Como
primeiras-damas dos EUA usaram o poder da moda a seu favor
"O
visual, assim como a mulher, era ousado, poderoso, voltado para o futuro,
visionário e empoderador para todos que ousam acreditar em um amanhã
melhor."
Essas
palavras foram escritas pela professora de estudos afro-americanos Farah
Jasmine Griffin no prefácio do livro The Look, novo livro de Michelle Obama em
que ela conta sobre a evolução do seu estilo. Com depoimentos de Meredith Koop,
estilista de longa data da ex-primeira-dama, além do maquiador Carl Ray e das
cabeleireiras Yene Damtew e Njeri Radway, a obra explora dos bastidores dos
broches e vestidos de gala usados na Casa Branca ao visual mais casual dos dias
atuais — incluindo o jeans. Não é pouca coisa falar sobre as escolhas de moda
de uma mulher que foi primeira-dama dos Estados Unidos de 2009 a 2017,
especialmente quando a tarefa em questão é tão complexa.
Mas,
como Michelle Obama recentemente revelou em uma entrevista ao programa Good
Morning America, o que ela vestia não era por acaso. "Eu pensava muito
sobre o que queria transmitir com as minhas roupas. Eu queria falar sobre
inclusão, diversidade, ampliar oportunidades, e a moda foi uma das ferramentas
que me permitiu fazer isso." Ela deveria saber que seu estilo seria
minuciosamente analisado, porque o que as primeiras-damas vestem tem sido
objeto de fascínio e discussão desde Martha Washington — esposa de George
Washington, que foi o primeiro presidente dos EUA, de 1789 a 1797.
O que a
esposa do presidente americano veste — e como ainda não houve uma mulher a
ocupar a presidência dos EUA, todas as 45 foram "primeiras-damas" em
vez de cavalheiros — não é apenas uma questão de estética. Apesar de seus
maridos serem os ocupantes do cargo, suas roupas já foram, em alguns momentos,
altamente políticas, gestos de diplomacia no exterior e até demonstração de
lealdade em casa.
"Não
há um objetivo ou mensagem específica que a primeira-dama esteja tentando
transmitir com suas roupas", afirma a historiadora Einav Rabinovitch-Fox,
autora do livro Dressed for Freedom: The Fashionable Politics of American
Feminism. "Cada primeira-dama é diferente, e cada uma usa a roupa de forma
diferente."
Embora
não esteja previsto na Constituição dos EUA, o papel da primeira-dama evoluiu
ao longo do tempo, passando de algo mais doméstico — nos primeiros anos da
república (presidentes Washington e Madison), a primeira-dama era basicamente
uma anfitriã, uma acompanhante — para algo mais profissional e político. No
século 20, de acordo com Rabinovitch-Fox, "o papel tornou-se mais
importante e, consequentemente, a imagem e a aparência também ganharam
importância". Ela acredita que isso se deve em grande parte a Eleanor
Roosevelt, que foi a primeira-dama de 1933 a 1945. Ela não foi apenas a
primeira-dama com mandato mais longo nos EUA, mas também uma figura política
imponente por si só.
Michelle
Obama recentemente disse à revista People: "É uma função complicada. O
papel de primeira-dama é um tipo de trabalho que não é exatamente um trabalho.
Você sabe que deve ser inspiradora, mas acessível. Deve ser você mesma,
autêntica, mas representativa ao mesmo tempo." Então, o que algumas das
primeiras damas mais famosas vestiram durante o período em que estavam na Casa
Branca – e como essas roupas refletiram não apenas suas personalidades, mas sua
época?
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Martha Washington
A
primeira primeira-dama americana da história, Martha Washington,
"realmente moldou o cargo", diz Rabinovitch-Fox. Ela precisava. Como
disse Feather Foster, historiadora presidencial e autora de The First Ladies:
An Intimate Portrait of the Women Who Shaped America ("As primeiras-damas:
um retrato íntimo das mulheres que moldaram a América", na tradução para o
português), ela não tinha precedentes sobre o que vestir, exceto pelas lições
de estilo das monarquias. Mas, diante do contexto histórico, "ela e seu
marido, George, não queriam ser vistos como monarcas".
