sexta-feira, 21 de novembro de 2025

EUA: Algo se move dentro do Partido Democrata

A eleição de Zohran Mamdani, um deputado estadual socialista e muçulmano, de 33 anos, para a prefeitura de Nova York, em 4 de novembro de 2025, marcou a política nos Estados Unidos e o Partido Democrata. Sua vitória não é apenas um resultado eleitoral local: indica a validação de um modelo de política que propõe outro tipo de administração para uma cidade, que não é uma metrópole qualquer.

Nova York é a capital mundial do mercado financeiro; é o espaço onde Donald Trump, que implorou para que os eleitores não votassem em Mamdani, construiu seus negócios no setor imobiliário e encarnou, seja como empresário, seja como político, os interesses de um dos lobbies mais poderosos do país. É, também, o lugar onde o Partido Democrata sentiu-se confortável, por décadas, em negociar com esse mesmo poder econômico e exibir, sem constrangimento, seu lado político de mercado. Mamdani venceu no terreno simbólico do adversário. E isso tem peso nacional.

É praticamente inevitável traçar comparações com outras figuras da política estadunidense. A analogia histórica mais imediata é Alexandria Ocasio-Cortez. Em 2018, aos 28 anos, assegurou a cadeira que estaria reservada a Joe Crowley, democrata experiente com 10 mandatos na Câmara, com uma campanha sustentada por doações de pequena monta (contribuições individuais inferiores a US$ 200) e por um voluntariado engajadíssimo.

Mamdani revela semelhanças ao derrotar o establishment democrata, neste caso, o ex-governador de Nova York, Andrew Cuomo, que, mesmo carregado de acusações de má conduta sexual, contou com um PAC (Comitê de Ação Política) de US$ 25 milhões e o apoio de alguns dos nova-iorquinos mais ricos, como o bilionário e ex-prefeito Michael Bloomberg.

Ocasio-Cortez e Mamdani emergiram de ativismo e mobilização de base; ambos representam grupos sociais e raciais historicamente excluídos e ambos subverteram as engrenagens tradicionais de financiamento de campanha. Ocasio-Cortez marcou e continua marcando posição com perfil progressista no Legislativo federal, Mamdani avança algumas casas ao levar a agenda de perfil progressista para o Executivo municipal de maior visibilidade global.

<><> Origem em Bernie Sanders

Naturalmente, essa trilha nos leva a Bernie Sanders, que figura como pai da atual fase de progressistas. É verdade que Sanders não conseguiu ser o candidato democrata nas primárias de 2016, quando o Comitê Nacional Democrata escolheu Hillary Clinton. Tampouco foi o escolhido em 2020, quando o partido se movimentou rapidamente para apoiar Joe Biden, depois que Sanders se revelou um páreo com capacidade de liderar a preferência entre os eleitores democratas.

Entretanto, apesar de não ter conseguido superar os fortes entraves político-partidários, talvez em razão de uma dificuldade própria, Sanders, de fato, rompeu o silêncio sobre desigualdade, clamando insistentemente por uma agenda de direitos e conseguindo, efetivamente, introduzir no debate as propostas de taxação do ultra-ricos, de saúde universal e de Estado de bem-estar.

Ele forçou o deslocamento do eixo do discurso democrata e impulsionou Ocasio-Cortez a deslocar o eixo das práticas legislativas. Agora, é a vez de Mamdani deslocar o eixo do exercício do poder com impacto social no governo da capital financeira do mundo, responsável pela maior concentração de instituições financeiras e fluxos de capitais do planeta.

Enquanto Nova York revela o poder do progressismo, por assim dizer, nas urnas, derrotando hierarquias internas do Partido Democrata, outro movimento se verifica na costa oeste. Trata-se do avanço progressista institucional na Califórnia. Ali materializa-se a disputa pelo poder de governo.

California Legislative Progressive Caucus, grupo organizado de legisladores dentro da Assembleia Legislativa da Califórnia e existente pelo menos desde 2019, reúne dezenas de legisladores que pressionam a liderança do Partido Democrata do estado e buscam deslocar o centro de gravidade do partido para a política de direitos.

