quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Febre por minerais brasileiros  ‘abre porteira’ para avanço de exploração em terras indígenas

A Constituição brasileira proíbe o garimpo ilegal em terras indígenas sob qualquer circunstância. No entanto, uma crescente demanda global pelos mais variados minérios tem levado garimpeiros a invadir territórios protegidos a despeito do que estabelece a lei. Essa tendência acontece em meio a uma expansão generalizada: desde 2018, a área usada para a mineração de ouro na Amazônia dobrou de tamanho — e, de 1985 para cá, cresceu 1.217%, com grande prevalência de pontos de produção ilegal. Enquanto isso, o valor do metal quase triplicou no mercado, atingindo um patamar recorde.

Há pelo menos dois anos, o governo federal tem fechado o cerco aos garimpeiros ilegais, promovendo ações que desmantelam estruturas criminosas em terras indígenas. Segundo autoridades, na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, a maior do país, as operações já impuseram perdas de até R$ 500 milhões ao garimpo até a metade de outubro, reduzindo significativamente a área total afetada pela atividade.

Já nas terras originárias dos Sararé, no Mato Grosso, e dos Munduruku, no Pará, as ações destruíram centenas de acampamentos, escavadeiras e depósitos que serviam para esconder equipamentos do garimpo e até mesmo armas utilizadas por organizações criminosas que operam nessas regiões.

Tudo isso é parte de um extenso pacote que responde às crises humanitária e ambiental causadas pela mineração desenfreada em todo o Brasil. A prática leva o país a assistir a um aumento acelerado do desmatamento e da contaminação de rios pelo uso de mercúrio. Ao mesmo tempo, a violência associada à exploração mineral decola dentro de comunidades indígenas, conforme alertam relatórios do Escritório da ONU sobre Drogas e Crime (Unodc).

Mesmo assim, enquanto o governo do presidente Lula trilha um caminho para confrontar a exploração mineral, o Congresso brasileiro vai pela contramão. Nos últimos meses, projetos de lei controversos, que visam legalizar a mineração e outras atividades econômicas em terras indígenas — como o PL 1331/2022 e o PL 6050/2023 — ganham fôlego entre as pautas legislativas, o que desperta a preocupação entre especialistas e diferentes organizações.

Enquanto o primeiro PL prevê explicitamente a exploração e a mineração em terras indígenas, o segundo é mais amplo e propõe um marco regulatório para diferentes atividades econômicas nessas áreas — incluindo a mineração, mas também atividades dos setores de petróleo, gás e energia hidrelétrica, entre outras.

Em agosto, essas duas medidas andaram mais algumas casas no tabuleiro legislativo, conquistando aprovação da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado.

De acordo com Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, o momento atual criou “condições ideais” para o avanço de uma agenda de mineração problemática. “O Brasil vive hoje um clima político e econômico favorável à expansão da mineração. Isso se deve à combinação entre a riqueza geológica do país, o discurso de que ‘há uma janela de oportunidade’ para se tornar uma potência mineral na transição energética e a pressão internacional — somada ao lobby interno por mais oferta de minerais críticos.”

Araújo, que já presidiu o Ibama, disse à Mongabay que os problemas podem ir além, uma vez que “o entusiasmo tem avançado mais rápido do que as salvaguardas”. Segundo ela, o cenário de hoje “acelera projetos de lei, aumenta o risco de repetição de tragédias socioambientais como [o rompimento das barragens de] Brumadinho e Mariana, ignora a rigidez locacional das jazidas – muitas delas em áreas de alto valor socioambiental na Amazônia e no Cerrado, inclusive terras indígenas – e prioriza empreendimentos estratégicos sem fortalecer o devido processo técnico de licenciamento”.

<><> Uma transição energética abastecida por furos e controvérsias

A febre global pelos minerais do Brasil vem acompanhada de um profundo paradoxo. Em todo o mundo, as metas de transição energética — que buscam reduzir a dependência de combustíveis fósseis — criaram uma demanda por diversos elementos, como lítio, níquel e cobre, entre outros. Esses minérios são indispensáveis para a produção de veículos elétricos, baterias, painéis solares e outros itens do setor da tecnologia de energia renovável, sobretudo em países ocidentais, como os que integram a União Europeia.

Nesse sentido, o potencial do Brasil atrai atenções. No que diz respeito às chamadas “terras raras” (cujos compostos são dispersos e de difícil extração e separação), 12 estados brasileiros aparecem em destaque por sua oferta natural; segundo estudos, o Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, ficando atrás apenas da China.

Essa condição geológica coloca o país em uma posição de fornecedor de minerais estratégicos, ao passo que relatórios projetam ganhos de R$ 243 bilhões para o PIB nacional até 2050. Isso, por sua vez, tem despertado o interesse de empresas de mineração, que já registraram mais de 5 mil requerimentos em jazidas na Amazônia “para explorar minérios considerados essenciais para a transição energética”, segundo o InfoAmazonia. “Os requerimentos para explorar cobre, alumínio, manganês, nióbio, prata, níquel, cobalto, terras raras e lítio somam 26 milhões de hectares dentro dos limites do bioma”, diz o veículo; 1.205 medidas que visam explorar esses minerais essenciais “estão em áreas com impacto” em terras indígenas.

Do total de pedidos de mineração atrelados à busca por energia “limpa”, mais de mil estão localizados a menos de 10 quilômetros de territórios indígenas — e 390 se sobrepõem a eles diretamente. Essas demandas seguem sendo inconstitucionais e expressamente proibidas, conforme detalham portarias interministeriais. Além disso, dados revelam que 1.207 licitações se sobrepõem a 107 Unidades de Conservação (UCs) na Amazônia.

