Bolsonaro merece a suavidade de uma prisão domiciliar. Até setores ditos “progressistas” já se renderam a essa cantilena em seus canais de YouTube.

Ora, a mera possibilidade (não o fato) de que o capitão esteja com problemas de saúde não o torna automaticamente inapto a cumprir pena em regime fechado na Papuda. Afinal, a penitenciária tem hospital próprio, justamente porque o Estado é responsável pela saúde dos detentos. E não faltam exemplos de presos com doenças graves que continuam atrás das grades, sem direito a suíte VIP.

A menos que seu Jair esteja em estado terminal e precise ser operado novamente no DF Star, hospital cinco estrelas para milionários, não há justificativa para que não seja tratado na Papuda. Lá, ele terá atendimento médico adequado. O resto é chororô.

E não, não vale alegar que o estresse exige que ele cumpra pena na mansão de Angra, embalado pela brisa marítima e pela vista relaxante. Se fosse assim, metade da população carcerária deveria estar em resorts.

Convém lembrar: Bolsonaro não foi condenado por uma travessura qualquer, mas por um dos crimes mais graves previstos na Constituição. Resultado? 27 anos de cadeia, uma pena à altura da gravidade do ato. E cadeia é cadeia: deve ser tratado como qualquer outro preso, ainda que os demais estejam lá por delitos bem menos monstruosos.

A lei garante segurança a ex-presidentes. Isso significa cela especial, separada dos demais. Ponto. Mas não significa mordomias como TV, ar-condicionado ou menu gourmet. A distinção é de segurança, não de conforto.

O problema é que nosso Judiciário tem histórico de aliviar para os poderosos, como fez com Collor, e de aplicar mão de ferro contra os pobres, pretos e vulneráveis, como acabou de fazer com os aposentados da Revisão da Vida Toda. Assim, não seria surpresa se Bolsonaro recebesse tratamento diferenciado. Um criminoso que, se tivesse tido sucesso em sua tentativa de golpe, teria não apenas eliminado Alexandre de Moraes, mas fechado o Supremo Tribunal e encarcerado seus ministros.

Em resumo: Papuda não é castigo extra. É apenas o lugar certo para quem tentou rasgar a democracia e impor a volta dos anos de chumbo.

•        Ainda que em cela diferenciada, Bolsonaro conhecerá por dentro o horror das cadeias brasileiras. Por Paulo Henrique Arantes

Podem-se desenhar diferentes retratos do Brasil, mas nenhum será tão cruel quanto o do seu sistema carcerário, depósito de seres humanos desafortunados, pobres e pretos em absoluta maioria. À emblemática chacina do Carandiru, em 1992, quando 111 detentos foram mortos, seguiram-se muitos outros casos de rebelião, confrontos entre facções e ações policiais de contundentes a desproporcionais, frutos de um modelo de horror que vive sob o risco permanente de explosão violenta.

É esse sistema cruel que aguarda Jair Bolsonaro, um criminoso que, quando presidente da República, nada fez para amenizar a desumana situação e chegou a sugerir que, na falta de vagas, amontoassem-se os presos. Registre-se que a Lei de Execução Penal estabelece que o espaço mínimo destinado a cada preso deve ser, no mínimo, de seis metros quadrados – o que só acontece no caso de presos em condições especiais.

O capitão golpista estará sujeito às adversidades comuns às rebeliões no sistema prisional, sempre iminentes. Rememoremos algumas. O Complexo Penitenciário de Pedrinhas, no Maranhão, foi palco de uma rebelião em 2010 por melhores condições que resultou em 18 mortes. Em 2013, um conflito entre facções deixou na mesma prisão nove pessoas mortas, num acontecimento de brutalidade ainda sem par, com cenas de decapitação e canibalismo. Em 2017, na Penitenciária de Alcaçuz, Rio Grande do Norte, uma briga entre membros do PCC e do Sindicato do Crime terminou com 26 mortos.

Há muitos outros eventos recentes do gênero, como aquele em que 33 pessoas morreram na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, em Roraima, no ano de 2017; o ocorrido no Centro Penitenciário de Recuperação do Pará, em 2018, com 22 mortos; e o do Complexo Prisional Aníbal Jobim (Compaj), em Manaus, que resultou em 15 detentos mortos em 2019.

Uma vez na Papuda, seu provável destino, Bolsonaro fará parte de uma das “escolas do crime” nacionais, como são conhecidos os presídios. Se não forem isso, são lugares onde a pessoa perde completamente sua autoestima, sua cidadania, seu sentido histórico de viver. Locais onde o ser humano é aniquilado. O ex-presidente poderá invocar os direitos humanos em seu benefício, contrariando tudo que já disse sobre essa bandeira civilizatória.

A política do encarceramento em massa é um câncer brasileiro. Concretiza-se, em parte, por causa do abandono da investigação criminal, esta decorrente do enfraquecimento da Polícia Civil. Como nos disse há alguns anos o jornalista e escritor Bruno Paes Manso, “em vez de se estudar a indústria do crime, aposta-se basicamente no patrulhamento ostensivo nos bairros mais pobres”. Um ex-presidente da República agora deverá conhecer o problema a fundo. “A própria força do PCC e de outras facções é um efeito colateral do excesso de encarceramento”, disse-nos Paes Manso. Na realidade, as penitenciárias funcionariam em regime de “autogestão” pelos próprios presos. “O sistema fortalece os chefes de gangues. O comando do crime organizado vem de dentro dos presídios”, apontou.