Considerando
seu dever patriótico, ela "usava apenas roupas festas nos EUA com tecidos
norte-americanos, desde antes da Guerra da Independência [1776], e isso nunca
mudou", afirma Foster. Aos 57 anos, quando se tornou primeira-dama, Martha
era "focada na dignidade e no comportamento apropriado". Seus
vestidos "geralmente eram escuros ou de tons discretos, como preto, cinza,
creme e azul claro no verão. Mas sempre em tecidos de alta qualidade. Suas
joias eram simples. De bom gosto, mas não opulentas", diz Foster.
"Seu estilo era muito maternal", diz Rabinovitch-Fox, o que
"combinava com a imagem de 'mãe da nação'." Além disso, "em uma
época em que poucas imagens circulavam na imprensa e em outros meios de
comunicação, a posição de Martha como primeira-dama permitiu que sua imagem se
popularizasse, e ela se tornou uma das mulheres mais reconhecidas século 18, o
que também contribuiu para a popularização do seu estilo."
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Dolley Madison
Esposa
de James Madison — o quarto presidente dos Estados Unidos de 1809 a 1816 —
Dolley foi, segundo Rabinovitch-Fox, "talvez nossa primeira primeira-dama
fashionista". Ela "ditou o estilo, na moda e em outros aspectos, por
40 anos", diz Foster. Entre essas tendências estava o uso de turbantes na
cabeça — "quando ela introduziu os turbantes, todas as chapeleiras do país
correram para produzi-los" — bem como vestido decotados que mostravam um
pouco do colo. Mas ela não era apenas uma criadora de tendências em termos de
vestuário. Ela amava dar festas e, segundo Foster, também ditava tendências em
relação "ao que ela comia, o que servia, para onde ia, como decorava sua
casa...até mesmo de como recebia seus convidados. Mesmo o que antes era
considerado proibido (como usar rouge), tornou-se aceitável por causa de
Dolley" Era tudo "muito político". Seu estilo e charme pessoal
eram vistos como cruciais para o governo de seu marido. Ele era baixo e sem
graça. Ela era naturalmente extrovertida e diplomática. Mas, de acordo com
Rabinovitch-Fox "o amor de Dolley pela moda também a trouxe problemas com
James, pois, ao contrário de Martha Washington, que usava roupas fabricadas nos
EUA, Dolley não se importava de se vestir luxuosamente com produtos importados
que custavam muito ao marido".
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Mary Geneva 'Mamie' Eisenhower
Primeira-dama
dos Estados Unidos de 1953 a 1961, "Mamie" Eisenhower foi, segundo
Foster, "a personificação de um papel em transição". Extremamente
popular e vindo de um período de guerra, em que muitas mulheres entraram no
mercado de trabalho, ela "se encaixava mais no ideal conservador de dona
de casa dos anos 1950 e na ideia de retornar ao lar após os anos árduos da
guerra. Ela representava a simplicidade", afirma Rebinovitch-Fox.
"Ela se parecia com cada mulher americana e se vestia como como uma
americana, o que tornava mais fácil para o público se identificar com
ela." Mammie era uma defensora do New Look da Dior, uma silhueta ultra
feminina criada por Christian Dior, com cinturas marcadas e saia amplas,
perfeita para sua imagem de "chefe do lar". Ela "não era nada
política, mas se tornou a 'vovó' de todos nos anos de 1950, tirando a figura da
avó daquele estereótipo de cabelos grisalhos e avental da imagem de Norman
Rockwell, dos anos 30", destaca Foster. Ela também ficou muito conhecida
por sua paixão pela cor rosa, o que originou um tom batizado de "Mamie
pink" (em português, "rosa Mamie"), que simbolizava os papéis de
gêneros rígidos da década de 1950 e "uma nova ênfase na feminilidade e no
conservadorismo da Guerra Fria que colocou as mulheres de volta ao lar",
diz Rabinovitch Fox. Ela usou um vestido rosa de seda bordado com mais de 2.000
cristais no baile de posse de 1953 e um vestido cor de algodão-doce combinando
com luvas de ópera e uma bolsa de mão para seu retrato oficial. Seu amor por
chapéus pequenos feitos com palha equatoriana teria, em certo momento,
"impulsionado toda a economia do Equador, tamanha era a demanda".
