COP30:
denunciada na OCDE, Bayer organiza debate sobre “melhores práticas” em direitos
humanos
A
fabricante de agrotóxicos e sementes transgênicas Bayer organizou, durante a
COP30, um debate com o tema “Multiplicando as melhores práticas em direitos
humanos na agropecuária”. Realizado em parceria com a rede empresarial Pacto
Global, o evento ocorreu no dia 14 de novembro, às 10h, no auditório 1 da
AgriZone — espaço patrocinado pela gigante alemã.
Em
2024, uma coalizão formada por seis organizações — entre elas, a brasileira
Terra de Direitos — elaborou uma denúncia pública contra a fabricante do
glifosato por violações contínuas cometidas contra comunidades tradicionais na
Argentina, Bolívia, Brasil e Paraguai. O documento apresentado à Organização
para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que a Bayer e suas
filiais violam suas diretrizes de conduta responsável ao contribuir para a
expansão de cultivos transgênicos e o uso irresponsável de agrotóxicos.
A
empresa enfrenta uma onda de ações judiciais em tribunais nos Estados Unidos.
Segundo a agência Reuters, a Bayer já empenhou cerca de US$ 10 bilhões em
disputas judiciais por contaminação envolvendo produtos à base de glifosato. O
valor já corresponde a 16% do total gasto na aquisição da Monsanto, concluída
em 2018, por US$ 63 bilhões.
Essa
disparidade entre as narrativas e as práticas do setor privado em relação à
sustentabilidade são o tema central do relatório “A COP dos Lobbies“, lançado
na segunda-feira (10). Produzido pelo De Olho nos Ruralistas em parceria com a
Fase – Solidariedade e Educação, o estudo mapeia a influência crescente de
grandes corporações brasileiras e de multinacionais nas negociações e nos
espaços de deliberação da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do
Clima, em Belém.
Além da
Bayer, a lista de empresas analisadas inclui as mineradoras Vale e Hydro, o
frigorífico MBRF (Marfrig e BRF), a sucroalcooleira Cosan, a gigante do papel e
celulose Suzano e os bancos Itaú e BTG Pactual.
LOBBY
DOS AGROTÓXICOS TEM ESPAÇO GARANTIDO NA COP
A
estratégia da Bayer para a COP30 passa por múltiplas frentes. Segundo a
Repórter Brasil, a fabricante do glifosato desembolsou R$ 1 milhão para
patrocinar a AgriZone, um espaço paralelo idealizado pela Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para ser a sede do agronegócio durante a
cúpula. Montada na unidade Amazônia Oriental, a 1,8 km dos pavilhões oficiais
da Blue Zone e Green Zone, a AgriZone abriga auditórios e salas de reunião,
além de servir de sede provisória para o Ministério da Agricultura.
Além da
Bayer, também patrocinam a AgriZone a Confederação da Agricultura e Pecuária do
Brasil (CNA) e a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), as duas
organizações que comandam desde 2021 o Instituto Pensar Agro — think tank
responsável por escrever as proposições antiambientais defendidas pela Frente
Parlamentar da Agropecuária (FPA). Entre os grupos que financiaram o espaço
estão a suíça Nestlé, a sucroalcooleira francesa Tereos e a Fundação Bill &
Melinda Gates.
A
AgriZone não é a única casa da Bayer em Belém. A empresa anunciou em junho que
reformaria um casarão centenário na Avenida Nazaré, a poucos metros de onde
acontece o Círio, para sediar suas atividades durante a cúpula climática.
Inaugurado em 1925 pelo Barão de Guajará, o casarão é um marco do estilo
eclético e abriga uma casa de cultura, com cursos e atendimento psicossocial
para pessoas em situação de vulnerabilidade. Durante os dias da COP30, ela
recebe o lobby dos agrotóxicos.
A
empresa também atua por meio da CropLife, associação formada por 52 fabricantes
de agrotóxicos, sementes transgênicas e bioinsumos. Assim como a CNA e a OCB,
patrocinadoras da AgriZone, a CropLife é uma das organizações mantenedoras do
Instituto Pensar Agro — e, portanto, da bancada ruralista.
Para a
COP30, a associação vem organizando uma série de workshops em parceria com o
Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), órgão
vinculado à Organização dos Estados Americanos (OEA). Os encontros são apoiados
pela Embrapa e pelo “enviado especial” de Agricultura para a COP30, o
ex-ministro Roberto Rodrigues.