Falta de saneamento básico, ventilação precária, umidade excessiva a favorecer o desenvolvimento de doenças. Infestação por pragas - ratos, insetos- e falta de itens de higiene pessoal. Racionamento ou acesso muito limitado à água para beber, lavar ou usar banheiro. Em alguns presídios, internos têm de usar baldes ou recolher água várias vezes por dia. Assistência médica insuficiente: clínicas prisionais são subdimensionadas, há falta de medicamentos e dificuldade logística para levar detentos a hospitais. Altíssima incidência de doenças infecciosas: segundo a ONG Conectas, muitas mortes nos presídios são causadas por doenças provocadas ou agravadas pelas condições das celas. Não são raros os relatos de tortura, espancamentos e abusos cometidos por agentes penitenciários e pelos próprios presos.

Crê-se que Jair Bolsonaro não estará sujeito a tudo isso, preservado que deverá ficar contra as monstruosidades mais radicais do sistema prisional. De todo modo, viverá algum tempo muito perto do horror extremo do qual nunca quis poupar os “bandidos”.

Importante assinalar que o governo Lula lançou o Plano Pena Justa, iniciativa conjunta do Ministério da Justiça do Conselho Nacional de Justiça, enumerando 51 ações e 306 metas até 2027, focadas em sanar problemas de superlotação, infraestrutura, reintegração social e fortalecimento da atuação estatal nos presídios. Aos olhos do colunista, parece algo um tanto quanto tímido, face ao horror que predomina no sistema carcerário.

•        Contrariando histórico de atleta, defesa de Bolsonaro alega saúde frágil para evitar prisão

Imbrochável, imorrível, histórico de atleta. As qualidades auto intituladas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado a 27 e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros quatro crimes, parecem ter ficado para trás, convenientemente ou não, uma vez que a defesa alegará saúde frágil para evitar a prisão em regime fechado do ex-presidente.

A corrida contra o tempo começou nesta segunda-feira (17), após a publicação da ata do julgamento pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF). No documento, os ministros rejeitaram os embargos de declaração de Bolsonaro e aliados também condenados pelos crimes.

Os advogados, então, estão unindo laudos médicos para manter o regime domiciliar do condenado. Outra estratégia da defesa é pleitear vaga em prisão do Exército, uma vez que Bolsonaro é capitão reformado e teria direito a cumprir a pena nas dependências do Exército.

Evitar a prisão no período de festas também está no escopo de trabalho dos advogados.

<><> Cortina de fumaça

Mais que um histórico de atleta, o ex-presidente tem uma longa ficha de doenças que criam a imagem de fragilidade, especialmente em momentos de crise, como já mostrou a reportagem do GGN.

Desde a condenação este ano, o ex-presidente pediu autorização para realizar procedimentos de lesões na pele, teve problemas estomacais, refluxo, crises de soluço, dores abdominais e obstrução intestinal foram algumas das doenças recentes enfrentadas por Bolsonaro.

•        Damares diz que Bolsonaro "morre" se comer a comida da Papuda

A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) afirmou que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) corre risco de morte caso seja levado para o Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília.

A declaração foi feita à coluna de Letícia Casado, do UOL, após uma “visita técnica” realizada nesta semana pela parlamentar ao local, no exercício de sua função como presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado.

“Se ele tiver que comer aquela comida, ele morre”, disse Damares, ao alegar que a alimentação fornecida na Papuda não atenderia às exigências médicas de Bolsonaro. Segundo ela, as condições de saúde do ex-presidente não o permitiriam enfrentar a rotina do presídio.

Bolsonaro sofre de problemas gastrointestinais decorrentes da facada de 2018 e, de acordo com seus médicos, precisa seguir uma dieta restritiva. Damares afirma que a comida servida aos presos é inadequada para esse tipo de tratamento e que isso representaria um risco imediato ao ex-presidente.

<><> Tempo de socorro

A senadora também apontou preocupação com o tempo de resposta em caso de complicações clínicas. Segundo ela, a distância entre o complexo penitenciário e o hospital público mais próximo poderia atrasar o atendimento. “Se ele tiver refluxo e não for socorrido dentro de 20 minutos, as vias aéreas podem ficar comprometidas”, declarou.

O futuro de Bolsonaro no sistema prisional depende do andamento do processo no STF (Supremo Tribunal Federal). Em setembro, ele foi condenado a 27 anos e três meses de prisão por liderar uma trama golpista. O caso ainda está na fase de recursos. Somente após o esgotamento das possibilidades de apelação o relator, ministro Alexandre de Moraes, definirá onde Bolsonaro e os outros sete condenados do núcleo 1 cumprirão pena.

 

Fonte: Jornal GGN/Brasil 247/Fórum

 

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