Claramente uma criadora de tendências, "se não fosse por Jackie, Mamie
provavelmente seria lembrada hoje como a primeira-dama mais elegante que já
tivemos".
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Jackie Kennedy
Considerada
por muitos a mais famosa de todas as primeiras-damas por seu senso de estilo e
impacto na moda, Jackie Kennedy "realmente estabeleceu um padrão ouro para
as primeiras-damas, e seu estilo se tornou icônico", afirma
Rabinovitch-Fox. De seus ternos de corte impecável aos chapéus pillbox, o
legado de seu estilo continua sendo admirado até hoje. Oleg Cassini, o
estilista de moda russo que atendia às estrelas americanas, tornou-se seu
estilista não oficial. Jackie era glamourosa, mas também de bom gosto.
"Ela era muito jovem, mas seu estilo se tornou 'clássico' quase desde o
início", observa Rabino zvitch-Fox. Seu amor pela moda europeia era, de
certa forma, apropriado em uma nova era de internacionalismo e glamour para a
presidência dos EUA. "Ela entendia de moda de uma forma muito profunda e
foi a primeira primeira-dama a usar a moda não apenas para promover sua própria
imagem, mas também como uma forma de diplomacia." Alguns, porém,
desaprovaram seu gosto pelo estilo europeu. Ela chegou a ter roupas desenhadas
pela Chanel, aprovadas em Paris, mas copiadas e confeccionadas para ela em Nova
York, em uma tentativa de demonstrar alguma lealdade aos Estados Unidos.
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Nancy Reagan
Impecável,
elegante e luxuoso, em sintonia com a opulência dos anos 1980, o guarda-roupa
de Nancy Reagan incluía peças de grifes europeias como Chanel, Yves Saint
Laurent e Valentino, assim como nomes americanos como Oscar de la Renta, Bill
Blass e Carolina Herrera — ela também trabalhou em colaboração com o estilista
James Galanos. "Se Jackie Kennedy é o padrão para as primeiras-damas,
Nancy Reagan era o padrão do conservadorismo", diz Rabinovitch-Fox. Depois
de Kennedy, ela talvez foi a primeira-dama mais conhecida por seu senso de
estilo e pelo impacto que teve ao inspirar outras pessoas a seguirem suas
tendências. Ela instintivamente compreendia o poder da imagem e tinha uma
agenda repleta de estrelas e socialites. "Assim como seu marido, ela era uma
ex-atriz de Hollywood e realmente entendia a mídia e as câmeras",
acrescenta Rabinovitch-Fox. Seu estilo foi celebrado — em 1989, o Conselho de
Designers de Moda da América concedeu a ela o prêmio de reconhecimento
vitalício — mas também alvo de críticas: em uma época à beira de uma recessão
econômica, alguns questionaram seu gosto por roupas de grife. Ela talvez fosse
mais famosa pelo uso da cor vermelha, qua ficou conhecida como "vermelho
Reagan" ou "vermelho Nancy". "Eu sempre gostei de vermelho.
É uma cor que anima", disse certa vez.
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Hillary Clinton
Primeira-dama
entre 1993 e 2001, Hillary Clinton estabeleceu um novo precedente no que diz
respeito ao envolvimento de uma primeira-dama em políticas públicas, e seus
terninhos eram a expressão visual dessa postura. Embora não tenha sido a
"primeira-dama a usar calças, ela foi a primeira a aparecer em seu retrato
oficial vestindo um conjunto de calça e blazer", afirma Rabinovitch-Fox.
Ela também é fã de longa-data de tiaras de cabelo, um acessório que pode ser
puro adorno, mas nela parecia funcional, sinalizando um espírito pragmático. A
"faixa de cabelo de Hillary" reflete sua posição como parte de uma
nova geração de esposas de políticos que desempenhavam uma função doméstica mas
também tinham um emprego, no caso dela, como advogada. Durante seu tempo na
Casa Branca, ela não ficou conhecida por influenciar a moda, e foi
frequentemente alvo de críticas machistas na mídia por causa da sua aparência.
"Como primeira-dama, ela tinha uma relação conflituosa com a moda, e só se
começou a entender seu papel e importância quando se tornou uma figura
política", afirma Rabinovitch-Fox.