No final de outubro, uma investigação da Repórter Brasil trouxe novos detalhes de uma crise que se mostra em movimento. A reportagem mapeou 1.827 pedidos de mineração a menos de 40 quilômetros de onde vivem grupos indígenas isolados: estima-se que 45 desses grupos sejam potencialmente afetados pela atividade.

O interesse do setor avança de forma agressiva nos últimos anos. Em toda a Amazônia, dos 7.718 pedidos ativos para a exploração de 16 minerais, entre 1953 e setembro de 2025, 44% (3.392) ocorreram após 2020 — ou seja, em menos de meia década.

A investigação foi feita em parceria com o Observatório dos Povos Indígenas Isolados (OPI). Um dos principais representantes da organização, o antropólogo Miguel Aparício, disse que a mineração, assim como as obras rodoviárias e o agronegócio, figura como uma das principais razões que levam povos indígenas à condição de isolamento. Agora “a pressão está realmente aumentando”, disse o pesquisador à Repórter Brasil.

Paralelamente, o avanço da mineração recebe apoio nos corredores do Senado. Em defesa de um dos projetos de lei, o senador Márcio Bittar (União-AC) disse que regulamentar as atividades econômicas dentro de territórios tradicionais “não fragiliza os direitos dos povos indígenas”, pois “assegura autonomia e respaldo legal para que decidam seu próprio futuro”.

No entanto, a declaração de Bittar contrasta com alertas feitos pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) em um recente relatório — que aborda justamente os dois PLs em debate. Segundo a Apib, a abertura de territórios para diferentes atividades de exploração constitui “uma ameaça direta aos direitos fundamentais dos povos indígenas do Brasil”.

“Tais proposições inserem-se em um contexto político-jurídico marcado por tentativas sistemáticas de enfraquecer a proteção constitucional garantida aos povos originários, sob o argumento de fomentar o desenvolvimento nacional e garantir segurança jurídica ao setor primário na política nacional”, diz a entidade. “As iniciativas legislativas em questão não apenas ignoram os direitos de consulta e consentimento livre, prévio e informado garantidos pela Convenção nº 169 da OIT, mas também promovem a flexibilização do usufruto exclusivo dos territórios indígenas, conforme previsto no artigo 231 da Constituição, bem como sustentam narrativas distorcidas, que apresentam os povos indígenas como obstáculos ao <><> Uma queda de braço sem data para acabar

Essa não é a primeira vez que o Legislativo promove projetos inconstitucionais que podem retirar direitos de povos indígenas. Em dezembro de 2023, parlamentares foram responsáveis por transformar a proposta do marco temporal em lei — ainda que o Supremo Tribunal Federal (STF) tenha apontado a ilegalidade da proposta algumas semanas antes.

A medida impede os indígenas de reivindicar direitos sobre terras que não ocupavam fisicamente até 5 de outubro de 1988, quando a atual Constituição foi promulgada. Os magistrados do STF consideraram o caso uma violação dos direitos constitucionais dos indígenas à terra, já que muitos de seus representantes foram expulsos desses locais ao longo da história.

Em fevereiro de 2025, a pressão sobre as terras indígenas aumentaria ainda mais. No início do ano, um “anteprojeto de lei complementar” foi apresentado pelo ministro Gilmar Mendes, ameaçando abrir áreas originárias para a exploração mineral e outras atividades econômicas. De acordo com a Agência Pública, a medida continha trechos de antigos projetos de lei elaborados por políticos conhecidos por apoiar o garimpo em terras indígenas de forma indiscriminada.

O anteprojeto foi apresentado durante uma Câmara de Conciliação (criada para mediar o impasse de forma extrajudicial), que já nasceu sob fortes críticas. A medida também enfrentou o repúdio de mais de 50 organizações sociais e da sociedade civil, incluindo a Apib.

“Vale mencionar que, sob a presunção de que a atividade minerária é ‘estratégica e de utilidade pública’, medidas favoráveis ao setor mineral têm sido recorrentemente implementadas pelo Estado a despeito de impactarem os direitos territoriais, também definidos como de interesse público. Na prática, essa presunção confere ao setor mineral privilégios e tratamentos excepcionais que possibilitam que seus interesses se sobreponham a direitos coletivos. Direitos que, quando assegurados, como é o caso dos direitos territoriais de Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais, geram benefícios não apenas aos seus titulares, como a toda a sociedade”, disseram as organizações em um comunicado conjunto, publicado no início do ano.

Posteriormente, em meados de abril, Mendes recuou no que diz respeito ao tema da mineração, como a Mongabay explicou à época. As preocupações, porém, não cessaram.

Segundo Suely Araújo, essas ameaças aos povos indígenas não apenas ignoram seus direitos, mas também enfraquecem a proteção ambiental, algo que também está estabelecido na Constituição.

“As terras indígenas têm papel fundamental para a proteção das formas de organização social e da cultura dos povos originários, além de responderem por serviços ecossistêmicos importantíssimos. Ainda, a proteção das terras indígenas com a floresta ainda em pé é uma medida necessária no enfrentamento das mudanças climáticas. Dessa forma, as proposições legislativas que têm intenção de flexibilizar o uso econômico dessas terras — para mineração e outras atividades econômicas — têm de ser debatidas com enorme cautela e com participação intensa das organizações indígenas. Em geral, essas propostas não se preocupam com os povos indígenas e levarão a muita destruição”, disse.

 

Fonte: Mongabay

 

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