Cidoval
Morais de Sousa: O semiárido na COP30
O
Semiárido brasileiro chega à COP30 carregando consigo cicatrizes históricas
profundas, aprisionado em uma lógica de subalternidade, funcionando como
território explorado, onde um labirinto político, econômico, institucional e
simbólico reforça sua invisibilidade. A transição energética, megaprojeto em
curso, ao invés de corrigir essa disparidade, atua de forma predatória,
transformando o território em mero palco de empreendimentosque concentram renda
e poder em grandes empresas, reproduzindo desigualdades históricas alarmantes e
mantendo as comunidades locais à margem.
Contudo,
é desse mesmo território, apesar do histórico extrativista, que emergem as asas
capazes de nos tirar da crise, por meio de experiências concretas como a
Agroecologia e as tecnologias sociais que fortalecem o bem viver. A Caatinga,
bioma de vital importância e singular biodiversidade, oferece a lição da
resiliência, inspirando uma utopia concreta. Tais ações convergem para o verbo
“caatingar”, que rompe com a monocultura do saber e nos impulsiona a construir
o inédito viável. Caatingar é a esperança ativa que transforma as cicatrizes em
vitalidade, garantindo que o Semiárido seja protagonista de seu futuro.
As
políticas públicas para o Semiárido (que abriga mais de 1.200 municípios de
todos os estados nordestinos e de mais dois estados do Sudeste: Minas Gerais e
Espírito Santo), ao longo das últimas décadas, se configuraram como um
emaranhado de projetos e programas fragmentados, elaborados com pouca conexão
com os territórios, marcados pela presunção de interesse público, mas com baixa
participação social e baixo poder resolutivo.
São
políticas especializadas, com pouca interação intersetorial, que dificilmente
olham para as iniciativas locais e as consideram. Em vez de integrar,
fragmentam o Semiárido, e, por consequência, também a Caatinga, reforçando a
invisibilidade de um bioma que deveria estar no centro das estratégias
nacionais de enfrentamento às mudanças climáticas.
A
transição energética, celebrada como solução para a crise climática, também
revela suas contradições quando olhamos para o Semiárido. Embora o discurso
oficial celebre a expansão da energia limpa, a realidade demonstra que o
território se torna apenas palco de empreendimentos, como sinalizado acima.
Aerogeradores
e fazendas de placas solares se multiplicam, explorando as riquezas naturais da
região, aproveitando a radiação intensa e os ventos constantes, mas sem
distribuir de forma justa os benefícios gerados. Essa dinâmica predatória
revela o risco de a transição reproduzir desigualdades históricas, em vez de
promover justiça ambiental e social, transformando o Semiárido em território a
ser explorado, e não em espaço de protagonismo.
Além
disso, a Caatinga – bioma exclusivamente brasileiro com singular biodiversidade
e capacidade de sequestro de carbono – é frequentemente invisibilizada nas
políticas nacionais e tratada como paisagem árida e improdutiva, apesar de ser
vital para o enfrentamento da crise climática. Os empreendimentos, apresentados
como sustentáveis, pouco dialogam com os povos que ali vivem.
Se o
Semiárido carrega cicatrizes e se vê aprisionado em um labirinto de políticas
fragmentadas, é também desse mesmo território que emergem as asas capazes de
nos tirar da crise. São experiências que nascem de dentro, construídas por
comunidades, movimentos sociais, empreendimentos solidários, comunidades
quilombolas, universidades e instituições de ciência e tecnologia, e que
oferecem ao mundo alternativas reais para enfrentar a crise climática. Essas
práticas não são paliativos, mas sementes de futuro, que demonstram que o
Semiárido é espaço de inovação e esperança.
Entre
essas experiências, destacam se as tecnologias sociais disseminadas pela
Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e por diversas organizações
comunitárias. A Agroecologia, ao promover sistemas agrícolas diversificados,
adaptados às condições do Semiárido, rompe com a lógica da monocultura e da
dependência de insumos externos, fortalece a soberania alimentar, protege a
biodiversidade e constrói economias do bem viver.
Universidades
e institutos de pesquisa, como o INSA, têm se aproximado das comunidades,
desenvolvendo projetos que integram pesquisa aplicada e participação social.