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Michelle Obama
"Assim
como Jackie Kennedy, ela se tornou um ícone de estilo desde o início. Mas, ao
contrário de Jackie, não foi por causa de um estilo luxuoso que Michelle Obama
ficou conhecida", afirma Rabinovitch-Fox. Ao chegar à Casa Branca no meio
de uma crise econômica, Michelle Obama ficou conhecida por apresentar uma
imagem acessível, usando marcas populares de lojas como Target e J Crew,
"enquanto apoiava jovens estilistas americanos, que muitas vezes viam um
aumento em suas vendas depois que a primeira-dama usava suas criações".
Tudo isso refletia seu entendimento da moda como uma representação da política
e da identidade, e também de como ela poderia ser usada como uma ferramenta
para promover a agenda política de seu marido. Seu cabelo era frequentemente
assunto de discussão.
"Como
mulher negra, Obama serviu de inspiração, mas não estava imune às
críticas", disse Rabinovitch-Fox. Embora ela tenha adotado tranças
recentemente, ela contou à revista People sobre o fato de ter evitado esse
estilo durante seu tempo na Casa Branca. "Eu não tinha certeza se o país
estava pronto para isso. A Lei Crown [que protege funcionários e estudantes de
discriminação racial com base no cabelo] não tinha sido aprovada e, assim como
na moda, eu não queria que meu cabelo se tornasse uma distração." Como
Rabinovitch-Fox destaca, "depois de deixar a Casa Branca, Obama
literalmente soltou o cabelo". Os braços à mostra de Michelle Obama também
foram alvo de críticas. Como ela disse à revista People em uma entrevista
recente sobre seu novo livro, "eu interpretei que isso era pura
hipocrisia. Eu encontrei fotos de Jackie usando vestidos sem mangas enquanto
ele era primeira-dama e sendo celebrada como ícone da moda. Então, por um lado,
você pensa: 'Ah, isso é política. Se não pode vencê-los, faça com que tenham
medo de você'. Esse era o lema". Michelle Obama também entendia a
necessidade de não deixar que seu guarda-roupa roubasse toda a atenção. Como
uma "pessoa famosa" , mas não uma "celebridade", como ela
mesma se descrevia, "não poderia deixar as roupas falarem mais alto do que
qualquer coisa que eu tinha a dizer".
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Melania Trump
Alfaiataria,
sobretudos ajustados com cintos marcando a cintura e ternos de corte impecável
são frequentemente o estilo de escolha de Melania Trump. Às vezes com
inspiração militar, sempre elegante e glamourosa, as roupas da esposa de Donald
Trump tem sido alvo tanto de admiração quanto de consternação. Para alguns, ela
é o retrato da elegância de uma primeira-dama; para outros, ela representa algo
bem diferente. Melania ficou famosa por usar salto alto a caminho de uma visita
a um local atingido por um desastre natural e por aparecer em um safári no
Quênia com um chapéu símbolo do colonialismo. Alguns também apontam seu gosto
extravagante — muitas de suas roupas custaram milhares de dólares. Mas talvez o
episódio mais famoso tenha sido o da jaqueta que ela usou em 2018, durante uma
visita a um centro de detenção de crianças imigrantes, com a seguinte frase:
"I really don't care. Do u?" (Eu realmente não me importo. E você?).
Mais tarde, ela afirmou que a mensagem era direcionada para "a mídia de
esquerda". O guarda-roupa de Melania é analisado minuciosamente, talvez
justamente porque costuma ser o seu principal meio de comunicação.
"Melania não é conhecida por ser uma grande oradora, o que tornou suas
escolhas de moda ainda mais importantes, porque muitas vezes, essa era a sua
forma de se expressar", diz Rabinovitch-Fox. E "como ex-modelo, ela
certamente não é estranha à moda, ela sabe muito bem como usar as roupas".
"Em geral, acho que hoje em dia, as primeiras-damas entendem o poder da
moda e estão tentando construir uma imagem que represente o país, mas também a
sua própria agenda e a de seus maridos", pontua Rabinovitch-Fox. Resta
saber como essa dinâmica poderá mudar quando os EUA empossarem seu
"primeiro-cavalheiro".
Fonte:
BBC Culture

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