A eleição geral de 2024 ampliou o número de integrantes do caucus à medida que candidatos apoiados por organizações como a Courage California venceram parte das disputas em que estavam envolvidos. Isso significa avanço na capacidade de formular políticas e disputar orçamento. O grupo tem se projetado com uma agenda significativa. Além de justiça ambiental e transição energética, suas pautas incluem reforma da justiça criminal, reforma tributária, política de habitação, cláusulas trabalhistas e direito à sindicalização.

<><> O efeito “Moderate Squad”

Note-se que a institucionalização do progressismo passou a disputar orçamento, projetos que se tornam leis e prioridades de governo. A propósito, esse caucus nasce de um embate direto com um grupo oposto dentro do próprio partido: o Moderate Squad, ou Moderate Caucus. Financiados por grandes empresas e por fluxos constantes de recursos para os PACs, esses democratas conseguiram se organizar de forma mais efetiva, pelo menos desde 2011, para barrar a aprovação, justamente, de projetos do grupo progressista – direitos de saúde, trabalhistas, ambientais.

Os chamados democratas moderados se opõem às regulamentações governamentais sobre as empresas, alegando que esse tipo de intervenção impacta negativamente o número de empregos ofertados aos trabalhadores de classe média e de baixa renda. Os progressistas respondem que a ausência de regulação destrói vidas.

Entretanto, o ciclo eleitoral de 2024 revela o limite dessa ascensão. Na disputa pelo Senado dos Estados Unidos, Adam Schiff, identificado com o establishment democrata, derrotou candidaturas de perfil mais progressista – Katie Porter e Barbara Lee – e acabou de fato assegurando a cadeira do Senado federal que estava sendo disputada pelo candidato republicano, Steve Garvey, um ex-jogador da Major League Baseball sem experiência política. Isso mostra que tem havido avanço institucional no estado, mas o poder ainda está nas mãos dos chamados moderados, que tender a ocupar os cargos de prestígio.

Em 2025, é prematuro afirmar que se está diante de um novo Partido Democrata. O sucesso dos progressistas está longe de dominar o cenário político estadunidense. O partido continua dividido entre uma direção nacional predominantemente centrista e uma insurgência progressista, por assim dizer, organizada, estratégica e multirracial, que avança pelas bordas, envolvendo distritos urbanos, assembleias legislativas, cidades poderosas.

Zohran Mamdani legitimamente chegou ao controle de uma máquina urbana tradicionalmente controlada pelas elites. Na Califórnia, o movimento progressista disputa orçamento e prioridades de governo. O Partido Democrata está sendo sacudido.

¨      Será que a notável demonstração de lealdade de Trump está chegando ao fim?

"Eu poderia ficar no meio da Quinta Avenida e atirar em alguém", afirmou Donald Trump em 2016, "e não perderia nenhum voto". Vindo duas semanas antes do caucus de Iowa, foi uma mensagem incomum de um político, mas os últimos nove anos serviram para reforçar esse ponto.

Sua base do "Make America Great Again" e a maior parte do Partido Republicano o apoiaram durante (respire fundo): dois impeachments, crianças em jaulas, "pessoas muito boas em ambos os lados", 34 condenações por crimes graves, uma insurreição, "países de merda", tentativas de anular uma eleição, pagamentos para silenciar um ator de filmes adultos, "eles são estupradores", uma brutal repressão à imigração, a Four Seasons Total Landscaping, "pegue-as pela buceta", bilhões de dólares ganhos pela família Trump, aproximação com ditadores, "não olhe!" , indultos em massa para seus aliados e amigos, um muro inacabado, o "dia da libertação" , apresentar-se como um rei , forçar Donald Trump Jr. à consciência pública e muito mais .

Trump desfrutou de uma notável demonstração de lealdade, tanto de seus apoiadores de base quanto de um Partido Republicano subserviente. Mas nada dura para sempre. Parafraseando o Batman, ou você morre como um herói, ou vive o suficiente para perder o apoio do partido por causa de sua gestão de documentos relacionados a seu ex-amigo, um pedófilo condenado.

Sim, foi a saga de Jeffrey Epstein que levou à maior cisão até agora entre Trump e sua base eleitoral. Trump queria que os republicanos da Câmara votassem contra a divulgação dos arquivos de Epstein esta semana, mas cerca de 100 deles estavam preparados para desafiar o presidente, o maior ato de desobediência que Trump enfrentou em seu segundo mandato. Isso forçou o presidente a uma reviravolta embaraçosa: depois de dizer aos republicanos para votarem não à divulgação dos arquivos, Trump abruptamente ordenou que todos votassem sim .