São iniciativas que produzem indicadores sobre desertificação, biodiversidade e
impactos socioeconômicos, mas que também fortalecem a capacidade das
comunidades de enfrentar os desafios climáticos.
Nesse
conjunto de experiências, ganha destaque o conceito de recaatingamento.
Presente em políticas e práticas, o recaatingamento valoriza a restauração da
vegetação da Caatinga e o enfrentamento da desertificação. É uma ação concreta,
necessária, que busca recuperar áreas degradadas, fortalecer a resiliência do
bioma e garantir serviços ecossistêmicos fundamentais.
O
recaatingamento é, portanto, um passo importante para reconstruir a vitalidade
da Caatinga, para enfrentar as cicatrizes deixadas pela degradação e pelo
desmatamento. Mas o que se propõe agora é ir além: transformar o
recaatingamento em parte de um horizonte mais amplo, sintetizado no verbo
Caatingar.
Caatingar
não é apenas restaurar a mata. É espalhar o espírito da Caatinga. É integrar
políticas e territórios, superando a fragmentação. É pertencer, reconhecendo a
identidade do Semiárido e de seus povos. É escutar o território, valorizando
seus saberes e práticas. É promover o bem viver, em harmonia com a natureza e
com a cultura local.
É
transformar a Caatinga em laboratório vivo de soluções baseadas na natureza,
mostrando ao mundo que o Semiárido é espaço de inovação e esperança. É verbo
que nasce da gramática do povo em luta, das experiências catingueiras, e que se
conecta com o esperançar, por exemplo, de Antônio Conselheiro, Paulo Freire,
Nego Bispo, Patativa do Assaré. Não se trata apenas de esperar, mas de agir, de
construir, de transformar. Caatingar é verbo de futuro, de utopia concreta, de
esperança ativa.
A
ideia-força de Caatingar dialoga com diferentes correntes críticas que
tensionam o pensamento hegemônico contemporâneo: rompe com a monocultura do
saber, reconhecendo que tecnologias sociais, agroecologia e saberes
tradicionais são epistemologias válidas (epistemologias do sul); traduz a ideia
de que não há um único mundo, mas muitos mundos possíveis, e que a Caatinga é
um desses mundos, com suas cosmologias e práticas (pluriverso); e substitui o
“desenvolver” por “bem viver”, e devolve protagonismo aos povos tradicionais e
às epistemologias subalternizadas, descolonizando o olhar sobre o Semiárido
(movimento decolonial).
Mas
Caatingar não se limita a dialogar com essas correntes críticas. Ele carrega em
si o inédito viável de Paulo Freire: a capacidade de imaginar e construir o que
ainda não existe, mas que pode existir: a utopia concreta, a possibilidade de
transformar o presente em futuro. Caatingar anuncia a possibilidade de
construir políticas integradas, de promover justiça ambiental, de transformar
cicatrizes em vitalidade.
É ação
que não se contenta com o que está dado, mas que busca o que pode ser criado:
proclama que a esperança não é ilusão, mas força que move a história. É o
princípio que nos impulsiona a buscar o que ainda não existe, mas que pode vir
a existir.
Assim,
o Semiárido que se apresenta em Belém, na COP30, não é apenas um território de
cicatrizes, mas um território de anúncio, esperança e inédito viável. A chave
poética, política e pertencida dessa transformação está na Utopia da Asa
Branca. A clássica canção de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira eternizou a dor
da seca e a despedida forçada: “Inté mesmo a Asa Branca / bateu asas do
sertão”, simbolizando o êxodo, a ausência e o abandono histórico imposto pela
crise socioambiental.
No
entanto, a verdadeira utopia reside na promessa de “A volta da Asa Branca”
(Luiz Gonzaga e Zé Dantas), que traz consigo o verde, a vida renovada e o
florescer. Este retorno é mais do que um evento climático; é profundamente
político e exige ação. Ele não se dá apenas pela chuva (o fator externo), mas
pelas condições ativamente criadas por quem insiste em permanecer, resistir e
reinventar o território.
Caatingar
é o verbo que materializa o compromisso desse retorno. É a ação potente que
transforma a dor histórica em força transformadora, garantindo que o Semiárido
deixe de ser palco de exploração para se tornar o protagonista de sua própria
história, e que a promessa de vida da Asa Branca volte a cantar na Caatinga.
Fonte:
A Terra é Redonda

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