Nomeado
pelo presidente da COP, o diplomata André Corrêa do Lago, Rodrigues foi o
principal responsável por introduzir no Brasil o conceito de “agronegócio”,
importado do agribusiness estadunidense. Ele é reconhecido como um dos
principais ideólogos do setor — senão “o” principal. Foi ministro da
Agricultura durante o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
(2003-2006) e ajudou a fundar a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag),
mais uma integrante do Pensar Agro e mantenedora da FPA.
Para a
COP30, Roberto Rodrigues quer emplacar o conceito de “agricultura tropical
sustentável”, uma versão 2.0 da Revolução Verde. Segundo ele, o Brasil deve
aproveitar a cúpula para ofertar um novo pacote tecnológico aos países do sul
global, integrando noções corporativas de sustentabilidade, agricultura de
precisão, inteligência artificial, fomento a bioinsumos e defesa da propriedade
intelectual em sementes. As bases dessa estratégia foram consolidadas em um
documento intitulado “Agricultura Tropical Sustentável: Cultivando Soluções
para Alimentos, Energia e Clima”, apresentado por Rodrigues à diretoria da FPA
em 28 de outubro.
O
discurso vem sendo reproduzido pela CropLife, que tratará do tema em quatro
palestras realizadas na AgriZone, durante o período da COP, e pela Bayer, que
anunciou em agosto uma parceria com o IICA para avançar em ações vinculadas com
“carbono em milho e soja” e a promoção da “agricultura sustentável” nas
Américas.
POR
TRÁS DO LOBBY, COMUNIDADES CONTAMINADAS
A
denúncia apresentada à OCDE pelo Centro Europeu de Direitos Humanos e
Constitucionais (ECCHR, na sigla em inglês) documenta uma série de violações
cometidas contra comunidades tradicionais no Cone Sul.
No
Brasil, a coalizão cita o caso de três comunidades do povo Avá Guarani — Pohã
Renda, Y’Hovy e Tekoha Ocoy, todas no oeste do Paraná —, cercadas por
monoculturas de soja que utilizam herbicidas à base de glifosato fabricados
pela Bayer, com a marca Roundup. Os indígenas relatam graves impactos à saúde,
contaminação de nascentes, perda de acesso às terras tradicionais e o uso de
agrotóxicos como instrumento de guerra química para expulsar as comunidades
através da pulverização aérea sobre as aldeias.
Cruzando
a tríplice fronteira rumo à Argentina, a denúncia cita a comunidade de Villa
Alicia, na zona periurbana de Buenos Aires. Moradores do bairro foram
contaminados por agrotóxicos, resíduos de glifosato e ácido aminometilfosfônico
(Ampa) foram detectados em amostras de solo, água e sedimentos. O caso levou à
abertura de ação criminal contra sojicultores da região, que adquiriam sementes
Intacta RR2 e herbicidas da Bayer.
No
Paraguai, as colônias agrícolas de Yeruti e Yvypè, localizadas entre os
departamentos (estados) de Caaguazú, San Pedro e Canindeyú, veem-se cercadas
pela soja e relatam casos recorrentes de intoxicação, contaminação d’água e de
roças familiares, além de conflitos fundiários com os fazendeiros. Em 2011, a
morte do agricultor Rubén Portillo Cáceres, por exposição a pesticidas, gerou
ampla repercussão nacional e internacional.
A
denúncia cita ainda casos de contaminação no departamento de Santa Cruz, na
Bolívia, uma região de forte expansão agrícola, onde o cultivo de soja
transgênica tolerante ao glifosato tem causado desmatamento, degradação do solo
e degradação dos recursos hídricos locais. Esse processo resultou em
deslocamento de populações camponesas e indígenas e na perda de modos de vida
tradicionais.
Em
resposta ao relatório submetido à OCDE, a Bayer afirma que os reclamantes não
substanciam a afirmação de que a empresa causou diretamente as violações de
direitos humanos e ambientais listadas. Afirma ainda que não trabalha mais com
a comercialização de sementes transgênicas nesses mercados e que não violou as
diretrizes da OCDE. O processo encontra-se em tramitação.
A
empresa também respondeu, de forma sucinta, aos dados do relatório “A COP dos
Lobbies“:
— O
combate às mudanças climáticas requer esforços coletivos de toda a cadeia. A
Bayer historicamente tem sustentabilidade como um dos seus principais pilares
estratégicos e contribui globalmente com soluções inovadoras e iniciativas
ligadas à agricultura, saúde, transição energética e sistemas alimentares
sustentáveis. Na COP, estaremos, portanto, envolvidos nas discussões sobre
soluções embasadas em ciência na luta contra as mudanças climáticas.
Fonte:
De Olho nos Ruralistas

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