Em outros lugares, surgiram sinais de que o controle férreo de Trump sobre seu partido poderia estar falhando. Trump estava desesperado para que os republicanos em Indiana redesenhassem seu mapa eleitoral para que o Partido Republicano pudesse conquistar mais uma cadeira na Câmara no próximo ano, mas um número suficiente de parlamentares republicanos resistiu, de modo que os mapas antigos permanecem em vigor.

Ele queria que os republicanos no Senado abolissem o filibuster . Isso também não aconteceu, enquanto houve protestos de figuras da direita na semana passada contra uma proposta para introduzir hipotecas de 50 anos.

Trump reagiu à insubordinação da maneira que melhor conhece: com mesquinhez e crueldade.

Thomas Massie, um congressista republicano do Kentucky que desafiou Trump em diversas questões, foi um dos primeiros a sentir a ira do presidente. Trump, de 79 anos, reagiu à notícia de que Massie havia se casado recentemente afirmando que "[a esposa de Massie] logo descobrirá que está presa a um PERDEDOR!".

Rod Bray, um republicano no Senado estadual de Indiana, foi chamado de "fraco e patético" em uma publicação do Truth Social, enquanto Trump também atacou Marjorie Taylor Greene, a congressista republicana que rompeu com ele por causa de Epstein. Greene foi alvo de uma analogia longa e confusa sobre como, na verdade, seu nome deveria ser Marjorie Taylor Brown, porque "Green vira Brown onde há corrupção envolvida!".

Mas enquanto Trump se debatia em busca de alguém para atacar, foi a mídia, sua velha inimiga, que atraiu os ataques mais contundentes.

Trump minimizou o assassinato do colunista do Washington Post, Jamal Khashoggi, durante a visita do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman à Casa Branca, dizendo a um jornalista que perguntou sobre o assunto: "Você não precisa constranger nosso convidado."

“Cala a boca, porquinha”, disse ele a uma repórter na sexta-feira, depois que ela perguntou por que, se não havia nada nos arquivos de Epstein, Trump não queria que eles fossem divulgados. Na terça-feira, depois que uma repórter da ABC perguntou por que ele não divulgaria os arquivos imediatamente, Trump a chamou de “pessoa terrível e repórter terrível”.

O presidente acrescentou : “As pessoas já perceberam a farsa e a ABC – a sua empresa, a sua empresa de quinta categoria – é uma das culpadas. E vou dizer uma coisa, acho que a licença da ABC deveria ser cassada. Porque as suas notícias são tão falsas e tão erradas, e temos um ótimo comissário, um presidente excelente, que deveria analisar isso.”

Em meio aos insultos infantis, este demonstrava uma malícia genuína. Trump jamais chegaria a atirar em alguém no meio da Quinta Avenida, mas declarou guerra à mídia: pressionando a CBS News e a Disney a desembolsarem US$ 16 milhões em processos judiciais, ameaçando processar a CNN e fazendo lobby para que apresentadores de programas de entrevistas noturnos fossem demitidos.

Num momento em que os republicanos parecem menos propensos do que nunca a ceder às exigências de Trump, são os chefões da mídia corporativa que se mostram subservientes. Muitos jornalistas, até agora, se opuseram ao presidente. Mas, com Trump cada vez mais irritado e vingativo, será que a imprensa independente conseguirá se manter firme? Veremos.

¨      Funcionário do FBI afirma ter sido demitido injustamente por ter uma bandeira do Orgulho LGBTQIA+ em sua mesa.

Um funcionário veterano do FBI entrou com um processo alegando que foi demitido por exibir uma bandeira do Orgulho LGBTQIA+ em sua mesa, nomeando o diretor do FBI, Kash Patel, o Departamento de Justiça e a procuradora-geral, Pam Bondi , como réus.

Segundo David Maltinsky, especialista em inteligência que trabalhou no FBI por 16 anos, sua demissão injusta no início deste ano foi “inconstitucional e politicamente motivada”.

O processo alega que o FBI violou os direitos da Primeira Emenda de Maltinsky e tomou medidas retaliatórias contra ele por exercer seu direito à liberdade de expressão. Maltinsky busca uma ordem judicial para ser reintegrado ao seu emprego.

A queixa de 18 páginas de Maltinsky , apresentada na quarta-feira no tribunal distrital dos EUA para o Distrito de Columbia, alega que ele foi demitido da academia do FBI no mês passado por ter exibido anteriormente a bandeira em sua estação de trabalho com o apoio e a permissão de seus supervisores.

Segundo a denúncia, a bandeira do Orgulho LGBTQIA+, que o FBI hasteava em seu mastro em frente ao prédio em Los Angeles, foi dada a Maltinsky em reconhecimento aos seus esforços para apoiar as iniciativas de diversidade do FBI.

“Desde jovem, tudo o que eu quis foi servir ao meu país e garantir sua segurança ao lado dos homens e mulheres brilhantes e dedicados do FBI”, disse Maltinsky, que ingressou na agência em 2009 e passou mais de uma década apoiando investigações de corrupção pública e crimes cibernéticos, incluindo o ataque cibernético da Coreia do Norte à Sony Pictures em 2014.

“Exibi aquela bandeira do Orgulho – que em 2021 tremulou em frente ao edifício federal Wilshire – não como uma declaração política, mas como um símbolo de inclusão, união e igualdade de tratamento. Esses são os valores que outrora fortaleceram o FBI. Agora, é um lugar onde pessoas como eu são alvo. Acredito que fui demitido não por quem eu sou, mas pelo que eu sou: um homem gay orgulhoso”, acrescentou.

No início deste ano, Maltinsky foi aceito na academia de treinamento de agentes especiais do FBI em Quantico, Virgínia, até o que ele descreveu como sua "dispensa abrupta apenas três semanas antes da formatura".

O processo movido por Maltinsky alega que, em algum momento após a posse de Donald Trump em 20 de janeiro, um colega de trabalho relatou uma suposta preocupação ao supervisor direto de Maltinsky sobre a exibição da bandeira do Orgulho LGBTQIA+ em sua estação de trabalho.

“Por excesso de cautela, Maltinsky solicitou que o Consultor Jurídico Chefe da Divisão do LAFO [escritório de campo de Los Angeles] revisasse se a exibição da bandeira e do cartaz do Progress Pride era permitida”, diz a queixa de Maltinsky, acrescentando: “O Consultor Jurídico Chefe da Divisão informou a Maltinsky que a exibição da bandeira e do cartaz não violava nenhuma política, regra ou regulamento.”

Contudo, em 1 de outubro, Maltinsky foi notificado de sua demissão.

Em uma carta citada na queixa de Maltinsky, Patel escreveu: “Determinei que você demonstrou falta de bom senso ao exibir de forma inadequada cartazes políticos em sua área de trabalho durante sua designação anterior no Escritório de Campo de Los Angeles. De acordo com o Artigo II da Constituição dos Estados Unidos e as leis dos Estados Unidos, seu vínculo empregatício com o FBI está, por meio deste, rescindido.”

Em um comunicado divulgado na quarta-feira, a advogada de Maltinsky, Kerrie Riggs, afirmou: “A demissão ilegal dele por esta administração faz parte de uma campanha maior para livrar as agências federais de funcionários que possam ter pontos de vista diferentes, que pertençam a grupos marginalizados ou que ousem se manifestar contra a discriminação. A luta de David não é apenas sobre ele, mas sobre garantir os direitos e as liberdades de todos os funcionários federais.”

O FBI e o Departamento de Justiça se recusaram a comentar sobre o processo.

O processo de Maltinsky segue outro, apresentado em setembro por três ex-funcionários seniores do FBI que alegam terem sido demitidos injustamente, afirmando que Patel disse ter recebido ordens da Casa Branca para demitir qualquer agente envolvido em uma investigação sobre Trump.

Entretanto, o FBI demitiu um veterano com quase três décadas de serviço no início deste mês, depois que Patel supostamente ficou furioso com relatos de que o diretor do FBI havia usado um jato do governo para comparecer a um evento de luta livre onde sua namorada cantou o hino nacional.

Steven Palmer, um veterano do FBI desde 1998, foi removido da chefia do grupo de resposta a incidentes críticos do FBI, responsável por gerenciar grandes ameaças à segurança e a frota de jatos da agência.

 

Fonte: Por Neusa Maria Pereira Bojikian, no The Conversation/The Guardian

 

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